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Dos Livros

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(Kansas City Public Library, Missouri - fotografia do Google) Desde sempre associei o verão aos livros e às leituras. Não sei bem porquê. Talvez porque no verão, nas férias, tenho mais tempo para ler. Ou talvez porque estar debaixo de um chapéu de sol, com uma brisa agradável e uma bebida fresca, acompanhada por um bom livro, é um dos meus ideais de bem estar! Seja como for, dei por mim a pensar em livros. E lembrei-me daquela magnífica biblioteca pública, em Kansas City, cuja fachada é composta por lombadas de livros, agrupados como numa gigantesca prateleira, enormes, poderosos!  Isto de estar de férias é assim mesmo! Temos tempo e disponibilidade mental para pensar no que nos apetecer! E fiquei a pensar, para comigo, que livros escolheria se me fosse dada a possibilidade de organizar uma fachada assim, para uma biblioteca, uma feira do livro, ou qualquer outro sítio dirigido aos amantes da leitura. O primeiro de que me lembrei foi o D. Quixote. Confesso aqui que tenho...

No meu peito não cabem pássaros

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Gosto muito de ler e ando sempre com um livro (ou dois, ou três) atrás de mim. Quando acabo de ler um livro, no entanto, não costumo ter esta urgência em escrever ou falar do que li. Mas este livro é diferente. Peguei nele porque o autor, Nuno Camarneiro, tinha ganho o Prémio Leya 2012. Tinha uma expectativa aberta, esperava que fosse bom sem saber bem o que me daria. A sinopse do livro perguntava: " Que linhas unem um imigrante que lava livros num dos primeiros arranha-céus de Nova Iorque a um rapaz misantropo que chega a Lisboa num navio e a uma criança que inventa coisas que depois acontecem? Muitas. Entre elas, as linhas que atravessam os livros." O rapaz que chega a Lisboa é Fernando Pessoa, a criança que inventa coisas e histórias é Jorge Luis Borges, o imigrante em Nova Iorque é alegadamente Franz Kafka. As histórias que ali nos surgem são imaginadas, mas consigo encontrar as palavras de Borges e os sonhos de Pessoa. De Kafka, perdoem-me a ignorância ou a falt...

Receita-me um livro?

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Há algum tempo atrás, José Eduardo Agualusa apresentou-nos a Dona Aurora, uma velha conhecedora de mezinhas e magias, que receitava poesias. Digamos que ela conhecia a magia da poesia! E, para os males do corpo, mas principalmente do espírito, a Dona Aurora receitava poemas, de Camões a Drummond de Andrade, com a respetiva posologia: este era para ser murmurado ao ar livre, outro para ser sussurrado ao ouvido, e por aí fora... Francisco José Viegas relembra-nos Sinouhe, o médico e espião do faraó, (criado por Mika Waltari), cujo pai acreditava nas virtudes terapêuticas das palavras.  Podia continuar a dar exemplos. A verdade é que esta ideia fez o seu caminho e o insuspeito Serviço de Saúde de Inglaterra parece ser o exemplo mais recente. Acaba de criar o programa "Books on Prescription", em parceria com a Reading Agency e a Associação Britânica de Bibliotecários e, a partir do próximo mês de maio, os médicos podem passar uma receita original: a leitura de um livro! ...

O menino que gostava de ler

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Era um menino que gostava de ler. Tinha aprendido, juntamente com os outros meninos da fazenda, na pequena escola que ficava no topo da colina. Mas, enquanto os outros se encantavam com os pássaros e os toiros, ele fascinava-se com as letras. Lia tudo o que encontrava, os cartazes da beira da estrada, os farrapos de notícias que chegavam a esvoaçar em pedaços perdidos de jornais, os rótulos das latas que se deitavam fora, as bulas dos remédios para os cavalos. Punha a cozinheira maluca, sempre a ler os escritos das embalagens. Só lhe faltavam os livros... Até que um dia tudo mudou. Houve um grande incêndio na fazenda. Foi o pânico, todos corriam de um lado para o outro, acartando água, batendo no chão com pequenos ramos para evitar reacendimentos, ou apenas gritando e atrapalhando todos os que tentavam salvar a aldeia e os campos de cultivo à volta. Ninguém ligava importância ao garoto, que fugiu pelos campos para o sítio que lhe pareceu mais seguro: a Casa Grande. Em situações n...

Dia dos Livros

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  A educação é a arma mais poderosa que se pode usar para mudar o mundo. (Nelson Mandela) No dia 23 de abril de 1564,  nasceu William Shakespeare. A 23 de Abril de 1616, faleceram Shakespeare e Cervantes. E, sabe-se lá porquê, outros escritores escolheram esta data para nascer ou para morrer, como Garcilaso de Vega, Maurice Druon ou Vladimir Nabokov. Por isso, a UNESCO escolheu esta data para Dia Mundial do Livro. É um bom pretexto para homenagear os que escrevem e motivar os que lêem. Toda a minha vida vivi rodeada de livros, amigos ou refúgios de todas as horas. Moldaram muito do que penso e sou. Aproveitando a data, deixo uma sugestão: oferecer um livro! Há-os para todos os gostos e de todos os preços. E depois, aproveitar aquela hora sossegada, do deitar, ou do descanso após o almoço, e ler com as crianças. É na infância que se cria o gosto pelas letras. É a época dos sonhos, e os livros ajudam-nos a sonhar. Mas também nos ajudam a compreender o mundo e a estru...

Wilt

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Haverá melhor maneira de fintar a crise do que rindo? Talvez por essa razão apeteceu-me ler um livro leve e bem disposto e, em boa hora, um amigo recomendou-me este “Wilt”, de Tom Sharpe, um homem multifacetado que, entre outras coisas, foi professor de História. Hoje, Sharpe vive alternadamente entre Cambridge e a Catalunha. É autor de vários livros, a maioria num registo cómico. Quem é então Wilt? Henry Wilt é professor no Instituto de Letras e Tecnologias de Fenland. Há anos que tenta enfiar Literatura na cabeça de aprendizes de estucadores, canalizadores, talhantes, instaladores de gás. Em casa, a coisas também não vão bem com Eva, a sua maciça e dominadora mulher. As fantasias de Wilt em relação a Eva tornam-se cada vez mais assassinas e, após uma experiência dolorosa e humilhante numa festa, Wilt lança-se na preparação da vingança. Eva desaparece e as suspeitas da polícia recaem sobre Wilt, que é preso e interrogado durante dias. É nessa altura que a experiência de Wilt n...

A propósito d' O Anjo Branco

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Acabei de ler há pouco tempo o livro de José Rodrigues dos Santos O Anjo Branco, publicado pela Gradiva. Conta a história de José Branco, desde a sua infância em Penafiel, até à sua vida de médico no norte de Moçambique, em plena Guerra Colonial, passando pela sua vivência de jovem universitário em Coimbra. Confesso que não o achei uma grande obra literária. As personagens são pouco elaboradas, unidimensionais. O ritmo da ação é lento, entrecortado por diálogos às vezes repetitivos, pouco profundos. No entanto, a história de José Branco acaba por se tornar um simples pretexto para a verdadeira história do livro, que é o colonialismo em Moçambique nos anos 60 e 70 do século passado, a Guerra Colonial, os contextos sociais e políticos, as motivações, os soldados, os colonos, os funcionários. A PIDE. Os combates e o massacre de Wiriamu. Os participantes e os espectadores. Como documento de uma época, esta é uma obra que vale a pena ler. Talvez não seja um romance histórico, mas é c...

Grácia Nasi, uma história de vida

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Hoje, quarta-feira de cinzas, começou oficialmente a Quaresma. Para os cristãos é um tempo de reflexão, de pensar em coisas sérias. Dei por mim a pensar na problemática religiosa no mundo actual, na tolerância versus intolerância, nos vários tipos de fundamentalismos. E, bem a propósito, lembrei-me do último livro que li, intitulado Grácia Nasi - A Judia portuguesa do Século XVI que enfrentou o seu próprio destino. Escrito por Esther Mucznik, é um livro fascinante. Não é um romance, é antes uma biografia de uma vida tão cheia e aventurosa que parece um romance. E lê-se com a mesma avidez. Grácia Nasi nasceu em Portugal em 1510, numa família judaica expulsa de Espanha. Em Lisboa, a família enfrenta a conversão forçada ao cristianismo, no reinado de D. Manuel, e Grácia é baptizada como Beatriz de Luna, mantendo toda a vida esta vivência ambivalente. Fica viúva muito cedo, herdando a fortuna do marido e continuando o seu percurso como uma verdadeira mulher de negócios. Mas a época é difíc...

Modesta homenagem a Saramago

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Era um homem de convicções fortes e gostava de polémicas. Podiamos não estar de acordo com ele, podiamos achar que, por vezes, raiava os limites da inconveniência. Podiamos entrar no jogo e perder tempo a discutir pormenores das suas opiniões, sobre a Bíblia, ou a união de Portugal com Espanha, ou qualquer outro assunto. Ou podiamos simplesmente abrir um livro e deixarmo-nos conduzir pela sua escrita, original e inebriante. Eu sempre optei pela segunda opção. Amei a escrita de Saramago desde as suas primeiras obras, que conheci durante os anos 80: "Levantado do Chão", "O ano da morte de Ricardo Reis", "A história do Cerco de Lisboa", "As intermitências da morte", são livros que guardo no coração, e que gosto ainda de reler. Há quem goste e refira outros, mais conhecidos. Há quem fale bem ou mal, sem nunca lhe ter lido uma linha.  " Quer que chame um táxi para a levar ao hotel, e a mulher respondeu, Não, ficarei contigo, e ofereceu-lhe a boc...

Ler devia ser proibido

L embram-se do Book, aquele dispositivo bio-óptico inovador que vos mostrei aqui ? Pois, a propósito do Book, a We enviou-me outro video, absolutamente excepcional, e que eu quero partilhar com todos. Este pequeno filme explica-nos como ler pode ser perigoso e porque devia ser proibido. Tremendamente provocador, finamente irónico, este filme faz-nos reflectir. Mas eu não vou desvendar mais nada, convido-vos a ver, e a enfrentar as consequências. Mesmo arriscando-nos a ficar tremendamente mais humanos.

Book - O que é isto?

Hoje celebra-se o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Não há data melhor para celebrar o Conhecimento e o papel da imprensa na divulgação desse Conhecimento.  Através do programa "Memória do Mundo", a UNESCO tem promovido a identificação e preservação de documentos e arquivos de grande valor histórico, assegurando a sua ampla disseminação. Entre eles contam-se, por exemplo, o original da 9ª sinfonia de Beethoven, a Bíblia de Guthenberg ou a Carta de Pêro Vaz de Caminha (o primeiro bem português inscrito no programa). Aproveitando a data, a autora do blogue Marcas de Água propôs a postagem simultânea deste video. O Carlos, das Conversas Daqui e Dali divulgou a ideia e eu aderi. Quem quer aderir também? Este video provoca-nos, ao mostrar-nos uma incrível novidade científica, o dispositivo bio-óptico de conhecimento organizado. Vale mesmo a pena ver! (Atendendo às reclamações, postei aqui outro video, de formato mais reduzido, com a vantagem de ser legendado em português...

A Neblina do Passado

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Ainda à boleia do  Dia Mundial do Livro , que se comemorou há pouco, resolvi dar uma olhadela aos livros que tenho lido nos últimos tempos e eleger aquele de que gostei mais. Como todos sabem, sou um tanto caótica nas minhas leituras e leio todo o tipo de coisas, desde que me despertem a atenção, por alguma razão. Geralmente, tenho um fraquinho pela literatura lusófona mas, desta vez, o meu eleito não é um autor lusófono. É Leonardo Padura e o seu livro A Neblina do Passado.  Comprei-o por curiosidade, porque ganhou o Prémio Dashiell Hammett 2006, da Associação Internacional de Escritores de Romances Policiais. No entanto, A Neblina do Passado  é muito mais do que um livro policial. É uma viagem pela história de Cuba nos últimos cinquenta anos e  uma visão, desencantada e realista, da vida quotidiana na Havana da actualidade.  Havana, Verão de 2003. Passaram-se catorze anos desde que o desencantado tenente Mario Conde abandonou a polícia. Durante esse tempo, C...

Uma boa notícia no Dia Mundial do Livro

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Aqui há tempos, insurgi-me neste blogue contra a destruição de livros, alguns de indiscutível valia, que todos os anos é efectuada pelas editoras portuguesas. Hoje, a Ministra da Cultura declarou que sentia vergonha dessa situação (só lhe fica bem ter vergonha!) e que, para possibilitar a doação dessas obras excedentárias, as iria isentar de IVA e Direitos de Autor. Assim, as Editoras poderão doar estas obras, sem custos para ninguém. Enfim, uma boa notícia. E, neste Dia especial para todos os que gostam das palavras e dos livros, deixo Palavras de outros, que humildemente faço minhas. Palavras para ler e pensar. "Toda a beleza recôndita do mundo converge na arte da palavra."                   (Gabriele d'Annunzio) "Que outros se gabem das páginas que têm escrito; a mim orgulham-me as que tenho lido. Não terei sido um filólogo, não terei inquirido sobre as declinações, os modos, a laboriosa mudança das letras (...), mas ao longo d...

Estamos a destruir livros?

Esta semana, até parece que estou numa qualquer cruzada contra o nosso Ministério da Cultura, mas não é verdade. O que acontece é que acabo de tropeçar em mais uma notícia daquelas que nos faz questionar: "Onde está o Ministério da Cultura, quando precisamos dele?" Segundo descobri no Sebenta do Nando , há várias Editoras a destruir livros, dando como razão o facto de já não terem saída comercial. O método já não é a fogueira, agora é a guilhotina, sem dúvida um método mais discreto e ecológico. Mas... há no meio dos livros destruídos obras de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço, Vasco Graça Moura, Maria Teresa Horta e tantos outros autores importantes da Língua Portuguesa! Será que também já não têm valor comercial? E, mesmo que assim seja, não há outros fins mais dignos?  Estamos sempre a ser solicitados para campanhas de doação de livros para escolas em países lusófonos, por exemplo. Não seria possível doar esses livros e, com o patrocínio da nossa transpor...

Renascer aos 63 anos

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Morreu Rosa Lobato de Faria. Internada desde há uma semana no hospital, acabou por falecer com uma anemia grave.  Publicou vários livros de poesia e, a partir de 1995, vários romances. Destaco "O Pranto de Lúcifer", um livro cativante e surpreendente, e esse belíssimo "O Prenúncio das Águas", que já li e reli várias vezes, escrito a cinco vozes, num cenário poético e um pouco fantástico, uma barragem que enche vagarosamente, obrigando ao deslocamento de uma aldeia inteira. Senti bastante a sua morte. Achava-a uma mulher forte, por trás de uma aparência frágil. Não se fechou numa redoma. Não hesitou em participar em filmes e telenovelas, fez letras para canções, foi interveniente sem deixar de ser elegante. Mas, acima de tudo, mostrou que, quando se tem um espírito rico, a velhice é uma letra morta. Publicou o seu primeiro romance aos 63 anos. E, nessa altura, disse numa entrevista:  “E, um dia, quando eu tinha 63 anos, Deus quis que eu nascesse de novo. .." Qu...

Resolução de Ano Novo

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J á o disse antes, final do ano é tempo de balanço.  Este ano, iniciei dois blogues, que me têm dado muito prazer, pela interacção, pela partilha. Mas, não há dúvida, têm-me tirado algum do pouco tempo livre que tenho disponível para outra actividade que me é querida, a Leitura. Ler é também viajar, entrar noutros mundos, conhecer pessoas e locais, viver aventuras alegres ou sombrias. Acima de tudo, para mim, a leitura é um espaço de recolhimento e reflexão que me faz muita falta. Porque gosto dos autores lusófonos contemporâneos, tenho tentado conciliar essas leituras com o blogue, publicando aqui algumas resenhas e, principalmente, impressões pessoais. Agora, fiz uma resolução para o novo ano. Algum visitante mais atento talvez tenha já reparado na lista que coloquei na barra lateral do blogue. Vou apontar aqui os livros que for lendo ao longo do ano. Para já, o objectivo é ler 24 livros, o que significa dois livros por mês. Não é um objectivo ambicioso, mas é exequível. E ...

As 3 Vidas

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Depois de antecipar gostosamente a publicação do último livro de Saramago, a polémica que se levantou à volta do tema do livro esfriou-me o entusiasmo. Hei-de ler “Caim”, claro, mas mais tarde, quando as discussões e argumentos pró e contra não me contaminarem a leitura. Em vez desse, comprei então outro livro “As 3 Vidas”, de João Tordo, contemplado com o Prémio José Saramago de 2009. Que extraordinária surpresa eu tive! João Tordo é um escritor jovem, que tem trabalhado como jornalista e guionista. Este é o seu terceiro romance, embora eu não tenha lido nenhum dos anteriores. Neste livro, João Tordo mostra um excelente domínio da língua portuguesa, escrevendo com muito ritmo e com uma clareza e um rigor notáveis. O romance inicia-se nos princípios dos anos 80, quando o protagonista, ainda muito jovem, se vê de repente órfão de pai e com a mãe, debilitada física e emocionalmente, e a irmã mais nova, a seu cargo. A necessidade de dinheiro leva-o a aceitar um misterioso trabalh...

1 Km de cada vez

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T odos temos os nossos heróis. Alguns são heróis de toda a gente; não conheço ninguém que não admire Martin Luther King ou Gandhi. Mas, depois, há os outros. Os nossos heróis pessoais, aqueles que, sendo pessoas comuns, admiramos mais abertamente ou mais secretamente, numa admiração feita de sonhos repartidos ou afinidades e identificações inesperadas. Gonçalo Cadilhe está nessa minha prateleira dos heróis pessoais. Porquê? Talvez porque, aos vinte e quatro anos, teve a coragem de virar as costas a um curso e um emprego para perseguir um sonho: viajar. Não o posso fazer, nunca pude, nunca poderei. Sempre houve outras urgências e contingências que condicionaram a minha vida, como a da maior parte das pessoas. Admiro-o por isso. Mas há outras razões. Gonçalo Cadilhe escreve livros de viagens, das viagens que faz. Não são simples descrições de lugares, são esboços emocionais. Porque os lugares agem sobre nós e tornam-nos diferentes. E nós também agimos sobre os lugares, porque não ...

Os Anagramas de Varsóvia

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É o título do último livro de Richard Zimler. Para quem não conhece, Zimler é um americano radicado há muito aqui em Portugal, mais precisamente no Porto. De origem judaica, toda a sua família materna morreu no vendaval nazi que varreu a Europa dos anos 30 e 40. Essa origem judaica perpassa na sua obra, desde O Último Cabalista de Lisboa, editado já em 1996, e que decorre na Lisboa do início do século XVI, no momento em que acontece o primeiro grande ataque aos judeus em Portugal. Continua com Goa ou o Guardião da Aurora , um dos livros da minha vida, que retrata a actuação da Inquisição goesa, ou com À procura de Sana , que tem como pano de fundo a angústia do conflito israelo-palestiniano. Também o livro Os Anagramas de Varsóvia nos leva atrás no tempo, ao gueto de Varsóvia, onde milhares de judeus são encerrados, em condições cada vez mais penosas, até à Solução Final. Basicamente, é um livro policial. Erik Cohen, um velho psiquiatra, com a ajuda do seu velho amigo Izzy, tenta ...

A mão esquerda de Deus

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De entre os livros que li ultimamente, quero salientar esta obra de Pedro Almeida Vieira, A mão esquerda de Deus, editada pela Dom Quixote. Não conhecia o autor e o que primeiro me interessou foi o tema: a história da vida de Alonso Perez de Saavedra, o andaluz que conseguiu ser aceite como núncio apostólico em Lisboa e primeiro Inquisidor-Geral de Portugal. Um ingrediente interessante é que esta história efectivamente circulou como verdadeira, sendo mencionada por homens como Voltaire. No entanto, parece que esta rocambolesca história é tão falsa como as burlas e falsificações atribuídas a Saavedra. É com este fundo que o autor constrói um romance que nos vai levando pelo século XVI fora, traçando um retrato muito pormenorizado da sociedade e das intrigas políticas e diplomáticas da época. Acaba por ser também um romance de amor, já que é o amor por uma judia que leva o protagonista a tomar algumas das suas opções. Tentando manter um registo linguístico próximo do da época, o prota...