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sábado, 1 de maio de 2010

Paixões

Pouco passava das quatro da tarde quando Gonçalo chegou ao Parque das Nações. Arrumou o carro e encaminhou-se vagarosamente para a beira-rio. O dia estava lindo. Um daqueles dias transparentes de início da Primavera, em que apetece rir mesmo sem saber porquê. Ainda era cedo, a Marina só saía do trabalho às quatro horas, ainda demorava, pelo menos, uma meia hora até ali chegar. Tinha tempo para fumar um cigarro, descansadamente, enquanto olhava o rio e as pessoas que por ali passeavam. Lembrou-se do dia em que se conheceram, ele e Marina. Ou melhor, da noite, porque foi numa noitada de copos e conversas soltas. Ela vinha com uma amiga de outra amiga… bem, o que era importante é que tinha um sorriso doce que contrastava com uns olhos que faziam todas as promessas, e aquele contraste tinha-o cativado. Não havia dúvidas, tinha havido ali uma faísca qualquer. No dia seguinte, admirou-se de acordar a pensar nela. E, ao fim do dia, continuava a apetecer-lhe ver aquele sorriso. Telefonou-lhe e foram sair. No outro dia, também. E todos os outros dias, até hoje. Puxou o fumo do cigarro, sorrindo. Parece que, desta vez, a paixão lhe chegara com força.
Passou em frente do Casino de Lisboa. Havia pessoas que se apressavam para entrar e Gonçalo pensou que tinha tempo para um joguinho, antes de Marina chegar. Só para distrair, para passar o tempo. Entrou. Não ia gastar mais de cinco euros, era só para matar o tempo.
Enfiou uma moeda na slot-machine. Puxou a alavanca, mas não teve sorte. Meteu outra moeda. Nada. Terceira moeda. Agora havia barulho de moedas a cair. Eram cinquenta euros, nada mau. Estava com sorte! Voltou a enfiar uma moeda na máquina, depois outra e outra. Na máquina ao lado, ouviram-se gritos de Jackpot e as moedas saltaram como pipocas do orifício. Gonçalo forçou a memória: não era aquele homem que estava a recolher umas poucas moedas, quando ele vinha a chegar? Talvez o Jackpot viesse depois de uma saída pequena de dinheiro, para enganar os tolos. Mas ele não era tolo, ia continuar a jogar, devia estar quase a sair. Na máquina em frente, uma rapariga de franja e cabelo comprido sorriu-lhe e Gonçalo pensou no sorriso de Marina. Se calhar, ela já tinha chegado. Ele ia logo ter com ela, era só mais um bocadinho, de certeza que estava quase a sair o “bolo grande”, ele não ia agora perdê-lo. Continuou a meter moedas e a puxar a alavanca, cada vez mais concentrado, cada vez mais alheado do mundo.
“Tenho a certeza que, da próxima vez, tenho sorte!”
Cada vez mais entregue a outra paixão.


(Este texto integra-se no desafio proposto para este mês pela
 Fábrica de Letras, com o tema: Paixão)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

In memoriam

(Texto produzido a propósito do desafio de Abril da Fábrica das Letras, com o tema Abismo)


Foi andando cada vez mais devagar, até parar o carro junto ao murete de protecção da ponte. Abriu a porta e acercou-se da balaustrada, ainda sem a certeza do que queria ou não fazer. As águas cor de tinta-da-China, correndo numa forte torrente de princípio de Primavera, lá em baixo, chamavam-no, como um apelo à liberdade. Sentia a atracção do abismo, daquele abismo.
Ninguém se desfaz da vida como de uma camisa velha. Mas ele olhava à volta, com os olhos da alma, e não encontrava outra saída. Tinha cinquenta anos e uma vida de procura. Não é simples “fazer a vida”. Os pais, os amigos diziam-lhe “Tens de fazer a tua vida”. Isso significava o quê? Desistir da música, dos sonhos? Arranjar um emprego a fazer, todos os dias, coisas de que não gostava? Sim, tinha-se convencido de que era essa a solução para “fazer a sua vida”. Tinha feito um curso superior, mas não tinha encontrado um emprego e, afinal, era da música que tinha chegado a oportunidade: dar aulas de Música. Primeiro, ficara entusiasmado. Mas depressa a realidade abafara o entusiasmo. Os alunos eram mal educados e cruéis. Especialmente, aqueles, daquela turma!
Voltou a olhar o abismo que se abria para a torrente de água, e que o chamava lá do fundo. Quantas vezes fizera queixa dos alunos daquela turma? Já perdera a conta, já deixara também de o fazer. Mas eram pedidos de socorro, como quem diz: “Por favor, ajudem-me, não estou a ser capaz de lidar com isto! Tenho cinquenta anos, mas sou só um professor contratado, um homem à beira do desespero! Não consigo um emprego estável, não sei fazer a minha vida! Sei que sou tímido, às vezes não sei lidar bem com as situações. Mas mereço algum respeito, não? Sei que posso ensinar música, é disso que eu gosto. Não gosto que não me respeitem, que não se calem quando eu estou a explicar qualquer coisa, que gozem com o que eu digo, com o que eu visto. Não gosto que me chamem parvo, não gosto que me chamem cão!”
As lembranças fizeram-no trepar pela balaustrada. Não, não era um cão. Talvez fosse diferente, mas não era um cão e não ia permitir que o tratassem assim. Antes morrer! Lembrou-se dos colegas, demasiado atarefados com os seus próprios problemas. Alguns deles, demasiado preocupados em mostrar que eram excelentes, que conseguiam controlar os alunos e dar as matérias e fazer até o pino, se fosse preciso, porque a avaliação estava aí! Como perder tempo a apoiar um colega?
Agarrou-se com força à balaustrada e pensou nas alternativas. Será que amanhã conseguia entrar na escola e voltar a enfrentar tudo outra vez? E devagarinho, como quem se abandona no colo da mãe, deixou-se cair no abismo das águas.

Este texto, ficcionado, é uma singela homenagem ao meu colega Luis, da Escola de Fitares, que se suicidou atirando-se da Ponte 25 de Abril, no passado mês de Fevereiro.

sexta-feira, 19 de março de 2010

A propósito do Dia do Pai

Isto deve ser do meu mau feitio, mas não gosto da forma massificada e homogénea como se tratam estas efemérides, em que é suposto lembrarmo-nos de alguém, seja o pai, a mãe, o namorado, o gato, a vizinha, as bruxas, e por aí fora.
Nas escolas, por exemplo, todas as crianças fazem postais e prendinhas para pais que, tantas vezes, nem estão presentes! Há que ter alguma sensibilidade para lidar com estas situações.
Há alguns anos, eu era Directora de uma turma de 8.º ano de miúdos ditos complicados (comparados com os actuais eram uns anjos!). Muitos deles não viviam com o pai, pelas mais diversas razões: havia alguns que eram filhos de pais separados e mal viam o pai biológico; havia um que tinha o pai na prisão, outro estava numa clínica de desintoxicação; também havia um aluno cujo pai falecera, era ele ainda pequeno.
Na aula de Formação Cívica, organizámos um debate sobre o tema "Viver longe do pai", para falarmos um pouco sobre a figura paternal e o modo como aqueles jovens a olhavam. O rapazinho que era orfão (vamos chamar-lhe J.) contou-me então uma história que não mais esqueci.
No início do 1.º Ciclo, tinha o pai morrido há pouco tempo, a professora mandou-os fazer uns postalinhos para oferecer aos pais neste dia, 19 de Março, Dia do Pai. O J. também fez, sem protestar, sem dizer nada. No dia em que a professora os mandou levar o postal para oferecerem ao pai, o J. saiu da sala de aula, arranjou uns fósforos e queimou o postal no recreio da escola. Sempre sem dizer nada. Explicou-me naquela sala, anos depois, que lhe tinha parecido a única forma de entregar o postal ao pai, envolto no fumo que subia para o céu. Todos lhe diziam que o pai estava no céu, que maneira melhor iria ele encontrar?
A professora não compreendeu e castigou-o. Eu nunca mais esqueci o que o J. me contou. E aprendi que devemos sempre tentar perceber as razões que estão na raiz dos actos que nos parecem estranhos ou deslocados.
Imagem retirada de : creativescrappers.forumeiros.com

segunda-feira, 8 de março de 2010

A todas as mulheres do mundo

- Subia a rua angustiada, a arrastar os pés. Sim, foi assim que ela me disse, a arrastar os pés. Estava cansada, tinha ido quase ao outro lado da cidade para tentar arranjar um emprego. Era numa loja, ou talvez num supermercado, já não me lembro bem do que ela me disse. Mas lembro-me que disse que subia a rua a arrastar os pés. Na loja, não a quiseram nem entrevistar, que não, que o lugar já estava ocupado. Mas ela desconfiava que já a achavam muito velha para o lugar. Na altura, já tinha dois filhos crescidinhos e a experiência de trabalho não era muita. Quer dizer, experiência de mudar fraldas, lavar e passar, dar banhos, limpar o pó, bater carpetes, cozinhar e lavar louça e arrumar a cozinha, para logo a seguir cozinhar outra vez, de tudo isso ela tinha muita experiência. E também de contar histórias, e embalar no colo, e fazer puxinhos no cabelo, e empurrar o baloiço, e dar beijinhos no nariz!... Mas ninguém quer saber dessa experiência, não é?
Naquela altura, com a morte súbita do marido, as coisas tinham-se complicado muito. Não bastava a dor, e os filhos a perguntarem pelo pai, ainda apareciam contas que ela não tinha como pagar. Se ao menos tivesse um emprego! Lembro-me que ela me disse que arrastava os pés pela rua acima, de desânimo, o que não era nada dela, sempre cheia de energia. E, com a mão que levava na algibeira, amachucava o papelinho com o resultado da análise que, de caminho, tinha ido buscar ao Laboratório de Análises Clínicas, que não era longe.
Logo a seguir ao acidente, faltaram-lhe as regras e pensou: "É do choque, da emoção!" Mas os dias foram passndo, um e outro e mais outro, e a menstruação sem aparecer. Assim passaram mais de dois meses. Resolveu fazer a análise e tirar aquela dúvida que a angustiava dia e noite. E agora, ali estava o resultado, naquele papel que amarfanhava nervosamente na algibeira. Contou-me que, naquele momento, só tinha uma pergunta na cabeça: "O que vou fazer? O que vou fazer? O que vou fazer?" Ela pensava em todos os caminhos que se abriam à sua frente, ponderava as hipóteses. Já tinha os filhos mais velhinhos na escola, como ía agora organizar a vida com um bebé, ainda para mais sem marido e sem emprego? Pensou largar tudo e voltar para a terra da mãe, pensou fazer um aborto, fez as contas às alternativas que tinha!
- E o que fez ela? Conseguiu um emprego? Fez o aborto?
- Sim, acabou por arranjar um emprego, numa frutaria. E não fez o aborto, nasci eu!


Este texto, ficcionado a partir de uma conversa real, é a minha homenagem a todas as mulheres que diariamente, em todos os cantos da Terra, lutam e enfrentam o futuro com força, esperança e muita coragem.

segunda-feira, 1 de março de 2010

O Faroleiro

(Este texto integra-se no tema proposto para o mês de Março pela
 Fábrica de LetrasO Silêncio)



- E incomoda-o, todo este silêncio?
O faroleiro pousou os seus olhos, azuis e transparentes, na jovem repórter que, de microfone na mão, esperava firme a sua resposta.
Quando a jovem telefonara a pedir uma entrevista, para uma reportagem que andava a preparar, pensou para consigo que não havia nada de interessante para contar. Agora, os seus olhos, de um azul límpido talvez de tanto olhar o mar, pousavam na jovem com estranheza. De facto, o que sabiam as pessoas das funções de um faroleiro?
Ele próprio não sabia muito bem, quando concorrera para aquele posto, já há quase vinte anos. Na altura, tinha vindo com a mulher e a filha, ainda pequenina, e tinham vivido todos na pequena casa junto ao farol. Tinham sido tempos de isolamento, mas também de felicidade. Depois, veio outro filho, os miúdos cresceram, precisavam de estar perto da escola, a mulher mudou-se para a vila, arranjou um emprego, e agora viam-se ao ritmo dos turnos do Farol.
Mas não era infeliz. Havia sempre muitas coisas para fazer. Já não era preciso subir os mais de cem degraus da torre, regularmente, para acender as luzes que avisavam os marinheiros dos perigos da costa. Agora, já era tudo automático. Mas havia que estar alerta, constantemente verificar se tudo estava ligado e a funcionar correctamente. Depois, havia que fazer as medições requeridas pelo Instituto de Meteorologia. Quatro vezes por dia, recolhia os dados relativos à temperatura, à humidade, à velocidade do vento, à altura das ondas, à visibilidade no mar e enviava-os. E havia sempre pequenas reparações para fazer.
Ouvia o barulho das ondas e habituara-se a distinguir os gritos das aves que nidificavam nas falésias. Às vezes, sentava-se à pesca e, se lhe fazia falta o som da voz humana, cantava alto, e os gritos das gaivotas e dos tentilhões respondiam ao seu canto. Depois, se o dia estava bonito, sentava-se numa rocha a ver o sol desaparecer na linha do horizonte, num cortejo de laranjas, vermelhos, roxos, até a noite cair.
Tinha sempre livros consigo, que trazia da biblioteca da vila. Gostava dos que descreviam aventuras no mar, marinheiros corajosos, exploradores intrépidos. Esses, lia-os uma e outra vez, e depois deitava-se, com o livro aberto sobre o peito, a sonhar de olhos abertos.
Olhou para o mar que se vislumbrava a toda a volta do farol. Havia tanta coisa que podia explicar àquela jovem jornalista. Por exemplo, podia contar-lhe que silêncio, mas silêncio mesmo, sentira-o quando os pais morreram. Entrou na casa que sempre tinha sido a sua, rodeado de pessoas que lhe diziam coisas que ele não ouvia, e as paredes cobriram-no com um silêncio espesso, que pousava nos móveis e nos objectos e os imobilizava, e lhe apertava o coração como uma garra.
De repente, percebeu que a jornalista estava a confundir o silêncio com a simples ausência da voz humana. A face distendeu-se-lhe num sorriso largo. Voltou a pousar os olhos azuis e transparentes na jornalista, que esperava a sua resposta de microfone na mão.
- Não, o silêncio não me incomoda nada.

(Vista do Cabo Sardão com o seu farol
Costa Vicentina, o "Reino da Cegonha Branca")

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

No tempo em que os animais falavam


A Primavera começava a chegar à quinta. Os dias eram mais longos e tudo parecia mais brilhante: a relva que despontava, os botões das prímulas do terraço, os pingos da chuva que ficavam a baloiçar nos ramos e secavam mais depressa.
O Máximo também sentia a influência da Primavera. Corria ligeiro pelos muros e pelos telhados e cofiava os bigodes cinzentos. Já não sentia vontade de brincar com os irmãos mais novos, que passavam o tempo a correr atrás dos pássaros e a encenar lutas com os outros gatos. O Máximo gostava era de fingir que preguiçava, no muro em frente da casa, enquanto olhava gulosamente as gatas que passavam. Especialmente a Tita. Ah, a Tita! Era linda, aquela gata, com as suas riscas cor-de-laranja que lhe faziam lembrar um sol, quando se bamboleava pelo terraço. O problema era que a Tita só tinha olhos para o Romeu, o gatarrão cinzento e branco. Passava-lhe à frente e voltava a passar, como quem não quer nada, ou então lançava uma frase “Hoje está menos frio, não está?” a ver se pegava a conversa. E pegava, claro, o Romeu enchia o peito e lá ficavam os dois a ronronar à esquina da varanda.
O Máximo via a cena e sentia-se triste. Começou a roer as unhas. A mãe ralhava com ele: “Onde é que já se viu? Um gato a roer as unhas? Quando cresceres, vais precisar das unhas para lutares pelos teus direitos, com os outros gatos ou os cães. Pensas que, numa luta, basta bufares? Sem unhas não vais longe!” Mas o Máximo ouvia a mãe com aquela absoluta indiferença com que os adolescentes ouvem os conselhos dos mais velhos.
Começou a isolar-se dos outros gatos. E foi assim que, um dia, se encontrou atrás do poço com um animal que não conhecia. Quatro patas e uma cabecinha saiam de uma carapaça achatada de um castanho cor-de-terra, aproveitando o sol. Intrigado, Máximo inquiriu o animal: “Olá, quem és tu?” A cabecinha castanha voltou-se para ele, mostrando dois olhitos redondos: “Olá! Sou uma tartaruga e chamo-me Marisol!” O Máximo deu uma enorme gargalhada, o nome parecia-lhe tão disparatado, tão pouco condizente com aquele ser que em nada fazia lembrar um sol! Marisol enfiou rapidamente a cabeça para dentro da carapaça. “Que nome tu tens! Porque é que te chamas assim?” Mas Máximo não obtinha resposta, só se via a carapaça, muda e parecendo uma pedra. O gato sentiu-se culpado. “Desculpa se te ofendi, não era essa a minha intenção”. A cabecita castanha apareceu de novo e inclinou-se para o lado, num gesto que o Máximo iria aprender que lhe era muito habitual, sempre que a tartaruga estava mais séria ou atenta a alguma coisa. “Já tenho pensado sobre isso. Se calhar, quando eu nasci parecia um sol para a minha mãe. Quando ela me pôs este nome, não pensou que todos iriam gozar comigo, durante a minha vida inteira!”
O Máximo sentiu-se culpado outra vez. E estendeu-lhe a grande pata cinzenta. E ela colocou em cima a pequena pata cor-de-terra. E ficaram amigos.
A partir desse dia, passaram a encontrar-se junto do poço. Conversavam muito e descobriam como era o mundo visto por outros olhos. Também brincavam. A Marisol fingia que amuava e metia-se dentro da carapaça. O Máximo rodava então a carapaça, até ela aparecer outra vez, tonta de riso. Ou então, brincavam a ver quem conseguia apanhar mais moscas. E nem sempre era o Máximo a ganhar a competição.
Já no final da Primavera, após uma tarde de insectos e brincadeira, o Máximo disse de repente: “Damo-nos tão bem, nós os dois! Podíamos casar e ser felizes!” Tão simples, dito assim! Marisol parou e olhou para ele, com a cabecita de lado: “ Não, não podíamos, somos demasiado diferentes.” O gato olhou-a surpreendido: “O que é que tem?” Marisol disse tristemente: “Ninguém nos iria aceitar! Onde é que íamos viver? Quem seriam os nossos amigos? O que diriam as nossas famílias?”
O gato ficou zangado e virou-lhe as costas. “Oh, estás a ser pessimista. O importante é sermos felizes!”  A tartaruga fitou-o novamente, com a cabecinha de lado, e depois, devagarinho, deu a volta e começou a afastar-se, na direcção do prado.
O Máximo virou-se e viu a tartaruga caminhar vagarosamente para longe do poço. Ela caminhava tão lentamente, bastavam dois saltos, três, para a alcançar. Mas não fez nada disso. Ficou a vê-la afastar-se. E voltou a roer as unhas.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Um dia...



- Anda daí, Pinóquio!
O cão levantou-se e encaminhou-se para a porta, como quem já sabe ao que vai. O homem olhou para o cão e riu-se; e o bicho levantou o focinho para o homem, a boca aberta num esgar que podia ser também um sorriso. Já estava velhote, o Pinóquio! O nome tinha-lhe sido dado pelo neto do homem, quando andava a aprender a juntar letras e palavras, e lia e relia, entusiasmado, as aventuras do boneco de madeira. Na época, o cão era um cachorrinho castanho-claro, muito vivo e engraçado, e o nome parecia assentar-lhe bem. Agora, o neto do homem era rapaz feito e vivia outras aventuras com as namoradas que levava lá a casa. E o Pinóquio começava a mostrar os problemas da idade, como as pessoas!
O homem abriu a porta, agarrou num casaco de malha, não fosse a tarde refrescar, e saiu ligeiro, acompanhado pelo cão. Tinha decidido que hoje à tarde ia visitar o Júlio. Não era longe, vinte minutos a andar com calma, sem correrias, e quando lá chegasse iam os dois beber uma cervejinha fresca e descansar as pernas. Iam falar dos bons tempos que tinham passado juntos, iam rir a bom rir ao recordar algumas aventuras do tempo da escola e depois iam abanar a cabeça tristemente, a lembrar um ou outro companheiro desse tempo que, entretanto, já tinha partido deste mundo. Acabavam sempre assim. Já lá não ia há algum tempo, mas sabia que acabavam sempre assim, hoje não havia razão para ser diferente.
O homem e o cão caminhavam com passos seguros, cadenciados, pareciam dois jovens outra vez. A tarde estava boa, um solzinho a aquecer o coração, uma brisa do rio a temperar o sol.
Quando chegou ao jardim, as pernas começavam a pesar-lhe. Resolveu sentar-se no banco, o Pinóquio sentou-se ao lado, sempre descansava também. Tinham tempo, a casa do Júlio era perto e a tarde estava boa, convidava ao passeio.
Olhou para o rio e para as gaivotas, poisadas com ar vigilante nos candeeiros. Quando era rapaz, costumava mergulhar no rio, ali, junto ao cais, para apanhar o camarão pequeno que depois vendia para isco. Às vezes, mergulhava só por brincadeira, com os outros rapazes, em jogos ruidosos que assustavam as gaivotas e as faziam voar em círculos.
Depois, começou a andar nos barcos, a fazer transportes de sal e carvão. Na altura, as pernas não lhe falhavam. Ah! Mas ele ainda um dia ia pegar num barco e mostrar a todos do que era capaz. Um destes dias, combinava com o Júlio, e haviam de ir pelo mar fora, logo de manhã, com o sobrinho dele, que tem uma fragata. Ainda lhe havia de ensinar umas coisas! Sentia a alma livre e leve como as gaivotas. As pernas é que não ajudavam.
O médico já lhe tinha dito: “Temos de pensar na operação aos joelhos!” Ele ia dizendo que sim, que pensava, mas sabia que nem queria pensar nisso. Então ele não se lembrava da tia Ernestina, que morava na rua de trás? Andava mal, também tinha as pernas doentes, foi operada e agora andava de cadeira de rodas. Ah, não! Isso não! Ele, numa cadeirinha de empurrar, como as crianças? Não, enquanto pudesse, ia andando, e nem queria pensar na operação.
Quem havia de ficar satisfeita de o ver numa cadeirinha era a Maria Otília, o homem apostava. Quando casaram era uma bela moça, lá isso era! Mas os anos passaram e ele só via vislumbres dessa moça aos domingos, quando a filha lá ia almoçar a casa. Tem os cabelos ondulados e fortes da mãe, os mesmos olhos esverdeados, os mesmos trejeitos de boca. Quando lá vão almoçar, é uma festa! Os netos ainda gostam de o picar: “Então, avô, quando é que vamos ao camarão?” E ele finge que acredita e combina sábados de verão. Mas, no fundo, sabe que esses sábados nunca mais virão.
Ah! Mas a Maria Otília gosta de o amesquinhar, gosta mesmo! Põe-se a remoer, para a filha: “O teu pai, coitadinho, já nem consegue ir ao fundo da vila, quanto mais ao camarão!” Ela não percebe que ele sabe que nunca mais irá, mas gosta de acreditar que sim. Ah! A Maria Otília havia de gostar de o ver na cadeirinha. E ela a apaparicá-lo, a fazer-lhe mezinhas, a tratá-lo como um bebé! Um dia, ele ainda havia de lhe mostrar do que era capaz. Ainda era um homem!
Levantou-se um vento fresco, do lado do rio. Pôs o casaco às costas e o Pinóquio olhou-o com ar interrogativo, como quem pergunta: “Já acabou o passeio por hoje?”
Tinha passado ali um bom bocado, a divagar, enquanto olhava o mar e as gaivotas. Se calhar, deixava a visita ao Júlio para outro dia. Dali a pouco, a Maria Otília tinha o jantar pronto e ficava preocupada se ele não estava em casa às horas do costume. Talvez fosse melhor ir andando.
Levantou-se, ajeitando o casaco nos ombros. O cão espreguiçou-se e começou a caminhar na direcção de casa. “Vamos embora, Pinóquio! A Maria Otília já deve estar à nossa espera. Amanhã, vamos visitar o Júlio. De certeza!”



(Este texto corresponde ao desafio de Fevereiro da Fábrica de Letras, com o tema "Velhice")

sábado, 2 de janeiro de 2010

Momento

(Este texto integra-se no tema "Beleza", proposto para o mês de Janeiro pela Fábrica de Letras)







A mulher abriu a porta do automóvel e dirigiu-se com dificuldade para a entrada do hospital. No guichet, a funcionária perguntou-lhe:
- Está muito aflita? Traz acompanhante? Precisa de cadeira de rodas ou acha que consegue andar? Diga-me só o nome e a morada.
Respondeu às perguntas e explicou que vinha com o pai. O marido tinha ficado em casa, com os dois filhos mais velhinhos.
- Pode entrar, o elevador é ali à direita. Sai no 2.º andar, eu vou avisar, a enfermeira já vai estar lá à sua espera.
Lá foi, andando com passos pequeninos, parando a cada contracção, tentando controlar-se. Eram 4 horas da manhã, o hospital estava vazio e os seus passos hesitantes ecoavam no corredor. No 2.º andar, a enfermeira já a esperava. Com os seus evidentes anos de experiência como enfermeira-parteira, tomou logo as rédeas da situação.
- Vamos ver como está a dilatação. Já tem três dedos de dilatação, já deve estar com bastantes contracções. Dê-me os exames, as ecografias. Vai à casa-de-banho e depois directamente para a sala de preparação. Vamos ligar o CTG.
Na sala de preparação, outras duas mulheres lutavam pelas novas vidas que se preparavam para nascer. Nem se olharam, cada uma concentrada na sua própria luta.
A mulher sentiu as águas rebentarem, uma torrente de águas quentes que parecia sair da própria dor que começava a cortá-la ao meio. Sentiu, mais do que ouviu, a voz familiar da sua médica obstetra. “Esta rapariga está cheia de vontade de nascer! Quase não me dá tempo para vestir a bata!” Tentou sorrir, mas só conseguiu suspirar de alívio pela presença da médica. Percebeu que a mudavam para outra maca, percebeu que estava na sala de partos, percebeu que lhe prendiam os pés nuns suportes elevados, percebeu que a auxiliar lhe calçava umas meias. “Não sabemos o tempo que isto vai demorar, não queremos que lhe arrefeçam os pés, não é?” A auxiliar apertou-lhe a mão, com carinho. “Isso, pode gritar à vontade!” Isso não tinha percebido, que estava a gritar. Onde estava a mulher que costumava ser, sempre tão controlada?
A enfermeira exclamou: “Não faça força! Não faça força ainda!” A mulher pensou que não estava a fazer força, era a filha que estava com pressa. “Agora vamos cortar um bocadinho, para a bebé não rasgar, está bem? Vá, agora é que é para fazer força!” Mas onde estavam já as forças? Pensou: “Não consigo! Já não consigo fazer força!” Cada dor era mais violenta e não a deixava concentrar no que precisava de fazer, que era fazer força. Um último esforço. “Pronto, já está. Muito bem, mãe, portou-se muito bem!”
Olhou pela primeira vez para a filha, ao colo da enfermeira. Chorava alto e estava vermelha e enrugada do esforço que fizera para nascer. No alto da cabeça, uns tufos de cabelo escuro, desgrenhado. A mulher pensou que não se parecia com ninguém. Só daqui a algum tempo ia começar a vislumbrar parecenças. “Tem os olhos da tia Joana” ou “O sorriso é igual ao do avô Eduardo”.
A enfermeira colocou a bebé sobre o peito da mulher, o que a fez sossegar e deixar de chorar. A mulher apertou-a docemente e sentiu que uma onda de ternura a avassalava e transbordava para aquele corpinho, tão pequeno, tão vermelhusco e enrugado, tão indefeso, tão seu, tão belo!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Desafio de Natal

Este é um desafio de Natal proposto pelas minhas queridas amigas Fátima e Isabel, do blog Escrita Criativa. A ideia é continuar a história do Pai Natal e da sua rena Alfred. Cada um pode continuá-la no seu blog, desde que informe e ponha o link do blog Escrita Criativa, ou enviar a continuação da história directamente para o mail desse blog. O desafio mantém-se durante as férias do Natal.



Local: Pólo Norte.
Casa do Pai Natal.

Reina grande azáfama e confusão.

Todos os duendes correm em histérica harmonia… cada um sabe exactamente o que tem de fazer.
O velho Nicolau dá as últimas indicações… aproxima-se a ordem da partida!
Repentinamente, aquilo que parecia impossível aconteceu MESMO!!!
Rudolph constipou-se… muito frio!
O GPS AVARIOU!!!
- Socorro!!!- grita o velhinho, de cabeça perdida…- Há centenas de anos que ando nisto e nunca tal me aconteceu!
- E agora? Como vou levar as prendas aos meninos de todo o mundo? Estão todos à minha espera!
O Pai Natal decide arriscar e parte sem o seu precioso GPS (modernices!).
Levou uma outra rena, inexperiente, chamada Alfred, que tem um pouco de mau feitio e que decide embirrar com as indicações que o velho senhor lhe dá.
Numa curva do caminho… Alfred faz uma birra e vira por um carreiro desconhecido.
- SOCORROOOO!!! – grita o Pai Natal – O que foste fazer, desmiolada? Agora, estamos perdidos! Como vamos sair daqui? Ai o meu querido GPS!!! 


Bom… esperemos que o Pai Natal descubra como dar a volta à situação… Não lhe queres dar uma ajudinha?
Podes terminar a história e descobrir como vai o Natal poder contar com a presença do velho Nicolau em todas as chaminés por esse mundo fora.


Segue o Norte da tua imaginação...
Puxa pelas rédeas do trenó fantástico...
Viaja sem fim, pelo imaginário natalício...







quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A fábula do porco-espinho



Enviaram-me uma estorinha deliciosa, que eu decidi partilhar aqui, porque me parece que se adequa bem ao espírito de aceitação dos outros, que deveria ser o espírito do Natal. É a fábula do porco-espinho.

Durante a Era Glaciar, muitos animais morriam por causa do frio. Os porcos-espinhos, para se aquecerem, juntavam-se uns aos outros, mas os seus espinhos, por vezes, feriam os companheiros mais próximos. Resolveram então afastar-se uns dos outros, mas voltaram a morrer de frio. 
O que fazer, então? Precisavam de fazer uma escolha difícil: ou aceitavam os espinhos dos companheiros, ou desapareciam da face da Terra.
Com sabedoria, decidiram voltar a ficar juntos. Aprenderam a conviver com as pequenas feridas que a relação com o outro podia causar, aproveitando e partilhando o calor da relação. E assim sobreviveram.


Moral da história: 
O melhor relacionamento não é aquele que une pessoas perfeitas, mas aquele em que cada um aprende a viver com os defeitos do outros, apreciando as suas qualidades.






(Porco-espinho bebé)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Natal na Quinta

(Continuação da saga iniciada na primeira edição da Fábrica de Letras)


E o Natal chegou outra vez à quinta. Já havia luzinhas penduradas no estábulo e no galinheiro e, dia sim dia não, o coro dos gatos de telhado ensaiava os seus cantares natalícios. O Preto também fazia parte do coro e chegava a casa inspirado, ainda a cantarolar “I’m dreaming of a white Christmas”, o que fazia sempre a Branca soltar uma gargalhada. “Para que queres um Natal branco? Para te verem melhor?”
A Branca, pelo contrário, não cantava, só fazia contas. “Tenho de encomendar as postas de atum fresco para a Ceia! Está tão caro o atum!” comentava com as outras gatas da quinta. Além disso, havia que comprar as prendas. Os três filhos, agora já crescidinhos, tinham feito a lista para o Pai Natal. O Máximo, o mais velho, queria uns ténis caríssimos e passava o dia a resmungar que o tempo do Gato das Botas já lá ía há muitos anos! O mais novo, o Mínimo, queria uma “Playfarm” e insistia, que todos os amigos tinham uma, que queria jogar também!... E o do meio, o Manuel António, queria uma anilha nova, topo de gama, como as dos amigos pintos. E estava a ser difícil explicar-lhe que os gatos não usam anilhas!
As vizinhas da rua de trás, do galinheiro, também não ajudavam. Cada uma queria fazer melhor figura do que a outra e então, punham-se a pendurar fitas brilhantes e bolas coloridas nos poleiros, até o galinheiro parecer mais um circo do que um galinheiro. E, enquanto penduravam as bolas e as fitas, davam bicadas umas às outras. O Galo, às vezes, fazia de conta que não ouvia as galinhas. Quando o barulho começava a ser exagerado, fugia com o gato Preto para o coro, desculpando-se: “Parece que precisam lá de um tenor!”
Até que a Branca miou mais alto: “Basta! Estou cansada desta confusão toda! Quero aqui a família toda para a ceia, mas sem confusão e sem pintos à mistura!” Ficaram todos em silêncio e em sentido, porque quando ela se zangava ficava uma leoa.
E assim chegou a noite de Natal. E comiam todos sossegadamente o seu atum, lambendo os bigodes, quando ouviram um leve arranhar na porta. O Máximo foi abrir e viu uma galinhola, deitada na soleira da porta, com uma asa e uma pata feridas. Arquejava, mas foi explicando: “Peço desculpa por incomodar, mas fiquei presa numa armadilha lá para os lados do açude e não consigo voltar para casa. Já fui bater à porta do galinheiro, porque os pintos ainda são meus primos, mas eles estão tão entusiasmados a festejar que não me ouvem!” A Branca já estava a ajeitar mais um banco, junto do lume. “Venha para aqui, está mais quentinho!” E, enquanto partilhavam os lugares e os manjares da ceia, a Branca pensava que ali o Natal estava mais vivo do que no galinheiro, todo enfeitado.


domingo, 15 de novembro de 2009

O Preto e a Branca

(Este texto é uma resposta ao desafio lançado pela Fábrica de Letras)


Era uma vez uma quinta onde viviam dois gatos: um grande gato preto, chamado, sem grande imaginação, Preto; e uma bela gata branca, chamada, imaginem se conseguirem, Branca. Eram casos raros na quinta, onde imperavam os castanhos, os vermelhos, os azuis e todos os tons de verde. Tal como acontece frequentemente com aqueles que não se conhecem, passavam um pelo outro de largo, com desconfiança, mirando-se como quem não está a olhar.
Um dia, encontraram-se em cima do telhado. Não havia muito por onde andar e tiveram de fazer conversa. “Olá! O meu nome é Preto!” adiantou o gato. “Preto como o carvão. E eu sou Branca como a farinha!” miou a gata. O gato encurvou os bigodes em sinal de interrogação e ela continuou: “Era uma poesia que o meu dono lia aos filhos, quando eles eram pequeninos.” O gato estendeu a enorme pata, enquanto preparava o seu discurso sedutor. “Branca como a farinha, como a luz da Lua, como as nuvens que correm no céu!”
Estava criado o clima para as confidências. Dali a pouco, trocavam desilusões e expectativas. “O meu pêlo é um horror, suja-se imenso!” lamentava-se a gata Branca. “Posso lambê-lo por si!” O gato Preto aproveitava a deixa. “E estou farta de tanta brancura. O que mais gosto em mim são as orelhas, porque são cor-de-rosa!” lamentava a Branca . “Nisso, eu compreendo-a, também estou cansado de ser tão preto. Imagine que há pessoas que fogem de mim, porque dizem que dou azar!” A gata indignou-se: “Que ignorantes!”
Palavra puxa miado, começou a surgir um plano. Se juntassem a brancura da gata Branca com o negrume do gato Preto, o que aconteceria? Na poesia, os gatinhos nasciam todos aos quadradinhos! Valia a pena experimentar!
Dito e feito! A noite estava boa e passaram rapidamente das palavras aos actos. E quando os gatinhos nasceram, não eram todos aos quadradinhos, mas sim dos mais belos e diversos cambiantes de cinzento.





"Se quiser falar ao coração dos homens, há que se contar uma história. Dessas onde não faltem animais, ou deuses e muita fantasia. Porque é assim - suave e docemente - que se despertam consciências". (Jean de La Fontaine).

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Uma história de vida

Quando estive em Israel, no Verão passado, tive o privilégio de encontrar alguns sobreviventes do Holocausto nazi. Um deles foi Albert Neuwirth, sobrevivente do gueto de Budapeste. Contou-nos a sua história de sobrevivência, desespero, perseverança.



(A Grande Sinagoga de Budapeste)


O pai tinha emigrado para a América Latina, para abrir um talho de carne “kosher” ( carne de animais mortos e preparados segundo os preceitos da religião judaica), na Argentina. Quando a situação lho permitiu, enviou bilhetes de barco para a mulher e os filhos se lhe reunirem. A uma semana do barco sair, a guerra deflagrou, os portos fecharam-se e, tal como tantos outros judeus, Albert ficou preso numa Europa que não lhes permitia viver livremente, mas que também não lhes permitia partir. A Hungria era então aliada do Terceiro Reich hitleriano, e os judeus foram encerrados em guetos, para agradar ao poderoso vizinho. Até 1944, foram sobrevivendo, com a ajuda de diplomatas estrangeiros, como Raoul Wallenberg, que passavam mantimentos clandestinamente para dentro do gueto. Albert recorda com tristeza que não podiam contar com a solidariedade dos húngaros: uma ocasião, uma sua vizinha conseguiu fugir com o filho; apanhados por uma brigada de “flechas cruzadas”, tiraram as calças ao rapazinho e mataram-nos ali mesmo, ao descobrirem que eram judeus, já que ele era circuncidado.



(Objectos de Culto no Museu de História Judaica, em Budapeste)


Em 1944, os Alemães ocuparam a Hungria e até a pouca comida que entrava no gueto começou a faltar. Com doze anos, o trabalho de Albert era andar com uma carreta pelas ruas, recolhendo os cadáveres dos que morriam das mais varidas doenças ou, simplesmente, de fome.
Quando as tropas russas libertaram Budapeste e abriram o gueto, distribuíram as suas rações de combate pelos seus esfomeados habitantes, que muitas vezes morriam da abundância, quando tinham conseguido sobreviver à fome, já que os seus sistemas digestivos não estavam preparados para uma refeição normal.



(Cemitério judaico de Budapeste - Este muro representa os milhares de cadáveres não identificados)


Encerrado num campo de refugiados com a irmã, Albert conseguiu finalmente reunir-se ao pai, na Argentina, depois da guerra.
Ao ouvi-lo falar, sente-se a raiva e a revolta por uma infância violentada, mas também a força e a teimosia de quem lutou pela sobrevivência e agradece todos os dias o milagre de estar vivo.





(Monumento memorial do Holocausto, em Budapeste - Nesta árvore de metal, cada folha tem o nome de uma família atingida pelo Holocausto)


(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Desafio de aniversário


A Vanessa, do blogue Fio de Ariadne, lançou um desafio interessante: para festejar o quarto aniversário do seu blogue, tão ligado às letras e aos escritos, desafiou os seus leitores a escreverem um final para uma pequena história que ela iniciou. Aceitei o desafio e aqui está o resultado: a itálico o início do texto; depois, a minha proposta de final.
Parabéns, Vanessa.

Era um menino que adorava ler. Desde que foi alfabetizado no grupo escolar da fazenda, tinha gostado muito daquela história de juntar letras para descobrir palavras. O menino passava o dia todo procurando algo para ler. Lia os dizeres das latas de manteiga deixando a cozinheira maluca. Lia o rótulo do remédio de bicheira nos cavalos, os jornais velhos que forravam a estrebaria. Lia de tudo, o dia inteiro, mas faltavam os livros.
Um dia a coisa toda mudou...
Até que um dia tudo mudou. Houve um grande incêndio na fazenda. Foi o pânico, todos corriam de um lado para o outro, acartando água, batendo no chão com pequenos ramos para evitar reacendimentos, ou apenas gritando e atrapalhando todos os que tentavam salvar a aldeia e os campos de cultivo à volta. Ninguém ligava importância ao garoto, que fugiu pelos campos para o sítio que lhe pareceu mais seguro: a Casa Grande.
Em situações normais, aparecia logo alguém a enxotá-lo, “Sai daí, miúdo!”. Mas esta não era uma situação normal, toda a gente andava entretida com o fogo. O menino subiu as escadas a correr, sabe-se lá porquê, talvez porque lhe parecesse que mais perto do céu estava mais protegido! Deu com uma grande porta de madeira pesada, empurrou-a e sentiu-se mesmo no céu: era uma sala enorme, cheia de prateleiras até ao tecto e em cada prateleira acotovelavam-se livros de todos os tamanhos e feitios.
O garoto esqueceu-se de tudo, do fogo, do medo… Puxou um livro para si, depois outro.
Quando o dono da Casa Grande entrou na biblioteca, encontrou o menino sentado no chão, com um atlas aberto no chão à sua frente. Com o dedito, apontava sítios, seguia rios, soletrava nomes estranhos e aprendia que o mundo era muito maior do que ele pensava.
Em circunstâncias normais, o dono da Casa Grande ter-se-ia zangado com o garoto. Mas já expliquei aqui que, naquele dia, não havia normalidade em nenhumas circunstâncias.
Talvez fosse o dedito no grande atlas. Talvez fosse o olhar de descobertas e assombros do miúdo. A verdade é que o dono da Casa Grande se sentou ali no chão a falar com ele, perguntou-lhe o nome e os sonhos e convidou-o a vir à biblioteca sempre que ele quisesse. E ele foi.
Quando cresceu, tornou-se professor, das primeiras letras, pois claro!... Mas voltava sempre que podia àquela grande biblioteca, onde os livros cheiravam à sua infância.