Pouco passava das quatro da tarde quando Gonçalo chegou ao Parque das Nações. Arrumou o carro e encaminhou-se vagarosamente para a beira-rio. O dia estava lindo. Um daqueles dias transparentes de início da Primavera, em que apetece rir mesmo sem saber porquê. Ainda era cedo, a Marina só saía do trabalho às quatro horas, ainda demorava, pelo menos, uma meia hora até ali chegar. Tinha tempo para fumar um cigarro, descansadamente, enquanto olhava o rio e as pessoas que por ali passeavam. Lembrou-se do dia em que se conheceram, ele e Marina. Ou melhor, da noite, porque foi numa noitada de copos e conversas soltas. Ela vinha com uma amiga de outra amiga… bem, o que era importante é que tinha um sorriso doce que contrastava com uns olhos que faziam todas as promessas, e aquele contraste tinha-o cativado. Não havia dúvidas, tinha havido ali uma faísca qualquer. No dia seguinte, admirou-se de acordar a pensar nela. E, ao fim do dia, continuava a apetecer-lhe ver aquele sorriso. Telefonou-lhe e foram sair. No outro dia, também. E todos os outros dias, até hoje. Puxou o fumo do cigarro, sorrindo. Parece que, desta vez, a paixão lhe chegara com força.
Passou em frente do Casino de Lisboa. Havia pessoas que se apressavam para entrar e Gonçalo pensou que tinha tempo para um joguinho, antes de Marina chegar. Só para distrair, para passar o tempo. Entrou. Não ia gastar mais de cinco euros, era só para matar o tempo.
Enfiou uma moeda na slot-machine. Puxou a alavanca, mas não teve sorte. Meteu outra moeda. Nada. Terceira moeda. Agora havia barulho de moedas a cair. Eram cinquenta euros, nada mau. Estava com sorte! Voltou a enfiar uma moeda na máquina, depois outra e outra. Na máquina ao lado, ouviram-se gritos de Jackpot e as moedas saltaram como pipocas do orifício. Gonçalo forçou a memória: não era aquele homem que estava a recolher umas poucas moedas, quando ele vinha a chegar? Talvez o Jackpot viesse depois de uma saída pequena de dinheiro, para enganar os tolos. Mas ele não era tolo, ia continuar a jogar, devia estar quase a sair. Na máquina em frente, uma rapariga de franja e cabelo comprido sorriu-lhe e Gonçalo pensou no sorriso de Marina. Se calhar, ela já tinha chegado. Ele ia logo ter com ela, era só mais um bocadinho, de certeza que estava quase a sair o “bolo grande”, ele não ia agora perdê-lo. Continuou a meter moedas e a puxar a alavanca, cada vez mais concentrado, cada vez mais alheado do mundo.
“Tenho a certeza que, da próxima vez, tenho sorte!”
Cada vez mais entregue a outra paixão.
(Este texto integra-se no desafio proposto para este mês pela
Fábrica de Letras, com o tema: Paixão)











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