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Das idades do amor

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Termina hoje a maratona de textos sobre o amor que me propus apresentar nesta quinzena, assim como uma espécie de preparação para o Dia dos Namorados, o dia de S. Valentim, que se celebra amanhã.  Queria terminar com um texto especial, e nenhum melhor do que esta pequena reflexão de José Saramago sobre o amor. Haverá uma idade para o amor? Se o amor é a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, então todas as idades são certas.  Penso saber que o amor não tem nada que ver com a idade, como acontece com qualquer outro sentimento. Quando se fala de uma época a que se chamaria de descoberta do amor, eu penso que essa é uma maneira redutora de ver as relações entre as pessoas vivas. O que acontece é que há toda uma história nem sempre feliz do amor que faz que seja entendido que o amor numa certa idade seja natural, e que noutra idade extrema poderia ser ridículo. Isso é uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, que é em que consiste o ...

Do amor em português

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O amor expressa-se em atos, emoções, mas também em palavras. Como escolher essas palavras? Os portugueses são tímidos, no que diz respeito à expressão dos sentimentos, são contidos, têm medo de parecer parolos, ou até piegas (agora que esta palavra entrou em força no nosso vocabulário...), têm receio de ser mal entendidos, gozados, expostos. E, em resultado dessa contenção, atrapalham-se nas palavras até lhes alterarem os próprios significados. Miguel Esteves Cardoso escreveu sobre isso, com a graça e a qualidade que já lhe conhecemos. Tão difícil escolher um texto de MEC, escolher só um! Mesmo que Dom Pedro não tenha arrancado e comido o coração do carrasco de Dona Inês, Júlio Dantas continua a ter razão: é realmente diferente o  amor  em Portugal. Basta pensar no incómodo fonético de dizer «Eu amo-o» ou «Eu amo-a». Em Portugal aqueles que amam preferem dizer que estão apaixonados, o que não é a mesma coisa, ou então embaraçam seriamente os eleitos com as versões estrangei...

Da economia do amor

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Mas, afinal, será que o amor é viável, nos países humanos? Num mundo dominado pela economia, controlado pelos mercados, qual é o valor do amor? Não é uma mercadoria transacionável, não rende juros, não desenvolve as indústrias nem os países. Ou será que não é assim? Gonçalo M. Tavares é um dos nossos escritores mais premiados, nos últimos tempos. Vale a pena ouvir o que ele tem a dizer a esse respeito. 138   A vida, é certo, não será um sítio excepcional para as paixões.   Nos países humanos, o amor mistura-se muito   com palavras equívocas.   0 fogo que existe numa lareira, por exemplo,   é um fogo servil, cultural, educado.   Uma coisa vermelha, mas mansa,   que nos obedece.   Só é natureza, o fogo na lareira,   quando, vingando-se, provoca um incêndio.   E o amor assim funciona. Mas é preferível o contrário.   139   É desarranjo de estratégias e planos,   surpresa ritmada, uma ilegalidade exaltan...

Das estratégias de atração

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Já se falou aqui nos exemplos dos animais, a propósito da fidelidade. Comparámos cisnes e ursos polares (a comparação vale o que vale, pois claro!). Até trouxemos aqui a louva-a-deus! Mas agora vou levar o desafio mais longe: com quem nos podemos comparar em termos de técnicas de atração? Até que ponto nos distanciámos já dos nossos primos mamíferos? Para nos ajudar, escolhi um texto de um professor universitário especializado em Bioética ou, dito de forma mais simples, alguém que passou a vida a bisbilhotar a vida privada dos animais, George Stilwell. Os grandes criativos nas estratégias de atração são as aves - é a mudança de guarda-roupa, são as exibições divinais de canto, são os deslumbrantes passos de dança, é o voo acrobático, é a construção de apartamentos de luxo, é a proteção da companheira... e mais uma infinidade de truques para conseguir alguns segundos de glória. Realmente não há comparação com os trapalhões dos mamíferos, que se limitam a urinar contra um tronco, an...

Da separação

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E quando o amor se acaba? Quando chega uma separação, forçada ou intencional, prevista ou inesperada? O nosso mundo fica em ruínas para sempre... ou até ao momento em que o coração, um músculo trabalhador, recomeça a bater por outro amor. Ainda bem que é assim! Martha Medeiros é uma jornalista, escritora e poetisa brasileira, e eu gosto muito de ler os seus textos. Neste, ela fala precisamente sobre esse trauma que, provavelmente, já sacudiu a vida que quase todos nós, a separação. O amor, tão nobre, tão denso, tão intenso, acaba. Rasga a gente por dentro, faz um corte profundo que vai do peito até a virilha, o amor se encerra bruscamente porque de repente uma terceira pessoa surgiu ou simplesmente porque não há mais interesse ou atração, sei lá, vá saber o que interrompe um sentimento, é mistério indecifrável. Mas o amor termina, mal-agradecido, termina, e termina só de um lado, nunca se encerra em dois corações ao mesmo tempo, desacelera um antes do outro, e vai um pouco de d...

Das horas extrordinárias do amor

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Hoje, para variar, escolhi um texto muito pequenino. Mas a quantidade não  tem de diminuir a qualidade e, nesse aspeto, é exemplar da rede social que hoje domina as relações sociais na internet, o Facebook. Este pequeníssima história de amor foi aí publicada na forma de Micro-Conto, através da página com o mesmo nome. Não posso prestar homenagem ao autor destas palavras, o conto não está assinado. Em poucas palavras, toda a intensidade do sentimento. Desde que ela para ali fora trabalhar que era evidente a cumplicidade entre ambos. Cedo começaram a trocar olhares e palavras doces. Naquela tarde de Abril, numa reunião a dois, trocaram os primeiros beijos. Apesar de tudo ter acontecido durante o expediente, foram horas extraordinárias. (Micro-Contos, Facebook) (Gustave Klimt "O Beijo", 1907-1908; óleo e folha de ouro sobre tela)

Das razões do amor

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Mas, afinal, amamos porquê? Porquê aquela pessoa e não a outra? Qual é o mecanismo? Há algum fenómeno químico, psicológico, hormonal, que leve ao amor? Não sei se António Damásio já nos poderá dar alguma resposta a tão antiga questão. Arnaldo Jabor, cineasta e jornalista brasileiro, tem uma teoria sobre isso que vale a pena ler. Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias ...

Da razão dos ursos não terem Alzheimer

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O texto sobre o amor que escolhi para hoje é provocador, tal como é provocador o seu autor, Rui Zink. Mas levanta uma questão interessante: Qual será a melhor forma de amar? Provavelmente, esta pergunta não tem apenas uma resposta, tem tantas quantas as personalidades que lhe tentarem responder. Daí que eu proponha um exercício simples. Todos conhecemos pessoas que, em matéria de amor, se assemelham ao Louva-a-deus, ao Cisne e ao Urso Polar. Qual o estilo de amor com que mais nos identificamos? Descobri, um pouco tarde, que afinal todos os meus livros são histórias de amor. Só que as daninhas estavam tão bem disfarçadas que eu próprio não tinha reparado.  O amor não salva, nunca salva, mas alguém tem uma ideia melhor?   Tão sensacional descoberta levou-me a cogitar no seguinte: e qual será a melhor forma de amar? Carente de modelos reais na vida humana, decidi procurá-los na natureza. Com a ajuda da televisão, claro, Canal Odisseia, National Geographic, Canal Panda, ess...

Do prazer da partilha

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Inicia-se hoje, aqui neste blogue, uma quinzena dedicada exclusivamente ao amor. O pretexto é o dia dos Namorados, que se festeja no dia 14 de fevereiro, mas é apenas isso mesmo, um pretexto, para celebrar o sentimento mais forte de que o ser humano é capaz: o Amor. Há muitas espécies de amor, maternal, filial, fraternal, mas o que aqui se comemora é mesmo esse sentimento inexplicável que faz um ser desejar outro ser, não um qualquer, mas apenas aquele, o que faz sonhar, chorar, provoca suores frios, crises de taquicardia e, eventualmente, uma sensação de felicidade e plenitude. Muito já se disse e escreveu sobre o amor. Resolvi ir buscar alguns desses textos e reproduzi-los aqui no blogue, ao longo destes dias. A escolha é minha, e portanto criticável, são textos de que eu gosto, escritos por pessoas que gosto de ler. Cada um dá uma face diferente desse sentimento. Gostava que me dessem a vossa opinião, mesmo que seja muito crítica ou negativa. Afinal, não há sentimento que provoqu...

Canções de amor para o São Valentim

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Não sou muito apreciadora de dias disto e daquilo. Do Dia de São Valentim também não. Mas pode ser um bom pretexto para recordar algumas das mais belas canções de amor, e isso sim, é intemporal. Como esta canção de John Lennon...

Porque é dia de S. Valentim

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Porque hoje é dia de S. Valentim. Porque eu acho que um poema de amor cai sempre bem. Porque toda a gente já sabe que eu gosto da poesia de José Luis Peixoto.  Quando chegaste - esquálida e coberta de adjectivos que rejeitavas, que te seguiam - o silêncio deixou de ser solene. Atirámos frases inteiras às paredes, somos crianças, e rimo-nos. A história escreveu-se escreveu-se longe das nossas mãos. Não sabemos mais verdades do que a nossa. Existiu um dia, perdido, em que nos encontrámos. Podíamos celebrá-lo com discursos estruturados e insignificâncias. Preferimos comê-lo - é um bolo de creme. E porque o amor é uma e a mesma coisa, embora com facetas diferentes, este poema é dedicado aos homens da minha vida: o meu pai, o meu marido, o meu filho. O nosso amor é um bolo de creme.