quinta-feira, 24 de março de 2016

Domingo, para mim, é um dia assim-assim...



Enfrentando o novo desafio da Chica para esta semana, tenho de fazer uma frase com a palavra domingo. E dou por mim muito dividida...
Domingo, dia do Senhor, por isso dia de descanso para os cristãos. Durante muito tempo, o único dia de descanso semanal. Um dia abençoado, portanto! Ainda hoje, passamos a semana a desejar o fim de semana, a ansiar por aquele dia, especial entre todos, feito para descansar. E, no entanto, é um dia esquisito, porque funciona como uma espécie de ponto prévio da semana que se vai iniciar. Quantas vezes passamos o domingo a preparar o que vai ser necessário durante a semana? Às vezes, são os cozinhados que têm de ficar meios alinhavados, porque durante a semana não há tempo para cozinhar. Outras vezes, há que adiantar trabalhos, relatórios, documentos. Há que ir às compras, ou passar a ferro... ou tantas outras coisas a que a vida nos obriga! E, à medida que o dia vai passando, vai-se avolumando a sensação de que se aproxima mais uma semana de trabalho, stresse e correria.
Então, eu prefiro o sábado e aquela outra sensação, maravilhosa, de que amanhã é outra vez dia de descanso!

Domingo, para mim, é um dia assim-assim...



domingo, 20 de março de 2016

Corpo das mulheres, campo de batalha

Andamos por vezes tão distraídos com as nossas guerrinhas intestinas, ou com as que nos batem à porta, que nos esquecemos de olhar para o lado. Aqui perto, no Sudão do Sul, a guerra mais bárbara dilacera um país que nasceu apenas em 2011. A ONU relata massacres, destruição e violações em massa. A Unicef regista milhares de crianças utilizadas como soldados. Contam-se mais de dois milhões de refugiados, fugidos para regiões vizinhas em condições precárias, como são sempre as condições de quem foge da sua casa, sem mais nada do que tem no corpo.
Razões? Já ninguém as discute, entre acusações de tentativa de golpe de estado e confrontos entre etnias rivais. O costume, as razões tristemente habituais...

Mulheres no Sudão do Sul
Na última semana, atingiu-se o auge do absurdo: o governo terá autorizado as violações das mulheres nas zonas de guerra como forma de pagamento dos soldados, como parte do salário. Infelizmente, estamos todos habituados a ouvir notícias de violações em situações de guerra. Dá ideia que o corpo das mulheres é mais um campo de batalha de que é necessária a apropriação, nem que seja pela violência. Como se o corpo das mulheres fosse um campo de milho, ou uma aldeia, ou um moinho... O facto de ser o próprio governo a autorizar esta prática repugnante, acrescenta-lhe legitimação. Como é possível que assistamos de braços cruzados a mais esta banalização da violência sobre as mulheres? 
O Sudão do Sul é o mais jovem país do mundo. Parece-me que não tem muito futuro.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Quando o pé foge para o chinelo...




Era uma frase que se ouvia frequentemente, durante a minha infância. Significava que se estava a fazer qualquer coisa que não era apropriada para quem se assumia como uma senhora, ou um cavalheiro. Quando se fazia barulho na rua, quando se ria alto, ou se utilizava calão, ou se diziam asneiras, ou, de alguma maneira o nosso comportamento não era dignificante... estava o pé a fugir para o chinelo! Era a velha oposição entre uma Senhora e uma Mulher da Rua, metaforicamente simbolizadas pela oposição entre o sapato e o chinelo. 
Lembrei-me desta frase a propósito da brincadeira que a Chica lançou: uma palavra por semana; e cada um, se quiser entrar na brincadeira, constrói uma frase que inclua essa palavra! Sem ultrapassar as sete palavras! Parece mais fácil do que realmente é!
A palavra desta semana? Chinelo, é claro! Mas, atualmente, o chinelo já não significa qualquer diferença social. Há chinelas para todos os gostos e todos os preços! E quando, hoje, dizemos que nos foge o pé para o chinelo, isso só significa que nos apetece relaxar! Provavelmente, está um calor de abrasar, e um chinelinho numa esplanada, a comer um gelado ou a beber uma cervejinha bem fresca, é mesmo o que de melhor nos pode acontecer! Felizmente!


domingo, 13 de março de 2016

O Filho de Saul




Fui ontem ver o filme "O Filho de Saul", do realizador húngaro Laszlo Nemes, vencedor do Óscar para Melhor Filme Estrangeiro, além de vencedor do Festival de Cannes. Escolhi a sessão de ontem à tarde, no cinema Ideal, porque era apresentada pela Doutora Esther Mucznik, uma pessoa que muito admiro. No entanto, ao ouvir as palavras da líder da Comunidade Judaica no nosso país, senti o receio de não conseguir aguentar o peso do filme a que me preparava para assistir.
Consegui vê-lo todo. E consegui não chorar, mas apenas porque há situações que nos deixam secos, sem palavras, sem emoções. Assim é este filme.
A ação do filme desenrola-se no campo de concentração de Auschwitz, no final do verão de 1944. Não há, no filme, nenhuma localização espacial ou temporal específica, mas todos os indícios nos levam para aquele local infernal, naquela época. No norte da Europa, já se tinha dado o Desembarque da Normandia e a Alemanha já começava a recuar e a perder a guerra. Mas isso não levava os nazis a abrandarem a destruição das comunidades judaicas, pelo contrário, parece que os apressava a terminar o seu desígnio de morte. Tudo isto são considerações minhas, já que o filme nada reflete, ou questiona.
No filme, apenas seguimos Saul, um Sonderkommando húngaro, isto é, um dos prisioneiros encarregados de trabalhar nas câmaras de gás e nos crematórios. Para fazer o seu trabalho horrendo, ele age como um autómato, despersonalizado e desligado de tudo o que se vai passando à sua volta. Um dia, Saul vê um rapazinho morto, à saída da câmara de gás, e assume-o como seu filho. Até ao fim do filme, o espectador não tem a certeza de aquele menino ser realmente filho de Saul ou não. Mas isso não é importante: Saul assume como seu único desígnio dar uma sepultura digna àquela criança. A partir daí, ele vai fazer tudo, incluindo pôr a sua vida, ou o que resta dela, em risco, para encontrar um rabino que recite a oração dos mortos e sepultar o rapazinho. Na sua vida, que já nada vale, ele encontra um sentido. E, na sepultura daquela criança, ele concentra tudo o que ainda resta de dignidade humana.
É um filme muito bom, embora muito pesado. Volta a fazer-nos refletir sobre o que o homem é capaz de fazer ao seu semelhante, sobre a grandeza e a miséria da condição humana. E, num momento em que voltamos a assistir a manifestações de intolerância e antissemitismo, mesmo na nossa Europa tão civilizada, talvez seja um filme a ver com muita atenção.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Como terminar uma relação...


Há coisas que me espantam. Apesar de tudo o que vou vendo, continuam a aparecer notícias que conseguem realmente surpreender-me, como é o caso desta empresa que oferece um serviço pouco habitual: terminar relações amorosas!
Sim, eu sei, como todos sabemos, como é difícil terminar uma relação! Encontrar as palavras certas para não magoar demais a outra pessoa... Conseguir explicar o que mudou em nós... Enfrentar os olhos do outro, interrogadores, zangados, tristes, incrédulos... Sim, é duro!
Nos últimos tempos, tenho sabido de formas mais expeditas e secas de terminar um namoro ou uma relação. A preferida parece ser a mensagem, por telemóvel ou pelo facebook. "Desculpa, mas já não dá." Ou "Temos de dar um tempo". Ou "Já não curto estar contigo". Ou qualquer outra frase, curta e fria. Também há os que, pura e simplesmente, deixam de aparecer ou dar notícias. "Eu depois ligo-te!" mas o depois nunca chega... 
Em qualquer dos casos, é uma cobardia. Pode ser difícil, mas o encontro com o outro, a procura das palavras, os olhos doridos, são necessários, quanto mais não seja como um ato de respeito pelo sofrimento do outro. Devemos isso ao nosso parceiro, no mínimo. É mais fácil mandar uma mensagem, claro, poupa-nos a situações confrangedoras, mas é muito mais feio.
No ano passado, surgiu a empresa The Breakup Shop. A lógica dos dois irmãos canadianos é implacável: se há empresas para aproximar as pessoas, também pode haver para as separar. E, por 9,40 €, fazem o serviço por nós. O utente (será que posso utilizar esta palavra?) escolhe a forma como a informação será entregue ao destinatário. Talvez até possa encomendar umas flores... E o trabalho sujo fica feito...
Não gosto desta solução. As emoções fazem parte de nós e da forma como nos relacionamos uns com os outros. Secar esssas emoções, fugir delas e das situações de confronto, pode ser atraente, mas é muito empobrecedor. Significa também que não demos muito valor àquela relação; nem lhe concedemos um final digno.


sábado, 5 de março de 2016

Crocodilos na piscina




Ouvi há dias uma história engraçada. 
Um milionário deu uma festa magnífica na sua casa. A comida, a animação, estava tudo excelente. Os convidados foram ficando cada vez mais animados, à medida que a música e a bebida aceleravam os ritmos. Lá para o meio da noite, o anfitrião convidou todos para se reunirem à volta da piscina. Tomar um banho noturno parecia mesmo uma boa ideia! Quando chegaram à piscina, o dono da casa declarou:
- Ofereço 100 000 euros a quem se atirar à piscina e a atravessar até ao outro lado! 
Parecia uma coisa fácil e foram vários os convidados que se abeiraram da piscina. Foi então que se começaram a ver vultos na água: eram crocodilos! Vários crocodilos nadavam calmamente, como quem espera o pequeno almoço... Todos os que se tinham chegado à beira da piscina, mesmo os mais afoitos, agora recuavam. Já ninguém tinha vontade de dar um mergulho!
Mas o dono da casa insistia:
- Subo a aposta! Ofereço 500 000 euros ao primeiro que chegar ao outro lado!
Mas todos se entreolhavm e recuavam.
O anfitrião é que não desistia:
- Ofereço metade da minha fortuna a quem tiver a coragem de nadar até àquele lado!
Ouve-se o barulho de um mergulho e todos correm para ver quem era o corajoso nadador e se iria vencer a corrida. Na piscina, um homem nadava desesperadamente, seguido por quatro ou cinco crocodilos. O suspense era grande, todos seguiam, hipnotizados, o esforço do homem. Finalmente, o nadador chegou ao outro lado e içou-se, ofegante, olhando em volta, como quem ainda não acredita na sua própria sorte.
Todos o felicitavam; o dono da casa com um pouco menos de entusiasmo que os outros convidados. Um deles não resiste e pergunta:
- Como é que teve coragem de nadar no meio dos crocodilos? Apesar do prémio ser muito bom, foi precisa muita coragem!
- Coragem? Eu gostava era de saber quem foi que me empurrou para a piscina!
Quando ouvi esta pequena história, ri-me. Mas fiquei a pensar... Às vezes, precisamos mesmo de um empurrão para termos a coragem de enfrentar um desafio que julgavamos insuperável, e atingirmos objetivos que julgavamos inatingíveis.