segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Colecionador


Lá no bairro, todos o conheciam por Januário das Caras. Desde miúdo que lhe sabiam do gosto por colecionar caras de pessoas. Começou pelos retratos da família, que pedinchava a todos, e pelas sobras dos retratos da máquina de Photomaton, que estava instalada na Papelaria do Sr. Luis. Achavam-lhe graça, comentavam as imagens que ele juntava num pequeno álbum, de folhas negras: “Olha, é a tia Micas, ainda antes de casar!” ou “Esta não é aquela senhora que vive ali na rua de baixo?” E piscavam-lhe o olho, cúmplices.
Com a idade, o gosto foi-se acentuando. Fotografava toda a gente, família e amigos, vizinhos e gente que passava na rua. Considerava-se um colecionador de rostos e nada lhe dava mais prazer do que sentar-se na mesa da sala, a folhear os seus inúmeros álbuns, a observar as caras, as mudanças na expressão, a imaginar as histórias por trás de cada ruga, de cada olhar angustiado, de cada sorriso malicioso. Às vezes, punha-se a mudar a forma de catalogação dos seus rostos, só para ter o prazer de lhes mexer. Podia catalogá-los por género ou por idade, pêlos na cara ou caras rapadas, data da fotografia, ou qualquer outra forma.
O seu gosto começou a tornar-se uma obsessão. Quando lhe negavam o prazer de uma foto, ficava a pensar na forma de a obter, imaginando pequenas transgressões que lhe permitissem aceder ao objeto dos seus desejos. Foi assim que Januário decidiu subir a uma árvore situada junto ao gradeamento da escola, para obter fotos dos rostos dos alunos no recreio. O guarda da escola viu-o, obrigou-o a descer da árvore e levou-o ao gabinete do Diretor, que lhe deu um raspanete como se ele tivesse sete anos.
Mas a obsessão agudizava-se. Uma noite, resolveu trepar pelas varandas de um prédio, para captar as expressões dos rostos nas situações familiares. Fotografou mães a darem a última papa aos filhos; homens a tomarem banho, no regresso do trabalho; casais a fazerem amor; gente concentrada a escrever, outros a verem televisão, outros a dormirem de boca aberta. Correu bem, Januário veio para casa satisfeito. Mas na sua segunda incursão noturna, foi apanhado. E foi parar à prisão.
A juíza ouviu dezenas de testemunhas, desde a professora da instrução primária até aos vizinhos do prédio. Ouviu também o Januário, numa audiência privada. E libertou-o, com uma advertência. Houve quem dissesse que tinham chegado a um acordo, porque a juíza era um dos rostos apanhados por Januário numa casa que não era a sua, com um marido que também não era o seu. Mas a maioria das pessoas defendia que a juíza tinha libertado o homem porque acreditava na inocência dele.
Quando o Januário descia, feliz, as escadas do tribunal, ainda conseguiu fotografar os dois guardas que o escoltavam. Ambos lhe sorriam. E essas fotos foram arquivadas no álbum das raridades.


(Texto criado para o desafio de Abril da Fábrica de Letras
com o tema Rostos)

sexta-feira, 30 de março de 2012

Slow Blog


A ideia surgiu no NY Times, com um manifesto chamado "Blogging at a Snail's Pace". Surgiu da ideia de recusar a blogagem rápida que, como a "Fast food", destruidora de tradições e alimentação saudável, também não favorece a reflexão e a estruturação do pensamento. Surgiu do movimento "Slow Food", contra o imediatismo, a pressa, a favor da reflexão, da preparação, da exposição de uma ideia sem pressas nem cortes, amadurecendo as ideias antes de as expor.
Achei muito interessante esta ideia. Sinto também esta contradição entre as postagens rápidas, em que se baseiam as redes sociais, e o gosto pela escrita, pela explanação de uma ideia, de um raciocínio, de uma análise da realidade. Não se consegue analisar muita coisa em 140 caracteres. Não que eu seja contra o Facebook, ou qualquer outra rede social. Todas têm o seu lugar e, se existem e têm sucesso, é porque são de algum modo necessárias. Também estou no facebook e gosto de lá passar, ver as fotos dos amigos, deixar um comentário ou uma piada a propósito de qualquer coisa. Mas o blogue é outra coisa. 
Se não tiver nada para dizer, não blogue. Não tem o compromisso de postar todos os dias. Mantenha alguma regularidade, pode postar todas as semanas ou todos os meses, mas o único compromisso é consigo próprio.
Aos adeptos do Fast Blog, aconselho o Twitter (140 caracteres por mensagem, ou tweet) ou o Facebook. Mas, para quem gosta de aprofundar as ideias, como quem mastiga muitas vezes um alimento, então é preciso outra coisa: um Slow Blog!

Leia aqui o Manifesto Slow Blog:
http://luzdeluma.blogspot.pt/2008/12/slow-blog.html


terça-feira, 27 de março de 2012

Os Sexalescentes

Recebi, através da internet, um texto que achei muito interessante. Não sei quem o escreveu, por isso limito-me a reproduzi-lo tal como o recebi. Trata de uma nova realidade: a das pessoas que, estando agora na faixa etária à roda dos sessenta anos, têm uma atitude nova perante a vida, o trabalho, as relações familiares e amorosas, o lazer, a imagem que fazem de si próprias. É uma realidade quase revolucionária, mas de que mal nos apercebemos, uma revolução silenciosa. Na geração dos nossos avós, os sessenta anos representavam o limiar da velhice. Agora, representam o limiar de uma nova disponibilidade para o mundo, mais refletida, mais madura, mas nem por isso menos plena. Vale a pena ler.


Está aparecendo uma nova faixa social: a das pessoas que andam à volta dos sessenta anos de idade, os sexalescentes: é a geração que rejeita a palavra "sexagenário", porque simplesmente não está nos seus planos deixar-se envelhecer. Trata-se de uma verdadeira novidade demográfica, parecida com a que, em meados do século XX, se deu com a consciência da idade da adolescência, que deu identidade a uma massa de jovens oprimidos em corpos desenvolvidos, que até então não sabiam onde meter-se nem como vestir-se.
Este novo grupo humano, que hoje ronda os sessenta, teve uma vida razoavelmente satisfatória. São homens e mulheres independentes que trabalham há muitos anos e que conseguiram mudar o significado tétrico que tantos autores deram durante décadas ao conceito de trabalho. Que procuraram e encontraram, há muito, a atividade de que mais gostavam e que com ela ganharam a vida.
Talvez seja por isso que se sentem realizados... Alguns nem sonham em aposentar-se. E os que já se aposentaram, gozam plenamente cada dia, sem medo do ócio ou da solidão, crescem por dentro, quer num, quer na outra. Desfrutam a situação, porque, depois de anos de trabalho, criação dos filhos, preocupações, fracassos e sucessos, sabem bem olhar para o mar, sem pensar em mais nada, ou seguir o voo de um pássaro da janela de um quinto andar...
Neste universo de pessoas saudáveis, curiosas e ativas, a mulher tem um papel destacado. Traz décadas de experiência de fazer a sua vontade, quando as suas mães só podiam obedecer, e de ocupar lugares na sociedade que as suas mães nem tinham sonhado ocupar. Esta mulher sexalescente sobreviveu à bebedeira de poder que lhe deu o feminismo dos anos 60. Naqueles momentos da sua juventude, em que eram tantas as mudanças, parou e refletiu sobre o que, na realidade, queria. Algumas optaram por viver sozinhas, outras fizeram carreiras que sempre tinham sido exclusivamente para homens, outras escolheram ter filhos, outras não, foram jornalistas, atletas, juízas, médicas, diplomatas... Mas cada uma fez o que quis: reconheçamos que não foi fácil, e, no entanto, continuam a fazê-lo todos os dias.
Algumas coisas podem dar-se por adquiridas. Por exemplo, não são pessoas que estejam paradas no tempo: a geração dos "sessenta", homens e mulheres, lida com o computador como se o tivesse feito toda a vida. Escrevem aos filhos que estão longe (e veem-se), e até se esquecem do velho telefone para contactar os amigos: mandam e-mails com suas notícias, ideias e vivências. De uma maneira geral, estão satisfeitos com o seu estado civil e, quando não estão, não se conformam e procuram mudá-lo. Raramente se desfazem em prantos sentimentais. Ao contrário dos jovens, os sexalescentes conhecem e pesam todos os riscos. Ninguém se põe a chorar quando perde: apenas reflete, toma nota, e parte para outra ...
Partilham a devoção pela juventude e suas formas superlativas, quase insolentes de beleza; mas não se sentem em retirada. Competem de outra forma, cultivam o seu próprio estilo... Os homens não invejam a aparência dos jovens estrelas do desporto, ou dos que ostentam um Armani, nem as mulheres sonham em ter as formas perfeitas de uma modelo. Em vez disso, conhecem a importância de um olhar cúmplice, de uma frase inteligente ou de um sorriso iluminado pela experiência.
Hoje, as pessoas na fase dos sessenta estreiam uma idade que não tem nome. Antes seriam velhos, e agora já não o são. Hoje têm boa saúde, física e mental; recordam a juventude, mas sem nostalgias porque a juventude, ela própria também está cheia de nostalgias e de problemas. Celebram o sol em cada manhã e sorriem para si próprios... Talvez por alguma secreta razão, que só sabem os que chegam aos sessenta no século XXI.
 (Fotografia tirada em Alfama, em 2010)

domingo, 25 de março de 2012

Do ramo mais alto da árvore


Como fazia todas as manhãs, Pongo saltou para a árvore e trepou até ao ramo mais alto. Acomodou-se, esticou as patas, lambeu o dorso. Gostava daquele poleiro, um miradouro privilegiado sobre a quinta, de onde via tudo sem ninguém dar por ele. Não que lhe prestassem muita atenção quando andava lá por baixo: um gatarrão cinzento, de meia idade, sem muita paciência para as brincadeiras dos mais novos, não era uma companhia muito solicitada! Assim, acomodava-se ali em cima e observava tudo.
Via as brigas dos cães e o alarido que faziam quando passava uma bicicleta pelo portão da quinta. Via os melros que depenicavam as sementes e os botões dos malmequeres. Ria-se com as manobras das lagartixas, que se escondiam atrás dos vasos de flores. Apreciava as brincadeiras dos gatitos mais pequenos, que por ali brincavam. Sim, porque havia sempre gatinhos pequenos na quinta. Uns desapareciam, outros cresciam e tornavam-se gatarrões como ele. Pongo gostava de observar as suas brincadeiras. Achava-lhes graça, embora já não tivesse paciência nem energia para andar a correr com eles atrás das borboletas. Havia uma gatita de quem ele gostava mais do que de qualquer outro: a Bia. Lembrava-se do seu nascimento, numa tarde chuvosa. A mãe tinha ido para um recanto abrigado do telhado e aí tinham nascido, a Bia e um irmão que não sobrevivera a uma queda do telhado escorregadio. Bia era mais prudente e só de lá descera em segurança, com a mãe. Além de prudente, era linda, com manchas de três cores, brancas, cor de laranja e castanhas escuras. E Pongo embevecia-se a vê-la descobrir o mundo, lá em baixo.
Pongo deu por si a sonhar. Imaginava que corria com Bia pela quinta, a subir às árvores e a saltitar pelo prado. Ele havia de lhe ensinar tantas coisas! Podia ensiná-la a apanhar moscas com a pata, ele era um especialista. Ou mesmo iniciá-la naqueles miados tremidos, que pareciam trinados, e que tinham significados muito especiais! E passavam-lhe pela cabeçorra cinzenta muitas outras coisas, enquanto a via correr e brincar. Um dia, também havia de correr com ela atrás das borboletas, por cima dos muros da quinta. Haviam de se divertir tanto, até ficarem cansados e adormecerem, enroscados um no outro. Imaginava-lhe o pelo luminoso, com as manchas da cor do sol, protegido pelo seu grande corpo cinzento. E dormitava feliz, embalado pelo seu sonho.
Mas Bia nem dava pela presença de Pongo. Cresceu, na companhia dos outros gatos e, quando chegou a altura de arranjar um companheiro, a sua escolha natural foi o Sebas, com quem tinha partilhado tantas brincadeiras e caçadas! E o Pongo ficou lá em cima, no ramo mais alto da árvore, de coração apertado, a vê-la namorar e constituir família.
Os sonhos não vencem batalhas, pensava Pongo imerso na sua tristeza. Tinha perdido uma guerra, sem sequer ter travado uma batalha.

(Fotografia retirada do Google Images - Possível imagem do Pongo)

sábado, 24 de março de 2012

Foi há 50 anos

Há 50 anos, o Salazarismo continuava instalado de pedra e cal aqui na capital do império. Após a convulsão provocada pela vitória dos regimes democráticos na 2.ª Guerra Mundial, o regime português conseguira manter-se no poder e os brandos costumes continuavam. No entanto, os ventos da História sopravam em direções diferentes. A Guerra Colonial já incendiava Angola e os jovens portugueses começavam a interrogar-se e ao seu futuro.
Faz hoje 50 anos, em 24 de março de 1962, os estudantes universitários de Lisboa pretendiam comemorar o Dia do Estudante, como já se fazia há anos. Mas o ambiente mudara. Desde o mês de novembro anterior que havia manifestações contra a Guerra Colonial, repressão e prisões de estudantes, embora pontuais. E, naquele dia de março, decidiu-se que as comemorações iriam decorrer, mesmo sem autorização do Ministério da Educação. O regime respondeu com o encerramento da Cantina e a invasão da Cidade Universitária. Centenas de estudantes foram espancados e presos. E foi decretado o luto académico e a greve às aulas.
Marcelo Caetano era, na altura, Reitor da Universidade de Lisboa. Tentou negociar uma solução para o problema mas foi desautorizado e acabou por se demitir. E a agitação estudantil continuou, repetindo-se os confrontos com a polícia em Lisboa, no Porto e em Coimbra.
Será que os jovens estudantes de hoje em dia são muito diferentes dos de há 50 anos? Nessa altura, lutava-se pelas liberdades e garantias individuais, a liberdade de expressão e de associação, a democracia. Hoje, garantidas que estão essas liberdades individuais, os jovens preocupam-se com questões materiais básicas, arranjar um emprego, conquistar um salário justo e um futuro digno. Mas, quando a crise económica alastra, será que as liberdades individuais continuam garantidas? A História ensina-nos que a resposta não é assim tão simples.
E o que fizeram pela democracia os que lutaram nesse dia de há 50 anos? Onde estão eles, os seus filhos e afilhados? Que democracia acabaram por construir? 
A revista Expresso (passe a publicidade!) traz hoje uma reportagem interessante sobre a crise académica de 1962. Para ler e refletir. 

(O cartaz de há 50 anos)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Para a minha filha

A minha filha faz hoje dezoito anos. 
Como me faltam as palavras, pedi algumas emprestadas a Sophia de Mello Breyner Andresen.


Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
...Como o florir das ondas ordenadas.



terça-feira, 20 de março de 2012

E lá chegou a primavera...

Hoje começou a primavera. Com um dia de avanço, por ser este um ano bissexto. Confesso que tenho andado tão absorvida na crise, e na gripe, e no trabalho, que mal dei pela sua aproximação. Mas a passagem das estações é completamente indiferente a essas questões e, portanto, a primavera lá chegou, pontualmente, às 5 horas e 14 minutos desta madrugada.
A chegada da primavera significa simplesmente que estamos no equinócio, isto é, um dos momentos do ano em que os dias são iguais às noites. E realmente, se não andarmos distraídos, reparamos que os dias são cada vez maiores. E que nas árvores começam a surgir os primeiros botõezinhos, ainda que envergonhados e mirrados pela seca. É a época da renovação, em que tudo renasce. Mas a crise esmagou-nos com tanta força que estamos com dificuldade em esticar os nossos ramos e renascer. A austeridade quebrou-nos a esperança. Tentamos manter as nossas raízes firmes na terra e esperamos que passe o mau tempo.
No resto do mundo também se festeja a chegada da primavera. Na Índia, é o Holi, a festa das cores. No Japão, é o Hanami, a observação das cerejeiras em flor. E o Museu do Oriente associa-se a esta data, organizando hoje e amanhã atividades para pequenos e crescidos, com base nas festividades orientais: é a batalha das cores. A entrada é livre e os únicos requisitos são roupa usada e boa disposição. Talvez seja uma solução. Vamos espantar a desesperança e a desilusão com flores de todas as cores.

(Fotografia do Sol no equinócio de primavera. Impressionante, não é?)
Foto retirada daqui.