E, porque depois de tanta crise não me apetece pensar mais no estado do mundo, ou talvez apenas por causa da gripe...
O Mundo não se Fez para Pensarmos NeleO meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema II"
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Crise
Olhou para o papel que tinha à frente e sentiu que não lhe saía nada. O papel, como tudo, não era escolhido ao acaso, era amarelado, com linhas, macio. Mas, mesmo assim, não estava a ajudar. Rodou a esferográfica entre os dedos e perdeu-se nos seus pensamentos.
Ainda ontem a mãe lhe tinha dito: "Gasto mais de cem euros por mês na farmácia. Cada vez sobra menos dinheiro da minha pensão!" Pois, também cada vez lhe sobrava menos dinheiro do ordenado. Era o supermercado e os passes para os autocarros dos miúdos. Era o dentista do mais velho, mais o médica das alergias do mais novo. Também precisava de ir ao médico, mas ía adiando, adiando, para um mês mais favorável, que parecia não chegar nunca.
Pôs o papel de lado e foi buscar o portátil. Podia ser que, no ecrã do computador, as ideias se alinhassem com mais clareza e ligeireza. Enquanto esperava pela ligação, pensou no jantar. Não tinha deixado nada preparado, lá tinha de inventar qualquer coisa, com os ingredientes mais económicos. Um empadão era uma boa ideia, rendia muito, talvez desse para o dia seguinte. Lembrou-se que, no dia seguinte, o filho mais velho ia a uma visita de estudo da escola. Ainda tinha de lhe dar dinheiro, e agora não dava jeito nenhum, tão perto do fim do mês.
O ecrã do computador estava à sua frente, mas só lá via o seu próprio reflexo, os olhos cansados, os vincos aos cantos da boca (tinha-os descoberto há pouco tempo, será que já lá estavam e só os via agora que sentia a alma vincada e enrugada?), o cabelo a precisar de uma pintura que lhe desse a ilusão de que os anos afinal passavam mais devagar...
Voltou a pegar na folha de papel, juntamente com a conta da luz, que estava por baixo e que tinha de ser paga até ao final da semana. Perdeu-se a olhar para o envelope com o logotipo da empresa de distribuição elétrica, a revolteá-lo nas mãos. Cada vez pagava mais. Já não sabia se era do aumento do IVA, se do aumento da tarifa, se daquele maldito inverno que não havia meio de terminar, e que a obrigava a ligar o aquecedor à noite, na sala, no quarto dos miúdos. Tinha de o ligar menos tempo, só um bocadinho antes deles se deitarem. Racionalizar as despesas, controlar os gastos! Difícil era saber onde racionalizar mais!
Recostou-se na cadeira, a olhar para o ecrã brilhante e vazio. Decididamente, estava numa crise. Uma crise de inspiração!

(Este texto integra-se numa blogagem coletiva promovida pela
Fábrica de Letras, neste mês de janeiro com o tema Crise)
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Coisas de tirar o sono
Por acaso, juntaram-se ontem à noite, no mesmo serviço noticioso, duas notícias, digamos, complementares. Enquanto o nosso Presidente da República justificava as suas declarações sobre dificuldades em pagar as despesas com as reformas que recebe, uma idosa de Alfândega da Fé, com um problema oncológico, declarava que não podia ir às consultas ao Porto, porque não podia pagar o transporte dos bombeiros, a partir de agora feito às suas custas.
Não vou fazer comentários aos rendimentos do Presidente da República. Na verdade, não me choca que ganhe dez mil euros; chocam-me muito mais os salários principescos de alguns gestores públicos ou futebolistas da nossa praça. Mas, será que falamos do mesmo país? Que abismo colossal em termos de "dificuldades em pagar despesas"! Os olhos daquela velhinha ficaram-me nos olhos. Refletiam incompreensões e interrogações. Aquela idosa não percebia porque é que, de repente, era ela que tinha de pagar pelos desgovernos da dívida soberana da República Portuguesa. Eu também não percebo. Não há outras hipóteses? Parcerias público-privadas? Diminuição das freguesias, dos deputados? Fundações, associações? Não há outras pessoas menos vulneráveis do que ela?
Será que os olhos dela não vão tirar o sono a ninguém?
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Ministros e cantoneiros
Realmente, há coisas que nos deixam a pensar!...
A revista inglesa The Economist resolveu, em 1984, fazer uma sondagem com previsões económicas para a década seguinte. Sondou grupos de pessoas, divididos por classes profissionais, entre os quais se encontravam ministros, gestores de multinacionais, estudantes universitários e... cantoneiros da limpeza urbana. Dez anos depois, chegou à conclusão de que os que mais se tinham aproximado dos resultados corretos tinham sido os gestores e os cantoneiros.
Agora vão repetir a experiência. Consta que o Presidente dos Estados Unidos da América já anda aflito, porque os cantoneiros prevêm que Obama não será reeleito.
Mas o que me ocorre pensar é que os ministros andam decididamente muito mais afastados da realidade do que as pessoas comuns!
sábado, 21 de janeiro de 2012
A Música anda por aí!
Graças a uma colaboração entre a Câmara Municipal de Lisboa e a Orquestra Metropolitana de Lisboa, a música anda por aí, por Lisboa, ouve-se nos bairros, encontra-se nos museus, espera-nos nos Palácios, até nos surpreende nos Paços do Concelho. Durante todo este mês há concertos dos solistas da Orquestra. Consegui assistir a dois. Um concerto dos instrumentos de sopro, em Benfica, e outro de cordas e flauta, no Museu do Oriente. O primeiro trouxe Vivaldi, Rossini, Gounod. O segundo foi um mergulho no génio de Mozart. Nos dois casos, os concertos foram comentados pelo musicólogo Rui Campos Leitão. No seu estilo descontraído, apresentou os instrumentos, contou pormenores da vida dos compositores e do contexto social, chamou a nossa atenção para aspetos da execução musical e das peças que, de outra forma, talvez nos passassem despercebidos. Enfim, fez-me lembrar uns concertos que eram transmitidos na televisão quando eu era pequenita, comentados por um maestro que tornava tudo tão fascinante que eu o acuso, sinceramente, de ter sido um dos responsáveis pelo meu gosto pela música.
A música anda por aí. Gratuitamente. O que me parece outra excelente proposta para ocupar os nossos fins de tarde neste inverno de crise.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
A igreja mais antiga de Portugal
A lápide lá está a atestar a data da edificação: 912. O que significa que esta igreja perfaz este ano 1100 anos e, ao olharmos as pedras e os arcos que a compõem, vemos mais do que pedras e arcos. Vemos testemunhas de correrias de cristãos e mouros que, à época, ainda antes da formação de Portugal, disputavam estes territórios. Vemos uma demonstração de religiosidade sentida e que necessita de se afirmar, numa zona recém-conquistada aos infiéis. Vislumbramos uma época de recursos escassos e soluções tecnológicas ingénuas. Mas conseguimos adivinhar também uma época de trocas económicas e culturais, visível nas influências diversas e bem heterogéneas desta pequena igreja.
Falo da Igreja de São Pedro de Lourosa, situada no concelho de Oliveira do Hospital. Podia acrescentar aqui imensos pormenores arquitetónicos e artísticos, mas o propósito deste blogue não é científico, por isso não me vou alargar em considerações que podem ser encontradas aqui ou aqui. Deixo este desafio para um passeio, neste ano de crise em que, provavelmente, todos temos limites mais apertados para as nossas opções de férias ou fins de semana. Neste domingo, celebra-se a missa que dá início às comemorações jubilares da igreja. Mas, se não pudermos lá ir no domingo, parece-me um excelente destino para um passeio na primavera que já se avizinha. Eu vou de certeza!
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Ano do Dragão
Para os Chineses, começa durante este mês (mais precisamente lá para dia 23) o ano do Dragão. É um signo poderoso, ligado a coisas positivas. Segundo parece, é um bom ano para casar - esqueçam essa história de ser bissexto! Também é um bom ano para ter filhos, iniciar negócios, pedir empréstimos para lançar projetos. Tudo dará certo, porque o Dragão protege os corajosos e audazes. E este é um Dragão de Água, propiciador da felicidade.
Que refrescante saber de uma previsão para este ano que não inclui as palavras "crise", "austeridade", "cortes", ou mesmo "fim do mundo"! Ou será que as boas notícias funcionam só para a China?
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