domingo, 13 de março de 2016

O Filho de Saul




Fui ontem ver o filme "O Filho de Saul", do realizador húngaro Laszlo Nemes, vencedor do Óscar para Melhor Filme Estrangeiro, além de vencedor do Festival de Cannes. Escolhi a sessão de ontem à tarde, no cinema Ideal, porque era apresentada pela Doutora Esther Mucznik, uma pessoa que muito admiro. No entanto, ao ouvir as palavras da líder da Comunidade Judaica no nosso país, senti o receio de não conseguir aguentar o peso do filme a que me preparava para assistir.
Consegui vê-lo todo. E consegui não chorar, mas apenas porque há situações que nos deixam secos, sem palavras, sem emoções. Assim é este filme.
A ação do filme desenrola-se no campo de concentração de Auschwitz, no final do verão de 1944. Não há, no filme, nenhuma localização espacial ou temporal específica, mas todos os indícios nos levam para aquele local infernal, naquela época. No norte da Europa, já se tinha dado o Desembarque da Normandia e a Alemanha já começava a recuar e a perder a guerra. Mas isso não levava os nazis a abrandarem a destruição das comunidades judaicas, pelo contrário, parece que os apressava a terminar o seu desígnio de morte. Tudo isto são considerações minhas, já que o filme nada reflete, ou questiona.
No filme, apenas seguimos Saul, um Sonderkommando húngaro, isto é, um dos prisioneiros encarregados de trabalhar nas câmaras de gás e nos crematórios. Para fazer o seu trabalho horrendo, ele age como um autómato, despersonalizado e desligado de tudo o que se vai passando à sua volta. Um dia, Saul vê um rapazinho morto, à saída da câmara de gás, e assume-o como seu filho. Até ao fim do filme, o espectador não tem a certeza de aquele menino ser realmente filho de Saul ou não. Mas isso não é importante: Saul assume como seu único desígnio dar uma sepultura digna àquela criança. A partir daí, ele vai fazer tudo, incluindo pôr a sua vida, ou o que resta dela, em risco, para encontrar um rabino que recite a oração dos mortos e sepultar o rapazinho. Na sua vida, que já nada vale, ele encontra um sentido. E, na sepultura daquela criança, ele concentra tudo o que ainda resta de dignidade humana.
É um filme muito bom, embora muito pesado. Volta a fazer-nos refletir sobre o que o homem é capaz de fazer ao seu semelhante, sobre a grandeza e a miséria da condição humana. E, num momento em que voltamos a assistir a manifestações de intolerância e antissemitismo, mesmo na nossa Europa tão civilizada, talvez seja um filme a ver com muita atenção.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Como terminar uma relação...


Há coisas que me espantam. Apesar de tudo o que vou vendo, continuam a aparecer notícias que conseguem realmente surpreender-me, como é o caso desta empresa que oferece um serviço pouco habitual: terminar relações amorosas!
Sim, eu sei, como todos sabemos, como é difícil terminar uma relação! Encontrar as palavras certas para não magoar demais a outra pessoa... Conseguir explicar o que mudou em nós... Enfrentar os olhos do outro, interrogadores, zangados, tristes, incrédulos... Sim, é duro!
Nos últimos tempos, tenho sabido de formas mais expeditas e secas de terminar um namoro ou uma relação. A preferida parece ser a mensagem, por telemóvel ou pelo facebook. "Desculpa, mas já não dá." Ou "Temos de dar um tempo". Ou "Já não curto estar contigo". Ou qualquer outra frase, curta e fria. Também há os que, pura e simplesmente, deixam de aparecer ou dar notícias. "Eu depois ligo-te!" mas o depois nunca chega... 
Em qualquer dos casos, é uma cobardia. Pode ser difícil, mas o encontro com o outro, a procura das palavras, os olhos doridos, são necessários, quanto mais não seja como um ato de respeito pelo sofrimento do outro. Devemos isso ao nosso parceiro, no mínimo. É mais fácil mandar uma mensagem, claro, poupa-nos a situações confrangedoras, mas é muito mais feio.
No ano passado, surgiu a empresa The Breakup Shop. A lógica dos dois irmãos canadianos é implacável: se há empresas para aproximar as pessoas, também pode haver para as separar. E, por 9,40 €, fazem o serviço por nós. O utente (será que posso utilizar esta palavra?) escolhe a forma como a informação será entregue ao destinatário. Talvez até possa encomendar umas flores... E o trabalho sujo fica feito...
Não gosto desta solução. As emoções fazem parte de nós e da forma como nos relacionamos uns com os outros. Secar esssas emoções, fugir delas e das situações de confronto, pode ser atraente, mas é muito empobrecedor. Significa também que não demos muito valor àquela relação; nem lhe concedemos um final digno.


sábado, 5 de março de 2016

Crocodilos na piscina




Ouvi há dias uma história engraçada. 
Um milionário deu uma festa magnífica na sua casa. A comida, a animação, estava tudo excelente. Os convidados foram ficando cada vez mais animados, à medida que a música e a bebida aceleravam os ritmos. Lá para o meio da noite, o anfitrião convidou todos para se reunirem à volta da piscina. Tomar um banho noturno parecia mesmo uma boa ideia! Quando chegaram à piscina, o dono da casa declarou:
- Ofereço 100 000 euros a quem se atirar à piscina e a atravessar até ao outro lado! 
Parecia uma coisa fácil e foram vários os convidados que se abeiraram da piscina. Foi então que se começaram a ver vultos na água: eram crocodilos! Vários crocodilos nadavam calmamente, como quem espera o pequeno almoço... Todos os que se tinham chegado à beira da piscina, mesmo os mais afoitos, agora recuavam. Já ninguém tinha vontade de dar um mergulho!
Mas o dono da casa insistia:
- Subo a aposta! Ofereço 500 000 euros ao primeiro que chegar ao outro lado!
Mas todos se entreolhavm e recuavam.
O anfitrião é que não desistia:
- Ofereço metade da minha fortuna a quem tiver a coragem de nadar até àquele lado!
Ouve-se o barulho de um mergulho e todos correm para ver quem era o corajoso nadador e se iria vencer a corrida. Na piscina, um homem nadava desesperadamente, seguido por quatro ou cinco crocodilos. O suspense era grande, todos seguiam, hipnotizados, o esforço do homem. Finalmente, o nadador chegou ao outro lado e içou-se, ofegante, olhando em volta, como quem ainda não acredita na sua própria sorte.
Todos o felicitavam; o dono da casa com um pouco menos de entusiasmo que os outros convidados. Um deles não resiste e pergunta:
- Como é que teve coragem de nadar no meio dos crocodilos? Apesar do prémio ser muito bom, foi precisa muita coragem!
- Coragem? Eu gostava era de saber quem foi que me empurrou para a piscina!
Quando ouvi esta pequena história, ri-me. Mas fiquei a pensar... Às vezes, precisamos mesmo de um empurrão para termos a coragem de enfrentar um desafio que julgavamos insuperável, e atingirmos objetivos que julgavamos inatingíveis.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Dicas de viagem

Uma amiga pediu-me para lhe dar sugestões de viagem. Mesmo que quisesse, não o poderia fazer. Uma viagem é uma coisa tão pessoal, tão única! Cada um faz a sua, à sua maneira, repara em certas coisas, aprecia outras, sempre de forma distinta do seu mais próximo companheiro de viagem. Por isso, não vale a pena fazer sugestões ou dar conselhos. Mas há algumas coisas que a experiência já me ensinou e que eu posso partilhar.
1 - Viajar é como uma degustação. Não tenha pressa. Tire tempo para preparar cada viagem, investigue o que há de interessante para visitar, veja os preços, compare, faça simulações, organize rotas e programas... mesmo que tenha de os reorganizar várias vezes! A preparação já faz parte do prazer da viagem.
2 - Escolha cuidadosamente o(s) seu(s) companheiro(s) de viagem. As pessoas são diferentes e têm gostos e motivações diferentes. Se é do estilo de se levantar cedo para calcorrear as ruas, os monumentos, os museus, e a sua companhia de viagem gosta é de apreciar a vida noturna e de se levantar à hora do almoço, é melhor desistir. Para alguém a viagem vai ser um suplício e, talvez, o fim de uma bela amizade.
3 - Se não há ninguém disponível para viajar consigo numa qualquer altura, não fique parado por causa disso.  Escolha um programa que lhe agrade e vá na mesma. Poderá descobrir o prazer de fazer o que lhe apetece, sem ninguém a dar palpites...
4 - Explore cuidadosamente os sites das companhias de aviação ou de ofertas de voos. Às vezes, um voo com uma escala longa numa cidade de ligação pode ser uma boa opção. Geralmente, é mais barato e pode permitir rever um familiar ou amigo, ou visitar aquela exposição que gostava mesmo de ver...
5 - Viajar é uma atitude, uma abertura ao mundo. Há quem viaje para longe, sem nunca se abrir ao que está à sua volta. Por isso, se não tem dinheiro para grandes viagens, não fique em casa a lamentar-se. Adapte as suas opções à sua bolsa. Mesmo na sua cidade, ou na região onde vive, há caminhos que nunca percorreu, monumentos que nunca visitou, esplanadas onde nunca se sentou... Saia de casa e explore-os como se fosse um turista na sua cidade. Verá que vai descobrir que todas as viagens, mesmo as mais curtas, valem a pena!


sábado, 20 de fevereiro de 2016

Anja Ringgren Lovén, a Educação contra a Superstição

Anja dá água ao pequeno Hope, quando do seu resgate das ruas

Ouvi este nome pela primeira vez há poucos dias. Foi a minha filha que me mostrou a notícia, tão chocante que parecia falsa: uma dinamarquesa tinha salvo uma criança de dois anos, que tinha sido abandonada pela família, acusada de feitiçaria. O caso passara-se na Nigéria e as fotos eram confrangedoras. Aparentemente, o rapazinho de cerca de dois anos, sobrevivia há vários meses sozinho, nem consigo imaginar como. Estava subnutrido e cheio de vermes. Alimentado e tratado, começava agora a recuperar. Anja chamou-lhe Hope.
Anja Ringgren Lovén mudou toda a sua vida há três anos atrás, após uma visita à Nigéria. Nesse grande país africano, deparou-se com um problema terrível: havia crianças que eram abandonadas e maltratadas pelas famílias, por suspeita de bruxaria. É uma acusação espantosa: que feitiçaria pode fazer uma criança com um ano de idade, ou pouco mais? Mas a superstição e a ignorância são mais fortes e levam ao abandono dessas crianças, que pouco mais têm a esperar da vida num continente onde a sobrevivência, por vezes, já é difícil sem estas condições agravantes.
Anja Ringgren Lovén resolveu então vender tudo o que possuia na Dinamarca e mudar-se para a Nigéria, para tentar resgatar e salvar essas pobres crianças-feiticeiras. Fundou a African Children Aid Education and Development Foundation (ACAEDF) e hoje tem a seu cargo 34 crianças, todas acusadas de bruxaria, todas salvas por si. Grande coração de mãe!
"Ser rejeitado pela própria família é a experiência de maior solidão que uma criança pode ter" afirma Anja. A ACAEDF também trabalha para que todas as crianças no estado de Akwa Ibom, no sul da Nigéria, tenham a oportunidade de ir à escola. É muito difícil lutar contra a cultura dominante, da feitiçaria, dos exorcismos e da magia negra, mas Anja acredita que "a educação é a chave na luta contra a superstição". Eu também acredito. Mas vai levar muito, muito tempo!

Hope está a recuperar bem


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Há coisas mais valiosas do que uma foto

Vivemos numa época marcada pelo domínio da imagem. Já se dizia que uma imagem vale mais do mil palavras, mas... será que vale mais do que uma vida?
Não tenho nada contra a fotografia, pelo contrário, gosto muito de uma boa fotografia. No entanto, penso que há por vezes algum exagero, um uso e abuso da imagem fotográfica. Parece que tudo o que fazemos tem de ser validado por fotografias, partilhadas abundantemente no Twitter, no Facebook, no Instagram. Os jovens, em especial, partilham o que fazem,o que comem, onde vão, frequentemente sem grande precaução com a sua privacidade. Arrisca-se a vida para tirar a fotografia mais original, mais fantástica, que vai fazer furor nas redes sociais. Enfim, é problema deles. Mas, e se prejudica outros?
Vem este meu desabafo a propósito de um caso ocorrido num ressort turístico da Argentina, onde um golfinho morreu em consequência do tempo que foi deixado fora de água, exposto ao sol. E porquê? Porque foi passado de mão em mão, para tirar fotografias. Até morrer... 
Poderão dizer-me que não foi de propósito. Também acredito que não! Mas há que ter a sensatez suficiente para perceber que o bem estar de um ser vivo é mais importante do que uma fotografia!


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

No autocarro

Há poucas coisas mais animadas, em Portugal, do que viajar nos transportes públicos. Hoje, no autocarro, presenciei uma cena que não resisto a partilhar.
O autocarro já ia meio cheio, com pessoas em pé. Numa paragem, um rapaz entra pela porta de trás, com um senhor idoso. O motorista, atento, grita: "A entrada é aqui pela frente!" Provavelmente, um rapaz comum diria: "Eu sei, amigo, e peço desculpa, mas estava a tentar ajudar este velhote!" Mas esta frase não condizia com aquele rapaz. Era um adolescente, de cabelo espetado e brincos nas orelhas. Retorquiu logo, com maus modos: "E então? Qual é o problema?" O problema foi que o motorista não gostou do tom e respondeu também. A troca de palavras foi aumentando, na animosidade e nos decibéis... 
- Respeitinho, ó rapaz!
- Mas o que é que este quer? Arranca com isto, mas é!
- Olha que eu ponho-te no olho da rua!  
- Eu pago o passe, tenho direitos! Eu é que lhe pago o ordenado e está pr'aí a falar!
- Tu tens sorte, que nem tens cara para levar um par de bofetadas!
Confesso que a minha simpatia estava mais do lado do motorista. Ao longo dos anos, já tive a minha conta de respostas insolentes, por parte de miúdos que não distinguem um adulto investido de alguma autoridade de um colega da escola.
Mas o autocarro estava dividido. Toda a gente comentava e dava palpites. Uns defendiam o rapaz, outros estavam do lado do motorista. Como na vida, enfim...
No banco fronteiro ao meu, um casal de turistas de meia idade observava a cena, entre o fascinado e o surpreendido. Tão engraçados, estes nativos! So typical! Sempre de sangue quente, estas gentes do Sul!