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O festival de carne de cão

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É na China, é claro! Inicia-se hoje o célebre Festival de Yulin, na província de Guangchi, onde o principal pitéu é a carne de cão.  Há já anos que se organiza este festival, sempre na altura do solstício de verão e sempre acompanhado de protestos e petições vindos de todo o mundo. Como parece evidente, as autoridades de Yulin são perfeitamente indiferentes aos protestos e continuam a organizar o festival, que é um sucesso. Só nas edições de 2014 e 2015, estima-se que tenham sido mortos e consumidos cerca de 10.000 cachorros por ano. Muitos desses cães são caçados e até roubados, para serem cozinhados no festival.  As opiniões dos chineses dividem-se: alguns dizem que comer carne de cão é um gosto, mas não uma tradição; mas muitos outros, num país conhecido pelos seus estranhos hábitos gastronómicos, consideram que é uma tradição daquela província, que não se deve quebrar. Confesso que estou a escrever tudo isto e a sentir calafrios. O cão não é como outro animal qu...

Pobres mulheres indianas

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Sucedeu esta semana na India, na região de Bengala. Uma jovem de 20 anos namorava com um rapaz de uma comunidade vizinha, o que não é bem visto nesta região do globo. Detidos pelo tribunal popular da aldeia, foram multados em 300 euros. O rapaz pagou, mas a família da rapariga alegou que era pobre e não podia pagar. O tribunal da aldeia condenou-a então a uma violação coletiva. Na passada 2.ª feira, uma jovem indiana de 20 anos foi violada por treze homens da sua aldeia, como castigo por namorar com um jovem de outra comunidade. Violada por um tribunal que não é reconhecido legalmente, mas que é respeitado pelos aldeãos. Violada por homens da sua aldeia, que ela conhecia desde sempre, a quem tratava por tio ou irmão mais velho. A violação, qualquer que seja o contexto ou a vítima, é um dos crimes mais repugnantes que existe. Há alguém que é mais forte, ou que está numa situação de poder, e a violação é a violentação física e emocional daquele que é mais fraco. É o desprezo pelo que ...

Seguindo os rebanhos

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Desde tempos imemoriais, os pastores do interior de Portugal subiam à Serra da Estrela no início do verão, para procurar as melhores pastagens. Quando os tempos frios se avizinhavam, voltavam a descer a serra, fazendo os mesmos precursos em sentido contrário. A este movimento pendular chama-se transumância. Gosto desta palavra. Etimologicamente, advém da junção do radical trans , que significa para além , com a palavra humus , terra. Isto é, designa o movimento que leva para lá da terra, cruzando culturas e experiências à cadência da passagem dos rebanhos. Neste fim de semana, foi recriada a Grande Rota da Transumância, entre Seia e as pastagens na zona do Sabugueiro. E nós fomos convidados a seguir os rebanhos pela serra acima, por caminhos seculares. O momento é de festa. Cada rebanho é conduzido pelos seus pastores, vestidos a rigor. Os bodes e os carneiros são enfeitados com bolas de lã coloridas e com grandes chocalhos, que se fazem ouvir a distância. Nas aldeias, as pesso...

O Conto do Vigário

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Não sei se foi por, hoje de manhã, ouvir partes do debate quinzenal na Assembleia da República. Talvez tenha sido um acaso. Mas a verdade é que me recordei de um texto que me enviaram, aqui há tempos, sobre a origem dessa manifestação cultural que dá pelo nome de Conto do Vigário . O texto vem atribuído a Fernando Pessoa; não sei se o é, se é obra do ortónimo, de algum dos heterónimos, ou se é um neterónimo, isto é, circula na net  como sendo da sua autoria, mas sem validação nem provas. Assim, vou publicar este texto tal como mo passaram a mim. (Retrato de Fernando Pessoa por Almada Negreiros - 1935) A Origem do Conto do Vigário Vivia há já não poucos anos, algures, num concelho do Ribatejo, um pequeno lavrador, e negociante de gado, chamado Manuel Peres Vigário. Da sua qualidade, como diriam os psicólogos práticos, falará o bastante a circunstância que dá princípio a esta narrativa. Chegou uma vez ao pé dele certo fabricante ilegal de notas falsas, e disse-lhe: ...

Ano do Dragão

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Para os Chineses, começa durante este mês (mais precisamente lá para dia 23) o ano do Dragão. É um signo poderoso, ligado a coisas positivas. Segundo parece, é um bom ano para casar - esqueçam essa história de ser bissexto! Também é um bom ano para ter filhos, iniciar negócios, pedir empréstimos para lançar projetos. Tudo dará certo, porque o Dragão protege os corajosos e audazes. E este é um Dragão de Água, propiciador da felicidade. Que refrescante saber de uma previsão para este ano que não inclui as palavras "crise", "austeridade", "cortes", ou mesmo "fim do mundo"! Ou será que as boas notícias funcionam só para a China?

Mensagens nos céus

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Aqui há tempos, encontrei num blogue amigo um texto interessante sobre a forma como os povos antigos interpretavam o céu  e as estrelas. Uma dessas interpretações espantou-me e encantou-me. Segundo parece, os índios norte-americanos consideravam que o firmamento era um livro de sabedoria, e as estrelas os ensinamentos que os primeiros homens aí tinham fixado. Lembrei-me disto ao rever as fotografias da passagem de ano. Desde a Nova Zelândia, a primeira a festejar, até às ilhas do Pacífico, durante quase vinte e quatro horas, assistimos pela televisão a uma sucessão de festejos, todos com um ponto em comum: o fogo de artifício. Por todo o mundo, à hora da passagem do ano e, neste caso, da década, estrelejaram nos céus cascatas de luzes, explosões de cores. Alguns destes espectáculos são magníficos e famosos no mundo inteiro. Outros são mais modestos, para consumo caseiro, e são lançados no largo da praça da vila mais modesta, como nas baías dos grandes centros turísticos. M...

O Bolo-Rei

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A pensar no meu amigo Shisuii, resolvi fazer este post sobre uma das coisas mais agradáveis que traz cada época natalícia: o Bolo-Rei. O Bolo-Rei é um bolo de massa levedada, como o pão, recheado com os mais diversos frutos secos e coberto de açúcar e frutas cristalizadas. Tradicionalmente, esconde na massa uma fava e um pequeno brinde. O brinde traz sorte a quem o encontra, enquanto a fava traz despesa, porque quem a apanha deve comprar o próximo Bolo-Rei. Dizem que a sua origem é francesa, mas na verdade não se parece nada com a tradicional Galette des Rois que se come em França. O que se sabe seguramente é que começou a ser vendido em Lisboa, pela Confeitaria Nacional (essa maravilhosa pastelaria da Baixa que, por si só, mereceria um post!), cerca de 1860. O sucesso foi grande e, em 1890, é posto à venda no Porto, pela Confeitaria de Cascais. O destino do Bolo-Rei esteve em perigo quando da implantação da República, já que o nome parecia uma ovação ao regime monárquico. Houve ...

Halloween à portuguesa

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Metade dos miúdos da minha escola estão hoje a combinar festas ou outras coisas para o Halloween. Sempre trabalharam isso na disciplina de Inglês, como uma tradição anglo-saxónica, mas agora está a extravasar para as ruas e o fim de semana aproxima-se como uma espécie de Carnaval antecipado semeado de filmes de terror. O Halloween é uma festa de origem pagã com mais de dois mil anos. Comemorava-se, quando as tribos Celtas festejavam o fim do verão e o início do ano novo. Terminava a metade “clara” do ano, entrando agora na metade sombria. A sua designação original era “Samhain”, ou o” Dia das Almas”, pois acreditava-se que na noite de 31 de Outubro o mundo material e espiritual  se encontravam. Lendas e contos revelavam que os mortos no ano anterior regressavam e encarnavam nos vivos para dar uma volta pelo mundo terreno. Esse era o dia de “ All Hallow Eve” (Véspera de Todos os Santos). A Igreja Cristã adoptou e reformou a festa, chamando-lhe “Dia de Finados” (2 de Novembro)...