sábado, 31 de dezembro de 2011

Entre o fim de ano e o ano novo

Nesta altura do ano, somos bombardeados com programas televisivos que fazem resumos e releituras do ano que finda e se sondam os auspícios para o ano que vai começar. É uma época de balanços, esperanças e intenções. Sonhos que se descartam, ultrapassados ou derrotados. Outros que se iniciam e firmam os primeiros passos. É uma época estranha, quase mágica. Lembrei-me de Carlos Drummond de Andrade. Tinha um conjunto de poemas chamados, bem a propósito, Poemas de Dezembro. Pesa-se o ano que termina com os olhos nos voos que já se vislumbram. 

Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
- flor do cotidiano -
é vôo de um pássaro
é uma canção. 
(Dezembro de 1968)
Mas o Poeta também nos deixou uma belíssima Receita de Ano Novo. Para quê procurar afincadamente no mundo à nossa volta o que tem de começar dentro de nós?

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Adeus Querido Líder

Hoje foi a sepultar o Querido Líder. Ou talvez a embalsamar, para se manter disponível para a adoração forçada dos seus súbditos. Confesso que me sinto aliviada. Já não suportava ligar a televisão e ver filas ordeiras de pessoas a destilar lágrimas e sofrimento à ordem de um dos regimes mais autoritários e brutais do mundo, naquele que é, ao mesmo tempo, um dos países mais pobres do mundo. Enfim, para abreviar, um país onde há dinheiro para armas nucleares mas não para aliviar a fome do seu povo.
No entanto, ao mesmo tempo, tornou-se um espetáculo fascinante assistir à escalada da ostentação da dor. Num dia viam-se as pessoas a chorar e arrepelar os cabelos, no dia seguinte eram as crianças das escolas, a histeria foi aumentando como se cada um tivesse de mostrar mais dor que o vizinho do lado. A loucura atingiu um patamar superior no dia em que um locutor anunciou (sem se rir!) que a natureza também mostrava o seu pesar pela morte do querido líder, pois os pássaros tinham parado nas árvores. Será que não há limites para o ridículo?
Esta histeria coletiva induzida fez-me lembrar a época da morte do pai do Querido Líder, em 1994. A mesma loucura, as mesmas lágrimas. As pessoas eram aconselhadas a ir várias vezes prestar homenagem e demonstrar a sua dor. Também foi dito que os grous tinham descido do céu em demonstração de pesar. E um locutor até disse (também sem se rir!) que, se as pessoas chorassem muito, o Supremo Líder poderia voltar à vida. E as pessoas obedientemente choraram. Claro que Kim Il Sung não voltou à vida, mas foi continuado pela sua sequela, Kim Jong Il, o Querido Líder.
Tudo isto tem uma vantagem. Quando, neste ano letivo, quiser explicar aos meus alunos as características dos regimes ditatoriais, e lhes falar no totalitarismo, na censura, no culto da personalidade, eles vão recordar-se desta situação tão recente e perceber muito melhor como funciona um regime que controla os corpos mas também as mentes, as consciências, da sua população.
Ultrapassaram-se os limites do ridículo. Ou talvez nem seja ridículo. Apenas triste.


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Crónica de Natal

Quando chega esta época do ano, é irresistível fazer um balanço. O Natal é um marco importante do ano, junto ao final do ano civil, coincidente com o solstício de inverno, a época mais fria e escura de todo o calendário. Por isso temos a tendência de a encher de luzes, cores e alegria. Podemos gostar ou não. Ele aí está, pontualmente, todos os anos.
Confesso que este Natal me pareceu diferente dos anteriores. Festejei-o num contexto diferente, embora com as mesmas pessoas, os que amo e me apoiam desde sempre. Mas foi o ambiente geral que me pareceu diferente. Suponho que a culpada é a crise. E, no entanto (que me desculpem os desempregados e outras pessoas que sentem a crise de forma mais aguda), nalguns aspetos pareceu-me melhor e mais genuíno.
Comecemos pela Baixa lisboeta. Costumava rebentar de luzes e enfeites de Natal. Em Novembro já havia anjinhos e pinheiros por todo o lado, bolas vermelhas e douradas, cânticos de Natal. Este ano a contenção de despesas ditou a contenção das decorações. Por um lado tenho pena. Mas, por outro lado, quando chegava realmente o Natal, já todos sofríamos de overdose de espírito natalício. Este ano não corremos esse risco.


(Lisboa à noite, no Natal)
Depois, havia a pressão consumista. Todos competiam pelas prendas maiores, mais caras, mais vistosas. Eu via isso nos meus alunos. Todos comentavam as prendas que tinham recebido, o novo computador, a “Play-station”, o telemóvel último modelo. Se algum se atrevia a confessar um simples modelo da Lego para montar, ou um livro sobre magia, era ouvido com olhares de comiseração e risos sarcásticos. Este ano o ambiente foi diferente. A nota dominante era a compra de umas lembranças. Coisas mais simples, talvez mais sentidas e personalizadas. Ouvia-se dizer que o que era importante era estar com a família, com saúde e amizade. E isso é que é mesmo o mais importante!
Tudo tem os seus aspetos positivos e negativos. Há sempre dois lados para a mesma moeda. E se a crise nos trouxe de volta a uma realidade menos feérica e menos materialista mas mais sentida e mais de acordo com o espírito da época, então, vamos aprender, crescer e sair da crise um pouco melhores do que éramos antes.