quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Ter ou não ter feriados


Continuam as negociações sobre a redução de feriados, civis e religiosos, a implementar a partir deste ano civil. Ou talvez do próximo, já que a Igreja Católica avisou o Governo de que poderá já não haver tempo útil para alterar o calendário de festividades litúrgicas definido para este ano de 2012.
Gosto tanto de um feriado como outra pessoa qualquer. E nem me passa pela cabeça tomar posição nessa controvérsia do aumento (ou não) da produtividade através da extinção dos feriados. O que realmente me deixa perplexa é o critério utilizado para escolher os feriados a extinguir.
Os feriados religiosos são da responsabilidade da Igreja. Os feriados civis são da responsabilidade do governo e resultam da necessidade de festejar alguma coisa que é importante para a comunidade. E o governo optou pelo 5 de Outubro, que assinala a implantação da República, e o 1.º de Dezembro, que celebra a Restauração da Independência de Portugal. Terá tirado à sorte? O 5 de Outubro, tal como o 25 de Abril, festejam mudanças de regime, do regime monárquico para o republicano, da ditadura para a democracia. Datas significativas, sem dúvida. O 10 de Junho foi um feriado criado no Estado Novo, para exaltar a Pátria, a Raça e o Império. Associaram-lhe Camões e tornou-se o dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas. Mas nenhum destes feriados existiria sem a independência do país. Sem o movimento dos Conjurados que, em 1 de Dezembro de 1640, toma o poder e luta, durante vinte e oito anos, pela independência de Portugal e pela recuperação dos territórios sem os quais o país não seria economicamente viável, não haveria Portugal. Sem esse acontecimento refundador da nação, não haveria ocasião para festejar nenhum dos outros feriados. Talvez muitos não se importem. A mim, parece-me absurdo acabar com o feriado do 1.º de Dezembro. Espero que o país não se apague, juntamente com a data!


(Obelisco comemorativo da Restauração da Independência, no Largo dos Restauradores, em Lisboa - imagem da net)

Dúvidas!

Porque às vezes temos de rir, quando pensamos neste nosso mundo. Rir para não chorar!


A ONU resolveu fazer uma grande pesquisa mundial.
A pergunta era:

"Por favor, diga honestamente, qual a sua opinião sobre a escassez de alimentos no resto do mundo."

O resultado foi desastroso. Foi um total fracasso.

Os europeus do norte não entenderam o que é "escassez";
Os africanos não sabiam o que era "alimentos";
Os espanhóis não sabiam o significado de "por favor";
Os norte-americanos perguntaram o significado de "o resto do mundo";
Os cubanos estranharam e pediram maiores explicações sobre "opinião";
O parlamento português ainda está a debater o que significa "diga honestamente".


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A propósito d' O Anjo Branco



Acabei de ler há pouco tempo o livro de José Rodrigues dos Santos O Anjo Branco, publicado pela Gradiva. Conta a história de José Branco, desde a sua infância em Penafiel, até à sua vida de médico no norte de Moçambique, em plena Guerra Colonial, passando pela sua vivência de jovem universitário em Coimbra. Confesso que não o achei uma grande obra literária. As personagens são pouco elaboradas, unidimensionais. O ritmo da ação é lento, entrecortado por diálogos às vezes repetitivos, pouco profundos. No entanto, a história de José Branco acaba por se tornar um simples pretexto para a verdadeira história do livro, que é o colonialismo em Moçambique nos anos 60 e 70 do século passado, a Guerra Colonial, os contextos sociais e políticos, as motivações, os soldados, os colonos, os funcionários. A PIDE. Os combates e o massacre de Wiriamu. Os participantes e os espectadores. Como documento de uma época, esta é uma obra que vale a pena ler. Talvez não seja um romance histórico, mas é com certeza uma página romanceada da nossa história.
Acho que este livro, tal como outros do mesmo autor, tem um valor documental bastante grande. José Rodrigues dos Santos faz um grande trabalho de pesquisa histórica e, em muitas das suas obras, pinta de uma forma acessível ao grande público um acontecimento ou uma época, integrando o seu contexto histórico: A Ilha das Trevas situa-se em Timor, levando-nos da colonização portuguesa até à ocupação da Indonésia; A Filha do Capitão retrata a sociedade portuguesa do início do século XX, particularmente a participação de Portugal na 1.ª Guerra Mundial; A Vida num Sopro mostra os primórdios da ditadura salazarista, da censura, do corte das liberdades. Com este O Anjo Branco, José Rodrigues dos Santos continua a fazer o retrato do século XX português. Só por isso, merece o meu apreço e os nossos agradecimentos.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A burocracia da morte

Acabámos de saber que, neste mês de Fevereiro, morreram mais pessoas em Portugal do que o costume nesta época do ano, especialmente acima dos sessenta e cinco anos. O relatório aponta para o frio e a gripe como os grandes responsáveis. Não duvido, claro. Mas penso também que os aumentos dos preços, da energia elétrica às taxas moderadoras, podem ter tido um efeito na qualidade de vida de muitas dessas pessoas, que vivem com pensões e rendimentos diminutos.
Esta situação fez-me lembrar um texto terrível (pela realidade de que levanta o véu) de Maria José Morgado, que encontrei aqui. Mostra-nos um panorama triste, de uma sociedade em falência mais do que económica, de valores familiares e solidários. E faz-me pensar se os gastos com a tal burocracia da morte, de que Maria José Morgado fala, não deveriam ser direcionados para o apoio aos vivos. Enquanto é tempo!
Vale a pena ler.

Morrer em Lisboa

Num destes dias consultava atormentada uma estatística de óbitos na cidade de Lisboa. É a das comunicações da PSP ao MP, sobre cadáveres encontrados abandonados no interior de habitações, na rua ou entrados nos hospitais. Defuntos desamparados, na solidão e na miséria. Entranhas negras da cidade da luz branca onde os mecanismos do apoio social ou familiar se desfazem com a crise, com a desagregação familiar, na indiferença das grandes cidades.
Muitos destes idosos, com pensões inferiores a 500 euros, não tiveram acesso aos lares sociais nem a qualquer assistência. O apoio domiciliário está exaurido. Nas miseráveis habitações de toda uma vida humilde, chegam a descobrir os corpos caídos, putrefactos, cobertos de larvas, em avançado estado de decomposição, ausência de globos oculares, no meio de lixo acumulado e de comida seca e podre. Morte sem assistência médica. Vem descrito em certo processos. morte silenciosa dos desvalidos.
No mês de janeiro foram comunicadas 101 destas mortes, corridas na cidade de Lisboa.
Só nos dias 30 e 31 de Janeiro foram comunicadas 21 mortes solitárias. Foram ordenadas 74 autópsias e dispensadas 27. No mês e dezembro foram comunicadas 76 mortes nas mesmas circunstâncias. Ordenadas 53 autópsias e dispensadas 23.
Este serviço do DIAP de Lisboa regista uma média mensal de 70 óbitos. Cada autópsia oscila entre cerca de 700 e 3000 mil euros, consoante os casos. São ordenadas em caso de dúvida sobre a causa da morte.
O maior número de mortes situa-se entre os setenta, oitenta e nove anos. Há mais homens do que mulheres a morrer nestas circunstâncias trágicas. Segue-se a absurda burocracia da morte. A PSP comunica ao MP a existência do cadáver que só pode ser removido com autorização do MP. O delegado de saúde verifica o óbito. Um perito do Instituto Nacional de Medicina Legal faz o exame do hábito externo do cadáver.
O MP providencia o funeral digno e humilde com o apoio da Santa Casa da Misericórdia ou de outra instituição social. Quando se regista a existência de bens, ainda que sejam vasos de plástico com flores de plástico, ainda que sem valor comercial, é obrigatório participar ao tribunal cível num processo de herança jacente. Estes bens sem herdeiros e sem valor revertem para o estado que não os quer e que gastou mais nesta diligência do que se lhes tivesse dado um destino expedito.
É o zelo absurdo da burocracia da morte depois do desamparo em vida. Um esmagador silêncio rodeia tudo. As famílias, os filhos desapareceram. O estado social também.
Há uma procuradora-adjunta de turno, com um telemóvel disponível 24 horas sobre 24 horas, para que ao menos não haja atrasos na autorização da remoção dos cadáveres encontrados em casa ou na via pública. Há o trabalho da PSP e do Instituto de Medicina Legal. Fazemo-lo com o desejo de respeitar a dignidade do ser humano até ao fim. Fazemo-lo no departamento que, tendo por missão principal o combate ao crime também este estranho serviço de óbitos.
Estranho mundo, este. 




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Se isto não é o céu, são os arrabaldes!

Aproxima-se mais um fim de semana de sol, com tudo o que tem de positivo e de negativo. Negativo, pelos problemas que a seca já está a criar no setor agro-pecuário nacional, positivo para quem vive na cidade e espera pelo fim de semana para dar uma voltinha e carregar as baterias. Por isso, deixo aqui a minha sugestão para um belo passeio, entre a serra e o mar. 

(O Portinho da Arrábida)

Não é longe. A uma hora de Lisboa, à saída de Setúbal, situa-se a serra da Arrábida. É difícil inventariar tudo o que se pode descobrir na serra, os passeios que aí se podem dar, os petiscos que se podem comer nas redondezas, do choco frito de Setúbal às tortas de Azeitão. Para passeios pedestres, aconselho uma vista de olhos às propostas da SAL (Sistemas de Ar Livre), sempre interessantes e bem organizadas. Mas, para os preguiçosos que gostam de andar de carro ou de mota, há uma rota totalmente irresistível.
A melhor hipótese é sair de Setúbal na direção das praias da Figueirinha e Portinho. O passeio é todo à beira-mar. A estrada serpenteia à beira das falésias da serra, deixando entrever o mar sereno e brilhante por entre as árvores. Se o trânsito não for muito intenso, talvez seja boa ideia parar para retemperar as forças no Portinho da Arrábida. Porque a partir daí a o caminho é sempre a subir, até ao cume da serra, por onde a estrada segue de volta, novamente, a Setúbal. Se a estrada de ida era belíssima, por entre as árvores e junto ao mar, agora, do alto da serra, a paisagem é esplendorosa. Da península de Tróia a toda a foz do Sado, até às falésias da serra que caiem sobre o mar, a vista é de cortar a respiração.

(Vista da foz do Sado a partir do alto da serra)

Conta-se que, no século XVI, um frade franciscano que por ali passeava ficou tão impressionado com a paisagem e o ambiente envolvente, que terá exclamado: "Se isto não é o céu, são os arrabaldes!" E assim se teriam ali instalado os frades franciscanos arrábidos, no convento que ainda se pode ver, meio escondido por entre o verde da serra. O próprio convento é uma pérola, com as suas instalações muito brancas no meio do arvoredo e as ermidas que se espalham para o alto da serra. 
Após a expulsão das ordens religiosas, em 1834, o convento ficou abandonado e sofreu roubos e vandalismos variados. Hoje, pertence à Fundação Oriente, foi reabilitado e aí se realizam diversos eventos e reuniões. Pode ser visitado, com marcação prévia. Mais informações aqui.


(O Convento da Arrábida)

(Fotografias de Teresa Diniz)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Alguém viu a princesa da Tailândia?

É que eu não consegui ver. Fiz zapping por todos os telejornais e, talvez por pouca sorte minha, só apanhei as notícias do costume, que se repartem, de modo idêntico, entre a crise e o futebol. Poderá ter havido alguma reportagem,  mas pequenina, envergonhada, despercebida. Parece-me que a nossa comunicação social não percebeu bem a importância da oferta tailandesa a Portugal, a prova de respeito e amizade que, cruzando o tempo, pode constituir-se numa relação privilegiada. Mas não foi só a comunicação social. O nosso Presidente da República também não se dignou aparecer, sendo representado pela primeira-dama e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas. Quem só entende a linguagem dos números não percebe como a linguagem dos afetos pode ser importante na própria economia.
Felizmente, há quem perceba. D. Duarte de Bragança esteve presente, numa representação suprapartidária e intemporal do povo que há cinco séculos se ligou ao povo tailandês. Transcrevo as palavras seguintes, surripiadas do blogue Combustões.
 SAR o Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança, descendente dos Reis que construíram e animaram as relações entre a Coroa portuguesa e o velho reino do Sião, foi recebido pelo Chefe do Protocolo de Estado, Embaixador Bouza Serrano e pelo Embaixador Carlos Pais, responsável no MNE pela "Comissão Celebrações Ásia". Em conversa com SAR, agora regressado de Macau e Timor, falou-se na possibilidade de, em ocasião a agendar, a família real portuguesa visitar a Tailândia e ali testemunhar a perdurabilidade e profundidade da estima de que goza o nome de Portugal.



(Video da Câmara Municipal de Lisboa )
Vale a pena ver e ouvir.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Sião em Belém

Hoje, a princesa Maha Chakri Sirindhorn, herdeira do trono tailandês, está em Lisboa para inaugurar a Sala Thai, um pavilhão tailandês oferecido pelo seu país a Portugal no âmbito das comemorações dos 500 anos de relações diplomáticas entre os dois países.
Foi em 1511 que o navegador português Duarte Fernandes aportou a Ayuthaya, capital do Reino do Sião (atual Tailândia). Foi bem recebido pelo rei, firmando com ele uma aliança que ainda hoje se mantém. Para comemorar tão antiga aliança, o governo tailandês encomendou e construiu em Banguecoque o pavilhão que foi depois transportado de barco até ao Jardim Vasco da Gama, em Belém, onde está montado desde o final do ano passado.



Esta obra lindíssima foi concebida pelo arquitecto  Athit Limmu e acabou por representar o «símbolo da amizade» entre os dois países, por se inspirar nas linhas arquiteturais da cidade de Banguecoque e no Mosteiro dos Jerónimos. O telhado foi coberto com placas que se assemelham à pele de um dragão ou às escamas de um peixe, enquanto os pináculos são anjos estilizados. Na parte de baixo existe um quase varandim inspirado nas ogivas dos Jerónimos em tons verdes. Porém, é o dourado a cor dominante, conseguida com mil finas folhas de ouro.
Esta é a minha sugestão para um passeio de fim de semana ou, quem sabe, ainda hoje ou amanhã para quem tem a sorte de ter tolerância de ponto. É um passeio pobrezinho, até Belém, mas é bem compensado pela sumptuosidade do Pavilhão Thai. A não perder.

Mais informações aqui.