quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Morrer sozinho

Para mim, foi o caso da semana. Chocou-me mais do que as manifestações no Egipto ou os patamares insustentáveis a que chegaram os juros da venda da nossa dívida pública. Refiro-me, claro está, à descoberta do cadáver de uma idosa em Rio de Mouro, nove anos depois da sua morte. Um cadáver rodeado de outros cadáveres, do seu cão e dos pássaros que com certeza partilhavam a solidão desta idosa e que com ela partilharam também a morte.
Não vou entrar no jogo de acusações. Realmente, se uma vizinha e um primo apresentaram uma participação de desaparecimento já em 2002, não se compreende que o Ministério Público, ou seja lá quem for, não se tenha lembrado de ir espreitar à casa onde a senhora vivia, sozinha e numa idade já avançada. No entanto, como sabemos que a Justiça funciona muito mal neste país, eu ficaria surpreendida era se tivesse havido eficácia e celeridade nesta situação.
Mas o caso faz-nos reflectir. Esta senhora ainda teve pessoas que deram pela sua falta. Mas cada vez vamos sabendo de mais situações idênticas, de pessoas que morrem sós, sem ninguém lhes estender uma mão ou sentirem o seu desaparecimentto. Parece que não existem dados estatísticos sobre este fenómeno, mas todas as entidades afirmam que está a aumentar. Compreende-se. As cidades têm populações cada vez mais envelhecidas e cada vez mais isoladas. As famílias, quando existem, vivem longe, numa vida difícil que não permite um acompanhamento dos seus idosos. Na verdade, o que me choca neste caso, como nos outros idênticos, é a imagem de solidão que nos coloca à frente dos olhos. Não podemos continuar a fechá-los. Não podemos fingir que não vemos, que não sabemos o que se passa, que não é bem assim...
Neste Ano Internacional do Voluntariado, saúdo as associações que se aperceberam do problema e tentam dar algum apoio a quem vive só. Lembro aqui a Associação Limiar ou a Coração Amarelo. Mas penso que tem de haver um plano de apoio mais estruturado, uma política de proximidade, talvez organizada pelas Juntas de Freguesia. Era, provavelmente, uma maneira de dar um rosto humano e uma utilidade mais visível a essas instituições autárquicas.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Os bonecos da Rua Sésamo

Ontem, ao fazer um zapping pelos canais televisivos, deparei com uma edição comemorativa da Rua Sésamo. Fiquei pregada à televisão, com um sorriso nostálgico e uma saudade enorme a apertar-me o coração. Os meus filhos cresceram com a Rua Sésamo. Todos os dias vibravam com as aventuras do Egas e do Becas, da Tita e do Monstro das Bolachas, do Poupas e do Conde de Kontarrr... O meu filho aprendeu a ler com a Rua Sésamo. A minha filha cresceu a cantar com a Tita. Havia sempre histórias novas, sem grandes dramatismos, mas que retratavam o quotidiano infantil e as pequenas vitórias, mas também os dramas e os medos, que povoam o dia-a-dia e o imaginário das crianças. Pegavam nos seus pequenos problemas, que podiam ir de uma ida ao médico até ao apertar dos atacadores, e tratavam-nos com graça, leveza e eficácia.
O que vêem hoje as crianças? Será que a Hanna Montana ou os desenhos animados japoneses conseguem igualar a Rua Sésamo em ingenuidade e graça? Tenho as minhas dúvidas. E tenho pena. Não sabem o que perdem!


Egas e Becas tentam dormir numa noite de trovoada...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Paixão de Sinaleiro

Há pessoas e vidas que nos espantam, nos confrontam e nos fazem exclamar a velha frase: "Isto dava um filme!"
António Paixão é polícia sinaleiro na zona do Príncipe Real, em Lisboa. Isto é, já de si, uma raridade! Quando eu era miúda, havia polícias sinaleiros em muitos dos cruzamentos de Lisboa. Alguns eram sóbrios e contidos nos seus gestos, mas havia outros que executavam autênticas coreografias em cima das peanhas, a ponto de se juntarem pequenos grupos a observar e, às vezes, a aplaudir. Também havia alturas em que não davam conta do recado e acabavam ofendidos pelos automobilistas mais apressados. Quem não se lembra deles?
Pouco a pouco, foram substituídos pelos semáforos e por sistemas informatizados com nomes femininos, que às vezes também não funcionam, mas que já não podemos ofender directamente.
Este Paixão é dos poucos que ainda regula o trânsito. Mas tem outra paixão, além da do nome, que o torna ainda mais original: o serviço aos outros. Encara o seu trabalho como um serviço de proximidade e apoio aos habitantes da zona onde trabalha. De tal forma que se meteu a tirar um curso superior na área das Políticas Sociais. Terminou o Curso há pouco tempo e é o primeiro polícia sinaleiro com estudos universitários. Agora, tenta cruzar as suas duas paixões, a acção social e a regulação do trânsito, mostrando que ainda há espaço na cidade para a ajuda aos outros, sejam crianças que atravessam as ruas a caminho da escola, sejam idosos que precisam de auxílio para o transporte das compras do supermercado. Mostrando que em qualquer profissão, mesmo nas mais raras e improváveis, há espaço para a humanização.



sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Joan of Arc

E para começar o fim de semana da melhor maneira, apeteceu-me ir buscar ao baú das recordações preciosas uma velha canção de Leonard Cohen, Joan of Arc. Editada em 1971, no ábum Songs of Love and Hate, é provavelmente a versão mais bela e romântica da tragédia vivida por essa heroína da França medieval. Vale a pena ouvir outra vez. 


Now the flames they followed joan of arc
As she came riding through the dark;
No moon to keep her armour bright,
No man to get her through this very smoky night.
She said, "i'm tired of the war,
I want the kind of work i had before,
A wedding dress or something white
To wear upon my swollen appetite."
Well, i'm glad to hear you talk this way,
You know i've watched you riding every day
And something in me yearns to win
Such a cold and lonesome heroine.
"and who are you?" she sternly spoke
To the one beneath the smoke.
"why, i'm fire," he replied,
"and i love your solitude, i love your pride."
"then fire, make your body cold,
I'm going to give you mine to hold,"
Saying this she climbed inside
To be his one, to be his only bride.
And deep into his fiery heart
He took the dust of joan of arc,
And high above the wedding guests
He hung the ashes of her wedding dress.
It was deep into his fiery heart
He took the dust of joan of arc,
And then she clearly understood
If he was fire, oh then she must be wood.
I saw her wince, i saw her cry,
I saw the glory in her eye.
Myself i long for love and light,
But must it come so cruel, and oh so bright?

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Os Vitinhos deste país

O Vitinho apareceu nas nossas televisões e nas nossas vidas faz agora vinte e cinco anos. Um amigo meu lançou uma questão pertinente: se ele fosse real o que estaria agora a fazer? O que fizeste tu da tua vida, Vitinho?
É uma boa questão. Imagino o Vitinho crescido, agora com 26 ou 27 anos. Já só os pais e os tios o tratam por Vitinho, para o resto do mundo ele é o Vitor Qualquer-Coisa. Provavelmente, estudou, talvez até tenha entrado numa Universidade e tirado um curso superior. Talvez esteja agora à procura de emprego, ou a ganhar 700 euros por mês como funcionário num "call-center". Imagino que pode ter emigrado. Agarrou uma oferta de emprego na Inglaterra ou em Angola, em Espanha ou no Dubai, e lá foi ele. Tem saudades do sol, ou da praia, ou do bacalhau, ou dos fins de tarde na esplanada a comer caracóis e a beber cervejas com os amigos, mas sabe bem que aqui não tem futuro. Pode até ter entrado numa Juventude Partidária e estar a desbravar um futurozinho como político nesta República das Bananas.
Fazem-me reflectir, os Vitinhos deste país. Com tristeza. 
Trazíamos tanta esperança na bagagem!...

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Os inimigos públicos

Como toda a gente sabe, foram finalmente terminadas as obras de  restauro da belíssima Igreja de São Vicente de Fora. É uma igreja muito ligada à minha família, por diversas razões, e fiquei feliz com a sua reabertura ao público.
E, no entanto... houve uma notícia que, positivamente, me esmagou. Durante as obras de limpeza, foram removidas dos telhados da Igreja de São Vicente de Fora, nada mais nada menos do que quarenta toneladas de excrementos de pombo. 40 toneladas!
De repente, assaltou-me a imagem das nossas cidades cobertas de excrementos de pombo. Os nossos edifícios coroados de fezes, as nossas estátuas manchadas de descargas intestinais. Lembrei-me de uma entrevista que li, há tempos atrás, com um vereador brasileiro de Curitiba que enumerava as doenças eventualmente transmitidas pelos nossos amigos pombos, com os quais eu até simpatizo, e que iam da salmonelose à ornitose, passando pela transmissão dos piolhos de pombos, ácaros que vivem nos seus corpinhos penugentos. Afirmava ainda o dito vereador que as fezes dos pombos, contaminadas por fungos e bactérias, podem causar doenças respiratórias e afectar o nosso sistema nervoso central. 
Quantas toneladas de excrementos de pombo estarão espalhadas sobre os telhados das nossas cidades? Será que o nosso sistema nervoso central foi afectado? Poderá ser esta uma explicação para a apatia cívica que por aí encontramos?
Será por isso que a nossa Ministra do Ambiente se chama Pássaro?

domingo, 23 de janeiro de 2011

Eleições e cupcakes

Se bem me apercebi, houve hoje milhares de pessoas que tiveram dificuldades em saber o seu número de eleitor e, portanto, conhecer a sua mesa de voto. Na verdade, confesso que, por mim, não estava muito preocupada. Há trinta e três anos que sou eleitora, e uma eleitora assídua e responsável. Nunca falhei um acto eleitoral, consciente de que o meu voto, como o de todos, é importante e faz a diferença. E no entanto, este ano, a desmotivação tomou conta de mim. Seria a crise, anunciada desde há anos, e que, de tão insidiosamente instilada no nosso espírito, nos deixa sem capacidade de reacção a todos os abusos que vimos sofrendo? Seria a falta de perspectivas de melhoria, a quebra da esperança? Seria o aumento dos preços de todos os bens e serviços que não posso deixar de utilizar, por vezes sem o entender cabalmente, como no caso da gasolina? Seria a visão confrangedora do meu recibo de vencimento deste mês? Bom, talvez fosse tudo isto junto. A verdade é que não me apetecia ir votar. Pela primeira vez, em trinta e três anos.
Mas o meu filho votava pela primeira vez. E queria fazê-lo, achava importante exercer o seu direito de escolha, de expressar a sua opinião. O problema esteve no Cartão de Cidadão. Por qualquer razão inexplicável, não tem lá inscrito o número de eleitor. Nas mesas de voto, nas Juntas de Freguesia, não há um descodificador que permita conhecer esse número. O sistema informático da Comissão Nacional de Eleições bloqueou, não dando resposta. E o sistema da mensagem por telemóvel? Bem, esse funcionou, embora com horas de atraso. O meu filho lá soube o seu número de eleitor cinquenta minutos antes das urnas fecharem!
Pela primeira vez, não me apeteceu ir votar! Fui, com o meu filho, a escassos minutos do fecho das mesas eleitorais! Não me apeteceu pensar nas eleições, nem nos candidatos, nem nos resultados. 


Em vez disso, fui fazer cupcakes. E acho que foi uma boa alternativa e uma forma mais proveitosa de aproveitar o dia das eleições.