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Turismo vs. Vandalismo

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Ontem à tarde, tive de ir à Baixa fazer umas compras. Caminhava sem pressas, a apreciar o sol, que não nos tem brindado muito com a sua presença nestes últimos tempos! Vinha do Rossio para os Restauradores e o meu olhar foi irresistivelmente atraído para o espaço vazio onde, até à semana passada, estava a estátua de D. Sebastião, antes de ser destruída pela vã glória de uma foto. Uma figura relativamente pequena, num nicho entalado entre dois arcos em ferradura, na frontaria da Estação do Rossio. Dois arcos em ferradura, talvez a lembrar-nos do cavalo branco que deveria trazer-nos de volta, numa manhã de nevoeiro, aquele pequeno rei.  Não sou grande admiradora de D. Sebastião. Foi um rei pequeno, na estátua e na História, um rei sonhador e aventureiro, que levou Portugal para uma aventura sem lógica e sem glória, cujo final é de todos conhecido. O jovem Sebastião e os seus sonhos foram o resultado de um determinado contexto político, social, religioso e ideológico, dir-m...

Amadeo de Souza Cardoso, o modernista esquecido

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Amadeo em Paris Em boa hora vai realizar-se em Paris, no Grand Palais, uma grande exposição que reúne e divulga a obra de Amadeo de Souza Cardoso.  Como portuguesa e frequentadora do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, a obra de Amadeu sempre me foi familiar. Lembro-me também de uma grande exposição que a Gulbenkian organizou, aqui há anos, com a retrospetiva do pintor, e que foi um tremendo sucesso. Mas fora de Portugal o seu nome é quase desconhecido e isso é uma enorme injustiça. Entrada Esta semana, foi a anteestreia do filme/documentário Amadeo Souza Cardoso, o segredo mais bem guardado da arte moderna. Realizado pelo francês luso-descendente Cristophe Fonseca, mostra-nos o percurso do pintor, desde a sua infância minhota, até à sua morte precoce, em 1918. E permite compreender melhor a dimensão da sua obra e as razões do seu esquecimento. Através da tela, seguimos o autor para Paris, onde conhece e se torna amigo de alguns dos grandes nom...

Pagar para visitar?

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Ontem, ao princípio da tarde, quis experimentar a minha máquina fotográfica nova e fui até Cacilhas. Há muitos anos que não andava por aquelas bandas, mas a ideia era fotografar Lisboa do outro lado do Tejo. Mudei de ideias quando vi, ancorada junto ao Clube Náutico de Almada, a fragata D. Fernando II e Glória.  Antiga fragata de guerra, construída na India portuguesa, em Damão, foi lançada às águas em 1843. Embora fosse um navio de guerra, transportava passageiros e fazia a ligação entre Portugal e os territórios portugueses na India. Já no século XX, foi transformada em Navio-Escola de Artilharia Naval e depois em sede da Obra Social da Fragata D. Fernando, recolhendo rapazes com fracos recursos económicos, que aí recebiam instrução escolar e treino de Marinharia. Em 1963, sofreu um violento incêndio e permaneceu encalhada no rio Tejo até 1992, altura em que foi novamente posta a flutuar e reconstruída.  Restaurada tal como era na década de 1850, a fragata D. Fe...

E depois... há a arte urbana!

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No último post, escrevi sobre os atos de vandalismo que, disfarçados de grafitis, desfeiam e destroem o nosso património. Parece-me que ficou claro que não têm nada de comum com os desenhos, por vezes muito interessantes e imaginativos, que surgem em alguns locais da cidade.  Não aparecem em qualquer lado. Os artistas, porque neste caso é disso que se trata, escolhem um local ou são convidados para preencher um espaço. Geralmente, são espaços degradados ou desvalorizados da cidade. Às vezes, são prédios à espera de recuperação. Outras vezes, são muros ou espaços vazios. Os desenhos são criativos, dinâmicos. Enfim, é arte urbana. Rápida, efémera, mas arte, mesmo assim! Infelizmente, uma pesquisa rápida na internet traz-nos sites que baralham as coisas e metem na mesma gaveta grafitis artísticos e os rabiscos que conspurcam os nossos espaços. E essa confusão não é saudável para ninguém. Creio que se devem admirar uns enquanto se condenam duramente os outros. E acho at...

O Sião em Belém

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Hoje, a princesa Maha Chakri Sirindhorn, herdeira do trono tailandês, está em Lisboa para inaugurar a Sala Thai, um pavilhão tailandês oferecido pelo seu país a Portugal no âmbito das comemorações dos 500 anos de relações diplomáticas entre os dois países. Foi em 1511 que o navegador português Duarte Fernandes aportou a Ayuthaya, capital do Reino do Sião (atual Tailândia). Foi bem recebido pelo rei, firmando com ele uma aliança que ainda hoje se mantém. Para comemorar tão antiga aliança, o governo tailandês encomendou e construiu em Banguecoque o pavilhão que foi depois transportado de barco até ao Jardim Vasco da Gama, em Belém, onde está montado desde o final do ano passado. Esta obra lindíssima foi concebida pelo arquitecto    Athit Limmu e acabou por representar o «símbolo da amizade» entre os dois países, por se inspirar nas linhas arquiteturais da cidade de Banguecoque e no Mosteiro dos Jerónimos.  O telhado foi coberto com placas que se assemelham à pele ...

A igreja mais antiga de Portugal

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A lápide lá está a atestar a data da edificação: 912. O que significa que esta igreja perfaz este ano 1100 anos e,  ao olharmos as pedras e os arcos que a compõem, vemos mais do que pedras e arcos. Vemos testemunhas de correrias de cristãos e mouros que, à época, ainda antes da formação de Portugal, disputavam estes territórios. Vemos uma demonstração de religiosidade sentida e que necessita de se afirmar, numa zona recém-conquistada aos infiéis. Vislumbramos uma época de recursos escassos e soluções tecnológicas ingénuas. Mas conseguimos adivinhar também uma época de trocas económicas e culturais, visível nas influências diversas e bem heterogéneas desta pequena igreja. Falo da Igreja de São Pedro de Lourosa, situada no concelho de Oliveira do Hospital. Podia acrescentar aqui imensos pormenores arquitetónicos e artísticos, mas o propósito deste blogue não é científico, por isso não me vou alargar em considerações que podem ser encontradas aqui ou aqui . Deixo este desafio para...

Castelos no Ar

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(Castelo de Beja, com a sua bela Torre de Menagem) Gosto de Castelos. Há quem diga que eu passo a vida a fazer castelos no ar, a cabeça nas nuvens, envolta em sonhos e planos mais ou menos realizáveis. Mas, quando escrevi “gosto de castelos”, referia-me mesmo aos castelos de pedra e madeira, a esses símbolos de outras épocas, aos quais já quase nem prestamos atenção, de tão vulgares que são na nossa paisagem. Por isso, o nosso humorista Herman José, quando se referia a uma povoação portuguesa, acrescentava sempre “…com o seu castelo altaneiro!” Portugal tem, realmente, uma densidade enorme destes monumentos, das maiores da Europa. O que diz bem da nossa situação de fronteira, de territórios permanentemente ameaçados, ou em disputa. No sul do nosso país, lembram-nos a instável linha de fronteira com o Al-Andaluz muçulmano; na zona da raia, a necessidade de defesa em relação ao poderoso inimigo castelhano. Todos juntos, ajudam a perceber porque é que Portugal é o país com fronteiras def...

Património da Humanidade

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Palácio de Monserrate - Sintra (Foto de Fernando Ferreira) O reconhecimento de um património histórico ou natural, a nível mundial, é feito pela UNESCO. Portugal tem 13 sítios ou conjuntos classificados, 12 do Património Histórico, 1 do Património Natural ( a Floresta Laurissilva da Madeira). Aí estão eles, acompanhados do ano em que foi feita essa declaração. Centro Histórico de Angra do Heroísmo (Açores) - 1983 Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém (Lisboa) - 1983 Mosteiro da Batalha - 1983 Convento de Cristo (Tomar) - 1983 Centro Histórico de Évora - 1986 Mosteiro de Alcobaça - 1989 Paisagem Cultural de Sintra - 1995 Centro Histórico do Porto - 1996 Sítios de Arte Rupestre do Vale do Côa - 1998 Floresta Laurissilva da Ilha da Madeira - 1999 Centro Histórico de Guimarães - 2001 Região Vinhateira do Alto Douro - 2001 Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico (Açores) - 2004 Mosteiro dos Jerónimos - Lisboa (Foto de Fernando Ferreira) Neste momento, está em estudo a candidatura de ...

Desafio

Na sequência da declaração da Cidade Velha de Santiago, em Cabo Verde, como Património Mundial da Humanidade, de que falei ontem aqui, resolvi fazer um desafio a quem me visita: quem sabe quais são os sítios portugueses declarados pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade? Não falo de vestígios portugueses no mundo, mas sim do património de Portugal. Vou dar uma ajuda: são 13 sítios, 12 de património construído, 1 de património natural. Deixo este desafio até ao fim de semana. Alguém quer responder?

As Pegadas de Portugal no Mundo

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(Forte de São Filipe - portugalnotavel.com) Já tenho falado deste assunto aqui no blogue. Os portugueses andaram por todo o lado, descobriram meio mundo, comerciaram com a outra metade e, pelo meio, foram deixando os seus vestígios: a língua, a religião, os costumes e muitas construções. Efectivamente, nunca nos bastou o mero contacto casual, episódico. Sempre gostámos de nos misturar com as populações, de lançar raízes. Construímos fortalezas, igrejas, feitorias, mas também casas, núcleos urbanos que, por vezes, foram desaparecendo, engolidos pelo progresso. Alguns ficaram, porém, e atestam hoje da nossa presença em locais tão distantes como Mazagão, Santiago ou Malaca. A que propósito vem isto? A UNESCO, durante a reunião do Forum Mundial que decorreu em Sevilha, anunciou que a Cidade Velha de Santiago, em Cabo Verde, foi declarada oficialmente Património Mundial da Humanidade. Foi a primeira povoação edificada pelos europeus , neste caso pelos portugueses, nos trópicos e primeira ...

Ainda o Buçaco

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O Palace Hotel fica no Buçaco, mas o Buçaco não é só o Palace Hotel. E eu não era eu se não andasse por todo o lado, a procurar tudo o que pudesse ser interessante. Para começar, a Mata do Buçaco. Área protegida, foi mandada plantar pelos frades da Ordem dos Carmelitas Descalços, que aí construíram um convento no início do século XVII, o Convento de Santa Cruz, de que hoje pouco resta. A Mata vale bem um passeio, com tempo para apreciar os recantos, a vegetação densa, com destaque para os imponentes cedros: alguns desses cedros datam do século XVII e estendem-se para o céu como colunas formidáveis. Por toda a zona envolvente do hotel, encontram-se também ermidas e pequenas capelas, assim como uma interessante Via Sacra. Infelizmente, todas apresentam o mesmo ar de abandono, sujas, sem iluminação, com as imagens partidas. Os percursos pedestres também não estão bem sinalizados, levando a enganos frequentes. Há dois miradouros que vale a pena procurar, o das Portas de Coimbra, bem pert...

Dormir num palácio

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Fiz anos, muitos, meio século. E uma das prendas que recebi foi um fim-de-semana no Palace Hotel do Bussaco. Nunca lá tinha estado e foi, realmente, uma experiência extraordinária. O Palácio que hoje funciona como hotel foi construído em 1885 para os reis de Portugal; o rei D. Carlos gostava de o usar como pavilhão de caça. É de uma beleza e harmonia únicas. Construído no mais exuberante estilo neo-gótico, mais exactamente neo-manuelino, multiplica rendilhados, pináculos, gárgulas. Se o exterior é deslumbrante, o interior não o é menos. Aos emblemas reais, às cordas, aos motivos florais, esculpidos em todos os salões e corredores, juntam-se quadros, frescos e painéis de azulejos que evocam Camões e os Lusíadas, mas também outros episódios dos Descobrimentos. Por exemplo, a grande escadaria central está ladeada por dois grandes painéis de azulejos que representam a conquista de Ceuta e a reconquista de Goa. Mas surgem também, logo no salão da entrada, as guerras peninsulares e as lutas ...

Postal de Lisboa III - Igreja da Conceição Velha

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Perto do Campo das Cebolas, andando na direcção do Terreiro do Paço, um pouco escondido dos olhares mais distraídos, surge-nos o Portal da Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha. Juntamente com a Casa dos Bicos, é dos poucos edifícios que restaram, nesta zona de Lisboa, da época anterior ao Terramoto de 1755. Paro a admirar aquele belo portal e, como sempre, surpreendo-me por não encontrar aqui o enxame de turistas que sempre rodeiam a Casa dos Bicos. Bem sei que a Casa dos Bicos é um exemplar pouco comum de arquitectura civil, com as suas pedras talhadas em ponta de diamante, embora seja a traseira do prédio, já que a parte nobre, a frontaria, ruiu com o terramoto. Como seria? Portal da Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha (foto de Fernando Ferreira) O Portal da Igreja da Conceição Velha não lhe fica atrás em nada, com a sua riqueza escultórica, a beleza e a perfeição dos detalhes. No entanto, não chama tanto a atenção de quem passa. A mim, surpreende-me semp...