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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Postal de Lisboa VIII - O Jardim da Estrela


Para além das casas e do trânsito, dos centros comerciais e dos engarrafamentos, Lisboa tem muitos locais aprazíveis, onde ainda apetece sentar e, simplesmente, deixar passar o tempo. Um desses locais é o Jardim da Estrela.

Fundado em 1842, é um típico jardim do século XIX, ordenadamente desordenado, em que se tenta imitar a natureza. Mas o resultado é agradável e sabe bem, nas tardes de calor, sentar num dos muitos bancos que ladeiam as áleas do jardim e comer um gelado, com todo o vagar.
No centro do Jardim, há um coreto lindíssimo, de ferro forjado, que antigamente embelezava o Passeio Público de Lisboa, onde hoje se situa a Avenida da Liberdade. Está meio abandonado, como todos. Há dois miúdos que o aproveitam como campo de futebol e vão chutando contra as belas grades enquanto gritam golo. Eu acho que era bem interessante reavivar o hábito das pequenas orquestras darem concertos, aos fins-de-semana, nos coretos. Animava os jardins e dava uma nova vida a essas estruturas que, agora, parecem barcos encalhados, sem valor porque sem utilidade.

Há muita gente no Jardim. Há um homem que fotografa os patos do lago. Há muitas crianças a brincar no parque infantil. Há senhoras de idade indefinida que conversam, sempre em grupos de três, sentadas nos bancos do jardim. Há pares de namorados, sentados na relva, ou na esplanada, a comer gelados. Há turistas que escrevem postais ilustrados. Há um grupo de jovens, de rastas no cabelo, que conversam na relva, à volta de uma guitarra. Há pessoas, de todas as idades, que lêem livros e revistas – depois percebi porquê: há um quiosque-biblioteca, que empresta livros e revistas para utilização no Jardim. Ora aí está uma bela ideia!

Também há um homem que passeia de bicicleta: na cestinha da frente traz um rádio, daqueles grandes, com colunas incorporadas. Passa e volta a passar. Da primeira vez que passou ao pé de mim, a rádio tocava “We are the world, we are the children”. Agora já só se ouve uma batida daquelas que se repete indefinidamente, hipnoticamente. Por favor, ponham outra vez a música onde ela deve estar, no coreto!

(Fotografias de Teresa Ferreira)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Postal de Lisboa VII - O Cais das Colunas



Cais das Colunas (Fotografia de Teresa Diniz)

Já há tempos que andava com vontade de ir ao recém-recuperado Cais das Colunas, na Ribeira das Naus (que bem que me sabe escrever estes nomes, nomes com espessura histórica, que trazem consigo o cheiro de fardos de pimenta e canela!).
Durante anos, o Cais das Colunas desapareceu, ou, mais precisamente, as colunas do cais desapareceram. As obras do metropolitano habituaram-nos a não olhar para o rio: só se viam tapumes, entulho e máquinas. As águas estavam sujas e viam-se as coisas mais estranhas a boiar! O próprio Terreiro do Paço perdeu a sua nobreza, constantemente pejado de carros e eléctricos e autocarros e peões a acotovelarem-se para atravessar nas passadeiras. Durante anos, foi simplesmente um grande parque de estacionamento.
Lembro-me que, durante anos, eu e os meus filhos cumprimos um ritual de Natal que consistia em ir à Baixa ao fim da tarde, num qualquer dia de Dezembro, para pasmarmos com as iluminações das ruas (o deslumbramento era parte integrante desse ritual). Depois, comprávamos waffles de chocolate na Rua Augusta e terminavamos o tour, invariavelmente, no Terreiro do Paço, com as mãos e as bocas todas lambuzadas de chocolate, cheios de protestos porque não havia nem um banquinho para nos sentarmos.
Agora continua a não haver banquinhos (com excepção daqueles coloridos, horrorosos, com uma árvore portátil, que povoam o passeio em frente do terminal fluvial), porque o Terreiro do Paço está novamente em obras. Só que, desta vez, parece que a ideia é devolver a Praça aos lisboetas e transeuntes em geral. Agradeço e espero pelo fim de mais estas obras com uma esperança sorridente.
O Cais das Colunas, finalmente, voltou para o seu lugar. Se o Terreiro do Paço é a sala de visitas de Lisboa, o Cais das Colunas é a porta de entrada, é a cidade que nos abre os braços.
O espaço é grande e agradável, com bancos de pedra que seguem a linha ondulada do cais. Há pessoas a passear, a ver o rio, pombos e gaivotas esvoaçam por ali. Há muitos turistas, a fotografar tudo. Uma senhora persegue um pombo com uma máquina fotográfica, mas o pássaro está mal-humorado, não há meio de ficar quieto e fazer uma bonita pose para a fotografia. E eu posso, finalmente, sentar-me num banco, encher o olhar de rio e sentir, na minha imaginação, o cheiro da pimenta e da canela que deram o nome ao Paço que o rei D. Manuel aqui construiu um dia.

Cais das Colunas (Fotografia de Teresa Diniz)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Postal de Lisboa VI - Cais do Sodré

Cais do Sodré é um nome que evoca as mais diversas imagens. Para quase ninguém evoca o Duque da Terceira, personagem presente em estátua no centro da praça e que lhe dá o nome.
Para alguns, evoca os bares onde as noites se afogam nuns copos, bares da moda, bares de música mais ou menos alternativa, bares de prostitutas, bares de marinheiros. Nas imediações da Rua de S. Paulo, os bares, com as suas mesas e chão de mármore desgastado, ainda têm nomes evocativos como bar “Pirolito” ou bar “Salva Vidas”. O escritor Tiago Rebelo recorda o Cais do Sodré do final dos anos 60, onde, segundo se dizia, “o sangue corria nas valetas”.
Para outros, evoca o local de destino diário, o início do dia de trabalho, o grande interface de transportes urbanos, onde se cruzam os barcos que vêm da “outra banda” com os eléctricos e os autocarros que vão para Belém ou Algés ou qualquer outro destino, onde chegam o metropolitano e os comboios de Cascais, onde os carros e os táxis se atropelam. Para outros ainda, evoca apenas um fado antigo.
Há alguns dias, passava eu no dito Cais do Sodré e pensava precisamente sobre tudo isto. Não gosto de passar pela parte central, sempre cheia de gente. Atravesso sempre pelo jardinzinho, mais perto da beira-rio. Ali, as horas ainda são marcadas pelo velho relógio, protegido pela sua cobertura verde em meio cilindro, a condizer com as janelas em óculo das mansardas do prédio em frente. Tem um ambiente antigo, quase fora-de-moda, que contrasta com a grande estação ferroviária e fluvial ali mesmo ao lado. No centro, há uma escultura um pouco ingénua de homenagem ao “homem do leme”, aos marinheiros do Tejo. Nesta altura do ano, todo o jardim está pintado de branco e lilás, com as suas lantanas em flor. Num banco de jardim, está um taxista sonolento. E, mais à frente, junto a outro banco de jardim, três miúdos jogam ao berlinde. Não têm mais de doze anos e riem, enquanto discutem as jogadas. A cena parece tão fora-de-moda como o próprio jardim. No entanto, olhando à volta, parecem ser os únicos que não se preocupam com a crise, pelo menos naquele momento. Para eles, o Cais do Sodré evocará sempre outra coisa, só deles.
No meio do passeio fronteiro à Estação Ferroviária, está deitada uma mulher de idade indefinida, com uma taça de plástico à frente a induzir à esmola, que ela não pede. Que evocações serão as suas?

Estação do Cais do Sodré (Foto de Rosamelia)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Postal de Lisboa V - O 25E


Passear por Lisboa num dos velhos eléctricos amarelos é quase uma experiência extra-sensorial. É como se entrássemos numa cápsula do tempo. Sentada junto a uma das amplas janelas de madeira, avançando a ritmo lento pelas ruas estreitas, sinto que posso estar aqui e agora, como posso estar nos anos 30, dentro de um dos antigos filmes portugueses. Qual Mary Poppins que salta para dentro das pinturas, no parque, assim eu entro num eléctrico, dos velhinhos, e parto para outra dimensão.
Há eléctricos famosos: o 15, que percorre a zona ribeirinha até Algés; o 28, que sobe até à Graça… Um dos meus preferidos, no entanto, é o eléctrico n.º 25E. Parte da Rua da Alfândega e sobe até aos Prazeres. Na realidade, constitui uma espécie de passeio pela estrutura social de Lisboa. Vai avançando pelas ruas da zona do Cais do Sodré, até ao Largo do Conde Barão. É a Lisboa popular, confusa, das ruas atulhadas de veículos de todo o tipo, das casas com a pintura a cair e roupa a secar nos estendais. Há carros mal estacionados, que impedem o avanço do eléctrico. O motorista toca a campainha e entra pela janela um grito de “Raio do mechibombo!”, que trai a cultura popular mas também – e recordo que o machibombo era o autocarro angolano - a ligação antiga às colónias. Olho para fora, a ver se avisto o autor do grito, mas já não vejo nada, só um rapaz que viaja pendurado na porta de trás do eléctrico. Vai ali para não pagar bilhete, ou então pelo puro prazer de transgredir, já que há muito espaço dentro do eléctrico. Troca graçolas, aos gritos, com dois rapazes que vão sentados dentro do eléctrico. Usam bonés com a pala para trás e um deles tem um “piercing” na sobrancelha. Os corpos balofos denotam excesso de fast-food, as cuecas puídas, que se vêem quase na totalidade, denotam falta de higiene. À minha frente viaja um casal de turistas. Eles não prestam atenção aos rapazes, mas em contrapartida sorriem espantados aos sacos de caracóis pendurados à porta das pequenas mercearias de bairro.
A partir do Largo de Santos, o eléctrico começa a subir a colina e a escala social. Aproximamo-nos da Lapa. Os edifícios mudam, a maioria tem as fachadas bem cuidadas, muitas delas cobertas de azulejos. São fachadas sérias, sisudas, viradas para dentro. Alguns deles são palacetes, outros são casas bem recuperadas, com belas portadas e vislumbres de jardins interiores. Há menos gente na rua, menos barulho, menos confusão.
O eléctrico chega ao Largo da Estrela e passa entalado entre a Basílica e o Jardim. A partir daí, é Campo de Ourique, ruas agradáveis sombreadas por grandes árvores, cafés com pequenas esplanadas onde avós e netos bebem chás e leites achocolatados, lojas de bairro. Sempre foi um bairro da classe média e continua a sê-lo. O eléctrico continua a viagem até aos Prazeres, nome estranho para um cemitério, ou talvez não. Há quem diga que as classes sociais também se vêem nos cemitérios, há-os mais finos e mais populares. O cemitério dos Prazeres parece ser dos mais distintos. Mas não me parece que isso seja importante para quem ali tem a sua última morada.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Postal de Lisboa IV - Quartel do Carmo


Quartel do Carmo (foto de Fernando Ferreira)


Aproveitando a canonização de Frei Nuno de Santa Maria, que é como quem diz Nuno Álvares Pereira, o Quartel do Carmo festejou com redobrado fulgor esta semana que antecede o Dia da Guarda, e em que há sempre comemorações. Este ano, as comemorações integraram uma exposição especialmente dedicada a Nun’ Álvares e eu aproveitei o sábado para a visitar. Não conhecia o interior do Quartel do Carmo. Além das salas especificamente dedicadas à história da Guarda Nacional Republicana (ou das organizações militares que a antecederam, desde os quadrilheiros de D. Fernando), tem um núcleo muito interessante, dedicado ao 25 de Abril. Aí se podem conhecer os pormenores do golpe militar que nos devolveu a liberdade e a democracia, mas também alguns aspectos da vida e da personalidade de Salgueiro Maia. Caminhamos nos corredores onde esperaram os enviados dos revoltosos, visitamos a sala onde Marcelo Caetano entregou o poder ao General Spínola, vemos os livros trespassados pelas balas dos sitiantes. É um passeio pela nossa história recente.
Mas o mais fascinante é olhar para Lisboa, a partir do quartel. Situado num ponto alto e estratégico, cada janela é um novo bilhete postal, desvenda-nos uma perspectiva diferente. As janelas do lado ocidental abrem para o Convento do Carmo, cujas ruínas não costumamos ver daquela forma, já que estamos à altura das arcadas superiores. A cereja no topo do bolo é, no entanto, a grande varanda das traseiras do edifício. Ricamente ornamentada com azulejos azuis e brancos, tem uma vista panorâmica sobre toda a Baixa de Lisboa, abrangendo as colinas fronteiras, até ao rio. A cidade estende-se aos nossos pés, as casas brancas amontoam-se nas colinas, vêem-se os eléctricos e os barcos no Tejo. Vista daqui, mostra o que tem de mais belo. Apetece ser poeta!
(Fotografias de Fernando Ferreira)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Postal de Lisboa III - Igreja da Conceição Velha


Perto do Campo das Cebolas, andando na direcção do Terreiro do Paço, um pouco escondido dos olhares mais distraídos, surge-nos o Portal da Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha. Juntamente com a Casa dos Bicos, é dos poucos edifícios que restaram, nesta zona de Lisboa, da época anterior ao Terramoto de 1755. Paro a admirar aquele belo portal e, como sempre, surpreendo-me por não encontrar aqui o enxame de turistas que sempre rodeiam a Casa dos Bicos. Bem sei que a Casa dos Bicos é um exemplar pouco comum de arquitectura civil, com as suas pedras talhadas em ponta de diamante, embora seja a traseira do prédio, já que a parte nobre, a frontaria, ruiu com o terramoto. Como seria?

Portal da Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha (foto de Fernando Ferreira)

O Portal da Igreja da Conceição Velha não lhe fica atrás em nada, com a sua riqueza escultórica, a beleza e a perfeição dos detalhes. No entanto, não chama tanto a atenção de quem passa. A mim, surpreende-me sempre e, se tenho tempo, paro e descubro sempre um novo pormenor. E não posso deixar de imaginar como seria essa Lisboa de Setecentos. Segundo fontes fidedignas, ter-se-ão perdido dez por cento das casas da cidade e muitas outras terão ficado inabitáveis. Desapareceram os seis hospitais da cidade, incluindo o famoso Hospital de Todos-os-Santos, situado no actual Rossio. Desapareceram mais de 30 palácios, mais de 50 conventos. Desapareceu a magnífica Ópera do Tejo, inaugurada meses antes, a Alfândega, a rica Igreja Patriarcal, a Casa da Índia, o Arquivo Real, o Cais da Pedra. Perdeu-se o palácio real, o emblemático Paço da Ribeira, mandado construir por D. Manuel, com um património grandioso em mobiliário, obras-de-arte, livrarias. Perdeu-se a Biblioteca Real, acarinhada por D. João V e aumentada com muitas partituras e livros de música por D. José. Fico comovida ao pensar como seria essa cidade que cresceu como centro de um império que abrangia três continentes. O Marquês de Pombal arrasou o que sobrava desta zona para construir uma cidade nova, virada para o futuro. Talvez por defeito profissional, contemplo o Portal da Igreja da Conceição Velha para me virar para o passado, como se os seus anjos talhados na pedra me apontassem um portal do tempo e, através dele, eu pudesse contemplar esse mundo que todos nós perdemos.
Pormenor - Anjos (foto de Fernando Ferreira)

domingo, 3 de maio de 2009

Postal de Lisboa II - Campo das Cebolas



Campo das Cebolas visto através do Arco das Portas do Mar (foto de Fernando Ferreira)

Há dias fui a Lisboa e o trânsito absurdo, conjugado com o actual corte do trânsito entre o Terreiro do Paço e a Ribeira das Naus, fez-me parar no Campo das Cebolas. Além da “fauna” habitual havia muitos turistas, todos de livrinho ou roteiro turístico na mão. Procuravam claramente a Casa dos Bicos, mas não a conseguiam descobrir porque se encontra totalmente tapada, com o objectivo de sofrer qualquer intervenção, talvez até simples obras de manutenção. Parece que ainda não chegou a Portugal o bom hábito, com que tantas vezes deparamos lá por fora, de tapar os monumentos que estão a ser intervencionados com um taipal onde se vê – muitas vezes em tamanho natural – a fotografia do monumento e a indicação da obra que está a ser realizada. Por cá, ninguém parece achar isto necessário, ou simpático. Deixemos os turistas a procurar em vão o objecto das suas buscas! Segui com o olhar a direcção das objectivas e das câmaras de filmar. Muitos turistas descobriram, ao lado da Casa dos Bicos de cara tapada, um restaurante que têm esse nome e fotografam-no. Alguns são mais atentos e fotografam o próprio edifício. Dou por mim a olhá-lo também. É um edifício de seis andares, que ostenta algum brilho nas suas varandas de ferro e, principalmente, nas suas belas janelas enquadradas por ombreiras de pedra esculpida. É óbvio que tem um passado de orgulho e desafogo económico. No entanto, o estado de decrepitude da pintura e das portadas das janelas, contam outra história. Na varanda do 2.º andar, há várias toalhas amarelas penduradas a secar que, apesar de tudo, lhe dão um ar alegre e luminoso. Os turistas continuam a fotografar e eu penso que fazem bem. Esta combinação do passado orgulhoso com o presente decrépito é um bom retrato do país, um bom postal de Lisboa.

(Foto de Fernando Ferreira)

domingo, 26 de abril de 2009

Postal de Lisboa

Já visitei várias capitais, grandes cidades do mundo, mas, para mim, nenhuma se compara a Lisboa. Nasci na Maternidade Alfredo da Costa, já lá vão uns anitos, cresci entre a Penha de França e Benfica. Lisboa é a minha cidade. Consigo ver o que tem de belo e o que tem de podre. Mas eu não acredito em mundos ideais, homens novos, sítios perfeitos. Lisboa é como cada um de nós, com as suas grandezas e as suas misérias.
Gosto de entrar em Lisboa a partir da margem sul: chegar por uma das pontes que cruzam o rio Tejo, por exemplo. Mas como gosto mais de entrar em Lisboa é de barco. Atravessar o Tejo num dos barcos que saem do Barreiro ou do Seixalinho, no Montijo, é uma experiência muito mais rica. A cidade desfila vagarosamente defronte de nós. Primeiro a zona oriental, com o Parque das Nações e a sua afirmação de modernidade. Depois, a zona das docas, com os navios de carga e de cruzeiro lembrando outros caminhos e outras viagens. Mais acima, os prédios de Chelas e as Amoreiras. Encontramos a Graça, S. Vicente, o Panteão Nacional. Finalmente, a bela sala de visitas da cidade, o Terreiro do Paço. Subindo o olhar, encontramos a Sé e, lá mais em cima, como um guardião da cidade, o Castelo de S. Jorge. Está um dia de sol e a cidade resplandece à beira das águas. Faz-me lembrar Veneza vista do Gran Canal, ou Lausanne vista do rio Lago Leman. Mas aqui não há barcos de recreio, cheios de turistas de máquina fotográfica em punho. Estes são barcos de gente trabalhadora, que vai diariamente para Lisboa, que já viu estes prédios e estas pequenas ondas do rio centenas de vezes. Nem levantam a cabeça, mergulhados nos seus jornais, nos seus telemóveis, nos seus pensamentos. E Lisboa desdobra-se à minha frente, como um postal ilustrado, como um filme feito só para mim.