sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Quando eu for grande...

Muitos dias, quando venho da escola, gosto de fazer um desvio do caminho habitual e parar aqui, no pontão, à beira-rio. Sento-me com as pernas penduradas no vazio, a olhar para a imensidão do rio, que se confunde com a imensidão do céu. Gosto de baloiçar as pernas, para a frente e para trás, como se embalasse os meus pensamentos, enquanto sigo o voo das gaivotas. Às vezes, penso em qualquer coisa que se passou na escola, nesse dia. Ontem, por exemplo, só conseguia pensar na professora de Matemática que insistia para que eu resolvesse um problema que estava no quadro. Mas eu não conseguia, quando vou ao quadro fico nervoso e parece que as letras e os números se misturam numa dança sem sentido. E a professora insistia: "Então? Este problema é tão fácil! Os teus colegas já resolveram!" E os meus colegas riam-se, E o parvo do João, que às vezes até parece meu amigo, dizia baixinho: "Ele é burro!" Mas eu ouvia-o e só pensava no olhar triste da minha mãe quando eu levava más notas para casa. Também via o olhar do meu pai, mas esse não era triste, era mais maldoso, especialmente quando pegava no cinto para me bater. Quando eu for grande, hei-de ter muitos filhos, mas não lhes vou bater com o cinto, vou jogar à bola com eles e andar de bicicleta, como faz o pai do João. 
É o que eu mais gosto de fazer, aqui sentado de pernas penduradas, a olhar o céu e o rio e as gaivotas: sonhar com o que vou fazer quando for grande!
Se calhar, vou ser marinheiro, sair num barco, a puxar as cordas e a ouvir os gritos dos pássaros. Ou talvez bombeiro, gostava de apagar fogos, transportar pessoas para o hospital. Então, havia de ver o olhar orgulhoso da minha mãe, a compor-me a farda, a gabar-se ao pé das vizinhas "Porque quando a sirene tocou, ele foi o primeiro..."
Quando eu for grande, hei-de vir buscar a minha mãe, levá-la ao cabeleireiro, ao cinema. Vou ser mesmo grande, maior do que o meu pai, e ele vai perceber que não pode beber e gastar o dinheiro que a mãe põe de lado, e ainda bater-lhe quando ela protesta.
Quando eu for grande, vou sair daqui num carro de bombeiros, ou talvez num barco, rio abaixo, deixando atrás de mim um rasto de espuma branca.
Mas sei que, de vez em quando, vou voltar aqui ao pontão, sentar-me com as pernas penduradas, mesmo que elas sejam grandes e quase cheguem à água, e sonhar, sonhar sempre. Porque os meus sonhos vão apontar-me o caminho, mesmo quando eu já for grande.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A new dawn

Como agradecer a todos os que por aqui apareceram, sentiram saudades minhas, enviaram mensagens a incentivar-me a voltar?
Só me lembro de uma maneira: regressando!
It's a new dawn, it's a new day, it's a new life.
Canta Nina Simone.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Bolas de Berlim




No meu post anterior, fizeram grande sucesso as bolas de Berlim! Nada que me tenha surpreendido, porque são verdadeiramente deliciosas, e marcam a banda sonora das nossas praias e, portanto, do nosso verão. No entanto, há pessoas que não sabem o que são bolas de Berlim. Pensando especialmente na Chica e na Lis, vou tentar explicar.
A bola de berlim ou sonho é um bolo tradicional semelhante à Berliner alemã. Ao contrário desta, normalmente recheada com doces vermelhos (morango, framboesa, etc.), é recheada com um doce amarelo chamado creme pasteleiro. O recheio é colocado através de um golpe lateral, sendo sempre visível.
As bolas de Berlim são fritas e polvilhadas com açúcar, antes de serem recheadas com o creme pasteleiro. As suas congéneres alemãs têm um diâmetro um pouco menor e são normalmente polvilhadas com açúcar mais fino.
Em Portugal, criou-se o hábito de vender bolas de Berlim nas praias, do norte ao sul, das praias mais famosas às mais esquecidas. Toda a gente aprecia uma bela bola de Berlim, depois do banho de mar, quando chega a hora de preguiçar na toalha. E os vendedores, que caminham quilómetros debaixo de sol para nos venderem estes pequenos prazeres, ainda nos presenteiam com os seus pregões, às vezes bem criativos e musicais.
Em homenagem à Chica e à Lis, apresento-vos um pregão cantado num português bem brasileiro!
Deliciem-se!


domingo, 19 de setembro de 2010

Acabaram as férias!

Após dois meses de ausência, e tal como prometi, aqui estou de novo a rabiscar algumas palavras e a partilhar com todos os que me lêem impressões e sensações que, por alguma razão, me tocaram.
Quero começar por agradecer a todos os que me foram continuando a visitar. Muitos deixaram, tanto nos comentários do blogue como no e-mail, mensagens carinhosas que me incentivaram a voltar. A todos agradeço do fundo do coração.  
Entretanto, o Verão passou. Foi um Verão marcado pela amizade: revi velhos amigos, fiz novos, fortaleci laços com os amigos de sempre. E, mais uma vez, concluí que a amizade é uma das pedras que nos sustém, nos nossos caminhos por vezes atribulados.
Mas, Verão é Verão. E quando acaba, e olho para trás, tenho de recordar com nostalgia algumas coisas que podem parecer frívolas e superficiais mas, ao fim e ao cabo, constroem as férias:
- A praia! Já não me lembro de um ano com uma água tão magnífica, mesmo no Algarve.
- As caipirinhas! Ai que bem sabem, numa esplanada, nas noites cálidas!
- As músicas do meu tempo! De repente, a música dos anos 70 / 80 / 90 invadiu as rádios, as discotecas e todas as beach-parties. Toda a gente da minha geração já sabia que aquela música era boa, mas agora o resto da população está também a descobrir!
- As bolinhas de Berlim! Fazem parte da praia. E sabem divinamente, quando saimos do banho, ainda frescos da água do mar. E termino esta invocação com elas porque sei que, durante o ano, quando me lembrar da praia, é o pregão dos vendedores de bolas de Berlim que me virá à memória, a recordar os dias de calor e lazer!


"Olhá bolinha de Berlim!"

sábado, 17 de julho de 2010

Amigos

Hoje, recebi uma demonstração de afecto num blogue que costumo seguir, o Só te peço 5 minutos. Fico sempre comovida, porque a blogosfera é um mundo de que se diz o melhor e o pior, mas eu, por sorte certamente, só tenho recebido o melhor. Para mim, tornou-se uma comunidade de pessoas que se ouvem, se respeitam e se estimam, como disse nesse blogue. São importantes para mim.
Infelizmente, não tenho podido dedicar a essas pessoas e ao blogue o tempo que merecem. O trabalho acumulou-se, neste final do ano lectivo. Juntou-se-lhe o cansaço e a inércia. E o blogue foi ficando para trás. Não esquecido, mas suspenso. 
Prometo voltar, depois das férias, com o corpo renovado e a mente limpa. Até lá, obrigada a todos os amigos que me acompanharam. Se precisarem de alguma coisa, eu continuo por aqui, é só enviarem-me uma mensagem. And I'll be here, you've got a friend.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Festival de Papagaios


Durante o último fim de semana, voaram nos céus da Praia dos Moinhos, em Alcochete, centenas de Papagaios.  Vieram dos quatro cantos do mundo, da Itália à Suécia, da China à Malásia, para colorir o céu, fazer acrobacias e voos sincronizados, animar os espectáculos musicais.


Foi o 9.º Festival Internacional de Papagaios. Como é costume, foi um espectáculo de cor e perícia. Quem não esteve em Alcochete este fim de semana, não sabe o que perdeu! Eu prometo que, da próxima vez, aviso com antecedência.
Deixo aqui apenas algumas imagens, para abrir o apetite!


(Fotografias de FAires)

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Em memória dos Slows

Finalmente, aderi ao Facebook. Depois de muita resistência, e de muitos meses a recusar os convites, lá cedi. Na verdade, fui levada por um colega que estava a organizar um encontro de antigos alunos do meu liceu e até tem sido divertido reencontrar gente que já não via há tanto tempo.
Para quem gosta de escrever, como eu, o Facebook não se compara com um Blogue, que dá outra profundidade de análise e tem outro impacto. Mas é engraçado e muito interactivo. Uma das coisas que descobri foram os Grupos. Há grupos para tudo e mais alguma coisa. Um dos primeiros que descobri, chamava-se Em Memória dos Slows das Festas de Garagem, agora com um sucedâneo chamado Mania dos Slows. Os aderentes ao grupo vão colocando online músicas antigas, que nos levam até aos tempos, recuados, das chamadas festas de garagem. Recordo-me bem desses tempos da minha juventude. Havia sempre algum amigo que tinha uma garagem, ou um armazém, ou mesmo uma sala suficientemente espaçosa. Os amigos juntavam-se, tratavam da organização da sala, das luzes (convinha que fossem veladas!), cada um trazia os seus LPs, os velhos discos de vinil, faziam-se umas sandes, compravam-se umas bebidas. E dançava-se, dançava-se muito.
Também havia os Convívios dos Liceus, organizados pelas Associações de Estudantes para angariar dinheiro para as viagens de finalistas. Eram aos sábados à tarde, e a organização era basicamente a mesma de uma festa de garagem, só com mais gente e, eventualmente, uma bola de espelhos. O denominador comum a todas estas festas eram os slows. Músicas lentas, românticas, para dançar face na face. Em média, a cada hora de slows sucedia um quarto de hora de shakes, isto é, música mais mexida, para dançar sozinho.
Esquecia-me de avisar: este post dirige-se a todos os meus leitores que tenham cerca de cinquenta anos. Os outros, peço que me desculpem, nem percebem de que é que eu estou a falar!

Para recordar essa época, trouxe um slow, claro. Aqui está Angie, provavelmente o slow mais passado e mais dançado nas festas dos anos 70. Ponham o som bem alto e bom fim de semana!