quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ti Henriques

Chamam-lhe Ti Henriques. Na realidade, chama-se Adelino Henriques. Tem 81 anos e roda, desde os 18, no Poço da Morte.
Para os mais jovens, estas palavras poderão já não ter muito significado. Mesmo nas Festas e Arraiais que se realizam por esse país fora estas velhas atracções já não aparecem. Há novas atracções, que puxam pela adrenalina que quem nelas embarca. Os jovens (e também os menos jovens) são levantados, puxados, atirados em grande velocidade pelo espaço, provocando emoções cada vez mais intensas. Há os velhos carrinhos de choque, claro. Mas quem se lembra já do Poço da Morte?


Quando eu era miúda, a ida à Feira Popular, em família, era quase um ritual anual. Acontecia geralmente no Verão, e era uma alegria. Voávamos nos aviões, embarcávamos no Comboio Fantasma, chorávamos a rir com as nossas imagens deformadas nos espelhos que nos engordavam ou alongavam. Enchiamo-nos de sardinhas assadas e lambuzávamos as mãos com as farturas. E, claro, pasmávamos com a coragem dos homens que se lançavam no Poço da Morte, agarrados a uma mota que girava ao que nos parecia uma velocidade louca.
Depois, cresci. Durante algum tempo não fui à Feira Popular e, entretanto, as coisas já não pareciam tão engraçadas. E A Feira Popular fechou. Os terrenos ficaram ao abandono, à espera dos projectos imobiliários. E eu sentia uma tremenda nostalgia quando passava em Entrecampos.
Agora, o Circo Chen tomou conta daquele espaço e criou o Luna Park Chen. E ressuscitou o velho Poço da Morte. E quem melhor do que o velho Ti Henriques para guiar a mota que gira enlouquecida lá dentro? Com placa dentária e parafusos nos joelhos, com problemas de ácido úrico, ainda é ele quem toma conta do espaço e, seguramente, nos faz regressar, com a mesma velocidade, às tardes bem passadas da nossa infância. Afirma que enquanto houver Poço da Morte ele por lá andará. É um exemplo admirável de alguém que se recusa a parar.
Até dia 9 de Janeiro de 2011, o Ti Henriques estará no Luna Park Chen, nos terrenos da antiga Feira Popular. Eu não vou perder.

5 comentários:

  1. O que a Teresa me foi lembrar!
    Quando eu era, não miúdo mas, já espigadote, em idade namoradeira, ia com a namorada do momento ao Poço da Morte!
    É verdade! Em Luanda, no bairro de São Paulo, havia um espaço de diversões onde a atracção principal era o Poço da Morte. Os artistas, que subiam nas motos pelo Poço acima, eram Raul e Bany. Conduziam as motos, lado a lado, ou cruzando-as, um descendo outro subindo. Não perdia um espectáculo. De tanto lá ir, fiz amizades com os dois. Um dia convidaram-me a ir com um deles na mota. Não aceitei, claro! Livra!
    Que saudades daqueles tempos!
    Vou tudo fazer para ir ao Luna Park Chen.
    Um abraço

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  2. Impressionante garra dele,Heim? Eu sempre tive medo, aqui chamamos globo da morte e me deixava nervosa ao ver.Temia por eles...
    um beijo,tudo de bom,chica

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  3. Como eu me lembro do Poço da Morte...
    Recordo até que havia um rapaz ainda novo, que tinha um lábio cortado (possível sequela de um qualquer acidente).
    Mas é mesmo verdade que anda um senhor com 81 anos a guiar uma moto, actualmente, no Poço da Morte?

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  4. O Ti Henriques é um exemplo a seguir, vou estar atenta, parece que também tenho bilhete...
    Bjs

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  5. Pinguim
    É mesmo verdade, aconselho uma ida à antiga Feira Popular, nem que seja com o pretexto de verificar se lá está ainda o Ti Henriques.

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