terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Sião em Belém

Hoje, a princesa Maha Chakri Sirindhorn, herdeira do trono tailandês, está em Lisboa para inaugurar a Sala Thai, um pavilhão tailandês oferecido pelo seu país a Portugal no âmbito das comemorações dos 500 anos de relações diplomáticas entre os dois países.
Foi em 1511 que o navegador português Duarte Fernandes aportou a Ayuthaya, capital do Reino do Sião (atual Tailândia). Foi bem recebido pelo rei, firmando com ele uma aliança que ainda hoje se mantém. Para comemorar tão antiga aliança, o governo tailandês encomendou e construiu em Banguecoque o pavilhão que foi depois transportado de barco até ao Jardim Vasco da Gama, em Belém, onde está montado desde o final do ano passado.



Esta obra lindíssima foi concebida pelo arquitecto  Athit Limmu e acabou por representar o «símbolo da amizade» entre os dois países, por se inspirar nas linhas arquiteturais da cidade de Banguecoque e no Mosteiro dos Jerónimos. O telhado foi coberto com placas que se assemelham à pele de um dragão ou às escamas de um peixe, enquanto os pináculos são anjos estilizados. Na parte de baixo existe um quase varandim inspirado nas ogivas dos Jerónimos em tons verdes. Porém, é o dourado a cor dominante, conseguida com mil finas folhas de ouro.
Esta é a minha sugestão para um passeio de fim de semana ou, quem sabe, ainda hoje ou amanhã para quem tem a sorte de ter tolerância de ponto. É um passeio pobrezinho, até Belém, mas é bem compensado pela sumptuosidade do Pavilhão Thai. A não perder.

Mais informações aqui.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Cantar a crise

Depois das boas notícias da área da cultura, voltam as más notícias: o desemprego continua a aumentar e as previsões para este ano são tudo menos animadoras. 
Como é costume, os portugueses reagem com o humor, uma espécie de sarcasmo resignado, ou uma resignação sarcástica. No seu último trabalho Boss para os amigos, Boss AC canta a crise, a falta de emprego, a falta de dinheiro, a desesperança de uma juventude que se sente defraudada. Sempre com humor: "Ó mãe, fazias-me era rico em vez de bonito!" Com muito sentido de oportunidade, a SIC Notícias fez um spot  intercalar com esta canção e imagens da atualidade. Vale mesmo a pena ver e ouvir. E refletir.


domingo, 19 de fevereiro de 2012

Um Urso de Ouro português

Faz hoje 28 anos. Mas João Salavisa tem uma dupla razão para festejar. Ontem, na prestigiada Berlinale 2012, o Festival de cinema de Berlim, ganhou o Urso de Ouro para a melhor curta-metragem, com o seu filme "Rafa", que conta a história de um miúdo de 13 anos que deixa a sua casa nos súburbios para procurar a mãe, detida numa esquadra de polícia de Lisboa por conduzir sem carta. No seu agradecimento, perante 1600 espetadores, disse ainda que dedicaria o prémio ao governo português. "Mas só na condição de nos ajudarem nos próximos anos, porque não sabemos o que vai acontecer com o nosso cinema", acrescentou. 
João Salavisa estudou Realização na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e desde 2005 que vem a acumular prémios, entre os quais se distingue, já em 2009, a Palma de Ouro do Festival de Cannes com a sua curta-metragem "Arena". Foi o primeiro português a obter tal prémio.
Também o filme “Tabu”, de Miguel Gomes, foi distinguido com o prémio Alfred Bauer para a inovação, um dia depois de ter lhe ter sido atribuído o prémio especial da crítica, no mesmo Festival de Cinema de Berlim. 
Decididamente, o cinema português está de parabéns e João Salavisa pelo seu sucesso no dia em que festeja os seus 28 anos.

(João Salavisa mostrando o galardão, em Berlim)

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Simplesmente Maria

Comemorou-se esta semana (mais precisamente no dia 13) o Dia Mundial da Rádio. Contrariamente ao que previam os profetas da desgraça, a rádio não desapareceu com o desenvolvimento da televisão. Continua de boa saúde e a fazer companhia aos automobilistas durante as longas horas de deslocações a que todos estamos sujeitos. Mas não há dúvidas de que já não tem a importância que tinha noutros tempos. Nos dias da minha infância, tinha centralidade na vida diária, acompanhava as tarefas domésticas e todos conheciam os principais programas e cantarolavam os mesmos anúncios. 
Tudo isto fez-me lembrar a "Simplesmente Maria". Quem se recorda? Era uma rádio-novela, ou folhetim radiofónico, que passava diariamente na Rádio Renascença. Começou em 1973 e só terminou nos finais de 1974, tendo feito a transição revolucionária sem perturbações. Era transmitida a seguir ao almoço e Portugal quase parava para ouvir a "Simplesmente Maria". O nome já diz muito: era uma história para fazer chorar as pedras da calçada. A Maria era uma jovem ingénua, que vinha da província para Lisboa para trabalhar. Aí, conheceu um malandrão bem parecido, que a engana e abandona, grávida. Maria tem o apoio de outro rapaz, esse honesto e trabalhador, que a vai ajudar a subir na vida. Havia um Tony, não me lembro se era o honesto ou o malandrão. O que me lembro muito bem é que toda a gente suspirava pelas desventuras da pobre Maria, incluindo as minhas tias-avós. E só me recordo de um entusiasmo parecido, muitos anos depois, com a transmissão da primeira telenovela, "Gabriela". 



Havia também uma revista semanal, uma fotonovela, com os episódios da "Simplesmente Maria". Aqui está uma delas. São relíquias de uma época muito distante, no tempo e mentalidade.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um momento no Tempo

Morreu no dia 11 deste mês, inesperadamente. Whitney Houston foi encontrada morta na banheira, numa casa de banho de um hotel. Excesso de comprimidos ou de qualquer outro produto? Seguramente, excesso de sonhos não cumpridos, de desilusões, de falta de esperança. É muito difícil lidar com a fama, com a exposição mediática. Não vou entrar em especulações sobre as causas da morte. Apenas quero expressar o meu pesar pela morte de uma grande cantora, possuidora de uma voz absolutamente única. 
Esta é uma das canções que eu prefiro. One moment in time. Um momento no tempo, em que encontrou a eternidade.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Das idades do amor


Termina hoje a maratona de textos sobre o amor que me propus apresentar nesta quinzena, assim como uma espécie de preparação para o Dia dos Namorados, o dia de S. Valentim, que se celebra amanhã.  Queria terminar com um texto especial, e nenhum melhor do que esta pequena reflexão de José Saramago sobre o amor. Haverá uma idade para o amor? Se o amor é a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, então todas as idades são certas. 

Penso saber que o amor não tem nada que ver com a idade, como acontece com qualquer outro sentimento. Quando se fala de uma época a que se chamaria de descoberta do amor, eu penso que essa é uma maneira redutora de ver as relações entre as pessoas vivas. O que acontece é que há toda uma história nem sempre feliz do amor que faz que seja entendido que o amor numa certa idade seja natural, e que noutra idade extrema poderia ser ridículo. Isso é uma ideia que ofende a disponibilidade de entrega de uma pessoa a outra, que é em que consiste o amor. 

Eu não digo isto por ter a minha idade e a relação de amor que vivo. Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como factor de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério. 

José Saramago, in "Revista Máxima, Outubro 1990"


(José Saramago, imagem retirada de Google images)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Do amor em português

O amor expressa-se em atos, emoções, mas também em palavras. Como escolher essas palavras? Os portugueses são tímidos, no que diz respeito à expressão dos sentimentos, são contidos, têm medo de parecer parolos, ou até piegas (agora que esta palavra entrou em força no nosso vocabulário...), têm receio de ser mal entendidos, gozados, expostos. E, em resultado dessa contenção, atrapalham-se nas palavras até lhes alterarem os próprios significados. Miguel Esteves Cardoso escreveu sobre isso, com a graça e a qualidade que já lhe conhecemos. Tão difícil escolher um texto de MEC, escolher só um!

Mesmo que Dom Pedro não tenha arrancado e comido o coração do carrasco de Dona Inês, Júlio Dantas continua a ter razão: é realmente diferente o amor em Portugal. Basta pensar no incómodo fonético de dizer «Eu amo-o» ou «Eu amo-a». Em Portugal aqueles que amam preferem dizer que estão apaixonados, o que não é a mesma coisa, ou então embaraçam seriamente os eleitos com as versões estrangeiras: «I love you» ou «Je t'aime». As perguntas «Amas-me?» ou «Será que me amas?» estão vedadas pelo bom gosto, senão pelo bom senso. Por isso diz-se antes «Gostas mesmo de mim?», o que também não é a mesma coisa. 

O mesmo pudor aflige a palavra amante, a qual, ao contrário do que acontece nas demais línguas indo-europeias, não tem em Portugal o sentido simples e bonito de «aquele que ama, ou é amado». Diz-se que não sei-quem é amante de outro, e entende-se logo, maliciosamente, o biscate por fora, o concubinato indecente, a pouca vergonha, o treco-lareco machista da cervejaria, ou o opróbio galináceo das reuniões de «tupperwares» e de costura. 
Amoroso não significa cheio de amor, mas sim qualquer vago conceito a leste de levemente simpático, porreiro, ou giríssimo. Quem disser «a minha amada» — ou, pior ainda, «o meu amado» — arrisca-se a não chegar ao fim da frase, tal o intenso e genuíno gáudio das massas auditoras em alvoroço. Amável nunca quer dizer «capaz de ser amado», e, para cúmulo, utiliza-se quase sempre no pretérito («Você foi muito amável em ter-me convidado para a inauguração da sua Croissanterie»). Finalmente um amor é constantemente aviltado na linguagem coloquial, podendo dizer-se indistintamente de escovas de dentes, contínuos que trazem os cafés a horas, ou casinhas de emigrantes. (O que está a acontecer com o adjectivo queridoconstitui, igualmente, uma das grandes tragédias da nossa idade.) 

Talvez a prática mais lastimavelmente absurda, muito usada na geração dita eleita, seja aquela de chamar amigas às namoradas. Isto porque os portugueses, raça danada para os eufemismos, também têm vergonha das palavras namorado enamorada. Quando as apresentam a terceiros, nunca dizem «Esta é a Suzy, a minha namorada» — dizem sempre «Esta é uma amiga minha, a Suzy», transmitindo a implícita noção, muito cara ao machismo lusitano, de que se trata de uma entre muitas. E, também assim, como se não lhes bastasse dar cabo do Amor, vão contribuindo para o ajavardamento semântico da Amizade. 



(Miguel Esteves Cardoso, imagem do Google images)