quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O Elefante na sala de estar

Ultimamente, houve duas notícias, quase seguidas, de ataques mortais de cães. Num caso, a vítima foi uma criança, no outro foi uma mulher. Porque gosto muito de cães, tenho-me interrogado sobre estas situações: quem serão os verdadeiros responsáveis? Não serão os donos os potencialmente perigosos?
Encontrei este texto, escrito por um médico veterinário preocupado com o bem-estar animal, que reflete muitas das minhas interrogações. Vale a pena ler e refletir.


O ELEFANTE NA SALA DE ESTAR
É um “perigo” falar do que não se sabe ou pouco se sabe, mas que muito se sente.

Vem isto a propósito de um tema que, pelas piores razões, se tornou assunto do dia-a-dia: o dos cães perigosos e potencialmente perigosos.
Por definição técnica e jurídica cão perigoso é todo o cão que ataca e agride… mesmo que inadvertidamente lhe pise a cauda e ele(a) lhe devolva uma dentada. Não importa se é um pinscher anão ou um rottweiller (aliás cães do mesmo grupo, dos 10 grupos de classificação da Federação Cinológica Internacional).
De acordo com a mesma base técnica e jurídica, cão potencialmente perigoso é todo aquele que tenha corpulência, capacidade muscular para morder e agressividade… mesmo que lhe pise a cauda e ele(a) NÃO lhe devolva uma dentada. Não importa se é de raça ou rafeiro basta que tenha tamanho, potência de mandíbula e comportamento agressivo.
Dos potencialmente perigosos resolveu o legislador “estigmatizar” umas quantas raças; em Portugal são sete.

Seria conveniente que os órgãos de comunicação social usassem esta metodologia evitando confusões e desinformação, como por exemplo a referência a raças perigosas, pois tal não existe.
Esta falta de clareza, além de eticamente deixar a desejar, conduz a distorções graves de que me preocupam, sobretudo, três:

Primeiro a “criminalização” de certas raças, cujos animais não têm qualquer culpa… mesmo! É que não está provado que esta ou aquela raça, por simples desígnio genético, morda ou ataque mais do que outra qualquer, nem mesmo as ditas potencialmente perigosas… embora pareça, porque cada vez que uma “raça maldita” ataca e morde é sempre notícia. Os jornais ainda andam à volta do tema.
As estatísticas em Portugal deixam a desejar, mas nos países em que o tratamento de dados merece mais recursos, a realidade fala por si: na Europa assiste-se a um retrocesso e consequente revogação da legislação incidindo em raças potencialmente perigosas.

Em segundo lugar porque se retira o enfoque de todo o debate daquilo que é verdadeiramente essencial: não existe um programa global de educação, com base em princípios orientadores, dirigido a donos e detentores, criadores, familiares e crianças.
Entre o desejo (legítimo) de ter um cão de companhia, geralmente ditado por factores puramente emocionais, e a capacidade para cuidar, educar e treinar esse cão, existe um enorme fosso que só desaparecerá depois de uma grande mudança na mentalidade dos lusitanos.

Por último, a distorção causada pela comunicação social está na origem do fenómeno d’”o elefante na sala de estar”.
Sendo uma generalização, certas raças de cães, geralmente do tipo pit bull são detidas irresponsavelmente, como símbolos de masculinidade e de virilidade, em certos casos por cadastrados por agressão, consumo de álcool, posse de estupefacientes e violência doméstica.
É esse o “elefante na sala de estar” que não se quer ver! Ao invés criminalizamos, na lei e nos jornais, raças de cães, escamoteando duas coisas muito importantes: apesar de tudo a relação entre os “piores” donos e cães “malditos”, favorece o companheirismo, previne o stress e é geradora de alguma empatia; e que, donos “potencialmente perigosos” que não possam deter esses cães, sempre poderão usar um outro qualquer, mesmo que não seja de raça, mas igualmente agressivo e susceptível de alimentar o mesmo ego macho e viril (mesmo que o detentor seja uma mulher!).

(Cachorro Rottweiler - imagem da net)

5 comentários:

  1. Gosto de animais e tive uma dálmata.

    Uma coisa que ainda hoje me enfurece é quando o animal se põe a ladrar e a correr atrás de alguém(aconteceu.me nas Termas, sem eu sequer ter visto o bicho), o /a dono/a dizer que "tudo bem, não morde".Como pode garantir?!

    Como se sabe, os dálmatas atraem a atenção pela sua caracteristica pelagem branca salpicada de manchas negras.Consequentemente, toda aa gente pretende fazer-lhes festas. E quando que me perguntavam se ela mordia , a minha resposta invariável foi sempre. "Até hoje nunca mordeu!"

    Quanro a raças perigosas , e sem deixar de estar parcialmente de acordo que a personalidade dos donos é importante, penso sinceramente que deberiam ser proibidas.

    Um abraço

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    1. Claro que não se pode garantir que não morde, também acho que a melhor resposta é mesmo "Até hoje nunca mordeu!"
      E, como se vê, tecnicamente não há raças perigosas, mas sim potencialmente perigosas. Mais do que proibir essas raças, penso que se deviam educar os donos.
      Abraço

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  2. Também adoro cães e os últimos casos levaram-me mesmo a escrever um post sobre o assunto.
    Para além do que aqui se escreve, reitero que o incumprimeto da legislação em vigor leva a que alguns donos utilizem os cães como arma o que leva a opinião pública a atirar para cima dos animais, as culpas que deveriam ser assacadas aos donos e a quem tem o dever de fiscalizar.

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  3. Penso que tocou na ferida...
    Adoro cães! Estou bem servido (tenho dois) e por enquanto... não quero mais.

    http://tintacompinta.blogspot.pt/2009/03/vida-de-cao.html

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  4. Preocupa-me, Teresa, a falta de legislação/fiscalização e o perigo que possam causar (tenho um filho pequeno) - sendo culpa dos donos, que não pensam no bem estar das pessoas nem em quem não comunga do seu amor pelos mesmos.

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