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Dormir num palácio

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Fiz anos, muitos, meio século. E uma das prendas que recebi foi um fim-de-semana no Palace Hotel do Bussaco. Nunca lá tinha estado e foi, realmente, uma experiência extraordinária. O Palácio que hoje funciona como hotel foi construído em 1885 para os reis de Portugal; o rei D. Carlos gostava de o usar como pavilhão de caça. É de uma beleza e harmonia únicas. Construído no mais exuberante estilo neo-gótico, mais exactamente neo-manuelino, multiplica rendilhados, pináculos, gárgulas. Se o exterior é deslumbrante, o interior não o é menos. Aos emblemas reais, às cordas, aos motivos florais, esculpidos em todos os salões e corredores, juntam-se quadros, frescos e painéis de azulejos que evocam Camões e os Lusíadas, mas também outros episódios dos Descobrimentos. Por exemplo, a grande escadaria central está ladeada por dois grandes painéis de azulejos que representam a conquista de Ceuta e a reconquista de Goa. Mas surgem também, logo no salão da entrada, as guerras peninsulares e as lutas ...

Naturalidade

"Chamais-me europeu? Pronto, calo-me. Mas dentro de mim há savanas de aridez e planuras sem fim com longos rios langues e sinuosos, uma fita de fumo vertical, um negro e uma viola estalando." Rui Knopfli

É só um caso de uma garota!

Não tenho o hábito de trazer para este blog questões tão mediatizadas como a da pequena Alexandra, devolvida à sua mãe russa. No entanto, este caso deixa-me tantas angústias e interrogações que não consigo deixar de o comentar. A pequena Alexandra foi retirada à sua família de acolhimento e enviada para a Rússia, onde vive a sua mãe com a restante família. Qualquer pessoa que se mantenha minimamente informada conhece os pormenores do caso, já que os media não falam de outra coisa desde ontem. Primeira interrogação: porquê só agora, se a decisão do tribunal data de há um ano atrás?  Ao tomar conhecimento do caso, fiquei sensibilizada, claro, mas depois de ouvir o juiz responsável pela decisão fiquei revoltada. Parece então que o sr. juiz, ao ver as imagens da mãe biológica a bater na criança, teria ficado incomodado. Até o sr. ministro da Justiça se declarou incomodado. Segunda interrogação: quem assumirá o "incómodo" provocado a esta criança? Todos os psicólogos afirmam que o...

A Turma

O Festival de Cannes é a grande montra do que de melhor se faz no mundo do cinema e, este ano, um jovem português, João Salavisa, ganhou aí o prémio para melhor curta-metragem. Parabéns ao realizador, à sua equipa e ao cinema português. Serve isto como pretexto para escrever um pouco sobre o filme que ganhou a Palma d'Ouro no ano passado, 2008. "A Turma", no original "Entre les Murs" de Laurent Cantet, é um filme rodado numa escola dos arredores de Paris. Retrata essencialmente a relação entre um professor e um grupo de alunos, uma turma, durante um ano lectivo. A turma, a escola, é uma amostra do tecido social e dos conflitos que aí se tecem e nós, espectadores, assistimos aos esforços do bem intencionado professor de Francês no sentido de levar aquele grupo a aprender a expressar-se melhor, mas também a respeitar-se e a compreender-se. Nem sempre ele é feliz nas suas atitudes, e por vezes, as situações são levadas a extremos. No final do ano lectivo, todos c...

Rupert and the frog

Ontem, quase sem dar por isso, de mansinho, os visitantes deste blog ultrapassaram o milhar. Ainda é um blog tão novinho, fico contente! Por isso, resolvi que o post deste dia é uma prenda para quem aqui vier. E quem se lembra disto?

Postal de Lisboa VI - Cais do Sodré

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Cais do Sodré é um nome que evoca as mais diversas imagens. Para quase ninguém evoca o Duque da Terceira, personagem presente em estátua no centro da praça e que lhe dá o nome. Para alguns, evoca os bares onde as noites se afogam nuns copos, bares da moda, bares de música mais ou menos alternativa, bares de prostitutas, bares de marinheiros. Nas imediações da Rua de S. Paulo, os bares, com as suas mesas e chão de mármore desgastado, ainda têm nomes evocativos como bar “Pirolito” ou bar “Salva Vidas”. O escritor Tiago Rebelo recorda o Cais do Sodré do final dos anos 60, onde, segundo se dizia, “o sangue corria nas valetas”. Para outros, evoca o local de destino diário, o início do dia de trabalho, o grande interface de transportes urbanos, onde se cruzam os barcos que vêm da “outra banda” com os eléctricos e os autocarros que vão para Belém ou Algés ou qualquer outro destino, onde chegam o metropolitano e os comboios de Cascais, onde os carros e os táxis se atropelam. Para outro...

Pontes

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Gosto de pontes! Altas e arrojadas, ou baixas, sólidas e fiáveis, são sempre momentos de mudança, pontos de passagem para outras margens... Às vezes, limitamo-nos a olhá-las de longe, sem nunca iniciarmos a travessia. Às vezes, são miragens. Às vezes, atravessamo-las e conquistamos a outra margem. Hoje, Lisboa está envolta numa ligeira neblina e a Ponte Vasco da Gama parece dirigir-se para o infinito, ou para lugar nenhum. E os homens que apanham mexilhão na imensa planura lamacenta que o estuário deixa a descoberto na maré baixa, parecem náufragos que regressam a terra firme. Só as gaivotas parecem saber para onde vão.