segunda-feira, 11 de março de 2013

Histórias da divisão azul


Tenho sempre pouco tempo disponível e milhentas coisas para fazer. E, por isso, os livros e as revistas acumulam-se à espera da minha atenção. Foi assim que só há dias li um artigo, publicado na revista "Visão", sobre os soldados portugueses que combateram ao lado dos exércitos nazis na 2.ª Guerra Mundial, integrados na chamada Divisão Azul. O artigo surgiu a propósito da apresentação de um livro do historiador Ricardo Silva, que desde há anos investiga este tema nos arquivos espanhóis.
A Divisão Azul foi criada quando da invasão da União Soviética pela Alemanha nazi, em 1941. Segundo parece, o embaixador alemão teria sondado Salazar no sentido da formação de uma força militar que ajudasse ao esforço anti-comunista, ao que Salazar teria respondido evasivamente. Já Franco, na nossa vizinha Espanha, viu-se compelido a pagar a ajuda nazi durante a Guerra Civil, mesmo mantendo-se neutral.
E é assim que surge a Divisão Azul, que irá integrar cerca de 150 combatentes portugueses, que vão alistar-se a Espanha. Quem são esses homens? São essas história que Ricardo Silva agora traz à luz. Alguns já tinham sido voluntários na guerra civil espanhola, combatendo ao lado dos nacionalistas e da Falange. Outros são jovens idealistas, arrebatados pelas ideias dominantes de luta contra a ameaça comunista. Não são bem vistos pelos alemães, são irreverentes, cantam durante as marchas, namoram com as raparigas das regiões que percorrem. Cada um é uma história, mas acabam todos na Frente Leste, nas batalhas por Leninegrado. A maioria morre aí, em combate, ou nos campos de prisioneiros soviéticos. Alguns conseguiram sobreviver. Quantos? Poucos, são figuras incómodas, que lutaram do lado errado. Ficaram esquecidos, vivendo entre nós sem, no entanto, os assumirmos como parte da nossa memória. Até hoje!
Fico contente que tenham sido resgatados das sombras. O pós-guerra facilitou a divisão entre os "bons" e os "maus", nós e os outros. A percepção de que, afinal, alguns de nós faziam parte dos outros, pode ser difícil de encarar. Mas é a verdade. É a tremenda diversidade das motivações humanas.


8 comentários:

  1. É bom que saibamos a verdade, sim. E eu adoro História: acabei de comprar hoje "Salazar, Portugal e o Holocausto", embora cada vez menos perceba porque razão só se estuda a perseguição aos judeus e nada se diz nem escreve sobre os ciganos e demais vítimas assassinadas aos milhares por noite ...

    Aliás, os próprios judeus apropriaram-se da vitimização e não têm uma palavra sobre o tema!

    Boa semana

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    1. É verdade, São, tens razão, mas os judeus foram realmente a maioria das vítimas. E há muitos estudos sobre o Holocausto que são feitos por judeus, parece-me natural que eles se preocupem mais com o seu próprio caso. No entanto, todos os estudos sérios falam também dos ciganos, dos homossexuais, das testemunhas de Jeová, dos deficientes mentais (estes foram os primeiros a ser exterminados!).

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  2. Eu também li o artigo!
    Já tinha ouvido falar desses jovens que lutaram do lado errado mas conhecer-lhes os rostos, as famílias, as "motivações" é bem diferente!

    Abraço

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    1. É trazê-los para a vida, quer gostemos quer não!
      Bjs

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  3. Gosto muito destes artigos que nos mostram bocados obscuros da nossa História recente. Toda a gente sabe que a neutralidade de Salazar era bastante pró-germânica, mas decerto nunca soube da existência de soldados portugueses na II GG.

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    1. Salazar era pró-germânico, mas não alinhava nestes exageros. .

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  4. Excelente, o parágrafo final. Essas barreiras que indica/s persistem erradamente a vários níveis.
    Quanto ao resto, não tenho quaisquer dúvidas de que hoje as vítimas do extermínio seriam primeiramente árabes e muçulmanos.

    P.S. É sempre um prazer ler com estes "óculos", muita sabedoria... :) Bjs

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    1. Fátima, quem são os outros é determinado por quem são os nós!:)
      Bjs

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