Hoje de manhã passou um amolador pela minha rua. Ouvi o assobio, tão característico, e corri à janela como se corresse para a minha infância.
Fiquei a observá-lo. Era um velhote com um velho casaco aos quadrados e um boné na cabeça. Caminhava lentamente, a bicicleta pela mão, um caixotinho com ferramentas precariamente preso na parte de trás. De vez em quando, levava à boca a pequena gaita de beiços e soltava o seu assobio. Fazia variações: umas vezes uns sons mais curtos, outras vezes sons mais longos, mais pungentes. Percorreu a rua toda, e eu, perdida no tempo, à janela, a observá-lo. Fez-me lembrar a minha infância, quando ainda morava na Penha de França, antes de mudar para Benfica. Havia muitos vendedores de rua, homens e mulheres que passavam com os seus carrinhos, onde vendiam as mais variadas coisas. Cada um tinha o seu modo característico de se anunciar, o seu pregão. E nós nem precisavamos de perceber as palavras, só pela melodia e entoação do pregão já percebíamos se era a mulher do peixe ou a da fava-rica. Ou o amolador. Melodias de uma Lisboa que já não existe, inevitavelmente engolida pelo progresso, de uma Lisboa já na altura uma tanto desfasada no tempo.
O amolador percorreu a rua até ao fim, atravessou, virou a esquina, entrou noutra rua. Nem uma pessoa se chegou para afiar uma faca ou uma tesoura, ou ao menos para puxar dois dedos de conversa. Será que hoje ainda há lugar para estas actividades ou já não se afiam tesouras? Será que ainda há espaço para o assobio do amolador?
Quem se lembra dele?

