sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A igreja mais antiga de Portugal

A lápide lá está a atestar a data da edificação: 912. O que significa que esta igreja perfaz este ano 1100 anos e,  ao olharmos as pedras e os arcos que a compõem, vemos mais do que pedras e arcos. Vemos testemunhas de correrias de cristãos e mouros que, à época, ainda antes da formação de Portugal, disputavam estes territórios. Vemos uma demonstração de religiosidade sentida e que necessita de se afirmar, numa zona recém-conquistada aos infiéis. Vislumbramos uma época de recursos escassos e soluções tecnológicas ingénuas. Mas conseguimos adivinhar também uma época de trocas económicas e culturais, visível nas influências diversas e bem heterogéneas desta pequena igreja.
Falo da Igreja de São Pedro de Lourosa, situada no concelho de Oliveira do Hospital. Podia acrescentar aqui imensos pormenores arquitetónicos e artísticos, mas o propósito deste blogue não é científico, por isso não me vou alargar em considerações que podem ser encontradas aqui ou aqui. Deixo este desafio para um passeio, neste ano de crise em que, provavelmente, todos temos limites mais apertados para as nossas opções de férias ou fins de semana. Neste domingo, celebra-se a missa que dá início às comemorações jubilares da igreja. Mas, se não pudermos lá ir no domingo, parece-me um excelente destino para um passeio na primavera que já se avizinha. Eu vou de certeza!


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ano do Dragão

Para os Chineses, começa durante este mês (mais precisamente lá para dia 23) o ano do Dragão. É um signo poderoso, ligado a coisas positivas. Segundo parece, é um bom ano para casar - esqueçam essa história de ser bissexto! Também é um bom ano para ter filhos, iniciar negócios, pedir empréstimos para lançar projetos. Tudo dará certo, porque o Dragão protege os corajosos e audazes. E este é um Dragão de Água, propiciador da felicidade.
Que refrescante saber de uma previsão para este ano que não inclui as palavras "crise", "austeridade", "cortes", ou mesmo "fim do mundo"! Ou será que as boas notícias funcionam só para a China?


sábado, 14 de janeiro de 2012

Postal de Lisboa XVIII – Árvores de Interesse Público


Quantas vezes caminhamos por Lisboa, tão apressados que nem nos damos tempo para apreciar o que está à nossa volta! Mal olhamos para os prédios, as pessoas, os nossos sentidos concentrados no trânsito, ou no trabalho que nos espera nesse dia. E, no entanto, quantas coisas interessantes esta cidade tem para mostrar! Por exemplo, as árvores. Como eu ando sempre de nariz no ar, dá-me para reparar nas árvores de Lisboa. Felizmente ainda não inundámos a cidade de palmeiras, na tentativa de a transformar numa espécie de cidade californiana ou caribenha. Mas o clima é propício e muitas árvores do mundo imenso que explorámos foram trazidas para Lisboa e aqui se desenvolveram bem. Às vezes, até nos acolhemos à sombra destas belas árvores, nas tardes soalheiras, sem nos apercebermos do valor do património que nos protege das inclemências do sol.
Algumas dessas árvores têm tanto valor que foram declaradas Árvores de Interesse Público. As razões podem variar. Podem ser árvores muito antigas (há algumas do tempo dos Descobrimentos, até da fundação de Portugal). Podem ser árvores de espécies raras, ou então de formas tão harmoniosas ou tão bizarras que merecem preservação.

(Cipreste do Buçaco, no Jardim França Borges, no Príncipe Real)
A maioria destas árvores está situada em parques e jardins da capital. No entanto, algumas encontram-se isoladas, no meio dos passeios, nas ruas, à mercê da poluição, e até do vandalismo de quem nada sabe e nada quer preservar. Uma das minhas preferidas é um belíssimo lodão-bastardo (nome científico Celtis australis L.), que se ergue indiferente aos automóveis no centro da Avenida de Berlim. 
(Lodão-bastardo, na Avenida de Berlim)
Outra, junto à Sé de Lisboa, no Largo do Limoeiro, é uma Bela-Sombra (nome científico Phytolacca dioica L); o próprio nome aponta a sua função predileta. Enorme, cheia de espaços no tronco onde apetece esconder e brincar, estende-se pelo passeio, obriga-nos a rodeá-la, mas se calhar não a cuidar dela como merecia.
(Bela-Sombra, no Largo do Limoeiro à Sé)
Das mais de 600.000 árvores que existem em Lisboa, foram classificadas como Árvores de Interesse Público 19 povoamentos (conjuntos arbóreos) e 65 árvores isoladas. A Câmara Municipal de Lisboa está a organizar circuitos para dar a conhecer esta parte do património da cidade, o que me parece uma excelente ideia.
Mas elas já aí estão, para nosso deleite. Altas e orgulhosas, de formas estranhas, frondosas e convidativas, ou antigas e decrépitas. De interesse público.
(Fotografias tiradas do site da Autoridade Florestal Nacional, Árvores Monumentais de Portugal)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Não sou Maçon!

Numa altura em que só se fala da Maçonaria e os seus membros parecem sair de baixo de cada pedra como cogumelos em tempo de chuva, tenho de fazer uma declaração: não sou Maçon! É que parece que já vamos sendo poucos! E confesso que me faz alguma impressão esta pujança de uma sociedade secreta numa sociedade que se diz livre e pautada pelos mesmos valores que a Maçonaria defende e ajudou a implantar, desde os tempos das Revoluções Liberais e republicanas. A não ser que as elites que declara recrutar tenham vergonha de ir aos Centros de Emprego da sua zona de residência e exibam este avental, em vez de um curriculum-vitae. Não sei, que eu não sou de intrigas, ao contrário de certas sociedades secretas!...
De qualquer forma, não resisto a partilhar este texto de António Marques, publicado hoje no Inimigo Público:

Portugueses percebem que Maçonaria serve para subir na vida e 700 mil desempregados deixam de fazer fila no Centro de Emprego e fazem fila na Loja Mozart

Bem dizia o grande Eça de Queiroz que Portugal é uma choldra. E não é que a secretíssima Maçonaria virou tema de conversa nos cafés, entre minis e tremoços, como se fosse o Benfica, sendo os membros da Maçonaria já tão conhecidos como Aimar, Saviola e Cardozo!
Todos os dias, surgem na TV e nos jornais, políticos e empresários com ar embaraçado, negando serem maçons e jurando a pés juntos nunca terem estado numa reunião maçónica. Porra, que exagero, até parece que são acusados de violar putos da Casa Pia na casa de Elvas! E os que se assumem maçons dizem que as reuniões se limitam ao convívio entre membros, como se a Loja Mozart fosse uma espécie de Alunos de Apolo.
É que há coisas sobre as coisas mais vale dar uma boa gargalhada!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Fumar? Onde?

Hoje, segundo parece, saiu a público outro estudo sobre o tabagismo que indica claramente que fumar à entrada dos estabelecimentos afeta também o ambiente no interior. Imediatamente se ouviram as vozes usuais, clamando pela proibição total do fumo ou, pelo contrário, clamando contra os fundamentalismos anti-tabágicos. Não tenho nenhuma solução mágica. Mas tenho observado algumas coisas que gostava de partilhar.
Mas primeiro uma declaração de interesses (agora está na moda esta expressão!):
Não fumo, mas não sou fundamentalista em relação ao tabaco. Fumei durante muito tempo, desde os quinze anos. Depois, quando engravidei do meu primeiro filho, deixei de fumar. E continuei a fumar e a deixar de fumar regularmente, até que deixei de vez. Não foi propriamente por medo dos efeitos do tabaco, mas porque com os filhos pequenos não tinha as mãos livres o tempo suficiente para pegar num cigarro! Hoje, se me apetece fumar um cigarrinho não me impeço de o fazer, o que acontece uma ou duas vezes por ano, depois de uma jantarada com amigos!
Devo acrescentar também que acredito nas liberdades individuais, até de fazer coisas estúpidas e que nos prejudicam. Já me incomoda mais que os meus impostos sejam utilizados para tratar as consequências desses atos prejudiciais livremente assumidos.
Lembro-me de, durante muito tempo, se fumar livremente nas salas dos professores. Porque efetivamente incomodava e prejudicava quem não tinha culpa nenhuma e não era fumador, essa situação foi proibida e foram criadas salas para fumadores. Na minha escola, havia uma sala anexa à sala dos professores para onde iam os fumadores. Era pequena, e eles queixavam-se de que o ambiente ficava toldado de nuvens de fumo e pesado, mesmo com as janelas abertas. Mas a escolha era deles, certo? Havia também uma saleta para os funcionários fumadores. Os alunos não podiam fumar no recinto escolar, o que não me parece mal, embora sempre houvesse alguns mais rebeldes que se escondiam a fumar atrás dos pavilhões. Tal como no nosso tempo de escola, não é?
Entretanto, há alguns anos, surgiu a proibição total de fumar dentro do espaço escolar. Fecharam as saletas dos fumadores, mas eles não deixaram de fumar, evidentemente. Então, tal como aconteceu em todo o lado, os fumadores vieram para a rua fumar. Hoje, em todos os intervalos, há grupos de professores e funcionários a fumar à porta da escola. Alunos também, claro, e cada vez são mais, ou não tivessem ali à vista o exemplo do comportamento adulto, que eles gostam de imitar embora nunca o admitam. Às vezes, são mesmo os seus professores preferidos que ali estão, figuras de referência para miúdos que tantas vezes não as encontram em casa. O espaço à volta das árvores está repleto de beatas. Um caixote do lixo, pendurado num candeeiro a dois ou três metros do portão principal da escola, foi transformado num enorme cinzeiro; a tampa é utilizada para para apagar os cigarros, que por ali ficam, a enfeitar a rua. 
Que espetáculo deplorável! Não vale a pena chamar a atenção para estes comportamentos. Depois de um olhar surpreendido, viria a conversa do costume: "Qual é o problema? A rua é livre, aqui faço o que me apetece!" Claro, sem dúvida! Mas isto deixa-me a pensar. Afinal, os fundamentalismos nem sempre têm os resultados esperados.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Vítimas colaterais

Neste fim de semana que passou, mais um tremor de terra fez estremecer o Japão. Nada de estranhar, sendo uma zona de alta atividade sísmica. Nada também que se compare com o enorme sismo que atingiu o Japão há quase um ano, no dia 11 de março de 2011. Nesse dia, eram 6h46 em Portugal quando um sismo de magnitude 8,8 na escala de Richter sacudiu as ilhas japonesas, o mais forte no Japão desde há 140 anos, o sexto mais forte no mundo desde que há registos. Houve milhares de mortos. Seguiram-se dois tsunamis, que devastaram as costas japonesas. Uma onda de 14 metros atingiu a central nuclear de Fukushima I, inundando equipamentos e provocando explosões.
Sabemos o que se passou a seguir. Lembramo-nos das imagens das populações evacuadas das áreas expostas às fugas radioativas da central, dos alimentos contaminados, do medo que se instalou de um desastre nuclear em larga escala. O governo japonês garantiu a desativação da central logo que fosse possível aceder à zona perigosa. Vários governos, como por exemplo o alemão, recuaram na aposta na energia nuclear. E a vida continuou.
Poucos falaram noutras vítimas do desastre, os animais deixados para trás na pressa da evacuação. As imagens que vinham do Japão, mostravam-nos salas de aula com pequenas mochilas abandonadas, quartos desarrumados e, ao mesmo tempo, instalações onde vacas esperavam ainda pela ordenha do dia, ou recintos onde porcos desorientados esperavam pela morte. Algumas dessas imagens podem ser vistas aqui. O que aconteceu a esses animais?
No verão passado,  a National Geographic enviou o fotógrafo David Guttenfelder para a zona de exclusão à volta da instalação nuclear de Fukushima. As fotografias vieram a público na revista de Dezembro de 2011. Encontrou, entre muitos outros destroços, animais de companhia e de quinta que vagueavam por ruas desertas de gente: vacas, porcos, cães, gatos, até avestruzes. Muitas vezes desafiando barreiras da polícia e barricadas, equipas de voluntários conseguiram salvar e descontaminar alguns animais, devolvendo-os aos seus donos. Outros foram morrendo, de fome ou de doença. Pobres animais, são vítimas inocentes de uma situação que não podem evitar. São danos colaterais de um desastre que não provocaram, mas do qual sofrem as consequências. 
Só quis que não morressem esquecidos.


(Dois cães numa rua abandonada de Okuma, perto de Fukushima. Fotografia de David Guttenfelder)

domingo, 8 de janeiro de 2012

Portugal visto pelos carteiros

Ainda se encontram iniciativas interessantes, originais, criativas!
Os CTT decidiram distribuir aos seus carteiros máquinas fotográficas descartáveis e desafiá-los para fotografarem o pequeno mundo em que circulam diariamente. E os carteiros aderiram, tirando milhares e milhares de fotografias que foram depois visionadas e escolhidas por um júri. Foram selecionadas 200 fotografias, expostas até hoje no edifício dos CTT, na Rua de São José, em Lisboa.
É uma exposição tocante, que nos mostra um Portugal esquecido e atrasado, o Portugal profundo, como se costuma chamar. Recantos isolados do nosso país, locais que parecem parados no tempo, pormenores pitorescos, rostos expressivos. Retratos de pessoas que, por vezes, têm no carteiro um dos poucos contactos com o mundo exterior, seja numa remota aldeia transmontana, seja num prédio de um subúrbio de Lisboa. Os animais que os recebem nos quintais, as caixas de correio improvisadas e improváveis. Em resumo, momentos, pormenores. Registados pelos olhares atentos e cheios de sensibilidade dos carteiros.
Para quem não conseguiu ver a exposição em Lisboa, há a boa notícia de que ela irá circular pelo país. Se, ainda assim, não for possível, resta um livro editado pelos Correios que guarda as melhores fotografias. Para memória futura.


(Fotografia premiada do carteiro Álvaro José Azevedo, de Vila Real)