terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Natal outra vez

E pronto, é quase Natal outra vez.
Depois de um ano que passou a correr, regressaram as árvores cheias de bolas coloridas, as milhentas luzinhas dos enfeites de Natal, a correria das prendas. A certo ponto, começamos a ser assaltados pela ansiedade: será que vai haver tempo para comprar tudo o que é preciso? será que acabamos por nos esquecer de alguém? As pessoas atropelam-se e acotovelam-se nos centros comerciais, os estacionamentos estão todos congestionados. Nas lojas, não se dá pela crise. Parece que só existe nos telejornais. Ou então, vai chegar mesmo aos nossos bolsos no início do próximo ano e andamos todos a ver se nos esquecemos das má notícias.
Quem me conhece, já sabe que eu não sou uma grande entusiasta do Natal. Gosto de amimar os que amo durante o ano inteiro, e não apenas nesta época. Tento lembrar-me dos meus amigos regularmente, com uma mensagem risonha ou um telefonema carinhoso. Não gosto de dar prendas por obrigação. Passeio pelas ruas iluminadas e não vejo nenhuma referência ao espírito de partilha e de verdadeira entrega aos outros que me parece ser a mensagem profunda desta Festa. 
Recordo com alguma nostalgia os Natais simples da minha infância. Não havia muito dinheiro, não havia ostentação nem amontoados de prendas. Havia muito carinho, o bacalhau reunia todos à mesa, durante a Consoada a minha mãe fazia os sonhos ou fritava as filhós. Eu esperava pela abertura das prendas, para ver se recebia os livros que tinha pedido ao Menino Jesus. Sim, porque na minha infância ainda era o Menino Jesus que trazia as prendas, não tinha ainda sido substituído pelo Pai Natal. Hoje, as luzes ofuscam-nos, as canções de Natal repetidas até à exaustão ensurdecem-nos, a compra das prendas esgota-nos as energias e as carteiras. 
Na rádio, passam e repassam as mesmas canções, que parecem saídas de algum American Christmas Song Book. Talvez por isso, apeteceu-me partilhar aqui uma canção de Natal, bem portuguesa, que radica nas nossas tradições e nos nossos cantares. E aproveito para desejar a todos os que por aqui passarem, propositadamente ou por acaso, um Natal tranquilo, partilhado, verdadeiramente luminoso!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Postal de Lisboa XVI – A Igreja de São Domingos

Não é das Igrejas mais visitadas de Lisboa. Não corremos o risco de andar por ali a tropeçar em grupos de espanhóis ou japoneses, como acontece nos Jerónimos. E, no entanto, situa-se em pleno centro de Lisboa e poucas igrejas reflectem tanto da nossa história nas suas pedras.


Fica por trás do Rossio, no Largo de São Domingos. A fachada não chama a atenção. Pelo contrário, a chusma de gente que por ali se reúne diariamente até nos afasta do local. E, se não a gente que se acotovela, afastam-nos os pedintes que, mostrando as suas chagas, estendem a mão ao espírito sensível dos que entram e saem da igreja.
Mas vale a pena fazer um esforço e entrar neste espaço. Aqui se edificou uma igreja logo no século XIII. Mas é a Igreja do século XVIII, projectada por Ludovice, que é quase totalmente destruída pelo Terramoto de 1755. É ela que nos aparece numa gravura célebre da época, que evoca a destruição, a desorientação, o terror, da população lisboeta.
É reconstruída por Manuel Caetano de Sousa, após o Terramoto, aproveitando o portal e a sacada da Capela Real do Paço da Ribeira, totalmente destruído pela catástrofe.

(Fotografia do Largo de São Domingos em 1915)

É ali que vão ser guardadas algumas das relíquias do chamado “milagre de Fátima”: o lenço de Lúcia e o terço de Jacinta. No entanto, em 1959, um incêndio destrói novamente o templo. É reconstruído, mas deixando à vista de todos as marcas da destruição. É dos aspectos mais interessantes, e ao mesmo tempo mais impressionantes, deste monumento. As paredes, as colunas, os altares, mostram bem essas marcas: há zonas queimadas, há pedaços partidos ou em falta. Não foi feita uma reconstrução, mas tudo o que não é original é bem visível, pela utilização de um cimento vermelho, que o destaca propositadamente, dando-nos uma dimensão palpável das tragédias que se abateram sobre esta igreja.


É um espaço de memórias sobrepostas. É também um espaço que evoca a nossa capacidade de recuperação e superação. E, porque está frio, nada melhor do que sair da Igreja e entrar na “Ginginha de Lisboa”. É a verdadeira, a genuína, diz-se nos cartazes pitorescos que emolduram a entrada. Vale a pena provar. Eu garanto.

(Imagens retiradas da Internet)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sonhos e objectivos

Um dia, no metro de Nova York, vi um cartaz que dizia: "Sonhos realizáveis são objectivos." Parei a olhar para o cartaz, a interiorizar aquelas palavras que, desde esse dia, se tornaram um lema para mim.
Todos temos sonhos. Mais comezinhos ou mais grandiosos. Uns mais viáveis do que outros. Alguns ao alcance das nossas mãos, outros que necessitam de muito caminho para lá chegar. Mas quantas vezes colocamos os nossos sonhos na prateleira, sem nos darmos ao trabalho de lutar por eles! Guardamo-los no coração, gostamos de pensar neles de vez em quando. Aquecem-nos nas noites de insónia. São como estrelas no nosso espírito, cujo brilho nos deslumbra. Mas, por vezes, o rótulo "sonho" dá-lhe uma carga de inviabilidade, de destino inacessível. E acomodamo-nos. E ficamos à espera que a vida se encarregue de realizar os nossos sonhos. Eventualmente.
Sonhos realizáveis podem, devem, transformar-se em objectivos. Temos a obrigação, perante nós próprios, de lutar por eles, de os tornar presentes. Tirá-los da prateleira, olhá-los atentamente e delinear a estratégia para os conseguir realizar.
Cumprir os nossos sonhos é, de alguma maneira, cumprirmo-nos a nós próprios. Talharmos o nosso próprio caminho para a felicidade.
E, como dizia Paulo Coelho,"é justamente a possibilidade de realizar um sonho que torna a vida interessante".


Quais são os nossos sonhos realizáveis?

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ti Henriques

Chamam-lhe Ti Henriques. Na realidade, chama-se Adelino Henriques. Tem 81 anos e roda, desde os 18, no Poço da Morte.
Para os mais jovens, estas palavras poderão já não ter muito significado. Mesmo nas Festas e Arraiais que se realizam por esse país fora estas velhas atracções já não aparecem. Há novas atracções, que puxam pela adrenalina que quem nelas embarca. Os jovens (e também os menos jovens) são levantados, puxados, atirados em grande velocidade pelo espaço, provocando emoções cada vez mais intensas. Há os velhos carrinhos de choque, claro. Mas quem se lembra já do Poço da Morte?


Quando eu era miúda, a ida à Feira Popular, em família, era quase um ritual anual. Acontecia geralmente no Verão, e era uma alegria. Voávamos nos aviões, embarcávamos no Comboio Fantasma, chorávamos a rir com as nossas imagens deformadas nos espelhos que nos engordavam ou alongavam. Enchiamo-nos de sardinhas assadas e lambuzávamos as mãos com as farturas. E, claro, pasmávamos com a coragem dos homens que se lançavam no Poço da Morte, agarrados a uma mota que girava ao que nos parecia uma velocidade louca.
Depois, cresci. Durante algum tempo não fui à Feira Popular e, entretanto, as coisas já não pareciam tão engraçadas. E A Feira Popular fechou. Os terrenos ficaram ao abandono, à espera dos projectos imobiliários. E eu sentia uma tremenda nostalgia quando passava em Entrecampos.
Agora, o Circo Chen tomou conta daquele espaço e criou o Luna Park Chen. E ressuscitou o velho Poço da Morte. E quem melhor do que o velho Ti Henriques para guiar a mota que gira enlouquecida lá dentro? Com placa dentária e parafusos nos joelhos, com problemas de ácido úrico, ainda é ele quem toma conta do espaço e, seguramente, nos faz regressar, com a mesma velocidade, às tardes bem passadas da nossa infância. Afirma que enquanto houver Poço da Morte ele por lá andará. É um exemplo admirável de alguém que se recusa a parar.
Até dia 9 de Janeiro de 2011, o Ti Henriques estará no Luna Park Chen, nos terrenos da antiga Feira Popular. Eu não vou perder.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Quando eu for grande...

Muitos dias, quando venho da escola, gosto de fazer um desvio do caminho habitual e parar aqui, no pontão, à beira-rio. Sento-me com as pernas penduradas no vazio, a olhar para a imensidão do rio, que se confunde com a imensidão do céu. Gosto de baloiçar as pernas, para a frente e para trás, como se embalasse os meus pensamentos, enquanto sigo o voo das gaivotas. Às vezes, penso em qualquer coisa que se passou na escola, nesse dia. Ontem, por exemplo, só conseguia pensar na professora de Matemática que insistia para que eu resolvesse um problema que estava no quadro. Mas eu não conseguia, quando vou ao quadro fico nervoso e parece que as letras e os números se misturam numa dança sem sentido. E a professora insistia: "Então? Este problema é tão fácil! Os teus colegas já resolveram!" E os meus colegas riam-se, E o parvo do João, que às vezes até parece meu amigo, dizia baixinho: "Ele é burro!" Mas eu ouvia-o e só pensava no olhar triste da minha mãe quando eu levava más notas para casa. Também via o olhar do meu pai, mas esse não era triste, era mais maldoso, especialmente quando pegava no cinto para me bater. Quando eu for grande, hei-de ter muitos filhos, mas não lhes vou bater com o cinto, vou jogar à bola com eles e andar de bicicleta, como faz o pai do João. 
É o que eu mais gosto de fazer, aqui sentado de pernas penduradas, a olhar o céu e o rio e as gaivotas: sonhar com o que vou fazer quando for grande!
Se calhar, vou ser marinheiro, sair num barco, a puxar as cordas e a ouvir os gritos dos pássaros. Ou talvez bombeiro, gostava de apagar fogos, transportar pessoas para o hospital. Então, havia de ver o olhar orgulhoso da minha mãe, a compor-me a farda, a gabar-se ao pé das vizinhas "Porque quando a sirene tocou, ele foi o primeiro..."
Quando eu for grande, hei-de vir buscar a minha mãe, levá-la ao cabeleireiro, ao cinema. Vou ser mesmo grande, maior do que o meu pai, e ele vai perceber que não pode beber e gastar o dinheiro que a mãe põe de lado, e ainda bater-lhe quando ela protesta.
Quando eu for grande, vou sair daqui num carro de bombeiros, ou talvez num barco, rio abaixo, deixando atrás de mim um rasto de espuma branca.
Mas sei que, de vez em quando, vou voltar aqui ao pontão, sentar-me com as pernas penduradas, mesmo que elas sejam grandes e quase cheguem à água, e sonhar, sonhar sempre. Porque os meus sonhos vão apontar-me o caminho, mesmo quando eu já for grande.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A new dawn

Como agradecer a todos os que por aqui apareceram, sentiram saudades minhas, enviaram mensagens a incentivar-me a voltar?
Só me lembro de uma maneira: regressando!
It's a new dawn, it's a new day, it's a new life.
Canta Nina Simone.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Bolas de Berlim




No meu post anterior, fizeram grande sucesso as bolas de Berlim! Nada que me tenha surpreendido, porque são verdadeiramente deliciosas, e marcam a banda sonora das nossas praias e, portanto, do nosso verão. No entanto, há pessoas que não sabem o que são bolas de Berlim. Pensando especialmente na Chica e na Lis, vou tentar explicar.
A bola de berlim ou sonho é um bolo tradicional semelhante à Berliner alemã. Ao contrário desta, normalmente recheada com doces vermelhos (morango, framboesa, etc.), é recheada com um doce amarelo chamado creme pasteleiro. O recheio é colocado através de um golpe lateral, sendo sempre visível.
As bolas de Berlim são fritas e polvilhadas com açúcar, antes de serem recheadas com o creme pasteleiro. As suas congéneres alemãs têm um diâmetro um pouco menor e são normalmente polvilhadas com açúcar mais fino.
Em Portugal, criou-se o hábito de vender bolas de Berlim nas praias, do norte ao sul, das praias mais famosas às mais esquecidas. Toda a gente aprecia uma bela bola de Berlim, depois do banho de mar, quando chega a hora de preguiçar na toalha. E os vendedores, que caminham quilómetros debaixo de sol para nos venderem estes pequenos prazeres, ainda nos presenteiam com os seus pregões, às vezes bem criativos e musicais.
Em homenagem à Chica e à Lis, apresento-vos um pregão cantado num português bem brasileiro!
Deliciem-se!