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Ainda se caçam Pokemons?

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Escrevi num post anterior que, quando passei por França, no mês de agosto, só se falava de dois assuntos, nos telejornais: o problema do burkini e a polémica da caça aos Pokemons. Não que alguém quisesse impedir esse singular desporto da era digital. Falei com vários jovens sobre o assunto e todos me declaravam enfaticamente que era muito saudável caçar Pokemons porque os fazia caminhar quilómetros e interagir com outros caçadores. Aceito o argumento, embora me pareça que era a mesma coisa se corressem na marginal ou andassem de bicicleta... Nas noites quentes de verão, encontravam-se às centenas por Lisboa, desde Belém até ao Parque das Nações. Os caçadores de Pokemons eram facilmente reconhecíveis. Caminhavam geralmente em grupos, todos mais interessados nos seus telemóveis do que na conversa com o vizinho do lado. De vez em quando, agrupavam-se em certos locais: parece que aí havia mais pokemons à solta, ou ginásios para os ditos fazerem qualquer coisa que nunca percebi be...

A alma das flores

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- O que é que tem hoje, D. Adília? Abriu a boca para dizer qualquer coisa, talvez o costumeiro "não é nada", mas ficou com o gesto suspenso. Passado um momento, meneou a cabeça, sem conseguir dizer uma palavra. - Está aí com uns olhos tristes, a cabeça encostada na mão... passa-se alguma coisa! - Nem sei como explicar. Os anos, já mais de oitenta, pareciam pesar-lhe mais do que o costume. Suspirou. Como explicar o que lhe ia na alma? - Andam a limpar a fachada do meu prédio. Fazem a limpeza com jactos de areia e temos de ter as janelas e as varandas desocupadas. Comecei a tirar os vasos de flores, mas não tenho onde os pôr. A minha casa é pequenina, não tenho sítio para as minhas flores. Já comecei a dá-las, mas acho que algumas vão morrer. Custa tanto separar-me das minhas flores! Tenho umas sardinheiras vermelhas, grandes, carnudas... e uma buganvília, linda! O que vai ser das minhas flores? Limpou uma lágrima e voltou a suspirar. - A minha filha já ralhou co...

Burkini ou não, eis a questão

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Mulher muçulmana, usando um burkini, faz surf numa praia da Califórnia Durante as férias que agora vão terminando, um dos países por onde passei foi a França. Como, mesmo em viagem, mantenho o hábito de ir ouvindo as notícias logo de manhã, apercebi-me que havia dois assuntos que dominavam os noticiários franceses: um deles era a polémica do burkini. Ao outro assunto voltarei, aqui, noutra oportunidade. Para quem anda mais distraído, o burkini é uma espécie de pijama de mangas e calças compridas, que inclui um toucado ou lenço para a cabeça e destina-se às mulheres muçulmanas que querem ir a banhos. Vou ser muito sincera: não tenho qualquer espécie de simpatia por um regime político ou uma religião que subalternize a mulher. Essa subalternização pode ser feita de muitas maneiras, desde impedindo-as de ir à escola até à obrigação de se esconderem atrás de uma fatiota disforme e uniforme, que as despersonaliza e retira da visibilidade social. Recordo-me de ter visto algumas dess...

Na paragem do autocarro

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- Posso sentar-me aqui? Distraída como sempre, tinha-me sentado e colocado a mala ao meu lado, ocupando um assento no banco da paragem. Quem se dirigia a mim, sorrindo, era uma senhora idosa, e eu respondi-lhe também com um sorriso, pondo imediatamente a mala ao colo. - Claro que sim, desculpe, estava distraída. - Se eu não fosse já velhota não lhe dizia nada, mas custa-me estar em pé, sabe? - Mas fez bem, tinha direito ao lugar, nem que tivesse dezoito anos. - Ah, se eu tivesse dezoito anos... E começou a cantarolar: Ai quem me dera, ter outra vez vinte anos... - Isto era um fado do meu tempo. Como é que se chamava a fadista?  A senhora fazia um esforço para se recordar do nome, mas não conseguia. Sei bem o que isso é, também já me vai acontecendo... Voltei a dirigir-lhe um sorriso: - Se tivesse vinte anos, lembrava-se do nome! - Às vezes, até tenho medo de me esquecer do meu próprio nome. Olhe, menina, digo sempre o meu nome e a minha morada aos motoristas do...

D.I.Y. - Do it yourself

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Uma horta de temperos na varanda Vivemos num mundo cada vez mais massificado e plastificado. Fazemos todos mais ou menos as mesmas coisas, que nos são sugeridas pela comunicação social ou pelas redes sociais, mais ou menos da mesma maneira. Muitas vezes fazemo-lo sem qualquer pensamento crítico; outras vezes, percebemos que vamos com o rebanho, mas não temos tempo ou disponibilidade para fazer outras escolhas. Compramos os móveis do IKEA, mesmo sabendo que ao fim de três ou quatro anos já se estarão a desfazer. Compramos comida feita, ou pronta a fazer, apesar de termos noção de que nada bate uma sopa feita na hora. Compramos roupa barata, fechando os olhos e a consciência ao modo como ela é confecionada, lá para Oriente. E por aí fora... Provavelmente por todas estas razões e mais algumas, está a afirmar-se a tendência para o Do it yourself. Tem a ver com a produção de coisas com as nossas próprias mãos, segundo técnicas antigas e artesanais, mas principalmente com uma afirm...

Como terminar uma relação...

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Há coisas que me espantam. Apesar de tudo o que vou vendo, continuam a aparecer notícias que conseguem realmente surpreender-me, como é o caso desta empresa que oferece um serviço pouco habitual: terminar relações amorosas! Sim, eu sei, como todos sabemos, como é difícil terminar uma relação! Encontrar as palavras certas para não magoar demais a outra pessoa... Conseguir explicar o que mudou em nós... Enfrentar os olhos do outro, interrogadores, zangados, tristes, incrédulos... Sim, é duro! Nos últimos tempos, tenho sabido de formas mais expeditas e secas de terminar um namoro ou uma relação. A preferida parece ser a mensagem, por telemóvel ou pelo facebook. "Desculpa, mas já não dá." Ou "Temos de dar um tempo". Ou "Já não curto estar contigo". Ou qualquer outra frase, curta e fria. Também há os que, pura e simplesmente, deixam de aparecer ou dar notícias. "Eu depois ligo-te!" mas o depois nunca chega...  Em qualquer dos casos, é uma cob...

Ovinhos pr'ás meninas e pr'ós meninos

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Tenho dois filhos naquela faixa etária que é geralmente chamada dos jovens adultos. Sendo assim, tenho cerca de vinte anos de contacto estreito com os ovinhos de chocolate da Kinder, os Kindersurpresa. Os meus filhos adoravam-nos, tal como os amiguinhos deles. E nem sei se gostavam mais do chocolate de leite do exterior, se dos bonecos que vinham no interior. Eram sempre brinquedos engraçados e estimulantes. Bonecos e objetos para montar, com várias peças, que os deixavam por ali distraídos durante um bom bocado de tempo. Pequenos puzzles, que os faziam pensar. Ou outras coisas, divertidas e, a seu modo, formativas. Com o tempo, os brinquedos foram-se simplificando. Peças maiores, em menor número. Percebi a intenção: peças pequeninas poderiam ser ingeridas inadvertidamente pelas crianças. Os ovinhos tornaram-se menos interessantes, mas foi por uma boa causa. Há pouco tempo, no entanto, houve outra alteração mais espantosa. Os ovinhos de chocolate deixaram de ser unissexo. Passou a...

Pagar para visitar?

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Ontem, ao princípio da tarde, quis experimentar a minha máquina fotográfica nova e fui até Cacilhas. Há muitos anos que não andava por aquelas bandas, mas a ideia era fotografar Lisboa do outro lado do Tejo. Mudei de ideias quando vi, ancorada junto ao Clube Náutico de Almada, a fragata D. Fernando II e Glória.  Antiga fragata de guerra, construída na India portuguesa, em Damão, foi lançada às águas em 1843. Embora fosse um navio de guerra, transportava passageiros e fazia a ligação entre Portugal e os territórios portugueses na India. Já no século XX, foi transformada em Navio-Escola de Artilharia Naval e depois em sede da Obra Social da Fragata D. Fernando, recolhendo rapazes com fracos recursos económicos, que aí recebiam instrução escolar e treino de Marinharia. Em 1963, sofreu um violento incêndio e permaneceu encalhada no rio Tejo até 1992, altura em que foi novamente posta a flutuar e reconstruída.  Restaurada tal como era na década de 1850, a fragata D. Fe...

A loira burra

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Mudou o seu nome para Blondie e encontrei-a nas páginas de uma revista. Melhor dizendo, tropecei nela! Tropeçar tem uma conotação diferente, não é um encontro, com o seu encanto inesperado, remete-nos antes para alguma coisa desagradável que nos atrapalha a caminhada... Pois então, tropecei nesta Blondie!  Trata-se de uma jovem que tem como objetivo máximo na vida assemelhar-se à boneca Barbie. Já fez tudo para alterar a sua imagem: inúmeras operações plásticas, para aumentar o peito, moldar o busto, tornear a anca... Já copiou a cor do cabelo, o penteado, o desenho das sobrancelhas... Faltava-lhe imitar a boneca Barbie na cabecinha... Como pensará a Barbie? Esta difícil questão deverá ter ocupado muitas horas de pensamento da pobre Blondie! As prateleiras das lojas e supermercados apresentam-nos Barbies multifacetadas, elas são médicas e professoras, exploradoras e desportistas. Ah! Mas a Blondie não se deixou enganar! A Barbie verdadeira era aquela boneca que só se pre...

Depressão das festas

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Ouvi pela primeira vez esta expressão, depressão das festas, no final do ano transato. Duas palavras, depressão e festas, que parecem não condizer uma com a outra. Mas talvez não seja assim tão estranho. Não preciso pensar muito para me lembrar das frases, frequentes, que antecedem o Natal: "Vai ser uma trabalheira!" ou "Tomara que já tenha passado!" O que se passa connosco, afinal? Tenho para mim que as pessoas não se sentem bem quando há uma pressão social ou cultural muito intensa num determinado sentido. Estas alturas do ano em que, desde a publicidade até aos media, todos nos bombardeiam com imagens de famílias felizes, enormes, numa alegre confusão à volta de uma mesa cheia de iguarias, num ambiente de luzes e calor, onde se espera que todos partilhem um coração tão luminoso como as luzinhas da árvore de Natal, podem ser muito stressantes! Por muitas razões. Assim, de repente, lembro-me de algumas: - Morte ou desaparecimento de alguém que nos era mui...

O vestido do sim

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Sempre me aborreceram os excessos consumistas. E, se há ocasião em que todos os sininhos emocionais são tocados para estimular o consumismo, é o dia do casamento. Acenam-nos com a tal história do "dia mais bonito da tua vida!" e vai de acumular gastos com milhentas coisas, a maior parte das quais perfeitamente dispensável para garantir a felicidade e a beleza do dia. Já soube de casos em que o divórcio chegou mais depressa do que o final do plano de pagamento da dívida contraída para pagar as despesas do casório! Sempre fui adepta do "quanto mais simples melhor"! E tenho a certeza que a felicidade não se contabiliza por aí! Mas todos acabamos por ceder às pequenas vaidadezinhas do dia. No nosso casamento, somos as vedetas principais e queremos estar à altura. Para simplificar as nossas contas, surgiu agora uma pequena empresa que aluga vestidos de casamento. Mas não são uns vestidos quaisquer, são vestidos de assinatura, daqueles que custam uns milhares de euro...

E agora o lado pouco estético das praxes!

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Tinha decidido que não escrevia mais nada sobre as praxes, mas não é possível, é um assunto incontornável! E isso leva-me a uma reflexão num patamar um pouco diferente. Refiro-me ao lado pouco estético das praxes. Não, não estou aqui a referir-me a esses pobres coitados obrigados a rastejar na lama, a fazer flexões em roupa interior, lambuzados de excrementos... Esses são as vítimas do sistema. O tempo dirá se irão ultrapassar estas humilhações de forma saudável ou se irão fazer catarse das mesmas nas praxes que irão aplicar (aplicadamente...) no ano seguinte... Não, não vou falar desses, mas sim daqueles que andam por ali vestidos de corvos antiquados e rabugentos, a ralhar como sargentos de filmes de série B. Já viram bem a falta de gosto daquele traje? Um fatinho preto de corte antiquado, com uma capa tipo Batman. Sinceramente, nem é bonito, nem é vintage, nem é nada! É só feio! Mas é caro, muito caro, e não posso deixar de pensar condoidamente nos pais que fizeram sacrifícios ...

As humilhações consentidas das praxes

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Começo por afirmar desde já que não sou contra as praxes. Até posso entender e achar engraçados e, de certa forma, úteis, os rituais e as práticas que se destinam a integrar numa comunidade os novos membros. Mas isso não tem de incluir práticas humilhantes, coercivas, degradantes, como se tem visto nestes últimos anos. Todos já nos confrontámos com esses grupos de jovens que, no início de cada ano letivo, são arrebanhados e levados pela cidade como animais de circo. Algumas destas manifestações são apenas idiotas. Mas outras são verdadeiramente degradantes. Não pode haver nada que obrigue uma criatura a ajoelhar-se perante outras, a ser enxovalhado com produtos mais ou menos nojentos, ou com músicas ou danças de gosto muito duvidoso. Há universidades em que estas práticas se mantêm dentro de limites razoáveis. Mas há outras em que esses limites são claramente ultrapassados. Qual de nós nunca ouviu relatos de situações abusivas, em que os jovens são obrigados a beber em excesso...

Festa de divórcio

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Uma amiga minha (muito mais nova do que eu, diga-se de passagem!) disse-me, aqui há dias, que tinha ido a uma festa de divórcio. E eu, entre o surpreendido e o ingénuo: - Festa de divórcio? O que é isso? E ela, entre o divertido e o pedagógico: - É uma festa que se faz quando as pessoas se divorciam, claro! Tal como reunem os amigos para dar conhecimento da sua união, também comunicam aos amigos a sua separação. E eu, ciente de que a minha provecta idade me faz ver estas coisas com alguma reserva: - Mas uma separação não é uma coisa muito divertida, pois não? Por melhores que sejam as razões, é sempre um passo difícil, doloroso... E ela, convencida da superioridade das suas razões: - Também não tem de ser um trauma! Pois não, é certo. Especialmente se forem jovens e ainda não houver crianças pelo meio, como parece que era o caso. Fiquei a saber que, tal como na festa de noivado, também houve troca de anéis, mas desta vez tratou-se da devolução das alianças de cas...

A minha proposta para a reforma do Estado

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Muito se tem falado ultimamente de reforma do Estado. No meio da retórica da reforma e das medidas que vão surgindo, apercebi-me de que essas medidas têm caído quase exclusivamente sobre os funcionários da Função Pública. Estou certa de que isso só acontece por falta de imaginação. Por isso, decidi dar o meu contributo. E, porque todos concordamos que o exemplos devem começar pelo topo, a minha proposta debruça-se sobre a Presidência da República. Pensando em termos de poupança económica, proponho uma alteração na idade mínima para um cidadão se candidatar ao mais alto cargo da Nação. Os 75 anos parecem-me uma idade razoável, por várias razões. Em primeiro lugar, vai ao encontro do aumento da esperança média de vida, que tem servido de argumento para o aumento da idade da reforma dos comuns mortais. Em segundo lugar, diminuía claramente, e por razões óbvias, os gastos a que os nossos presidentes continuam a submeter os contribuintes após a sua saída do cargo. O espírito repu...

As Provas do 4.º ano e as Borboletas

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Decorreram esta semana, pela primeira vez desde há muitos anos, as provas finais do 4.º ano. Na 3.ª feira, foi a prova de Português. Hoje, foi a vez da Matemática. Calhou-me vigiar uma sala e a prova pareceu-me acessível. Aos alunos da minha sala, também. Estavam calmos e compenetrados, cientes da sua responsabilidade. Sentiam-se crescidos. Os meninos chegaram, acompanhados pelos seus professores, que os ajudaram a encontrar as salas. Os professores também estiveram presentes no intervalo da prova, para os vigiarem e orientarem no recreio. Tudo decorreu com normalidade. Não houve choros nem desmaios, nem nenhum dos cenários negros traçados pelas confederações de pais. Há algum tempo atrás, um amigo falava-me das crisálidas e das borboletas. Explicava-me ele que as jovens borboletas tinham de fazer um grande esforço para romper os casulos, mas que esse esforço era necessário para fortalecer as asas. Era o próprio esforço que lhes permitia, mais tarde, voar. Se alguém, cheio de boas...

Peste grisalha?

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Li este artigo   aqui há dias e não me consigo esquecer dele. Pelas piores razões!  A minha primeira reação foi de incredulidade! Alguém escrevia um artigo sobre o nosso problema demográfico mais complicado e ameaçador, o envelhecimento da população. Sim, já todos sabemos que ele existe, há que tomar consciência e tomar medidas. Há algumas conhecidas, chamam-se políticas natalistas! Mas todos concordamos que é um problema de difícil resolução, comum a todos os países ditos desenvolvidos. O que, no entanto, não me parece nada adequada é a forma da abordagem. A começar pela linguagem, que é um veículo delicado. A escolha das palavras não é inocente, pressupõe uma determinada atitude. E, quando se utilizam palavras como "peste", "contaminada", "tragédia", parece que se considera o aumento da esperança média de vida como uma gripe, ou um problema de saúde pública. Nas culturas ditas pouco desenvolvidas, os anciãos são respeitados e venerados, como uma...

Justiça divina para o século XXI

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Aqui há dias, falou-se de Deus no autocarro. Não daquela forma douta e piedosa dos círculos de estudos bíblicos, onde se desfolham evangelhos e versículos, mas da maneira simples como as pessoas também simples se agarram a uma tábua de salvação. Passo a explicar. O autocarro passava junto à porta de um ministério, na zona do Terreiro do Paço. Uma mulher, com olhos de bolsos vazios, lançou o primeiro lamento: "Cambada de ladrões! Deus há-de os castigar!" Não foi preciso mais. Ergueu-se imediatamente um coro concordante. - Só vão para o governo para se encherem, à nossa custa! - Eu trabalhei a vida toda, desde os onze anos. Eles sabem lá o que isso é! - Dizem que gastamos demais. Nós? E eles? - Estudam e depois usam os estudos para vigarizarem toda a gente! - Mas Deus vai castigá-los! Hão-de arder no fogo do inferno! Um senhor bem posto, de fato e gravata e pasta na mão, interrompeu o coro. - Então, vamos ter de esperar pela justiça divina? E se começassemos ...

Coisas que eu detesto II - Papás hiper-babados

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Todos os pais normais amam os seus filhos e tentam protegê-los. Eu não sou exceção, até sou um bocadinho mãe-galinha (mas só um bocadinho!). No entanto, creio que nunca perdi o sentido das proporções. Mas há uma subespécie dos pais normais que é verdadeiramente insuportável, os hiper-babados! Encontramo-los por todo o lado: olham benevolentes, enquanto os filhos fazem birras, gritam, atiram com os brinquedos, enfim, incomodam toda a gente; entopem as ruas junto às escolas, para levar os filhos à porta da escola, não vão os meninos partir-se se caminharem cem metros; não os deixam brincar no parque, mas saturam-nos de atividades extra-escolares, encontrando capacidades artísticas ou desportivas extraordinárias na energia normal das crianças; aborrecem toda a gente nas reuniões de amigos, com as histórias ininterruptas dos seus fantásticos rebentos; não os contrariam, nem corrigem as respostas mal-educadas, para não coartar a espontaneidade das criaturinhas; e, quando começa...

A histeria do fim do mundo

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Com o início do mês de dezembro, entrou em velocidade de cruzeiro a histeria do fim do mundo. Eu costumo dizer que o mundo acaba todos os dias, para quem morre. No entanto, para as pessoas com angústias apocalípticas, este anúncio do fim do mundo está a gerar situações de histeria.  Quando os Maias organizaram o seu calendário, previram o fim do mundo, como seria natural numa civilização que encarava o devir histórico como circular. Seria o fecho lógico de um ciclo. Mas fizeram essa previsão para um ponto no tempo que lhes era incomensuravelmente distante. Os produtores cinematográficos trouxeram essa previsão para a atualidade, com o filme "2012" (trailer acima, para quem estiver interessado). E agora há quem viva angustiado com a perspetiva. Segundo parece, é na Rússia que estão a surgir os fenómenos mais extremos de histeria coletiva, com pessoas a fazerem aprovisionamentos de bens essenciais, desde açúcar a fósforos e velas. Os responsáveis do governo russo viram-...