quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Dicas de viagem

Uma amiga pediu-me para lhe dar sugestões de viagem. Mesmo que quisesse, não o poderia fazer. Uma viagem é uma coisa tão pessoal, tão única! Cada um faz a sua, à sua maneira, repara em certas coisas, aprecia outras, sempre de forma distinta do seu mais próximo companheiro de viagem. Por isso, não vale a pena fazer sugestões ou dar conselhos. Mas há algumas coisas que a experiência já me ensinou e que eu posso partilhar.
1 - Viajar é como uma degustação. Não tenha pressa. Tire tempo para preparar cada viagem, investigue o que há de interessante para visitar, veja os preços, compare, faça simulações, organize rotas e programas... mesmo que tenha de os reorganizar várias vezes! A preparação já faz parte do prazer da viagem.
2 - Escolha cuidadosamente o(s) seu(s) companheiro(s) de viagem. As pessoas são diferentes e têm gostos e motivações diferentes. Se é do estilo de se levantar cedo para calcorrear as ruas, os monumentos, os museus, e a sua companhia de viagem gosta é de apreciar a vida noturna e de se levantar à hora do almoço, é melhor desistir. Para alguém a viagem vai ser um suplício e, talvez, o fim de uma bela amizade.
3 - Se não há ninguém disponível para viajar consigo numa qualquer altura, não fique parado por causa disso.  Escolha um programa que lhe agrade e vá na mesma. Poderá descobrir o prazer de fazer o que lhe apetece, sem ninguém a dar palpites...
4 - Explore cuidadosamente os sites das companhias de aviação ou de ofertas de voos. Às vezes, um voo com uma escala longa numa cidade de ligação pode ser uma boa opção. Geralmente, é mais barato e pode permitir rever um familiar ou amigo, ou visitar aquela exposição que gostava mesmo de ver...
5 - Viajar é uma atitude, uma abertura ao mundo. Há quem viaje para longe, sem nunca se abrir ao que está à sua volta. Por isso, se não tem dinheiro para grandes viagens, não fique em casa a lamentar-se. Adapte as suas opções à sua bolsa. Mesmo na sua cidade, ou na região onde vive, há caminhos que nunca percorreu, monumentos que nunca visitou, esplanadas onde nunca se sentou... Saia de casa e explore-os como se fosse um turista na sua cidade. Verá que vai descobrir que todas as viagens, mesmo as mais curtas, valem a pena!


sábado, 20 de fevereiro de 2016

Anja Ringgren Lovén, a Educação contra a Superstição

Anja dá água ao pequeno Hope, quando do seu resgate das ruas

Ouvi este nome pela primeira vez há poucos dias. Foi a minha filha que me mostrou a notícia, tão chocante que parecia falsa: uma dinamarquesa tinha salvo uma criança de dois anos, que tinha sido abandonada pela família, acusada de feitiçaria. O caso passara-se na Nigéria e as fotos eram confrangedoras. Aparentemente, o rapazinho de cerca de dois anos, sobrevivia há vários meses sozinho, nem consigo imaginar como. Estava subnutrido e cheio de vermes. Alimentado e tratado, começava agora a recuperar. Anja chamou-lhe Hope.
Anja Ringgren Lovén mudou toda a sua vida há três anos atrás, após uma visita à Nigéria. Nesse grande país africano, deparou-se com um problema terrível: havia crianças que eram abandonadas e maltratadas pelas famílias, por suspeita de bruxaria. É uma acusação espantosa: que feitiçaria pode fazer uma criança com um ano de idade, ou pouco mais? Mas a superstição e a ignorância são mais fortes e levam ao abandono dessas crianças, que pouco mais têm a esperar da vida num continente onde a sobrevivência, por vezes, já é difícil sem estas condições agravantes.
Anja Ringgren Lovén resolveu então vender tudo o que possuia na Dinamarca e mudar-se para a Nigéria, para tentar resgatar e salvar essas pobres crianças-feiticeiras. Fundou a African Children Aid Education and Development Foundation (ACAEDF) e hoje tem a seu cargo 34 crianças, todas acusadas de bruxaria, todas salvas por si. Grande coração de mãe!
"Ser rejeitado pela própria família é a experiência de maior solidão que uma criança pode ter" afirma Anja. A ACAEDF também trabalha para que todas as crianças no estado de Akwa Ibom, no sul da Nigéria, tenham a oportunidade de ir à escola. É muito difícil lutar contra a cultura dominante, da feitiçaria, dos exorcismos e da magia negra, mas Anja acredita que "a educação é a chave na luta contra a superstição". Eu também acredito. Mas vai levar muito, muito tempo!

Hope está a recuperar bem


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Há coisas mais valiosas do que uma foto

Vivemos numa época marcada pelo domínio da imagem. Já se dizia que uma imagem vale mais do mil palavras, mas... será que vale mais do que uma vida?
Não tenho nada contra a fotografia, pelo contrário, gosto muito de uma boa fotografia. No entanto, penso que há por vezes algum exagero, um uso e abuso da imagem fotográfica. Parece que tudo o que fazemos tem de ser validado por fotografias, partilhadas abundantemente no Twitter, no Facebook, no Instagram. Os jovens, em especial, partilham o que fazem,o que comem, onde vão, frequentemente sem grande precaução com a sua privacidade. Arrisca-se a vida para tirar a fotografia mais original, mais fantástica, que vai fazer furor nas redes sociais. Enfim, é problema deles. Mas, e se prejudica outros?
Vem este meu desabafo a propósito de um caso ocorrido num ressort turístico da Argentina, onde um golfinho morreu em consequência do tempo que foi deixado fora de água, exposto ao sol. E porquê? Porque foi passado de mão em mão, para tirar fotografias. Até morrer... 
Poderão dizer-me que não foi de propósito. Também acredito que não! Mas há que ter a sensatez suficiente para perceber que o bem estar de um ser vivo é mais importante do que uma fotografia!


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

No autocarro

Há poucas coisas mais animadas, em Portugal, do que viajar nos transportes públicos. Hoje, no autocarro, presenciei uma cena que não resisto a partilhar.
O autocarro já ia meio cheio, com pessoas em pé. Numa paragem, um rapaz entra pela porta de trás, com um senhor idoso. O motorista, atento, grita: "A entrada é aqui pela frente!" Provavelmente, um rapaz comum diria: "Eu sei, amigo, e peço desculpa, mas estava a tentar ajudar este velhote!" Mas esta frase não condizia com aquele rapaz. Era um adolescente, de cabelo espetado e brincos nas orelhas. Retorquiu logo, com maus modos: "E então? Qual é o problema?" O problema foi que o motorista não gostou do tom e respondeu também. A troca de palavras foi aumentando, na animosidade e nos decibéis... 
- Respeitinho, ó rapaz!
- Mas o que é que este quer? Arranca com isto, mas é!
- Olha que eu ponho-te no olho da rua!  
- Eu pago o passe, tenho direitos! Eu é que lhe pago o ordenado e está pr'aí a falar!
- Tu tens sorte, que nem tens cara para levar um par de bofetadas!
Confesso que a minha simpatia estava mais do lado do motorista. Ao longo dos anos, já tive a minha conta de respostas insolentes, por parte de miúdos que não distinguem um adulto investido de alguma autoridade de um colega da escola.
Mas o autocarro estava dividido. Toda a gente comentava e dava palpites. Uns defendiam o rapaz, outros estavam do lado do motorista. Como na vida, enfim...
No banco fronteiro ao meu, um casal de turistas de meia idade observava a cena, entre o fascinado e o surpreendido. Tão engraçados, estes nativos! So typical! Sempre de sangue quente, estas gentes do Sul!


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O novo nome do velho aeroporto

O velho aeroporto da Portela tem novo nome: Aeroporto Humberto Delgado. Ficámos a saber ontem, de repente, sem aviso prévio, sem debate na opinião pública. Lembro-me que, quando da construção da nova ponte sobre o Tejo, houve uma discussão alargada acerca do nome que devia ser dado ao novo equipamento da cidade de Lisboa. Vasco da Gama foi consensual, também ele lançou pontes entre os continentes e era um nome sobejamente conhecido, tanto nacional como internacionalmente. Agora, se pareceu repentinamente importante batizar o velho aeroporto, também teria sido agradável que o nome tivesse surgido de uma  auscultação da sociedade civil.
Eu afirmo desde já que teria tido algumas boas ideias. Por exemplo, Camões! Um nome curto, reconhecido por qualquer turista, o nome de um vulto cimeiro das nossas letras. Um nome que não precisa de apresentações! Ou, melhor ideia ainda, Gago Coutinho! O nosso aviador que, nos inícios do século XX, cruzou pela primeira vez o Atlântico Sul! Essa seria uma boa homenagem, adequada ao espaço!
Quero deixar desde já muito claro que nada me move contra a memória do General sem Medo. Ele protagonizou a oposição ao regime salazarista, propondo-se a umas eleições que sabia serem manipuladas. Foi derrotado, exilou-se no Brasil. Voltou à Europa e foi assassinado pela polícia política do regime. Deixou uma memória de coragem, que ajudou a apagar a memória de todos os anos em que foi um apoiante do regime salazarista, desde a sua participação no golpe militar de 28 de maio de 1926 até aos altos cargos que ocupou no Estado, como os ligados à Aeronáutica Civil. Também são conhecidas, embora pouco relembradas, as suas posições públicas de apoio ao regime nazi alemão. Claro, todos temos o direito de mudar de opinião e foi a memória do General sem Medo que a Câmara Municipal de Lisboa propôs homenagear, quando da passagem dos 50 anos do seu assassinato. Mas a minha opinião (e também tenho direito a ela) é que já é tempo de ultrapassar este constante retorno ao fascismo e ao antifascismo e assumir que havia, com certeza, portugueses com um perfil mais adequado para esta nomeação.
Já agora, porque é que o velho aeroporto da Portela não podia manter o velho nome?