quarta-feira, 27 de abril de 2016

O Mistério das Peúgas Desaparecidas

É um mistério que me acompanha desde há muitos anos. De vez em quando, depois de uma lavagem de roupa, lá aparece uma peúga desemparelhada! O que aconteceu? Para onde fugiu a outra peúga? Sem resposta para o enigma, vai aumentando o montinho de meias solitárias, na prateleira da despensa... Eternamente à espera do seu par...
Sempre desconfiei que este enigma não intrigava apenas a mim. Lembro-me de um filme que vi já há muitos anos, em que uma criança explicava, de forma simples, o que achava que acontecia às meias perdidas: haveria um Céu das Meias para onde iam todas as meias desaparecidas e, quando morrermos, voltaremos a encontrar todas elas, muito bem arrumadas num grande cesto. Pareceu-me uma explicação encantadora, mas pouco convincente.
Aparentemente, o mistério das meias desaparecidas continuou a fascinar várias pessoas. 




O matemático especialista em estatística Geoff Ellis e o psicólogo Simon Moore desenvolveram até uma fórmula que, asseguram, prevê o risco de perdemos meias: [L (pxf) + C (txs)] – (P x A).Sendo que L é o ‘tamanho da máquina de roupa’, que se calcula multiplicando o número de pessoas da casa (p) pela frequência de lavagens que se realizam por semana (f); C é a ‘complexidade da lavagem’, que se calcula multiplicando o número de diferentes lavagens (branco e coloridas) que se fazem numa semana (t) pelo número de meias que se lavam por semana (s); o P é a ‘positividade’ com que fazemos a máquina de roupa - que se mede numa escala de 1 (‘forte rejeição’) a 5 (‘grande prazer’) e o A é a ‘atenção prestada’, que se mede como o número total de precauções que tomamos em cada lavagem para evitar que as meias se percam, como desenrolá-las ou aparelhá-las antes.Quanto maior for o resultado deste cálculo, maior será o número de meias que perdemos.
Respeito este estudo, claro, embora esteja convencida de que foi feito quando estes dois cientistas não tinham absolutamente nada de mais relevante para estudar! Mas, previsões à parte (e quem quiser que faça as contas às meias que vai perder até ao fim da vida), provavelmente as meias perdidas jazem atrás de algum armário, ou no quintal, por baixo do estendal da roupa, ou algures, levadas pelo vento. Ou talvez eu as vá reencontrar todas no paraíso...

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Não percam a esperança




"Não percam a esperança!" foi esta a mensagem que o Papa Francisco deixou aos refugiados do campo de Moria, que visitou este fim de semana na ilha de Lesbos. Sim, não percam a esperança, porque muitas vezes é só o que lhes resta. Já perderam a casa e os amigos, perderam o trabalho e as recordações de uma vida inteira, perderam familiares, perderam sonhos. Entalados entre fronteiras, apanhados entre jogos de poder e hipocrisias, não lhes resta mais nada. Não percam a esperança!


sábado, 16 de abril de 2016

Amadeo de Souza Cardoso, o modernista esquecido

Amadeo em Paris

Em boa hora vai realizar-se em Paris, no Grand Palais, uma grande exposição que reúne e divulga a obra de Amadeo de Souza Cardoso. 
Como portuguesa e frequentadora do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, a obra de Amadeu sempre me foi familiar. Lembro-me também de uma grande exposição que a Gulbenkian organizou, aqui há anos, com a retrospetiva do pintor, e que foi um tremendo sucesso. Mas fora de Portugal o seu nome é quase desconhecido e isso é uma enorme injustiça.

Entrada

Esta semana, foi a anteestreia do filme/documentário Amadeo Souza Cardoso, o segredo mais bem guardado da arte moderna. Realizado pelo francês luso-descendente Cristophe Fonseca, mostra-nos o percurso do pintor, desde a sua infância minhota, até à sua morte precoce, em 1918. E permite compreender melhor a dimensão da sua obra e as razões do seu esquecimento. Através da tela, seguimos o autor para Paris, onde conhece e se torna amigo de alguns dos grandes nomes da arte nesses inícios do século XX: Brancusi, Modigliani... Acompanhamos os seus primeiros sucessos, as primeiras exposições. Conhecemos Lucy, a sua paixão. Amadeu pinta muito e as suas telas vendem bem, mesmo na sua primeira grande exposição em Nova Iorque, ao lado de colegas como Picasso.

 A rapariga dos cravos

E, de repente, a 1.ª Guerra Mundial. Todos estão convencidos de que vai ser um conflito rápido e continuam a fazer planos... uma segunda exposição em Nova Iorque... Mas a guerra eterniza-se. Souza Cardoso volta para Manhufe, e é aí que a gripe espanhola o apanha. Estavamos em 1918 e o pintor tinha 30 anos!
Lucy, a viúva inconsolável, guarda o seu espólio. A visão medíocre e avessa ao modernismo do Estado Novo não projeta a sua obra. A família queima alguns desenhos, considerados muito arrojados, que tinham permanecido em Manhufe. E o esquecimento cai sobre o seu nome!

Azenhas

Nos anos 50, quase a medo, o Museu de Amarante expõe algumas das suas telas. O Museu Gulbenkian segue-lhe o rasto e começa a divulgação da sua obra.
Em boa hora o Grand Palais faz, até julho deste ano, uma grande retrospetiva da obra de Amadeo de Souza Cardoso, expondo cerca de 300 obras do grande pintor modernista português. Mais uma vez pela mão da Gulbenkian... É tempo de levantar o manto de esquecimento!

 Corpus Christi

domingo, 10 de abril de 2016

D.I.Y. - Do it yourself


Uma horta de temperos na varanda

Vivemos num mundo cada vez mais massificado e plastificado. Fazemos todos mais ou menos as mesmas coisas, que nos são sugeridas pela comunicação social ou pelas redes sociais, mais ou menos da mesma maneira. Muitas vezes fazemo-lo sem qualquer pensamento crítico; outras vezes, percebemos que vamos com o rebanho, mas não temos tempo ou disponibilidade para fazer outras escolhas.
Compramos os móveis do IKEA, mesmo sabendo que ao fim de três ou quatro anos já se estarão a desfazer. Compramos comida feita, ou pronta a fazer, apesar de termos noção de que nada bate uma sopa feita na hora. Compramos roupa barata, fechando os olhos e a consciência ao modo como ela é confecionada, lá para Oriente. E por aí fora...
Provavelmente por todas estas razões e mais algumas, está a afirmar-se a tendência para o Do it yourself. Tem a ver com a produção de coisas com as nossas próprias mãos, segundo técnicas antigas e artesanais, mas principalmente com uma afirmação individual. A Internet está cheia de ideias e exemplos, desde os blogues que ensinam a cozinhar as mais variadas coisas até às dicas para bricolage. Ensina-se a fazer sabonetes artesanais, a fazer uma hortinha de plantas aromáticas na varanda, a recuperar a cómoda dos avós. Voltou a encontrar-se encanto nos móveis antigos - que já duraram cem anos e prometem durar mais cinquenta, pelo menos - agora pintados e renovados, misturados com peças mais modernas. Há muitos jovens a tentarem fazer as suas próprias roupas ou a personalizarem as que compram. Outros fazem jóias ou outros acessórios. E cada uma dessas peças é única e esse é o seu encanto.
A vida atual não é fácil e todos andamos a correr e a tentar agarrar o que é mais barato, mais rápido, mais fácil. Eu tento encontrar algum equilíbrio entre a pressão da vida e os prazeres simples das coisas feitas pelas nossas mãos. Gosto de tricotar, fazer camisolas para os membros mais jovens da família. Demoro muito tempo, mas não me importo, ninguém corre atrás de mim. Não prescindo da sopa caseira, feita com todos os legumes que tiver à mão. Gosto de fazer doces com as frutas da época, com que depois me delicio barrados nas torradas diárias. Quando tenho tempo, gosto de fazer pão, ou um simples bolo de iogurte, que todos devoram cá em casa. E eu fico com a certeza de que não estão a comer ovos liofilizados ou outros produtos conservados e processados...
Sim, eu sei que podia encontrar todas estas coisas no supermercado mais próximo. Mas, como dizia o anúncio publicitário, podia, mas não era a mesma coisa!

A minha marmelada caseira