terça-feira, 28 de abril de 2009

A Humanidade não é uma ilha

Agradeço ao Nuno o envio deste pequeno filme. Acho-o tão bem feito e com um significado tão profundo que me apetece partilhar. Vale a pena ver!



segunda-feira, 27 de abril de 2009

Aldeias de Xisto - III


À saída de Janeiro de Cima, resolvemos rumar a norte, na direcção da Serra do Açor. A paisagem vai-se desdobrando, deslumbrante. O tempo ajuda, com um sol radioso a iluminar a serra. Os pinheiros alternam com os soutos de castanheiros. Há poucos vestígios de ocupação humana: aqui uma casa, acolá um barquito, numa das margens do rio Ceira. Por vezes, a estrada é escavada na serra e sobram inúmeros pedaços de xisto, que se amontoam nas bermas. O meu marido está fascinado por eles e vai-os olhando e escolhendo; dentro de pouco tempo, as pedras vão acumular-se no porta-bagagens, enchendo-o de pó, à espera do momento em que, já em casa, se vão transformar num candeeiro, num tampo de mesa…

Chegar à aldeia de Piodão é apreciar um postal ilustrado. As casas dispõem-se harmoniosamente na encosta, como um presépio. Agora está sol, mas com neve deve ser uma paisagem ainda mais encantadora. Aqui, o turismo já marca presença. Logo à entrada, há um museu, o Museu do Piodão, que domina a pequena praça principal e define a tónica arquitectónica da aldeia. Há casinhas que vendem souvenirs, miniaturas de casinhas de xisto (lindas, também comprei uma, claro!), licores típicos da região. Podem-se fazer provas dos licores mais invulgares, como o licor de castanha. Há vários restaurantes, todos bem identificados, com empregados a angariar clientes, como se estivéssemos na Rua das Portas de Santo Antão. Escolhemos um ao acaso mas tivemos sorte, comemos umas belas trutas do rio Zêzere. No Piodão, o xisto é omnipresente. Forra as paredes das casas, constrói os telhados, define as chaminés, cobre as ruas. Só as portas e as janelas dão um toque de cor, de azuis, de vermelhos, a esta aldeia monocromática. A igreja, pelo contrário, é branca e debruada a azul, como uma capela de uma vila alentejana. Não combina!


Quando nos preparamos para sair do Piodão, o trânsito adensou-se. Várias camionetas e inúmeros automóveis fazem bicha para entrar na pequena praça ou para estacionar na estrada que dá acesso à aldeia. Centenas de turistas são despejados na entrada da praça. Os vendedores de casinhas e licores, os empregados dos restaurantes, aproximam-se. E eu, de repente, perco a vontade de estar ali. É como se algo de genuíno se tivesse irremediavelmente perdido. Lembro-me da primeira aldeia de xisto que visitámos, a Cerdeira, e apetece-me metê-la inteira dentro de uma grande árvore oca. Não era assim que eles guardavam os seus maiores tesouros?

domingo, 26 de abril de 2009

Postal de Lisboa

Já visitei várias capitais, grandes cidades do mundo, mas, para mim, nenhuma se compara a Lisboa. Nasci na Maternidade Alfredo da Costa, já lá vão uns anitos, cresci entre a Penha de França e Benfica. Lisboa é a minha cidade. Consigo ver o que tem de belo e o que tem de podre. Mas eu não acredito em mundos ideais, homens novos, sítios perfeitos. Lisboa é como cada um de nós, com as suas grandezas e as suas misérias.
Gosto de entrar em Lisboa a partir da margem sul: chegar por uma das pontes que cruzam o rio Tejo, por exemplo. Mas como gosto mais de entrar em Lisboa é de barco. Atravessar o Tejo num dos barcos que saem do Barreiro ou do Seixalinho, no Montijo, é uma experiência muito mais rica. A cidade desfila vagarosamente defronte de nós. Primeiro a zona oriental, com o Parque das Nações e a sua afirmação de modernidade. Depois, a zona das docas, com os navios de carga e de cruzeiro lembrando outros caminhos e outras viagens. Mais acima, os prédios de Chelas e as Amoreiras. Encontramos a Graça, S. Vicente, o Panteão Nacional. Finalmente, a bela sala de visitas da cidade, o Terreiro do Paço. Subindo o olhar, encontramos a Sé e, lá mais em cima, como um guardião da cidade, o Castelo de S. Jorge. Está um dia de sol e a cidade resplandece à beira das águas. Faz-me lembrar Veneza vista do Gran Canal, ou Lausanne vista do rio Lago Leman. Mas aqui não há barcos de recreio, cheios de turistas de máquina fotográfica em punho. Estes são barcos de gente trabalhadora, que vai diariamente para Lisboa, que já viu estes prédios e estas pequenas ondas do rio centenas de vezes. Nem levantam a cabeça, mergulhados nos seus jornais, nos seus telemóveis, nos seus pensamentos. E Lisboa desdobra-se à minha frente, como um postal ilustrado, como um filme feito só para mim.

sábado, 25 de abril de 2009

Última Página

Resolvi fazer uma homenagem extra ao 25 de Abril, através daquilo que nos deixou de verdadeiramente perene: os poemas. Escolhi um poema de Manuel Alegre que é, indubitavelmente, quer se goste das suas posições políticas ou não, um dos nossos grandes poetas.

Última Página
 
Vou deixar este livro. Adeus.
Aqui morei nas ruas infinitas.
Adeus meu bairro página branca
onde morri onde nasci algumas vezes.
 
Adeus palavras comboios
adeus navio. De ti povo
não me despeço. Vou contigo.
Adeus meu bairro versos ventos.
 
Não voltarei a Nambuangongo
onde tu meu amor não viste nada. Adeus
camaradas dos campos de batalha.
Parto sem ti Pedro Soldado.
 
Tu Rapariga do País de Abril
tu vens comigo. Não te esqueças
da primavera. Vamos soltar
a primavera no País de Abril.
 
Livro: meu suor meu sangue
aqui te deixo no cimo da pátria
Meto a viola debaixo do braço
e viro a página. Adeus.
 
                                   Manuel Alegre

25 de Abril

Numas célebres entrevistas que fazia num programa de televisão, António Alçada Baptista tinha por hábito questionar os seus convidados sobre o que estavam a fazer no dia 25 de Abril de 1974. Hoje, dei por mim a relembrar exactamente o que fiz nesse dia.

Lembro-me que acordei às 7 horas da manhã, como de costume, para ir para a escola. Mas a minha mãe estava nervosa, tinha ligado a rádio e só se ouviam marchas militares. De vez em quando, um locutor interrompia a música para ler comunicados à população: ”Comunicado do Movimento das Forças Armadas…”Percebeu-se que havia uma revolta em marcha e, como os militares aconselhavam a população a ficar em casa, foi o que fizemos. Ficámos agarrados ao rádio, tentando perceber o desenvolvimento da situação. A minha mãe, de vez em quando, ía à janela e só me lembro dela a comentar: “Os autocarros vão vazios! Não há ninguém nas ruas!” Há pouco mais de um mês tinha havido outra tentativa de revolução, a 16 de Março, que não tinha vingado. Nada garantia que saísse vitoriosa desta vez.

Ainda hoje recordo com nitidez os acordes dessas marchas militares que acompanharam a nossa manhã. À medida que o dia ía avançando, as notícias começavam a chegar com mais frequência, sempre pela rádio, claro! Naquela época, só havia um canal de televisão, a preto a branco, a partir do fim da tarde. Ouvimos o relato da concentração das forças militares no Terreiro do Paço, da rendição de alguns quartéis, da tomada da Estação de Televisão e do Aeroporto. Cada vez mais, os relatos eram acompanhados de um barulho de fundo ensurdecedor, à medida que a população lisboeta se apercebia do que se passava e invadia os locais onde estavam os militares revoltosos para os incentivar e aclamar. A meio da tarde, só o Quartel do Carmo ainda resistia e aí se concentravam centenas de pessoas. Se os sitiados tivessem atirado sobre o Largo do Carmo, teria sido um massacre. Mas isso não aconteceu: acho que já ninguém tinha vontade de lutar pelo regime!

Ao fim da tarde, eu já não aguentava mais a emoção e a ansiedade. Consegui convencer o meu pai e andámos os dois de autocarro em autocarro, a medir a pulsação à cidade. Lisboa estava em festa, mas ao mesmo tempo havia calma. A maioria das pessoas tinha um semblante risonho, corria para apanhar um jornal, das edições que começavam a sair, havia cravos nas mãos. Lembro-me que toda a gente falava com toda a gente, comentava, pedia informações.

Chegámos a casa a tempo de ver na televisão a apresentação da Junta de Salvação Nacional, chefiada pelo General Spínola, e do programa do Movimento das Forças Armadas. Um programa à medida dos anseios dos portugueses, com os seus três Ds: Democratizar, Descolonizar, Desenvolver. No dia seguinte, voltei à escola e a professora de História entrou na aula com um sorriso que lhe ocupava a cara toda, dizendo: “Finalmente, um bom dia!”

A partir daí, foi o que se sabe, mas a maioria das vezes se tenta esquecer. Dois anos de confusão, de ocupações, de greves e manifestações, de revoluções e intentonas. Mas também dois anos de aprendizagem da liberdade e da democracia, dos conceitos e da linguagem da política, da intervenção e do crescimento. Dois anos que eu não trocava por todo o ouro do mundo.

Hoje, trinta e cinco anos depois, pergunto a mim mesma o que foi feito da esperança ingénua que explodiu nesse dia. Descolonizámos mal, desenvolvemos pouco e a nossa democracia está, no mínimo, constipada. O país mudou e muito, em vários aspectos para melhor. Mas o mal-estar e a desilusão instalaram-se. Continuamos à espera de alguém que venha “pôr a ordem” no caos. Talvez seja o momento de olhar para dentro, para tudo o que temos de bom e positivo, e, sem esperar por nenhum ente providencial, começar a melhorar o que está ao alcance das nossas mãos.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Ainda A Princesinha

Depois de ter escrito o post sobre "A Princesinha", resolvi procurar na net pelo nome da autora. Para minha grande surpresa, Frances Burnett não está esquecida, pelo contrário, é estudada na Universidade, em Inglaterra, há teses de mestrado sobre ela e, surpresa das surpresas, o livro da minha infância até tem um clube de fãs! Parece que não fui só eu a entregar o meu coração infantil às desventuras da pobre Sara Crewe. Foi muito agradável reler excertos e ler os comentários ao livro, que me reavivaram a memória. Voltei a emocionar-me com episódios que já tinha esquecido, e com a coragem, a inteligência e a criatividade com que Sara dá a volta aos seus problemas, às injustiças, às humilhações. Só assim se pode continuar sempre a ser "A little princess".

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Aldeias de Xisto - II

Continuamos o nosso passeio pela serra da Lousã, desta vez em direcção à aldeia de Talasnal. Passámos por uma aldeia hippie, como lhe chamam por estes lados, onde se junta um grupo de pessoas que, tal como as aldeias da zona, não conseguiu adaptar-se à modernidade.

Um pouco mais à frente pela estrada de terra batida, aparece o Talasnal. Quase não se dá pela aldeia; da estrada parte uma escada que desce o monte e à volta da qual se organizam talvez uma dezena de casas. A paisagem é linda, já há bastantes casas recuperadas e, por isso, já há mais gente a passear por ali. Vamos andando. Uma das casas tem a porta aberta, espreitamos e a dona convida-nos a entrar. É a Ti Lena, que dirige o único restaurante da zona. É tradicional e acolhedor, cheio de pormenores engraçados. Bebemos uma cervejinha fresca, damos dois dedos de conversa e continuamos o nosso caminho, com vontade de lá voltar.

A estadia está marcada num turismo rural em Janeiro de Cima, outra das aldeias de xisto. Chegamos ao fim da tarde, moídos das voltinhas de automóvel pela serra. Há pouca gente na rua e olham-nos curiosos. Depressa nos indicam a “Casa da Pedra Rolada”, com uma bela fachada de xisto e pedra rolada, como o nome indica… O interior é menos feliz, decorado no mais puro estilo IKEA. Mas seria preciso mais para nos tirar o entusiasmo.

Jantar, é no restaurante “O Fiado”. É um espaço muito agradável, que conjuga a traça da região com os materiais mais modernos e uma decoração sóbria! Também na ementa se nota esta preocupação de casar os sabores tradicionais com uma elaboração mais ligeira e actual. O dono é um jovem chefe de cozinha e empresário que apostou na sua região. Fez bem, o restaurante é de recomendar! Para o café, indicam-nos o bar “O Passadiço”. Está-se bem, como dizem os adolescentes, e a grande lareira garante que se continuará a estar bem, mesmo nas noites frias do inverno serrano.

Na manhã seguinte, a dona da casa aparece com os produtos do dia: leite, café, fruta, pão e um fantástico doce de melancia. Vamos à descoberta de Janeiro de Cima, uma aldeia que nunca ficou desabitada, que continua viva, com as suas belas casas construídas com a pedra rolada retirada do leito do rio. Esta aldeia está aninhada numa curva do rio Zêzere, e esta situação foi bem explorada. Há uma pequena albufeira, onde no Verão se pode andar de barco ou dar uns belos mergulhos. Tem um parque infantil, esplanada, e até balneários. Mas a esta hora ainda está frio e só por ali anda uma senhora que vai dar de comer aos animais e insiste em nos oferecer abóboras.



terça-feira, 21 de abril de 2009

A Princesinha

O Centro de Recursos da minha escola promoveu uma actividade interessante chamada “O Livro da Minha Infância”. Na altura, estava submersa em trabalho e não consegui participar, mas ficou um bichinho a roer-me a consciência…

Sempre fui uma leitora compulsiva, desde que aprendi a juntar as letras. Devorei todas as colecções da Enid Blyton, e chorei com as “Mulherzinhas” ou o “Urso Grischka”. Sempre me lembro de ter livros como companheiros, com os quais me embrenhava nas aventuras mais extraordinárias. Foi com os livros que aprendi nomes de lugares e de personagens históricos, fiz viagens extraordinárias, mas também reflecti e interiorizei conceitos e valores.

“A Princesinha”, escrito por Frances Burnett (na foto), foi um dos livros que acompanhou a minha infância. Na verdade, esta escritora inglesa, hoje completamente esquecida, foi a autora de alguns livros de grande sucesso entre as crianças da minha geração, como “O Jardim Secreto” e, principalmente, “O Pequeno Lorde”, depois adaptado ao cinema. “A Princesinha” conta a história de uma menina, Sara Crewe, filha de um oficial britânico em serviço na Índia e órfã de mãe, que é colocada pelo pai num luxuoso colégio para meninas, em Londres. É amimada e satisfazem-lhe todos os desejos até chegar a notícia da morte do pai e, com ela, a confirmação de que ninguém irá continuar a pagar os seus estudos. Sem mais família, Sara tem de continuar no colégio, mas agora como criada. Dão-lhe um quarto miserável na mansarda e quase todas as ex-colegas se comprazem em humilhá-la. Ela sente-se muito infeliz até que, um dia, sem ela perceber como, começam a surgir na sua mansarda pequenos pormenores de conforto. A sua vida vai começar a melhorar com a ajuda de um vizinho, que também tinha vivido na Índia. Acabará, adoptada por ele, por recuperar uma vida de bem-estar e os estudos, já noutro colégio.

Li este livro mais de dez vezes. Identificava-me com o sofrimento de Sara e com as suas pequenas vitórias. Com ela, aprendi duas coisas:

- Os bens materiais são voláteis, tão depressa os podemos ter como podem desaparecer. Por isso, mais importante do que o que temos, é aquilo que somos e que vivemos.

- A maioria dos que se dizem amigos gira à volta de quem lhes parece ser mais vantajoso, por qualquer razão. Por isso, os verdadeiros amigos são um bem escasso e precioso.

Quarenta anos depois, ainda continuo com as mesmas convicções!

domingo, 19 de abril de 2009

Os voluntários do canil


É no meio da crise que mais apetece olhar à volta e procurar coisas positivas que nos dêem vontade de continuar. Hoje, vou falar de uma delas.
Aqui em Alcochete há um canil municipal. Sobrevive com algum apoio da Câmara Municipal e muita dedicação e carinho da funcionária responsável e de um grupo de voluntários. A maioria desses voluntários são adolescentes, entre os catorze e os dezasseis anos, que dedicam algum do seu tempo ao canil: ajudam nas tarefas diárias, procuram angariar fundos para os gastos com os cuidados veterinários, passeiam os cães (um dos problemas dos canis é a falta de exercício a que os cães são forçados) e, acima de tudo, dão-lhes atenção e afecto. Alguns dos voluntários têm estado a fazer uma aprendizagem de treino canino, utilizando cães do canil, para mostrar às pessoas em geral que qualquer cão, mesmo um rafeiro abandonado, pode aprender e ser um bom companheiro.
Hoje fizeram uma apresentação no centro de Alcochete. Tanto os cães como os miúdos se portaram muito bem e deram uma lição de cidadania a quem a quis entender. Há quem diga que um país se define pelo modo como aí se tratam os animais. Portugal tem muitos maus exemplos. Mas, enquanto tiver adolescentes que dão voluntariamente o seu tempo, trabalho e carinho a um canil, ainda podemos ter esperança.

sábado, 18 de abril de 2009

Massacres em África

Acabei há pouco de ler o livro “Massacres em África” escrito pela Felícia Cabrita (na foto) e editado pela “Esfera dos Livros”. Através de um relato muito vivo, acompanhamos a jornalista nas suas investigações, até chegar a documentos esquecidos e aos protagonistas dos acontecimentos. O relato inicia-se na década de 50, com os chamados  massacres de Batepá, em São Tomé.  Depois surge a chacina dos colonos portugueses no norte de Angola e o início da guerra colonial. Assistimos à retaliação das tropas portuguesas, em relatos que ficam como páginas negras da nossa história. Atingimos o horror quando descobrimos os pormenores macabros do massacre de Wiriyamu, em Moçambique. Felícia Cabrita não faz julgamentos, apenas tenta compreender o que se passou e o que leva um homem a, como ela mesma diz, “pular a cerca da normalidade e tornar-se um assassino”. Muitos dos que ela entrevista iam de uma vida comum, tiveram o seu desvario sanguinário e voltaram para Portugal, para uma vida normal e pacata. No entanto, não conseguimos deixar de fazer comparações e recordar os julgamentos dos criminosos de guerra nazis, ou dos soldados americanos que perpetraram a chacina de MyLai. Aqui, passa-se um pano por cima, olha-se para o lado e a vidinha continua. Brandos costumes!

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Munique

Hoje, quando tentava ressuscitar o meu velho computador para ver o que podia de lá recuperar, encontrei umas fotos antigas de Munique, das quais já nem me lembrava. Foi a primeira viagem grande que fiz com os meus filhos, ele com 10, ela com 8. Até aí, dividia as águas: viajava com o meu marido, ou amigos, e as férias em família, com as crianças, eram na praia. Nesse ano, resolvemos experimentar uma coisa diferente. O meu filho era um entusiasta da Lego e morria de vontade de ir visitar uma Legoland. Foi um bom pretexto, já que eu morria de vontade de visitar os castelos da Baviera. E lá fomos todos para Munique.


Lembro-me da excitação dos miúdos no dia da partida. Levantaram-se de madrugada, sem protestos, para ir para o aeroporto. Eles nunca tinham andado de avião e receberam um certificado e uma prendinha (creio que foi um baralho de cartas!) da TAP. Cada um tinha uma pequena mochila à sua responsabilidade e sentiam-se muito importantes e orgulhosos.


O dia foi longo. Ao fim da tarde, estávamos na Marienplatz, já em Munique, a ver o célebre relógio da Câmara Municipal, com as suas figuras que se movimentam, quando vejo que a minha filha adormeceu. Adormeceu  agarrada à sua mochilinha, encostada a um gradeamento que protegia uma árvore, no meio da praça. Tive um ataque de preocupação maternal, voei para o hotel na ideia de os pôr a descansar algum tempo. Que ideia a minha! Mal chegaram ao hotel, o sono desapareceu. Horas depois, já eu estava esgotada e a precisar de dormir, ainda a minha filha cantava, com uma caneca de meio litro de sumo de laranja na mão, na cervejaria mais célebre de Munique!


Foi uma semana muito boa. Os pais também brincaram na Legoland e os filhos também apreciaram os castelos da Baviera. Quando, depois de algum passeio maior por Munique, os miúdos estavam cansados, fazíamos um jogo: ver quem adivinhava o número de passos que nos faltavam até ao hotel. E tudo acabava em brincadeira. É assim que se vão construindo as relações.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Avançar

O tempo começa a passar e eu começo a reconciliar-me com o mundo. Há que avançar, sempre. Por muito que tenha perdido, há que recomeçar, reconstituir, refazer. E não olhar para trás.

Quem me dera que eu fosse o pó da estrada
E que os pés dos pobres me estivessem pisando...

Quem me dera que eu fosse os rios que correm
E que as lavadeiras estivessem à minha beira...

Quem me dera que eu fosse os choupos à margem do rio
E tivesse só o céu por cima e a água por baixo...

Quem me dera que eu fosse o burro do moleiro
E que ele me batesse e me estimasse...

Antes isso que ser o que atravessa a vida
Olhando para trás de si e tendo pena...

(Alberto Caeiro)

segunda-feira, 13 de abril de 2009

O estado a que temos direito

No meu primeiro post neste blog, afirmei que só queria aqui falar de coisas positivas. Infelizmente, hoje tenho de infringir esta minha regra. No sábado passado, quando regressava a Lisboa, parei em Coimbra para lanchar com os miúdos. Quando voltávamos para o carro, surpresa: um vidro partido e o meu computador portátil, que estava no porta-bagagens, roubado! Qualquer pessoa que use um computador para o seu trabalho entenderá o meu desespero: tinha ali arquivadas muitas coisas pessoais e insubstituíveis, fotografias,  textos, relatórios, planificações, actas, etc, etc...
Começo a ficar farta de trabalhar para os amigos do alheio. No ano passado, foi a minha casa que foi assaltada, agora o carro, o computador! E sempre esta sensação de revolta perante a inoperância e a impunidade geral! 
Infelizmente, a impunidade grassa neste país, desde os assaltantes de bomba de gasolina até aos mais altos cargos da República. E um país em que a lei não é observada não é um estado de direito. Um país que dá mais garantias aos criminosos do que às vítimas não é um estado de direito. Um país em que a impunidade é a regra, não é um estado assente na lei, não é um estado de direito. E uma democracia que não assenta num estado de direito, não é uma democracia, é uma farsa!

sábado, 11 de abril de 2009

Tempo de Páscoa

É tempo de Páscoa e de reflexão.

Aqui vai a minha contribuição para a reflexão religiosa.


video

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Aldeia


Por alguns dias, troquei os flamingos e o estuário do Tejo pela paisagem serrana da aldeia da Beira Alta, berço de alguns familiares do meu marido. Não seria capaz de viver aqui, sou demasiado urbana. No entanto, gosto da pureza ingénua da aldeia. Gosto de acordar com o som do sino da aldeia. Gosto de abrir a janela de manhã e ver os cumes da Serra da Estrela, coroados de neve, ou de nuvens, ou banhados de sol. Gosto das casas de granito, sólidas, sérias, fiáveis. Gosto do forno comunitário da aldeia, onde a prima Rosita ainda sabe cozer pão e bôlas de carne. Nesta altura do ano, gosto dos campos e encostas polvilhados com os tufos de florinhas brancas da urze, como uma neve tardia. Gosto dos cães da serra. Gosto dos caminhos ladeados de pinheiros e delimitados por pedras centenárias.


E, imperdível mesmo, gosto do arroz de carqueja e da feijoada à moda dos pastores da Serra da Estrela do restaurante “O Júlio”, em Gouveia, que por acaso não me paga a publicidade!

terça-feira, 7 de abril de 2009

Um chá no deserto


Era exactamente aqui que me apetecia estar neste momento, com um chá de menta, a carregar as minhas baterias solares.

Hoje apetece-me poesia

Descobri, há pouco tempo, Carlos Drumond de Andrade. Não resisto a partilhar.

"Princípio e fim

Nascem versos em nós como se de ervas
surgissem florestas.
Noite ou manhã, que importa, só
conta para a vida haver navios
cavando as suas ondas té ao fundo...

Todas as horas são manhã para quem vai
consigo sem ir só
até ao fim do mundo."

(Simples Canções da Terra - 1949)

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Aldeias de xisto - I


Longe dos resorts cheios de turistas ingleses que compram pacotes de férias em Portugal, longe dos campos de golfe e dos parques temáticos, longe das praias apinhadas e dos centros comerciais, há um Portugal genuíno, antigo, quase abandonado, que luta para sobreviver. Às vezes, encontra-se por acaso, quando se visita um familiar que ainda vive “na terra” (sempre me fascinou esta expressão!). Há uns meses, decidimos tirar um fim-de-semana para procurar esse Portugal esquecido.
Saímos das rotas habituais na vila da Lousã, depois de um bom almoço. Internámo-nos pela serra e, depois, por caminhos de terra. E encontrámos a primeira pérola: a aldeia da Cerdeira. É fácil não dar por ela. O próprio caminho de terra batida só leva até à igreja, onde também está parado um velho automóvel, talvez usado pelo padre, ou por um dos poucos habitantes. O resto do caminho faz-se a pé, por um pequeno atalho atapetado de xisto. De resto, aqui o xisto é o rei. Está nos caminhos, nas fontes e nas casas, em todo o lado.
Quando a aldeia surge, no meio dos castanheiros, é um deslumbramento. Parecem casinhas de presépio dispostas na encosta da serra, com as suas paredes de pedra de xisto em tons de castanho e as suas janelas de portadas azuis, amarelas, vermelhas. Temos de parar para absorver aquela visão tão inesperada quanto eterna. É um mergulho no tempo.
Quase ninguém já vive naquela aldeia, talvez três ou quatro pessoas, uma artista e o marido, um rapaz que cultiva e vende plantas aromáticas… Caminhamos pelas ruas desertas, ou melhor, pelas ruelas que parecem corredores, com menos de um metro de largura, pavimentadas com o mesmo xisto das paredes, das chaminés. A Junta de Freguesia afixou informações sobre a flora e a fauna autóctone. Foi uma boa ideia. Descobrimos notícias de gente que ali viveu, notícias de vida. Aprendemos que, quando das invasões francesas, que também por ali andaram, a população escondeu os seus bens mais preciosos, isto é, o seu gado e as suas crianças, numa grande árvore oca. Aprendemos que as aldeias vivem e morrem. Ou simplesmente adormecem.

domingo, 5 de abril de 2009

Para um Papagaio Daltónico

Não pedi ao meu amigo Rafa que me deixasse publicar isto mas acho que ele não se vai zangar comigo! Se, em vinte anos de amizade ainda não nos zangámos, não vai ser agora de certeza! É só porque... está verdadeiramente giro. Rafa, continua!

Basta, pum, basta!!!
Uma geração que consente deixar-se representar por Blogs é uma geração que nunca o foi.
É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!
Abaixo a geração!
Morram os Blogs, morram! Pim!
Os Blogs são habilidosos!
Os Blogs vestem-se mal!
Os Blogs usam ceroulas de malha!
Os Blogs são Blogs!
Morram os Blogs, morram! Pim!
PS: A não ser que se chamem O Papagaio Daltónico!
(com a devida vénia ao Mestre Almada!)
Rafa

Violinos e acordeões

Ontem à noite fui assistir a um concerto do Rodrigo Leão. Gostei imenso. Ele alternou músicas do álbum "Cinema" com outras do que vai sair em Junho próximo. Mas a qualidade é sempre a mesma, a mistura de sonoridades é sempre agradável. Gosto particularmente da mistura do violino com o acordeão: o resultado é um som urbano, tradicional mas intemporal, que nos remete irresistivelmente para universos como o do filme "Amélie", muito do meu agrado, diga-se.
Saí do espectáculo com a alma lavada. "Hoje o céu está mais azul, eu sinto!"

sábado, 4 de abril de 2009

A misteriosa chama da rainha Loana

Sou uma leitora compulsiva e, portanto, no meio de tantos livros que já li e que me marcaram (por qualquer razão, boa ou má!), o facto de me ter saltado este título quando quis seleccionar um livro para pôr no meu perfil deve ser significativo.
O que tem este livro de tão especial? Não foi o título que me atraiu, o autor sim, gosto muito de Umberto Eco, desde há muito tempo, desde que li “O Nome da Rosa”, nos idos de 1986. Na verdade, temos de caminhar pelo livro fora, até bem mais de metade, para lhe percebermos o título.
Este livro conta-nos a história de Yambo, um livreiro de uma cidade italiana, particularmente interessado em livros antigos, que compra e vende. Yambo teve um AVC, do qual acordou sem memória. Não reconhece a mulher nem a restante família, não faz ideia da sua ocupação ou da sua morada. No entanto, mantém a memória semântica, isto é, recorda o que aprendeu e que não se relaciona directamente consigo. Por exemplo, não se recorda do seu nome nem do que fazia, mas sabe perfeitamente quem foi Napoleão. Na tentativa de recuperar a sua história pessoal, vai fazer a convalescência para o campo, para a velha casa da família, onde passou a infância e a juventude. Aí descobre um sotão, cheio de livros de aventuras e de quadradinhos, pagelas, discos antigos, que tinham lhe tinham povoado os dias e os sonhos, e através dos quais se vai redescobrindo. Um segundo AVC apanha Yambo no meio desta viagem no tempo e lança-o num fogo de artifício de referências e farrapos de recordações, do qual emergem finalmente algumas respostas.
Com Yambo, acompanhando a sua aventura de descoberta de si próprio, nós vamos também descobrindo a história da Itália nos anos 30 e 40, os anos do fascismo e da guerra. Mas vamos também revivendo a história da cultura popular dos meados do século XX, numa viagem fascinante a um mundo que ainda tocámos, mas que já não existe nesta época de comunicação global.
É um livro fascinante, muito bem escrito, que sabe bem reler.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Olhares


Não é necessário ir muito longe para descobrir coisas extraordinárias. E isso é o que verdadeiramente me interessa nas viagens, as coisas, pequenas ou grandes, que às vezes passam despercebidas, os pequenos olhares que nos permitem apropriar um espaço que passa a ser um pouco nosso, através do espanto ou do deslumbramento. As visitas aos espaços turísticos mais emblemáticos só me fascinam se me detiver em olhares que são só meus, pensamentos, descobertas, pequenos nadas que tornam aquele espaço, a partir daí, único, pessoal e intransmissível. E esses olhares colam-se aos espaços, aos monumentos, às ruas e praças, e eles ficam para sempre diferentes.

Depois, quando regresso a casa, alguma coisa de mim ficou lá. Não consigo largar uma viagem como quem põe de lado um casaco velho. Já passou, mas de alguma maneira permanece. José Saramago dizia, no “Ano da morte de Ricardo Reis”, que, da mesma maneira que já existimos antes de nascermos, na barriga das nossas mães, durante nove meses, continuamos a existir ainda durante nove meses depois de morrermos, nas memórias dos que nos rodeiam. Comparar a vida a uma viagem é um hábito já com barbas. E a verdade é que o processo é idêntico. A viagem começa com a preparação, a decisão do destino, a procura do alojamento, o estudo dos itinerários. E não termina com o regresso, ela continua nas fotos, nos videos, naquelas histórias que continuam a fazer-nos sorrir, nas referências a episódios que só nós entendemos e que criam cumplicidades tão particulares entre companheiros de viagem e, acima de tudo, nas emoções.

É sobre essas emoções, essas memórias, esses momentos, esses olhares, que eu quero escrever. Para os fixar através de palavras. Para os organizar. Para os partilhar. Porque as emoções partilhadas são as melhores.
Viajar é a minha paixão. Não viajo tanto quanto queria, viajo tanto quanto posso. Eu escrevi que não é necessário ir muito longe para descobrir coisas extraordinárias. Realmente, até numa viagem de metro em Lisboa se podem descobrir coisas extraordinárias. É preciso é manter o coração aberto e o olhar disponível. E ter os óculos certos.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Primeiro Post

Neste primeiro post do meu primeiro blog, as primeiras palavras têm de ser sobre os que me aturam todos os dias, os meus pais, os meus filhos, o meu marido, os meus cães e a minha gata Sushi. Mesmo que eu não fale muito sobre eles, são eles que estão presentes no meu mundo todos os dias. E quando o meu olhar sobre o que me rodeia é mais triste, são eles que dão cor a estes óculos do mundo.


Já houve alturas na minha vida em que me realizava muito como professora. Adorava preparar actividades para os alunos e trabalhar com eles. Infelizmente, as coisas mudaram bastante nestes últimos anos. Decidi que, neste blog, só ia falar de coisas positivas. Por isso, provavelmente, falarei muito pouco de escola!

Há óculos que filtram os raios ultra-violeta, outros filtram certas cores. Os meus óculos do mundo só vão deixar passar as coisas que me interessaram, ou divertiram, ou comoveram. Não há um tema. Há um momento. E há um olhar.