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Quando o pé foge para o chinelo...

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Era uma frase que se ouvia frequentemente, durante a minha infância. Significava que se estava a fazer qualquer coisa que não era apropriada para quem se assumia como uma senhora, ou um cavalheiro. Quando se fazia barulho na rua, quando se ria alto, ou se utilizava calão, ou se diziam asneiras, ou, de alguma maneira o nosso comportamento não era dignificante... estava o pé a fugir para o chinelo! Era a velha oposição entre uma Senhora e uma Mulher da Rua, metaforicamente simbolizadas pela oposição entre o sapato e o chinelo.  Lembrei-me desta frase a propósito da brincadeira que a Chica lançou: uma palavra por semana; e cada um, se quiser entrar na brincadeira, constrói uma frase que inclua essa palavra! Sem ultrapassar as sete palavras! Parece mais fácil do que realmente é! A palavra desta semana? Chinelo, é claro! Mas, atualmente, o chinelo já não significa qualquer diferença social. Há chinelas para todos os gostos e todos os preços! E quando, hoje, dizemos que nos ...

Quem matou as princesas da minha infância?

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Eram todas lindas e inocentes. Loiras ou morenas, europeias, índias ou cheias de encanto oriental, sofriam os mais horríveis tormentos, eram abandonadas, maltratadas, humilhadas, sempre sem um pensamento de vingança. No final, a sua bondade, beleza e inocência acabavam por levar a melhor sobre a maldade do mundo que as rodeava. Encontravam um principe, ou um sapo charmoso, e viviam felizes para o resto da vida. E nós também iamos felizes para a cama. Eram as princesas da Disney. A Branca de Neve e a Cinderela, a Mulan e a Pocahontas. Acompanharam a infância e os sonhos de gerações de meninas, desde a minha mãe à munha filha. As princesas da Disney eram as nossas heroínas e os nossos modelos. Descobri há pouco tempo que um artista plástico decidiu pegar nessas fantásticas princesas da nossa infância e transformá-las em personagens eróticas. Eu sei, eu sei: há fetiches de todo o estilo e feitio e isto já não é novidade. Mas, até agora, não era arte. E eu senti-me verdadeirame...

Confissões e confessionários

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Hoje, fui à Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, assistir a um recital de uma amiga. Confesso que, no entanto, metade do tempo do concerto passei-o absorta, mergulhada em recordações que saltavam de cada parede e de cada imagem. Vivi na Penha de França até aos dez anos, e foi naquela igreja que fiz a Primeira Comunhão. Assisti a missas e aulas de catequese. Depois, mudei de casa. E já ali não entrava há quarenta anos! Mas lembro-me tão bem das escadarias, das imagens, dos candelabros que oscilam sobre os altares laterais, das colunas verdes e douradas que ladeiam o altar-mor! E dos mármores, brancos, verdes, rosados, que tornavam a igreja fria e a missa mais comprida! Ficava sempre com os pés frios e apetecia-me bater com eles no chão, para os aquecer. Mas lá estava o olhar do meu pai, para me manter em sentido e bem comportada! Eu achava as missas um bocado aborrecidas, com muitas palavras e orações que eu repetia sem compreender. Porém, gostava das h...

A Simplesmente Maria

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Comemorou-se esta semana (mais precisamente no dia 13) o Dia Mundial da Rádio. Contrariamente ao que previam os profetas da desgraça, a rádio não desapareceu com o desenvolvimento da televisão. Continua de boa saúde e a fazer companhia aos automobilistas durante as longas horas de deslocações a que todos estamos sujeitos. Mas não há dúvidas de que já não tem a importância que tinha noutros tempos. Nos dias da minha infância, tinha centralidade na vida diária, acompanhava as tarefas domésticas e todos conheciam os principais programas e cantarolavam os mesmos anúncios.  Tudo isto fez-me lembrar a "Simplesmente Maria". Quem se recorda? Era uma rádio-novela, ou folhetim radiofónico, que passava diariamente na Rádio Renascença. Começou em 1973 e só terminou nos finais de 1974, tendo feito a transição revolucionária sem perturbações. Era transmitida a seguir ao almoço e Portugal quase parava para ouvir a "Simplesmente Maria". O nome já diz muito: era uma história para...

O Maestro José Atalaya da minha infância

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Num dos últimos posts que fiz, intitulado  A Música anda por aí,   mencionei um maestro que eu ouvia encantada na televisão, quando era pequenita, e que me acordou para a música chamada clássica, através das explicações e comentários que fazia das peças musicais. Algumas das pessoas que têm a simpatia de seguir este blogue e por aqui vão deixando as suas opiniões, perguntaram-me pelo nome desse maestro. Até avançaram com alguns nomes como hipótese. Confessei que não me recordava. Lembrava-me que era forte, tinha uma espessa barba escura e era um grande comunicador. A única vantagem de estar em casa com gripe é, precisamente, ter algum tempo livre para fazer leituras ou pesquisas e aproveitei para tentar encontrar na internet esse maestro que emergiu das minhas recordações de infância. Não foi preciso procurar muito. O nome tocou logo as campainhas da minha memória. As barbas espessas, agora já não escuras mas muito brancas, desfizeram as dúvidas. Era o maestro José Atalaya. ...

Recordar Phil Collins

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Hoje, o músico Phil Collins anunciou o fim da sua carreira musical. Segundo os jornais noticiavam, ele teria problemas de audição e também problemas nos nervos da mão que o impossibilitavam de tocar bateria. Agora, a preocupação dele estava centrada nos filhos.  "Vejo os prémios MTV e penso: não posso estar neste negócio. Não pertenço àquele mundo e não me parece que alguém vá ter saudades minhas." Foi assim que o britânico Phil Collins anunciou o fim da carreira de 40 anos na música. Permito-me discordar. Ele pode já não pertencer àquele mundo. Tem 60 anos e os problemas físicos não perdoam. Mas não me parece que vá ser esquecido. Lembramo-nos todos bem de muitos êxitos que teve na sua carreira a solo. E lembro-me de Phil Collins desde o tempo em que era o baterista de uma das minhas bandas de eleição, os Genesis, e, depois da saída de Peter Gabriel, também o vocalista do grupo. Não resisto a recordar o Phil Collins dessa época. Quem não se lembra de Carpet Crawlers?  Uma mú...

Cigarros, chocolates e cigarros de chocolate

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Hoje fui a uma loja especializada na venda de produtos feitos de chocolate, para comprar moedas de chocolate. À saída, vi numa caixa uns pacotinhos que se pareciam mesmo com maços de tabaco. E perguntei à vendedora: "São cigarros de chocolate?" A rapariga, muito simpática, explicou-me que não, que já não havia esse produto há cerca de dois anos, que inclusivamente podiam pagar multa se fizessem e comercializassem produtos com o feitio de cigarros, charutos ou qualquer coisas que fosse fumável. Para evitar o quê? O vício? Trocámos ali umas opiniões, saltaram logo as recordações, juntaram-se mais duas pessoas. Todos tinhamos consumido furiosamente cigarros de chocolate na infância. "Lembro-me de os comprar na taberna lá da terra, o meu pai dava-me umas moeditas..." . "Eu até coleccionava os pacotinhos com as marcas!" Afinal, nenhum de nós fumava, pelo que o efeito pernicioso dos cigarrinhos de chocolate não tinha tido efeito em nenhum de nós! A vendedora até...

O assobio do amolador

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Hoje de manhã passou um amolador pela minha rua. Ouvi o assobio, tão característico, e corri à janela como se corresse para a minha infância.  Fiquei a observá-lo. Era um velhote com um velho casaco aos quadrados e um boné na cabeça. Caminhava lentamente, a bicicleta pela mão, um caixotinho com ferramentas precariamente preso na parte de trás. De vez em quando, levava à boca a pequena gaita de beiços e soltava o seu assobio. Fazia variações: umas vezes uns sons mais curtos, outras vezes sons mais longos, mais pungentes. Percorreu a rua toda, e eu, perdida no tempo, à janela, a observá-lo. Fez-me lembrar a minha infância, quando ainda morava na Penha de França, antes de mudar para Benfica. Havia muitos vendedores de rua, homens e mulheres que passavam com os seus carrinhos, onde vendiam as mais variadas coisas. Cada um tinha o seu modo característico de se anunciar, o seu pregão. E nós nem precisavamos de perceber as palavras, só pela melodia e entoação do pregão já percebíamos se e...

Os bonecos da Rua Sésamo

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Ontem, ao fazer um zapping pelos canais televisivos, deparei com uma edição comemorativa da Rua Sésamo. Fiquei pregada à televisão, com um sorriso nostálgico e uma saudade enorme a apertar-me o coração. Os meus filhos cresceram com a Rua Sésamo. Todos os dias vibravam com as aventuras do Egas e do Becas, da Tita e do Monstro das Bolachas, do Poupas e do Conde de Kontarrr... O meu filho aprendeu a ler com a Rua Sésamo. A minha filha cresceu a cantar com a Tita. Havia sempre histórias novas, sem grandes dramatismos, mas que retratavam o quotidiano infantil e as pequenas vitórias, mas também os dramas e os medos, que povoam o dia-a-dia e o imaginário das crianças. Pegavam nos seus pequenos problemas, que podiam ir de uma ida ao médico até ao apertar dos atacadores, e tratavam-nos com graça, leveza e eficácia. O que vêem hoje as crianças? Será que a Hanna Montana ou os desenhos animados japoneses conseguem igualar a Rua Sésamo em ingenuidade e graça? Tenho as minhas dúvidas. E tenho pena. ...

Os Vitinhos deste país

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O Vitinho apareceu nas nossas televisões e nas nossas vidas faz agora vinte e cinco anos. Um amigo meu lançou uma questão pertinente: se ele fosse real o que estaria agora a fazer? O que fizeste tu da tua vida, Vitinho? É uma boa questão. Imagino o Vitinho crescido, agora com 26 ou 27 anos. Já só os pais e os tios o tratam por Vitinho, para o resto do mundo ele é o Vitor Qualquer-Coisa. Provavelmente, estudou, talvez até tenha entrado numa Universidade e tirado um curso superior. Talvez esteja agora à procura de emprego, ou a ganhar 700 euros por mês como funcionário num "call-center". Imagino que pode ter emigrado. Agarrou uma oferta de emprego na Inglaterra ou em Angola, em Espanha ou no Dubai, e lá foi ele. Tem saudades do sol, ou da praia, ou do bacalhau, ou dos fins de tarde na esplanada a comer caracóis e a beber cervejas com os amigos, mas sabe bem que aqui não tem futuro. Pode até ter entrado numa Juventude Partidária e estar a desbravar um futurozinho como político n...

A alma é uma biblioteca

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Escreveu Rubem Alves que a nossa alma é uma biblioteca, onde guardamos as nossas histórias. Gosto desta ideia. De facto, ao longo dos anos, vamos guardando dentro de nós as nossas histórias, bem arquivadas por temas, idades, graus de intensidade com que nos marcaram, ou simplesmente empilhadas por ali, sem grande critério, só porque nos apetece tê-las à mão.  São as histórias da infância, que a mãe ou a tia velhota nos contava e recontava com infinita paciência. É a Abelha Maia e o Carrosel Mágico. São as séries da televisão, que víamos apaixonadamente, projectando-nos nos seus heróis. Lembro-me dos "Pequenos Vagabundos" e da ânsia com que via passar o tempo para os acompanhar nas suas aventuras. Os primeiros livros com as suas tristes heroínas, "A Princesinha", "As Mulherzinhas". Depois, à medida que vamos crescendo, a nossa alma biblioteca tem de aumentar as suas instalações. Passamos a arquivar lá os nossos filmes de eleição, aqueles que nos marcaram p...

Em memória dos Slows

Finalmente, aderi ao Facebook. Depois de muita resistência, e de muitos meses a recusar os convites, lá cedi. Na verdade, fui levada por um colega que estava a organizar um encontro de antigos alunos do meu liceu e até tem sido divertido reencontrar gente que já não via há tanto tempo. Para quem gosta de escrever, como eu, o Facebook não se compara com um Blogue, que dá outra profundidade de análise e tem outro impacto. Mas é engraçado e muito interactivo. Uma das coisas que descobri foram os Grupos. Há grupos para tudo e mais alguma coisa. Um dos primeiros que descobri, chamava-se Em Memória dos Slows das Festas de Garagem,  agora com um sucedâneo chamado Mania dos Slows. Os aderentes ao grupo vão colocando online músicas antigas, que nos levam até aos tempos, recuados, das chamadas festas de garagem. Recordo-me bem desses tempos da minha juventude. Havia sempre algum amigo que tinha uma garagem, ou um armazém, ou mesmo uma sala suficientemente espaçosa. Os amigos juntavam-se, tra...