sexta-feira, 18 de maio de 2012

Sem Reservas

Ultimamente, a minha vida tem andado complicada e nem tenho tido tempo para visitar os blogues dos amigos. E vou mesmo ter de fazer uma pausa. Prometo voltar, claro! Mas, entretanto, deixo os visitantes que por aqui passarem, na minha ausência, muito bem acompanhados: deixo-os com a música dos Dead Combo, um duo de guitarristas portugueses. Começaram com a música de Carlos Paredes, hoje produzem uma música muito interessante e atual, embora mantendo a portugalidade nas raízes. Hoje em dia, os Dead Combo conseguiram uma proeza notável: um lugar entre os dez mais vendidos no Top do iTunes dos Estados Unidos da América.
Como é que eles conseguiram isso? Fazendo a maior parte da banda sonora do programa "No Reservations" de Anthony Bourdain, filmado em Lisboa. É um programa extraordinário, em que o apresentador e gastrónomo deambula por Lisboa, pelos sabores e pela cultura lisboeta, guiado por "especialistas" como os chefs José Avilez e Henrique Sá Pessoa, António Lobo Antunes e a fadista Carminho, um pescador de polvo e o humorista Zé Diogo Quintela. Entre outros, anónimos ou não, que compõem a fauna da nossa capital. 
Para quem ama Lisboa, como eu, é um programa imperdível. Vale a pena perder aqui um pouco de tempo.
Assim, sem mais palavras, deixo-vos com Anthony Bourdain e os Dead Combo. Sem Reservas!

terça-feira, 15 de maio de 2012

Os Sonhos

O que é a Esperança? Se calhar é a coragem de olhar para cima, para fora das dores, da depressão. Ter a coragem de sair do desamor, sair de si, sair para a rua, sair para a vida. E lutar pelo direito a ser feliz.
Este post responde a um desafio do blogue Luz de Luma, O Amor aos Pedaços, este mês com o tema Esperança.



Quando Viv abriu a porta, Mister Nobody e Mister Nowhere adiantaram-se simultaneamente para a cumprimentar.
- Bom dia, Viv.
- Como está, Viv?
- Eu sou Mr. Nobody.
- Eu sou Mr. Nowhere.
- Estamos aqui para lhe sermos úteis…
- Sim, podemos ser-lhe de grande utilidade.
- Isto, se nos poder pagar.
- Mas o pagamento é negociável, é claro.
Viv olhava surpreendida para os dois homens, enquanto continuava, mecanicamente, a limpar as mãos ao avental. Não sabia o que pensar de todo aquele arrazoado.
- Se os senhores vêm vender enciclopédias, ou trens de cozinha a um preço excepcional, ou conjuntos de atoalhados incrivelmente baratos, ou mesmo uma nova religião, aviso-vos desde já que não estou interessada.
- Não, não, de forma alguma.
- Não é esse o nosso ramo de actividade.
- Trabalhamos com coisas menos palpáveis, mas mais concretas.
- Ou menos concretas, mas mais palpáveis.
- Em todo o caso, assuntos do seu interesse.
Viv começava a ficar impaciente. Observava os seus dois interlocutores que, a princípio, lhe tinham parecido idênticos como duas folhas da mesma árvore. Agora, começava a notar-lhes diferenças, como a expressão maliciosa do homem que se intitulava Nobody, ou o tique nervoso que levantava o lábio do homem que se chamava Nowhere. No restante, a semelhança era plena: o mesmo fato escuro de bom corte, o mesmo penteado um pouco fora de moda, a mesma estatura, a mesma verbosidade. Faziam lembrar uma nova versão dos simpáticos gémeos Dupont e Dupond.
- Muito bem, qual é então a vossa actividade?
- Realizamos sonhos…
- …os mais profundos, os mais íntimos…
- …aqueles sonhos que nunca pensou que se pudessem realizar…
- …ou mesmo aqueles que nunca teve a coragem de sonhar.
E miravam Viv com a mesma sorridente tranquilidade que apresentariam se tivessem simplesmente acabado de declarar que vendiam qualquer produto de consumo corrente, de aquisição garantida no supermercado mais próximo. Viv não sabia o que pensar. Os dois homenzinhos pareciam tão inofensivos, quase cómicos! Talvez fossem doentes mentais, fugidos do manicómio. Engraçada, no entanto, essa ideia de realizar os sonhos; era pena que não pudesse ser verdade. E Viv suspirou, olhando de soslaio a cozinha, onde os pratos do almoço ainda se empilhavam, dentro do lava-loiça. Mr. Nowhere olhou também, Mr. Nobody executou. Pratos e copos, tachos e panelas, talheres e panos da loiça, voaram pelo ar, até se recolherem, misteriosamente limpos, às suas prateleiras habituais.
Viv deixou-se cair numa cadeira, estarrecida de espanto.
- Mas quem são os senhores, afinal? Como é que fizeram isso?
Mr. Nobody e Mr. Nowhere não pareceram preocupados em responder. Em vez disso, encaminharam-se para a sala, como convidados largamente familiarizados com a disposição da casa, e instalaram-se com grande à-vontade num sofá. Viv seguiu-os, incapaz de articular uma palavra.
- É o seu marido?
Uma moldura, colocada na mesinha de canto, viera inexplicavelmente parar à mão de Mr. Nobody, que a observava com atenção. Mostrava um homem ainda novo, de bigode e cabelo encaracolado, o corpo vigoroso enfiado num fato de treino, o pé direito apoiado numa bola de futebol. Um ar de saúde e de satisfação própria desprendia-se da fotografia.
- É, sim – balbuciou Viv. Ele gosta muito de desporto.
- E a Viv, de que é que gosta?
Assim, de repente, Viv não conseguiu responder. Já não se lembrava de pensar nos seus próprios desejos, nos seus gostos e anseios. Fazendo uma rápida retrospectiva dos últimos anos, Viv só conseguiu recordar-se de cestos de roupa para engomar, do almoço e do jantar feitos para horas certas e comidos em silêncio frente à televisão, dos passeios ao domingo, do sexo feito sem vontade nem paixão. Resolveu não responder. Estes dois estranhos não tinham o direito de pretender penetrar na sua vida privada.
Mr. Nowhere e Mr. Nobody esperavam, pacientes. Vendo que Viv se mantinha calada, recomeçaram a falar, desencantando suavemente do seu passado sensações e anseios há muito enterrados.
- É pena que o seu marido não tenha querido ter filhos…
Viv interrompeu, explicando apressadamente que ele queria, mas não para já, achava que ainda era cedo, era melhor esperarem até terem uma situação económica mais desafogada. Mas os dois estranhos personagens pareciam não a ouvir, e continuavam a falar, sem alterarem o tom de voz.
- … como é pena que nunca tenha permitido que a Viv se empregasse…
- O lugar da mulher é no lar…
- Quero-te só para mim, e outras coisas do género.
- Muito comuns, estas situações.
- Sim, embora menos do que no passado.
- Mas continuam a aparecer-nos com alguma frequência.
- É verdade, infelizmente.
- Mesmo quando trabalham fora de casa…
- … não têm liberdade para tomar decisões.
- Que foi feito do seu violino?
- Deixou-o em casa dos seus pais, não foi?
- O seu marido achava o som irritante…
- …achou que não valia a pena enervá-lo…
- …assim como assim, a sua vida ia mudar…
- …já não precisava mais do violino, em suma.
- Grande erro!
- É sempre um engano pensar que podemos prescindir das coisas de que gostamos…
- …das pequenas coisas que nos fazem felizes…
- …mesmo que sejam pueris…
- …ou até ridículas aos olhos das outras pessoas!
- Ninguém dava nada pelo seu futuro como violinista.
- Nem o seu professor de violino!
- Mas a Viv gostava de tocar…
- …gostava de se imaginar no palco, aplaudida por uma plateia entusiástica e extasiada.
- Enquanto tocava, habitava num mundo só seu…
- …e era feliz.
- Nunca devemos abrir mão dos pequenos nadas que nos fazem felizes.
- O resto…
- …o que se espera da vida…
- …às vezes, é mais imaginário ainda.
- E os seus desenhos, Viv?
- Porque é que nunca os mostrou a ninguém?
- Nem à sua mãe…
- …nem ao seu marido…
- …a ninguém.
- Mas os seus desenhos eram bons.
- Cores escolhidas com sensibilidade…
- …um traço muito personalizado…
- …grande imaginação.
- Os seus desenhos eram bons e a Viv sabia isso.
- Até pensou em ir para Belas-Artes.
- Mas desistiu de realizar esse sonho…
- …enterrou-o.
- Com o violino.
- Negociou-o por uma marcha nupcial.
- Trocou-o pela arte culinária…
- …pelas meias para coser…
- …pelas camisas para engomar.
- Talvez o seu marido gostasse dos seus desenhos!
- Intimamente, a Viv sabia que não era essa a vida que ele tinha decidido para si…
- …por si.
- Sabia que isso os levaria a conflitos.
- Preferiu evitá-los…
- …desistiu…
- …ainda antes de tentar.
- Sabia que talvez acabasse por ter de fazer opções.
- Não tinha coragem para as fazer…
- Nem mesmo para as imaginar.
- Recolheu-se à vida que ele criou para si.
- Escondeu-se dele…
- …e de si própria.
- Estamos aqui para lhe oferecer essas opções.
- A opção do sonho…
- …da vida …do risco…
- …do sucesso…
- …ou do fracasso.
- A opção é sua, agora.
- O preço é razoável.
- Uma parte de remorso…
- …uma parte de solidão…
- …um pouco de coragem.
- Demore o tempo que quiser. Estamos à sua disposição.
- Sim, não temos pressa.
As ideias chocavam-se, numa mistura confusa, dentro da cabeça que Viv apertava com as mãos. Ouvira os dois homens como se as suas palavras viessem de outra dimensão, para lá da realidade, transportando consigo emoções e imagens já tão antigas, esbatidas pelo passar do tempo e que agora, chamadas pelas suas vozes, voltavam fortes e urgentes. A sua sensibilidade tinha a percepção do que eles lhe propunham, embora não o entendesse claramente. Tudo o que sempre tinha desejado ressurgia agora, num contraste claro e chocante com o quotidiano monótono dos últimos anos. Mas a proposta daqueles homens era tão estranha como eles. Comportava riscos, insegurança, representava um salto no desconhecido. Viv nunca tinha arriscado nada na vida. A sua vida de insatisfações e frustrações recalcadas era-o, via-o agora com toda a nitidez, o preço que pagara pela segurança, pela recusa dos riscos. Talvez estivesse na hora de pagar outro preço.
Levantou a cabeça, olhou para os dois homens que esperavam, tranquilos. Quis explicar muitas coisas, com eles podia falar, eles sabiam coisas que ela própria já havia esquecido, mas só conseguiu dizer baixinho: “Sim”.
Mr. Nowhere fez um gesto decidido com a mão, enquanto Mr. Nobody pestanejava. Depois, cumprimentaram-se, como dois adversários de pois de um jogo de ténis. Levantaram-se simultaneamente, adiantando-se ambos para Viv com um aceno de despedida.
- Adeus, Viv.
- E não pense mais em nós.
- Hoje, a Viv não falou com ninguém… - disse Mr. Nobody.
- …em lado nenhum. – completou Mr. Nowhere.
Viv acompanhou-os educadamente até à porta. Ainda estava atordoada. No quintal, ao lado da tangerineira, avistou uma estátua num pequeno pedestal: representava um homem vigoroso, de bigode e cabelo encaracolado, o fato de treino e a bola de futebol a darem o toque desportivo. Quando se aproximou da estátua, o último sopro de vida desaparecia ainda dos olhos que, gradualmente, se transformavam em órbitas de gesso, vazias de sentido.
As figuras de Mr. Nobody e Mr. Nowhere também já começavam a desvanecer-se, como imagens de fotografias antigas que, a pouco e pouco, vão perdendo o brilho e a nitidez dos contornos. As suas vozes eram cada vez mais sumidas.
- Faz parte do preço, Viv.
- Só a Viv o vai ver… todos os dias…
- …aí, no seu quintal.
- Seja feliz, Viv.
As duas imagens desapareceram por completo.
Viv ainda ficou uns minutos parada no quintal, esforçando-se por assimilar tudo o que acontecera nessa tarde. Depois, deu por si a admirar o pôr do sol. Então, com passos decididos, dirigiu-se para casa, acabando de tirar o avental e fazendo planos de liberdade. Ainda havia esperança.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O Conto do Vigário

Não sei se foi por, hoje de manhã, ouvir partes do debate quinzenal na Assembleia da República. Talvez tenha sido um acaso. Mas a verdade é que me recordei de um texto que me enviaram, aqui há tempos, sobre a origem dessa manifestação cultural que dá pelo nome de Conto do Vigário. O texto vem atribuído a Fernando Pessoa; não sei se o é, se é obra do ortónimo, de algum dos heterónimos, ou se é um neterónimo, isto é, circula na net  como sendo da sua autoria, mas sem validação nem provas.
Assim, vou publicar este texto tal como mo passaram a mim.

(Retrato de Fernando Pessoa por Almada Negreiros - 1935)

A Origem do Conto do Vigário

Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário.
Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa. Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: «Sr. Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me falta passar. O senhor quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.» «Deixa ver», disse o Vigário; e depois, reparando logo que eram imperfeitíssimas, rejeitou-as: «Para que quero eu isso?», disse; «isso nem a cegos se passa.» O outro, porém, insistiu; Vigário cedeu um pouco regateando; por fim fez-se negócio de vinte notas, a dez mil réis cada uma.
Sucedeu que dali a dias tinha o Vigário que pagar a uns irmãos negociantes de gado como ele a diferença de uma conta, no valor certo de um conto de réis. No primeiro dia da feira, em a qual se deveria efectuar o pagamento, estavam os dois irmãos jantando numa taberna escura da localidade, quando surgiu pela porta, cambaleando de bêbado, o Manuel Peres Vigário. Sentou-se à mesa deles, e pediu vinho. Daí a um tempo, depois de vária conversa, pouco inteligível da sua parte, lembrou que tinha que pagar-lhes. E, puxando da carteira, perguntou se, se importavam de receber tudo em notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois chamou, com um olhar rápido, a atenção do irmão para as notas, que se via que eram de cem. Houve então a troca de outro olhar.
O Manuel Peres, com lentidão, contou tremulamente vinte notas, que entregou. Um dos irmãos guardou-as logo, tendo-as visto contar, nem se perdeu em olhar mais para elas. O vigário continuou a conversa, e, várias vezes, pediu e bebeu mais vinho. Depois, por natural efeito da bebedeira progressiva, disse que queria ter um recibo. Não era uso, mas nenhum dos irmãos fez questão. Ditava ele o recibo, disse, pois queria as coisas todas certas. E ditou o recibo – um recibo de bêbedo, redundante e absurdo: de como em tal dia, a tais horas, na taberna de fulano, e
«estando nós a jantar (e por ali fora com toda a prolixidade frouxa do bêbedo...), tinham eles recebido de Manuel Peres Vigário, do lugar de qualquer coisa, em pagamento de não sei quê, a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis. O recibo foi datado, foi selado, foi assinado. O Vigário meteu-o na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais vinho, e daí a um tempo foi-se embora.
Quando, no próprio dia ou no outro, houve ocasião de se trocar a primeira nota, o que ia a recebê-la devolveu-a logo, por escarradamente falsa, e o mesmo fez à segunda e à terceira... E os irmãos, olhando então verdadeiramente para as notas, viram que nem a cegos se poderiam passar.
Queixaram-se à polícia, e foi chamado o Manuel Peres, que, ouvindo atónito o caso, ergueu as mãos ao céu em graças da bebedeira providencial que o havia colhido no dia do pagamento. Sem isso, disse, talvez, embora inocente, estivesse perdido.
Se não fosse ela, explicou, nem pediria recibo, nem com certeza o pediria como aquele que tinha, e apresentou, assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis. «E se eu tivesse pago em notas de cem», rematou o Vigário «nem eu estava tão bêbedo que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam.» E, como era de justiça foi mandado em paz.
O caso, porém, não pôde ficar secreto; pouco a pouco se espalhou. E a história do «conto de réis do Manuel Vigário» passou, abreviada, para a imortalidade quotidiana, esquecida já da sua origem.
Os imperfeitíssimos imitadores, pessoais como políticos, do mestre ribatejano nunca chegaram, que eu saiba, a qualquer simulacro digno do estratagema exemplar. Por isso é com ternura que relembro o feito deste grande português, e me figuro, em devaneio, que, se há um céu para os hábeis, como constou que o havia para os bons, ali lhe não deve ter faltado o acolhimento dos próprios grandes mestres da Realidade – nem um leve brilho de olhos de Macchiavelli ou Guicciardini, nem um sorriso momentâneo de George Savile, Marquês de Halifax.
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Contado por Fernando Pessoa.
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(publicado pela primeira vez no diário Sol, Lisboa, ano I, nº 1, de 30/10/1926, com o título de «Um Grande Português». Foi publicado depois no Notícias Ilustrado, 2ª série, Lisboa, 18/08/1929, com o título de «A Origem do Conto do Vigário»)



quarta-feira, 9 de maio de 2012

Postal de Lisboa XX - Os sabores de Lisboa

Uma cidade também se define, entre outras coisas, pelos seus cheiros e sabores. Por isso, é tão diferente ver um filme,  mesmo panorâmico, mesmo em 3D, ou passear vagarosamente pelos lugares, deixar-se contagiar pelo que têm para dar, saboreá-los com os cinco sentidos.
Quanto aos sabores, Lisboa é uma cidade de petiscos. Vejam-se os fins de tarde em qualquer esplanada, ou nessas tascas recuperadas e subitamente na moda mas que, apesar disso, não perdem o seu ar um pouco popular e fadista. Não temos o hábito das tapas, como os nossos amigos espanhóis, mas perdemo-nos por um prato de caracóis!
Mas, ao fim e ao cabo, quais são os petiscos lisboetas? Fui à procura deles. E cheguei à conclusão de que os mais famosos e originais são os que resultaram da mistura da necessidade com a criatividade!


Em primeiro lugar, os peixinhos da horta! Segundo parece, surgiram na Lisboa medieval, quando, em vez do peixe ou do camarão, se fritava o feijão verde plantado nas hortas saloias pelos mouriscos. Depois, as pataniscas:  a base é idêntica à dos peixinhos da horta, também leva farinha, ovo e vinho branco, mas agora o ingrediente que reina são as aparas do bacalhau. Temos ainda os pastéis de bacalhau, cuja criação é atribuída aos galegos residentes em Lisboa, ao juntarem ovos batidos às sobras de batatas e bacalhau.
Depois dos petiscos, a sobremesa, porque os lisboetas são gulosos, já se sabe. E aqui, não posso deixar de referir o pastel de nata. Teriam sido os frades jerónimos a criar esta delícia, em que se recheia um folhado estaladiço com um creme à base de ovos, açúcar e natas. No início do século XIX, foi criada em Belém a mais célebre fábrica de pastéis de nata, guardiã do segredo da receita conventual.


Não posso esquecer o Bolo Rei, criado pela Confeitaria Nacional ainda nos tempos da monarquia, e sobre o qual já escrevi antes.
Enfim, para acompanhar a sobremesa, nada como uma ginginha ou um Eduardinho, bebidos mesmo ao balcão, naquelas tasquinhas da Baixa que lhes contam a história!

Este post foi de deixar água na boca!

(imagens da net)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Ainda os sapos e os ciganos

Gosto quando as coisas que escrevo suscitam comentários e reações diversas. Foi o que aconteceu com o post sobre os sapos e as superstições dos ciganos. Um dos comentários que recebi passou dos sapos para os significados no dicionário, e daí para os provérbios populares, passando pela velhinha canção "Eu vi um sapo". Tudo para nos pôr a refletir sobre as raízes profundas e os significados das palavras que às vezes dizemos já sem pensar. Merece transformar-se num post!


Eu vi um sapo 
Um feio sapo 
Ali na horta 
Com a boca torta
Tu viste um sapo 
Um feio sapo 
Tiveste medo 
Ou é segredo

Eu vi um sapo 
Com guardanapo 
Estava a papar 
Um bom jantar

Tu viste um sapo 
Com guardanapo 
E o que comia 
E o que fazia

Eu vi um sapo 
A encher o papo 
Tudo comeu 
Nem ofereceu

Tu viste um sapo 
A encher o papo 
E o bicharoco 
Não te deu troco

Eu vi um sapo 
Um grande sapo
Foi malcriado 
Fiquei zangado

Tu viste um sapo 
Um grande sapo
Deixa-o lá estar 
Vamos brincar.

Com 4 anos a Maria Armanda venceu o Sequim de ouro... Imaginem, logo sob a égide das Nações Unidas, pois o "Zequinho" d'ouro (como muita gente lhe chamava) era uma organização a favor da UNICEF... uma miúda xenófoba... que razões psico-sociológicas terão animado a autora Lúcia Carvalho?

Não vou analisar cada passo da letra, mas vejo-a eivada de horror xenófobo à comunidade romani... e sempre direi que a polémica dos sapos não é pior que a do dicionário Houaiss.

Pois... o Ministério Público do Brasil acha que "Ao ler-se num dicionário que a nomenclatura 'cigano' significa 'aquele que trapaceia, velhaco', entre outras coisas do gênero - ainda que deixe expresso que é uma linguagem pejorativa - fica claro o caráter discriminatório assumido pela publicação"... e vai daí sugere que o dicionário, que será apenas o melhor dicionário da Língua Portuguesa, deve ser retirado do mercado e de futuro alterar a saída para cigano (ainda que atribuída a significado pejorativo) de "aquele que trapaceia, velhaco"... mas se todos os dicionários da Língua Portuguesa fazem a mesma referência?!...

Aqui é que o "sapo torce o rabo"... é que quem decora as suas lojas com sapos de boas vindas não põe nenhum letreiro a referir "ciganos são mal-vindos"... o que o raio do sapo só falta falar é "trapaceiros são mal-vindos"... nem é preciso ler a sina do comerciante que acabou de decorar a sua loja com os famigerados batráquios... os roubos vão diminuir e a frequência melhorar... qualquer boa leitora de mãos o sabe.

Mas pronto... vou ficar mais atento a quem disser... "um olho no burro, outro no cigano", ou mesmo de ouvir "A conta dos ciganos, todos roubamos"... ou ainda "Baiano, cigano e garrucha de um cano, salva um por engano"...

Akana mukav tut le Devlesa 

(Miguel Fernandes)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O Recado


- N.º 1, n.º 2…
A professora começou a fazer a chamada e os alunos iam levantando o braço para assinalar a sua presença.
- … n.º 3, n.º 4…
Na última fila da sala, António deu uma cotovelada ao colega do lado: “Passa este recado para a Carolina!” O colega acenou brevemente com a cabeça e pôs o recado a avançar em direção à primeira fila. António ficou a ver o pequeno papel dobrado a passar de mão em mão.
- …n.º 7, n.º 8…
Tinha passado um bom bocado do serão, no dia anterior, a compor as frases que agora avançavam naquele papel dobrado. Misturava a lua com o brilho das estrelas e a cor do mar com a frase fundamental: “Gosto de ti!” O resultado final tão depressa lhe parecia inspirado, romântico e poético, como lhe soava a idiota e fora de moda. Agora, já não havia nada a fazer. O papel avançava inexoravelmente para a sua destinatária.
- …n.º 11, n.º 12…
Lá à frente, Carolina folheava distraidamente o livro. E então António viu o papel com o seu recado amoroso ser entregue à colega que se sentava ao lado, Catarina. Sentiu tonturas, o chão pareceu engoli-lo. Poucas vezes tinha falado com ela, o que é que a rapariga ía pensar dele?
- …n.º 17, n.º 18…
Viu-a desdobrar o papel e ler o recado. Teve tempo para ler pelo menos três vezes, até levantar os olhos e voltar a cabeça para trás. Sorria!
- …n.º 21, n.º22…
Sem saber o que fazer, António sorriu também. A professora tinha terminado a chamada, e a aula começou, mas António não conseguia concentrar-se. Perto do final da aula, sentiu uma cotovelada do colega e caiu-lhe um papelito dobrado no colo. Leu: “Eu também gosto de ti! No intervalo grande, na pastelaria da D. Fernanda.”
Três anos depois, continuavam juntos. Nunca tinha confessado à Catarina o engano e, no entanto… Enquanto passeavam de mãos dados, António pensava naquele papelito dobrado, que não tinha sido entregue à destinatária, mas que, sem sombra de dúvida, tinha chegado ao destino certo.



(Este texto integra-se no desafio de maio da Fábrica de Letras
que tem o  tema Destino)

terça-feira, 1 de maio de 2012

Originalidades portuguesas no 1.º de maio

Hoje, na maioria das cidades da Europa e do mundo livre, os trabalhadores manifestaram-se nas ruas. Em Portugal, somos criativos e originais, por isso as manifestações decorreram nos supermercados Pingo Doce. 
A lembrar outros tempos, apenas as esporádicas intervenções da polícia, agora a impedir agressões entre clientes.


(imagem tvi multimedia)