quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Um cacilheiro em Veneza

Quem mais poderia ter esta ideia, de colocar um cacilheiro no coração da mais aristocrática sede de um império marítimo, senão a nossa Joana Vasconcelos? O cacilheiro é o Trafaria Praia e vai funcionar como "pavilhão flutuante" de Portugal na 55.ª Bienal de Artes Plásticas de Veneza. Neste momento está desativado e a sofrer obras de adaptação no Seixal. Uma das obras que se poderá apreciar, no seu interior, será um painel de azulejos que mostra Lisboa a partir do rio. Haverá também um palco, onde se poderão realizar debates, concertos, exposições.
O nosso cacilheiro será rebocado por um cargueiro até Veneza, onde estacionará na zona mais nobre da cidade. Daí, efetuará pequenos percursos, um deles até ao Lido, onde se realiza o Festival de Cinema de Veneza.
Poderão dizer o que quiserem de Joana Vasconcelos, gostar ou não dos seus trabalhos, mas numa coisa temos de lhe render homenagem: é uma artista original, com ideias diferentes, arrojadas. Tive o meu primeiro contacto com os seus trabalhos através dessa espantosa escultura que é O Sapato. Numa mesma instalação, o conjunto contraditório dos diversos universos femininos: o sapato é de baile, elegante, festivo, de salto alto; mas é composto de tachos e panelas, que remetem inexoravelmente para o espaço doméstico, para a cozinha, para as funções tradicionais da mulher ao longo dos séculos. É uma obra esmagadora, tanto no tamanho como no simbolismo. Sempre apreciei os artistas que, desde meados do século XX, pegam em objetos do quotidiano e os colocam em contextos inesperados, originais. Fazem-nos olhar para as coisas com uns olhos diferentes. Assim é Joana Vasconcelos. 
Espero que o seu, e nosso, cacilheiro, espante e conquiste Veneza, da mesma forma que os navios portugueses o fizeram no nosso XVI, quando roubaram o comércio das especiarias orientais à altiva e Sereníssima República.


18 comentários:

  1. Gosto muito do trabalho dela, fiz parte de uma visita guiada ao seu atelier e fomos muito bem recebidos ela é muito bem humorada e acessível foi um prazer conhece-la.Fico bem orgulhosa e torço para que faça um excelente trabalho.
    xx

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    1. Também gosto dela, e parece-me uma pessoa acessível, sim.
      Bjs

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  2. Teresa,
    Não há dúvida que algumas das obras de Joana Vasconcelos são tudo menos convencionais e não muito do meu gosto. No entanto, a do sapato e o futuro cacilheiro são, de facto, de apreciar, tanto pelo que simbolizam, como pela futura utilidade desse pavilhão flutuante que transportará Lisboa e Portugal por essas águas fora...
    Vou querer entrar e apreciar para satisfazer a minha curiosidade.
    Beijinho

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    1. Pois, era giro ir a Veneza apreciar ao vivo o cacilheiro...
      Bjs

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  3. Foi uma excelente ideia e uma prova de que o talento e a criatividade obtêm apoios das empresas.
    Digo isto, apesar de não ser particularmente fã da Joana Vasconcelos...

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    1. Sim, parece que ela teve apoios do estado (pelo menos para o transporte do cacilheiro), mas também de particulares, empresas. O que é ótimo.

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  4. Conheço mal a obra dela, mas concordo que o sapato é bem giro. E gosto dessa ideia do cacilheiro. :)

    Agora a dos cães de loiça na exposição de riso não tem piada nenhuma. Aliás, acho até de mau gosto! ;)

    Beijocas

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    1. Aí concordo contigo, os cães de loiça a chocarem uns com os outros não têm graça nenhuma!
      Bjs

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  5. Subscrevo o que dizes mas ainda acrescento que poderia ser talentosa e não ter apoio nenhum...o que não é o caso!
    Tem sido muito apoiada nas suas iniciativas o que é muito bom!

    Abraço

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    1. É verdade, mas também é uma das artistas portuguesas com mais reconhecimento internacional. o que é muito bom!
      Bjs

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  6. Também não sou particular apreciador da exuberância de Joana Vasconcelos, apesar de lhe reconhecer arrojo e alguma criatividade.
    O exemplo do Sapato é exemplo disso e esta ideia do cacilheiro nas águas de Veneza só poderia ter a sua marca.

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    1. Toda a arte é polémica. Eu desconfio sempre do que é muito consensual.

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  7. Também gosto da ideia. Espero que os italianos não reparem que o "nosso" cacilheiro, apesar dos estaleiros de Viana do Castelo, é uma velha construção comprada em segunda mão aos alemães. Mas não se pode ter tudo. Ter Joana Vasconcelos já é muito bom.

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  8. Miguel Ângelo Fernandes22 de fevereiro de 2013 às 23:40

    Joana Vasconcelos? Ah... já sei aquela raparigaça voluptuosa...
    Se calhar estou a fazer confusão... como quando vi a sua (da Joana) escultura e vi uma gravata feita de garrafas de Sagres...
    Adoro arte... e já agora uns tremoços... é a natureza das diferenças... todos a Cacilhas!

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  9. Deduzo que a natureza masculina se identifica com cerveja? Não é um bocadinho redutor? Mas até acho que era uma ideia gira. Se a Joana sabe disto, temos nova obra na calha!

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    1. Miguel Ângelo Fernandes22 de fevereiro de 2013 às 23:51

      ... se for lusa a ginjinha também conta... embora menos que os tachos e panelas como identidade feminina... afinal os chefs são quase sempre homens...

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    2. Pronto! A ginginha deixa-me sem argumentos!

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