quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O assobio do amolador

Hoje de manhã passou um amolador pela minha rua. Ouvi o assobio, tão característico, e corri à janela como se corresse para a minha infância. 
Fiquei a observá-lo. Era um velhote com um velho casaco aos quadrados e um boné na cabeça. Caminhava lentamente, a bicicleta pela mão, um caixotinho com ferramentas precariamente preso na parte de trás. De vez em quando, levava à boca a pequena gaita de beiços e soltava o seu assobio. Fazia variações: umas vezes uns sons mais curtos, outras vezes sons mais longos, mais pungentes. Percorreu a rua toda, e eu, perdida no tempo, à janela, a observá-lo. Fez-me lembrar a minha infância, quando ainda morava na Penha de França, antes de mudar para Benfica. Havia muitos vendedores de rua, homens e mulheres que passavam com os seus carrinhos, onde vendiam as mais variadas coisas. Cada um tinha o seu modo característico de se anunciar, o seu pregão. E nós nem precisavamos de perceber as palavras, só pela melodia e entoação do pregão já percebíamos se era a mulher do peixe ou a da fava-rica. Ou o amolador. Melodias de uma Lisboa que já não existe, inevitavelmente engolida pelo progresso, de uma Lisboa já na altura uma tanto desfasada no tempo.
O amolador percorreu a rua até ao fim, atravessou, virou a esquina, entrou noutra rua. Nem uma pessoa se chegou para afiar uma faca ou uma tesoura, ou ao menos para puxar dois dedos de conversa. Será que hoje ainda há lugar para estas actividades ou já não se afiam tesouras? Será que ainda há espaço para o assobio do amolador?
Quem se lembra dele?

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Não quero ser Touro!

Eu sei que sou distraída. Por isso, provavelmente, só neste fim-de-semana me dei conta de que os signos tinham sido mudados. Assim, de repente! Foi um choque para mim, como provavelmente para milhões de outros seres humanos por esse mundo fora. 
Segundo parece, os astrónomos do Minnesota Planetarium Society divulgaram o que já se comentava em voz baixa há muito tempo: os antigos astrónomos da Babilónia basearam os signos na constelação na qual o Sol se encontrava na data do nascimento. Mas, ao longo dos milénios, a força gravitacional da Terra alterou o seu eixo o suficiente para originar uma diferença de quase um mês no alinhamento dos signos. Mais ainda: por qualquer razão, quem sabe uma birra, definiram só doze signos, quando deviam ser treze. E agora, para repor a verdade científica, há que redefinir o calendário do Zodíaco.
Pois, muito bonito! Considerações científicas àparte, há outras implicações e consequências igualmente pertinentes! O que fazer agora agora das medalhinhas e contas da Pandora, onde invariavelmente se incluiam os signos? E aquelas belas tatuagens das costas ou do tornozelo, com o símbolo zodiacal? Mas o que ainda me parece mais grave é a crise de personalidade. Crescemos com os astrólogos de serviço a martelarem-nos as características do nosso signo em todos os programas da manhã. Os mais aficcionados ainda liam as previsões diárias nos jornais ou mesmo na internet. Habituamo-nos a considerar que certos traços da nossa personalidade correspondiam ao nosso signo. E agora, viram-nos as convicções do avesso. Os antigos Leões deixam de ser autoritários para passarem a ser ligados à família e ao lar, isto é, Caranguejos. Os antigos Caranguejos tornam-se criaturas volúveis e criativas, isto é, Gémeos. E por aí fora. Desconfio que, com as crises de identidade que se avizinham, só os psicólogos tirarão algum benefício destas revoluções científicas e astronómicas.


Para os que são tão distraídos como eu e ainda não deram pelo novo alinhamento do Zodíaco, aqui está o  calendário dos Signos:


Capricórnio: De 20 Janeiro a 16 Fevereiro 
Aquário: De 16 Fevereiro a 11 Março 
Peixes: De 11 Março a 18 Abril 
Carneiro: De 18 Abril a 13 Maio 
Touro: De 13 Maio a 21 Junho 
Gémeos: De 21 Junho a 20 Julho 
Caranguejo: De 20 Julho a 10 Agosto 
Leão: De 10 Agosto a 16 Setembro 
Virgem: De  16 Setembro a 30 Outubro 
Balança: De 30 de Outubro a 23 Novembro 
Escorpião: De 23 a 29 Novembro 
Serpentário (Ophiuchus): De 29 Novembro a 17 Dezembro 
Sagitário: De 17 Dezembro a 20 Janeiro

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Espirros e anjos

O Inverno continua e, com ele, todas aquelas coisas desagradáveis que são o seu cortejo. Continua a chuva, que varia dos chuviscos às saraivadas de granizo. Continua o frio, mais ou menos intenso. Continuam os dias curtos, escuros, pesados. Até o trabalho custa mais a desenvolver. Continuam também as gripes e constipações. No meu caso, foi-se embora a gripe, mas ficaram alguns efeitos colaterais, que incluem espirros dispersos, dores de cabeça ocasionais, nariz vermelho. Mas temos de manter o espírito positivo e a boa disposição. Porque vem muito a propósito, aqui deixo um pequeno e delicioso poema de Nuno Júdice. 

BEATITUDE
No paraíso, na idade de ouro,
ouvindo os anjos tocarem alaúde
e flauta, as nuvens acorrem
como ovelhas
à sua beira. Então, os santos
pegam nas tesouras e começam 
a tosquia das nuvens. Lá
em baixo, nos prados onde as almas
se juntam, começa a chover: e como
já não haverá guarda-chuvas, 
na idade de ouro,
as almas constipam-se, 
amaldiçoando 
as ovelhas, as nuvens
e os santos. Só os anjos, continuando
a tocar, se riem, beatíficos, ouvindo
o bater da chuva
por entre o espirrar 
das almas.

(Nuno Júdice)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Canções de amor para o São Valentim

Não sou muito apreciadora de dias disto e daquilo. Do Dia de São Valentim também não. Mas pode ser um bom pretexto para recordar algumas das mais belas canções de amor, e isso sim, é intemporal. Como esta canção de John Lennon...


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Morrer sozinho

Para mim, foi o caso da semana. Chocou-me mais do que as manifestações no Egipto ou os patamares insustentáveis a que chegaram os juros da venda da nossa dívida pública. Refiro-me, claro está, à descoberta do cadáver de uma idosa em Rio de Mouro, nove anos depois da sua morte. Um cadáver rodeado de outros cadáveres, do seu cão e dos pássaros que com certeza partilhavam a solidão desta idosa e que com ela partilharam também a morte.
Não vou entrar no jogo de acusações. Realmente, se uma vizinha e um primo apresentaram uma participação de desaparecimento já em 2002, não se compreende que o Ministério Público, ou seja lá quem for, não se tenha lembrado de ir espreitar à casa onde a senhora vivia, sozinha e numa idade já avançada. No entanto, como sabemos que a Justiça funciona muito mal neste país, eu ficaria surpreendida era se tivesse havido eficácia e celeridade nesta situação.
Mas o caso faz-nos reflectir. Esta senhora ainda teve pessoas que deram pela sua falta. Mas cada vez vamos sabendo de mais situações idênticas, de pessoas que morrem sós, sem ninguém lhes estender uma mão ou sentirem o seu desaparecimentto. Parece que não existem dados estatísticos sobre este fenómeno, mas todas as entidades afirmam que está a aumentar. Compreende-se. As cidades têm populações cada vez mais envelhecidas e cada vez mais isoladas. As famílias, quando existem, vivem longe, numa vida difícil que não permite um acompanhamento dos seus idosos. Na verdade, o que me choca neste caso, como nos outros idênticos, é a imagem de solidão que nos coloca à frente dos olhos. Não podemos continuar a fechá-los. Não podemos fingir que não vemos, que não sabemos o que se passa, que não é bem assim...
Neste Ano Internacional do Voluntariado, saúdo as associações que se aperceberam do problema e tentam dar algum apoio a quem vive só. Lembro aqui a Associação Limiar ou a Coração Amarelo. Mas penso que tem de haver um plano de apoio mais estruturado, uma política de proximidade, talvez organizada pelas Juntas de Freguesia. Era, provavelmente, uma maneira de dar um rosto humano e uma utilidade mais visível a essas instituições autárquicas.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Os bonecos da Rua Sésamo

Ontem, ao fazer um zapping pelos canais televisivos, deparei com uma edição comemorativa da Rua Sésamo. Fiquei pregada à televisão, com um sorriso nostálgico e uma saudade enorme a apertar-me o coração. Os meus filhos cresceram com a Rua Sésamo. Todos os dias vibravam com as aventuras do Egas e do Becas, da Tita e do Monstro das Bolachas, do Poupas e do Conde de Kontarrr... O meu filho aprendeu a ler com a Rua Sésamo. A minha filha cresceu a cantar com a Tita. Havia sempre histórias novas, sem grandes dramatismos, mas que retratavam o quotidiano infantil e as pequenas vitórias, mas também os dramas e os medos, que povoam o dia-a-dia e o imaginário das crianças. Pegavam nos seus pequenos problemas, que podiam ir de uma ida ao médico até ao apertar dos atacadores, e tratavam-nos com graça, leveza e eficácia.
O que vêem hoje as crianças? Será que a Hanna Montana ou os desenhos animados japoneses conseguem igualar a Rua Sésamo em ingenuidade e graça? Tenho as minhas dúvidas. E tenho pena. Não sabem o que perdem!


Egas e Becas tentam dormir numa noite de trovoada...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Paixão de Sinaleiro

Há pessoas e vidas que nos espantam, nos confrontam e nos fazem exclamar a velha frase: "Isto dava um filme!"
António Paixão é polícia sinaleiro na zona do Príncipe Real, em Lisboa. Isto é, já de si, uma raridade! Quando eu era miúda, havia polícias sinaleiros em muitos dos cruzamentos de Lisboa. Alguns eram sóbrios e contidos nos seus gestos, mas havia outros que executavam autênticas coreografias em cima das peanhas, a ponto de se juntarem pequenos grupos a observar e, às vezes, a aplaudir. Também havia alturas em que não davam conta do recado e acabavam ofendidos pelos automobilistas mais apressados. Quem não se lembra deles?
Pouco a pouco, foram substituídos pelos semáforos e por sistemas informatizados com nomes femininos, que às vezes também não funcionam, mas que já não podemos ofender directamente.
Este Paixão é dos poucos que ainda regula o trânsito. Mas tem outra paixão, além da do nome, que o torna ainda mais original: o serviço aos outros. Encara o seu trabalho como um serviço de proximidade e apoio aos habitantes da zona onde trabalha. De tal forma que se meteu a tirar um curso superior na área das Políticas Sociais. Terminou o Curso há pouco tempo e é o primeiro polícia sinaleiro com estudos universitários. Agora, tenta cruzar as suas duas paixões, a acção social e a regulação do trânsito, mostrando que ainda há espaço na cidade para a ajuda aos outros, sejam crianças que atravessam as ruas a caminho da escola, sejam idosos que precisam de auxílio para o transporte das compras do supermercado. Mostrando que em qualquer profissão, mesmo nas mais raras e improváveis, há espaço para a humanização.