quarta-feira, 9 de março de 2011

Grácia Nasi, uma história de vida

Hoje, quarta-feira de cinzas, começou oficialmente a Quaresma. Para os cristãos é um tempo de reflexão, de pensar em coisas sérias. Dei por mim a pensar na problemática religiosa no mundo actual, na tolerância versus intolerância, nos vários tipos de fundamentalismos. E, bem a propósito, lembrei-me do último livro que li, intitulado Grácia Nasi - A Judia portuguesa do Século XVI que enfrentou o seu próprio destino. Escrito por Esther Mucznik, é um livro fascinante. Não é um romance, é antes uma biografia de uma vida tão cheia e aventurosa que parece um romance. E lê-se com a mesma avidez.
Grácia Nasi nasceu em Portugal em 1510, numa família judaica expulsa de Espanha. Em Lisboa, a família enfrenta a conversão forçada ao cristianismo, no reinado de D. Manuel, e Grácia é baptizada como Beatriz de Luna, mantendo toda a vida esta vivência ambivalente.
Fica viúva muito cedo, herdando a fortuna do marido e continuando o seu percurso como uma verdadeira mulher de negócios. Mas a época é difícil, a Inquisição instala-se em Portugal e Grácia consegue organizar a sua saída do país, viajando com a família para Antuérpia. De Antuérpia para Veneza, depois para Ferrara, daí para Istambul, Grácia vai fugindo com a família e os seus haveres, à medida que a Contra-Reforma se estende pela Europa e a Inquisição estende as suas garras cada vez mais longe. Entretanto, vai criando uma rede de contactos comerciais e financeiros e construindo um império baseado no comércio das especiarias, que acrescenta a sua já imensa riqueza. Mas Grácia também utiliza essa riqueza e essa rede de contactos para ajudar os judeus e marranos perseguidos, especialmente na Península Ibérica. 
O livro vai muito para lá da simples biografia porque nos pinta os ambientes e o contexto histórico de cada local onde Grácia se instala. É de uma grande riqueza de pormenores e baseia-se numa aturada pesquisa documental. 
Somos confrontados com documentos e imagens chocantes, que nos remetem para tragédias muito mais recentes. É o caso da ratificação, em 1555, pelo Papa Paulo IV, do Estatuto de Limpeza de Sangue, que excluía os cristãos-novos de numerosos cargos. Da criação dos primeiros guetos, como o de Veneza. E o que dizer da Bula "Cum Nimis Absurdum", publicada pelo Papa no mesmo ano, onde referia que " era absurdo e desapropriado que os judeus, cuja culpa os condenou a uma servidão perpétua, se mostrem tão ingratos... A sua insolência tem ido tão longe na nossa capital, na cidade de Roma,e noutras cidades e aldeias... que se atrevem a viver misturados com os cristãos... na vizinhança de igrejas, sem nenhuma distinção no vestuário e alugam casas nas melhores ruas e praças..." 
Podíamos continuar, os exemplos infelizmente não faltam. E quando os nossos filhos e alunos nos perguntarem onde estiveram as raízes do anti-semitismo nazi, já sabemos o que responder. 




domingo, 6 de março de 2011

Recordar Phil Collins

Hoje, o músico Phil Collins anunciou o fim da sua carreira musical. Segundo os jornais noticiavam, ele teria problemas de audição e também problemas nos nervos da mão que o impossibilitavam de tocar bateria. Agora, a preocupação dele estava centrada nos filhos. "Vejo os prémios MTV e penso: não posso estar neste negócio. Não pertenço àquele mundo e não me parece que alguém vá ter saudades minhas." Foi assim que o britânico Phil Collins anunciou o fim da carreira de 40 anos na música. Permito-me discordar. Ele pode já não pertencer àquele mundo. Tem 60 anos e os problemas físicos não perdoam. Mas não me parece que vá ser esquecido. Lembramo-nos todos bem de muitos êxitos que teve na sua carreira a solo. E lembro-me de Phil Collins desde o tempo em que era o baterista de uma das minhas bandas de eleição, os Genesis, e, depois da saída de Peter Gabriel, também o vocalista do grupo.
Não resisto a recordar o Phil Collins dessa época. Quem não se lembra de Carpet Crawlers? 
Uma música fantástica. Um Phil Collins impossível de esquecer.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Olhar para o lado melhor da vida

Nos últimos tempos, cada vez que vejo um noticiário fico deprimida. Tenho aquela sensação desagradável de que está tudo numa situação má, mas tão má que não se vislumbra solução! As famílias estão a ficar economicamente asfixiadas, o Estado pede dinheiro a juros incomportáveis, Portugal caminha alegremente para o abismo. Só o futebol mantém alguns portugueses felizes. 
Mas estamos à beira de um fim de semana um bocadinho maior, é Carnaval... enfim, vamos tentar olhar para o lado brilhante da vida, assobiar, sorrir, cantar e dançar, como nos aconselham os sempre incomparáveis Monty Python.

Bom fim de semana!

quinta-feira, 3 de março de 2011

Dias disto e daquilo...

Como toda a gente que me conhece já sabe, não sou grande adepta de dias disto e daquilo. Sim, eu sei que servem para chamar a atenção para certos problemas ou situações de discriminação, mas na maioria das vezes parece-me que a única coisa que está por trás desses dias é uma grande pressão consumista. No entanto, não me tinha apercebido da dimensão que este fenómeno atinge. Até ontem...
Ontem, quando fazia uma pesquisa na internet, deparei-me com dados que desconhecia e me espantaram. Alguém imagina quantas efemérides se comemoram em Portugal? Nada mais nada menos do que 354, quase uma para cada dia. Mas se há alguns dias sem efeméride, há outros muito cheios. A 21 de Março, por exemplo, celebra-se a Poesia, a Eliminação da Discriminação Racial, a Floresta, o Sono, a Marioneta, a Síndrome de Down e a Árvore. Há todo o tipo de efemérides e eventos comemorativos. Do estudante ao professor, das zonas húmidas aos castelos, do ovo ao sorriso, há dias para todos os gostos, passando por todo o tipo de relações familiares e por toda a espécie de doenças. Mas há alguns dias com efemérides verdadeiramente originais. Só para dar alguns exemplos: a 24 de Abril celebra-se o animal de laboratório; a 24 de Junho comemora-se o Dia do OVNI; e a 31 de Julho festeja-se o Orgasmo. Confesso que este último me espantou. Uma rápida pesquisa elucidou-me: o dia foi lançado por uma loja de artigos eróticos, mas tem sido aproveitado para campanhas de educação sexual. 
Aparentemente, basta angariar 1.000 assinaturas para levar uma proposta de criação de efeméride até à Assembleia da República. Têm lá entrado propostas bem estranhas, como a criação do Dia do Cão ou da Fruta. Não mais estranhas, no entanto, do que outras efemérides já existentes.
Dei por mim a pensar: É tão fácil apresentar uma petição! Porque não criar um dia mais adaptado à nossa realidade? Por exemplo, porque não propor a criação do Dia da Corrupção, um dia para celebrar essa actividade tão tradicional e enraízada na nossa sociedade? E haverá, com certeza, outras propostas igualmente imaginativas.



segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Cigarros, chocolates e cigarros de chocolate

Hoje fui a uma loja especializada na venda de produtos feitos de chocolate, para comprar moedas de chocolate. À saída, vi numa caixa uns pacotinhos que se pareciam mesmo com maços de tabaco. E perguntei à vendedora: "São cigarros de chocolate?" A rapariga, muito simpática, explicou-me que não, que já não havia esse produto há cerca de dois anos, que inclusivamente podiam pagar multa se fizessem e comercializassem produtos com o feitio de cigarros, charutos ou qualquer coisas que fosse fumável. Para evitar o quê? O vício? Trocámos ali umas opiniões, saltaram logo as recordações, juntaram-se mais duas pessoas. Todos tinhamos consumido furiosamente cigarros de chocolate na infância. "Lembro-me de os comprar na taberna lá da terra, o meu pai dava-me umas moeditas..." . "Eu até coleccionava os pacotinhos com as marcas!" Afinal, nenhum de nós fumava, pelo que o efeito pernicioso dos cigarrinhos de chocolate não tinha tido efeito em nenhum de nós! A vendedora até mostrou o artigo da Lei do Tabaco (Artigo 17.º) que proíbe estes produtos. Mas então, esperem lá, é proíbido vender cigarros de chocolate, mas os cigarros a sério são vendidos à vontade, não são? Sim, aqueles que têm nicotina, e alcatrão, e mais uns 400 produtos químicos, muitos deles altamente viciantes e cancerígenos. Tem muita lógica, não há dúvida, os cigarritos de chocolate são incomparavelmente mais perigosos. 
Temo pelos outros produtos de chocolate. Quem sabe se o consumo de moedas de chocolate não nos torna gastadores compulsivos? Ou as sombrinhas de chocolate, será que nos vão tirar o prazer de andar à chuva? E os carrinhos, meu Deus, os carrinhos de chocolate parecem-me tão perigosos! Podem tornar-nos condutores irresponsáveis, não é?
Enfim, o melhor é comer uma tablete de chocolate ou um bombom. Desde que não seja um Bacci ou um Mon Cheri, que me pode tornar irremediavelmente ninfomaníaca!



domingo, 27 de fevereiro de 2011

Contra ou A favor?

Este mundo da blogosfera é grande e complexo. Encontra-se muita coisa que não interessa nada. No entanto, por vezes, encontro blogues muito interessantes, que tentam fazer coisas diferentes, originais. É o caso deste blogue A favor & Contra. A ideia é lançar temas de debate, no dia 15 de cada mês. Durante trinta dias, é tempo de comentar os temas, ou mesmo comentar os outros comentários. São sempre temas fracturantes, como se diz hoje em dia. Este mês, por exemplo, o tema é a eutanásia, mas já por lá passaram o casamento homossexual, ou a legalização do haxixe. No final do prazo estipulado, os autores do blogue fazem um balanço dos comentários recebidos e dos argumentos apresentados. Não há ideias certas nem erradas; a ideia é que o blogue seja um espaço de debate, de troca de opiniões.
Resta-me dar os parabéns aos dinamizadores deste espaço, que já tinham sido responsáveis por outras iniciativas de muito sucesso, como a Tertúlia Virtual, ou a BlogGincana. E resta-me também aconselhar a todos os que por aqui param a visita a este espaço blogosférico. Visitem, que vale a pena. E, já agora, deixem a vossa opinião sobre o tema do mês. 



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O Facho da Bonança

Sabem os que me conhecem do meu fascínio por faróis. Gosto da parte estética dos faróis, a torre, os espelhos e luzes, mas acima de tudo gosto do simbolismo, da luz que guia na escuridão. Enfim, aproxima-se um fim de semana de sol, apetece sair de casa e passear, e não resisto a propor um passeio de descoberta. Não a um farol (já me estaria a repetir, já fiz uma vez um post sobre isso), mas a um seu antepassado, um facho.
Neste caso, é o Facho de Nossa Senhora da Bonança, erguido no alto de uma duna de areia junto à praia de Ofir.


Segundo alguns autores, teria sido mandado construir por D. João III para ajudar os navegantes a ultrapassar os perigos do litoral pedregoso junto a Fão, os famosos "cavalos de Fão". Hoje, é um pequeno edifício quase desmoronado, com uma porta estreita, em arco, encimada pelo brasão de armas de Portugal. Na parede que dá para sul ainda existe um pequeno postigo que permitia observar uma largo pedaço de mar, mas essa função de vigia deixou de ser possível quando foi construída a pequena capela que se encontra ao lado. Lá dentro, erguia-se um poste de madeira onde se içava uma lanterna ou uma caldeira acesa para aviso dos mareantes.
Nesta época de crise, trepar até ao facho é uma caminhada agradável e que substitui uma ida ao ginásio, agora mais caros com o IVA a 23%. Faz-se um pouco de exercício, respira-se ar puro, apreciam-se as vistas, e vai-se tentando manter a linha. Para os que não estão preocupados com a linha, aconselho que desçam até à praia de Ofir e comam uma clarinha. Vale a pena!