segunda-feira, 7 de maio de 2012

Ainda os sapos e os ciganos

Gosto quando as coisas que escrevo suscitam comentários e reações diversas. Foi o que aconteceu com o post sobre os sapos e as superstições dos ciganos. Um dos comentários que recebi passou dos sapos para os significados no dicionário, e daí para os provérbios populares, passando pela velhinha canção "Eu vi um sapo". Tudo para nos pôr a refletir sobre as raízes profundas e os significados das palavras que às vezes dizemos já sem pensar. Merece transformar-se num post!


Eu vi um sapo 
Um feio sapo 
Ali na horta 
Com a boca torta
Tu viste um sapo 
Um feio sapo 
Tiveste medo 
Ou é segredo

Eu vi um sapo 
Com guardanapo 
Estava a papar 
Um bom jantar

Tu viste um sapo 
Com guardanapo 
E o que comia 
E o que fazia

Eu vi um sapo 
A encher o papo 
Tudo comeu 
Nem ofereceu

Tu viste um sapo 
A encher o papo 
E o bicharoco 
Não te deu troco

Eu vi um sapo 
Um grande sapo
Foi malcriado 
Fiquei zangado

Tu viste um sapo 
Um grande sapo
Deixa-o lá estar 
Vamos brincar.

Com 4 anos a Maria Armanda venceu o Sequim de ouro... Imaginem, logo sob a égide das Nações Unidas, pois o "Zequinho" d'ouro (como muita gente lhe chamava) era uma organização a favor da UNICEF... uma miúda xenófoba... que razões psico-sociológicas terão animado a autora Lúcia Carvalho?

Não vou analisar cada passo da letra, mas vejo-a eivada de horror xenófobo à comunidade romani... e sempre direi que a polémica dos sapos não é pior que a do dicionário Houaiss.

Pois... o Ministério Público do Brasil acha que "Ao ler-se num dicionário que a nomenclatura 'cigano' significa 'aquele que trapaceia, velhaco', entre outras coisas do gênero - ainda que deixe expresso que é uma linguagem pejorativa - fica claro o caráter discriminatório assumido pela publicação"... e vai daí sugere que o dicionário, que será apenas o melhor dicionário da Língua Portuguesa, deve ser retirado do mercado e de futuro alterar a saída para cigano (ainda que atribuída a significado pejorativo) de "aquele que trapaceia, velhaco"... mas se todos os dicionários da Língua Portuguesa fazem a mesma referência?!...

Aqui é que o "sapo torce o rabo"... é que quem decora as suas lojas com sapos de boas vindas não põe nenhum letreiro a referir "ciganos são mal-vindos"... o que o raio do sapo só falta falar é "trapaceiros são mal-vindos"... nem é preciso ler a sina do comerciante que acabou de decorar a sua loja com os famigerados batráquios... os roubos vão diminuir e a frequência melhorar... qualquer boa leitora de mãos o sabe.

Mas pronto... vou ficar mais atento a quem disser... "um olho no burro, outro no cigano", ou mesmo de ouvir "A conta dos ciganos, todos roubamos"... ou ainda "Baiano, cigano e garrucha de um cano, salva um por engano"...

Akana mukav tut le Devlesa 

(Miguel Fernandes)

16 comentários:

  1. Só há relativamente pouco tempo soube que o sequim foi uma moeda italiana.

    Cá em casa, como acho que já disse, o quarto da minha filha está cheia de sapos. Ela tem-nos desde pequenina quando ainda nem sequer sabia o que era um cigano.

    Quem eu acho mesmo cigano é o nosso PM. É cá um trapaceiro.

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  2. É precisamente este "acrescento" que alguns comentários trazem ao texto, que o enriquecem e tornam muito atractiva a blogosfera.

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    1. Por isso, eu às vezes transformo os comentários em posts.
      :)

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  3. Também acho interessante a reação que pode ser suscitada com um post e respectivos comentários. Não vejo nada de mais nesta letra. Muito menos xenofobia alguma... penso que essa, estará em quem lhe atribui significado que nem terá. Esta é a minha interpretação. Mas, quem sou eu, dessas coisas xenófobas não entendo mesmo nada... Beijo

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  4. Estas crianças preocupam-me, porque acabam geralmente por não ter um futuro lá muito brilhante.

    Lembro-me de Joselito, Vitória Maria, Shirley Temple, Michael Jackson.

    Boa semana.

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    1. O M. Jackson teve um fim bem triste, pelo menos. Perder o estrelato pode ser das melhores coisas que lhes pode acontecer.
      Bjs

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  5. Coitada da Maria Armanda e da autora da letra, que provavelmente não faziam ideia desses mitos e ritos de sapos e ciganos, e agora apodadas de xenófobas! :)))

    Quanto a alterar o conteúdo da entrada no dicionário, não adiantaria de muito, porque os dicionários refletem a mentalidade de um povo, não são eles que estipulam essa mesma mentalidade. E se lá está, é devido à palvra ter entrado no vacabulário popular, com essa acepção! :)

    Beijocas!

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  6. Eva, Teté
    Parece-me que a história da xenofobia da Maria Armanda era uma ironia. Eu entendi-o assim.
    Bjs

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  7. Os ditos populares estão eivados destes males!
    Do tipo" Trabalhar que nem um negro", "Mourejar de sol a sol"," Onde há homens não se confessam mulheres", etc, etc, etc! :-))

    Abraço

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    1. Os provérbios populares são muito interessantes por isso, mostram as atitudes ancestrais...
      Bjs

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  8. A Maria Armanda fez um sucesso à "custa" do sapo e o país contente porque ganhar, sabe sempre bem!
    O "meu" sapo de criança era sempre um príncipe que vinha salvar a princesa mal fadada... Agora, os "meus sapos" são outros, viscosos, repelentes, a engordar à custa dos incautos.
    Beijocas
    Graça

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    1. Os sapos da nossa infância eram mais simpáticos, não é verdade?
      Bjs

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  9. Os dicionários foram feitos por velhacos. Precisam de revisão assim como a reciclagem do pensamento comum. Bem, os sapos são como os elefantes, trazem sorte! Essa é a explicação que tive quando questionei. O bom do sapo é que não precisa ficar com as costas viradas para a porta. Ah, também espantam o mau olhado. Algumas coisas passam batido! Eu não havia reparado o preconceito a respeito dos ciganos nos dicionários, mas deve ter dos negros, dos pobres... "as minorias" e nem sei se são minorias... tudo errado!!
    Boa semana! Beijus,

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    1. Luma
      Tocou num ponto interessante: as que chamamos minorias,na verdade constituem a maioria da população, pelo menos em certos locais, certo?

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  10. Ando um boacado por fora aqui das blogosferas, não apanhei o início da história do sapo mas ri-me com a músicaagora... Caramba, eu tinha um disco da Maria Armanda, quando era miúda... =) Os ciganos são realmente muito mal cotados...Mas é uma pena. São uma cultura fascinante, com uma história difícil... Que bom que os trouxeste "à baila"!

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