Nesta altura do ano, somos bombardeados com programas televisivos que fazem resumos e releituras do ano que finda e se sondam os auspícios para o ano que vai começar. É uma época de balanços, esperanças e intenções. Sonhos que se descartam, ultrapassados ou derrotados. Outros que se iniciam e firmam os primeiros passos. É uma época estranha, quase mágica. Lembrei-me de Carlos Drummond de Andrade. Tinha um conjunto de poemas chamados, bem a propósito, Poemas de Dezembro. Pesa-se o ano que termina com os olhos nos voos que já se vislumbram.
Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
- flor do cotidiano -
é vôo de um pássaro
é uma canção.
(Dezembro de 1968)
Mas o Poeta também nos deixou uma belíssima Receita de Ano Novo. Para quê procurar afincadamente no mundo à nossa volta o que tem de começar dentro de nós?
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.


