segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

ReciclArte

Vik Muniz é um artista plástico brasileiro, nascido em S. Paulo em 1961, e tem neste momento uma exposição retrospetiva no Museu Berardo, em Lisboa. Aproveitando os tempinhos livres no meio de uma formação, durante este fim de semana, fui lá espreitar e admito que fiquei fascinada. Tinham-me dito que Vik era um fotógrafo e um artista talentoso. Mas ele é muito mais do que um fotógrafo, porque o que é fascinante é o trabalho extraordinário que está por trás de cada imagem. Ele aproveita os materiais mais díspares e inesperados, de diamantes e caviar a açúcar, arame, brinquedos, desperdícios informáticos, até lixo. É com esses materiais que ele compõe as suas imagens realistas e fantásticas ao mesmo tempo. Vale mesmo a pena dar um salto até ao Centro Cultural de Belém, passear um pouco por aquele espaço tão agradável, e ver esta exposição que, devido ao seu sucesso, vai estar patente até ao início de março. A entrada é livre e o agrado é garantido.
Depois da visita à exposição, aconselho uma breve caminhada até à Fábrica dos Pastéis de Belém, um ícone de Lisboa e da pastelaria nacional, ultimamente tão falados! Um café e um pastel de Belém ficam por 1,80 €. Uma boa sugestão anti-crise, para aproveitar durante este mês de fevereiro.

(Auto-retrato)


Nota Retificativa: Com muito pesar tenho de retificar a informação que aqui deixei. Esta exposição apenas esteve patente até ao final deste mês de Janeiro. A exposição que teve o seu tempo alargado até ao início de março é a "Arte da Guerra", também no CCB e também muito interessante. Consta de uma enorme coleção de cartazes do tempo da 2.ª Guerra Mundial, dirigidos à população civil dos diversos países participantes. Se houvesse um lema comum a todos eles seria "A Guerra começa a ser ganha em casa". 
Pela incorreção divulgada, peço as maiores desculpas.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O Maestro José Atalaya da minha infância

Num dos últimos posts que fiz, intitulado A Música anda por aí, mencionei um maestro que eu ouvia encantada na televisão, quando era pequenita, e que me acordou para a música chamada clássica, através das explicações e comentários que fazia das peças musicais. Algumas das pessoas que têm a simpatia de seguir este blogue e por aqui vão deixando as suas opiniões, perguntaram-me pelo nome desse maestro. Até avançaram com alguns nomes como hipótese. Confessei que não me recordava. Lembrava-me que era forte, tinha uma espessa barba escura e era um grande comunicador. A única vantagem de estar em casa com gripe é, precisamente, ter algum tempo livre para fazer leituras ou pesquisas e aproveitei para tentar encontrar na internet esse maestro que emergiu das minhas recordações de infância. Não foi preciso procurar muito. O nome tocou logo as campainhas da minha memória. As barbas espessas, agora já não escuras mas muito brancas, desfizeram as dúvidas. Era o maestro José Atalaya.
Para se perceber o impacto que estes programas tinham na nossa infância, preciso de explicar o papel da televisão, nessa época. Não havia internet, claro, nem mesmo computadores portáteis, nem mais de duzentos canais disponíveis por cabo. Mesmo a televisão começava as suas emissões ao fim da tarde (creio que por volta das 18 horas) e terminava a emissão cerca da meia-noite. Mas, nesse meio tempo, tinha uma posição central na nossa vida. Só havia um canal, que todos viam e comentavam. Por aí chegavam as notícias - lembro-me de ouvirmos atentamente os boletins noticiosos sobre a evolução da doença do Professor Salazar, ou da visita do Papa Paulo VI a Fátima. Eu ouvia-as ansiosamente, porque a seguir vinham os programas infantis, a Abelha Maia, o Carrossel Mágico. Depois, a programação seguia com documentários, filmes ou programas de divulgação. Como só havia um canal, eu lembro-me de ver tudo o que aparecia, desde o Bonanza até documentários sobre a Segunda Guerra Mundial.
Era nesse conjunto de programas que surgia o maestro José Atalaya. Eu não percebia muito de música, mas ele ensinava a distinguir os instrumentos, explicava as obras musicais e o seu entusiasmo era contagioso. Lembro-me de ficar colada à televisão e de com ele aprender alguns nomes de compositores que me iriam acompanhar no resto da vida.
Ao maestro José Atalaya deixo aqui a minha modestíssima homenagem, através deste Adagio de Samuel Barber, por ele dirigido e executado pelos jovens da Orquestra Raízes Ibéricas.



quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O Mundo não se fez para pensarmos nele...

E, porque depois de tanta crise não me apetece pensar mais no estado do mundo, ou talvez apenas por causa da gripe...


O Mundo não se Fez para Pensarmos NeleO meu olhar é nítido como um girassol. 
Tenho o costume de andar pelas estradas 
Olhando para a direita e para a esquerda, 
E de, vez em quando olhando para trás... 
E o que vejo a cada momento 
É aquilo que nunca antes eu tinha visto, 
E eu sei dar por isso muito bem... 

Sei ter o pasmo essencial 
Que tem uma criança se, ao nascer, 
Reparasse que nascera deveras... 
Sinto-me nascido a cada momento 
Para a eterna novidade do Mundo... 

Creio no mundo como num malmequer, 
Porque o vejo. Mas não penso nele 
Porque pensar é não compreender ... 

O Mundo não se fez para pensarmos nele 
(Pensar é estar doente dos olhos) 
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo... 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... 
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, 
Mas porque a amo, e amo-a por isso, 
Porque quem ama nunca sabe o que ama 
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ... 
Amar é a eterna inocência, 
E a única inocência não pensar... 

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema II"

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Crise

Olhou para o papel que tinha à frente e sentiu que não lhe saía nada. O papel, como tudo, não era escolhido ao acaso, era amarelado, com linhas, macio. Mas, mesmo assim, não estava a ajudar. Rodou a esferográfica entre os dedos e perdeu-se nos seus pensamentos.
Ainda ontem a mãe lhe tinha dito: "Gasto mais de cem euros por mês na farmácia. Cada vez sobra menos dinheiro da minha pensão!" Pois, também cada vez lhe sobrava menos dinheiro do ordenado. Era o supermercado e os passes para os autocarros dos miúdos. Era o dentista do mais velho, mais o médica das alergias do mais novo. Também precisava de ir ao médico, mas ía adiando, adiando, para um mês mais favorável, que parecia não chegar nunca.
Pôs o papel de lado e foi buscar o portátil. Podia ser que, no ecrã do computador, as ideias se alinhassem com mais clareza e ligeireza. Enquanto esperava pela ligação, pensou no jantar. Não tinha deixado nada preparado, lá tinha de inventar qualquer coisa, com os ingredientes mais económicos. Um empadão era uma boa ideia, rendia muito, talvez desse para o dia seguinte. Lembrou-se que, no dia seguinte, o filho mais velho ia a uma visita de estudo da escola. Ainda tinha de lhe dar dinheiro, e agora não dava jeito nenhum, tão perto do fim do mês.
O ecrã do computador estava à sua frente, mas só lá via o seu próprio reflexo, os olhos cansados, os vincos aos cantos da boca (tinha-os descoberto há pouco tempo, será que já lá estavam e só os via agora que sentia a alma vincada e enrugada?), o cabelo a precisar de uma pintura que lhe desse a ilusão de que os anos afinal passavam mais devagar...
Voltou a pegar na folha de papel, juntamente com a conta da luz, que estava por baixo e que tinha de ser paga até ao final da semana. Perdeu-se a olhar para o envelope com o logotipo da empresa de distribuição elétrica, a revolteá-lo nas mãos. Cada vez pagava mais. Já não sabia se era do aumento do IVA, se do aumento da tarifa, se daquele maldito inverno que não havia meio de terminar, e que a obrigava a ligar o aquecedor à noite, na sala, no quarto dos miúdos. Tinha de o ligar menos tempo, só um bocadinho antes deles se deitarem. Racionalizar as despesas, controlar os gastos! Difícil era saber onde racionalizar mais!
Recostou-se na cadeira, a olhar para o ecrã brilhante e vazio. Decididamente, estava numa crise. Uma crise de inspiração!


(Este texto integra-se numa blogagem coletiva promovida pela 
Fábrica de Letras, neste mês de janeiro com o tema Crise)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Coisas de tirar o sono

Por acaso, juntaram-se ontem à noite, no mesmo serviço noticioso, duas notícias, digamos, complementares. Enquanto o nosso Presidente da República justificava as suas declarações sobre dificuldades em pagar as despesas com as reformas que recebe, uma idosa de Alfândega da Fé, com um problema oncológico, declarava que não podia ir às consultas ao Porto, porque não podia pagar o transporte dos bombeiros, a partir de agora feito às suas custas.
Não vou fazer comentários aos rendimentos do Presidente da República. Na verdade, não me choca que ganhe dez mil euros; chocam-me muito mais os salários principescos de alguns gestores públicos ou futebolistas da nossa praça. Mas, será que falamos do mesmo país? Que abismo colossal em termos de "dificuldades em pagar despesas"! Os olhos daquela velhinha ficaram-me nos olhos. Refletiam incompreensões e interrogações. Aquela idosa não percebia porque é que, de repente, era ela que tinha de pagar pelos desgovernos da dívida soberana da República Portuguesa. Eu também não percebo. Não há outras hipóteses? Parcerias público-privadas? Diminuição das freguesias, dos deputados? Fundações, associações? Não há outras pessoas menos vulneráveis do que ela?
Será que os olhos dela não vão tirar o sono a ninguém?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Ministros e cantoneiros

Realmente, há coisas que nos deixam a pensar!...
A revista inglesa The Economist resolveu, em 1984, fazer uma sondagem com previsões económicas para a década seguinte. Sondou grupos de pessoas, divididos por classes profissionais, entre os quais se encontravam  ministros, gestores de multinacionais, estudantes universitários e... cantoneiros da limpeza urbana. Dez anos depois, chegou à conclusão de que os que mais se tinham aproximado dos resultados corretos tinham sido os gestores e os cantoneiros. 
Agora vão repetir a experiência. Consta que o Presidente dos Estados Unidos da América já anda aflito,  porque os cantoneiros prevêm que Obama não será reeleito.
Mas o que me ocorre pensar é que os ministros andam decididamente muito mais afastados da realidade do que as pessoas comuns!

sábado, 21 de janeiro de 2012

A Música anda por aí!

Graças a uma colaboração entre a Câmara Municipal de Lisboa e a Orquestra Metropolitana de Lisboa, a música anda por aí, por Lisboa, ouve-se nos bairros, encontra-se nos museus, espera-nos nos Palácios, até nos surpreende nos Paços do Concelho. Durante todo este mês há concertos dos solistas da Orquestra. Consegui assistir a dois. Um concerto dos instrumentos de sopro, em Benfica, e outro de cordas e flauta, no Museu do Oriente. O primeiro trouxe Vivaldi, Rossini, Gounod. O segundo foi um mergulho no génio de Mozart. Nos dois casos, os concertos foram comentados pelo musicólogo Rui Campos Leitão. No seu estilo descontraído, apresentou os instrumentos, contou pormenores da vida dos compositores e do contexto social, chamou a nossa atenção para aspetos da execução musical e das peças que, de outra forma, talvez nos passassem despercebidos. Enfim, fez-me lembrar uns concertos que eram transmitidos na televisão quando eu era pequenita, comentados por um maestro que tornava tudo tão fascinante que eu o acuso, sinceramente, de ter sido um dos responsáveis pelo meu gosto pela música.


A música anda por aí. Gratuitamente. O que me parece outra excelente proposta para ocupar os nossos fins de tarde neste inverno de crise.