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domingo, 18 de março de 2012

Portugal colorido

Um destes dias, fui à minha costureira buscar umas calças que lá tinha deixado a arranjar. É uma rapariga russa, que veio para Portugal há uns cinco anos. É uma mulher despachada, mostra sempre boa-vontade em resolver os problemas, cumpre os prazos combinados com as freguesas. Abriu uma lojinha com um balcão, de onde emerge o seu rabo de cavalo dourado como um feixe de trigo, sempre atenciosa e educada. Fala com um sotaque característico, embrulhando os verbos e os substantivos, mesmo quando fala com os dois filhos, que andam na escola e já falam português melhor do que ela.
Depois, passei pela lavandaria. Pertence a um casal argentino, que começou este negócio com muitas dificuldades. Prosperaram graças à simpatia e à competência, sempre prontos a tentar todas as estratégias para lutar contra alguma nódoa mais difícil. A filha mais velha já trabalha com eles, a mais nova ainda anda na escola. Nunca perderam o sotaque cantado e colorido e os olhos verdes da mulher ainda refletem com nostalgia os bosques de abetos da sua Patagónia natal.
À esquina da minha rua, há uma churrasqueira. São uns rapazes brasileiros que exploram o negócio, embrulhando os frangos assados num sorriso e numa palavra simpática. Ainda lá passo antes de voltar a casa.
De frango na mão, baloiçando no saco de plástico, não posso deixar de pensar neste Portugal colorido, tão diferente do Portugal monocromático da minha infância.
Os imigrantes não nos dão apenas os impostos que pagam e que ajudam as nossas deficitárias finanças públicas, ou os filhos que têm e que contrabalançam um pouco a nossa envelhecida demografia. Muitos regressaram aos seus países de origem, mas muitos outros continuam por cá, tentando ultrapassar a crise tal qual como todos nós. E além disso tudo, também nos trouxeram um Portugal menos sisudo, menos cinzento, mais descontraído e alegre.
Pintaram Portugal com cores diferentes.

(Multidão colorida - Imagem do Google Images)

sábado, 3 de março de 2012

Há gripes e gripes!

E cá estou eu com gripe outra vez!
Entre espirros e gemidos, dei por mim a refletir sobre a Gripe A. A famosa, temível, incontornável Gripe A que, qual peste negra, se anunciava como um flagelo irremediável em todos os telejornais do inverno de 2009. Andou meio mundo a comprar líquidos para limpar as mãos de todos os germes, que se traziam na carteira, e apareceram recipientes com gel para limpeza em todos os espaços públicos, desde casas de banho a aeroportos. Na minha escola, os miúdos utilizavam-no logo de manhã para pôr no cabelo, era uma alegria! Lançaram-se folhetos com indicações da mais elementar higiene, como deitar no lixo os lenços de papel usados. A Direção Geral de Saúde divulgava comunicados, com conselhos, explicações sobre os tipos de gripe, tabelas de óbitos a nível mundial. Aconselhava-se o uso de máscaras e a vacinação em massa. As escolas tiveram de fazer planos de contingência. E, afinal, chegou-se à conclusão de que aquela mortífera gripe, nesse inverno, tinha sido responsável por menos mortes do que a gripe do costume, nos anos considerados normais.
Neste ano de 2012, as estastísticas mostram-nos que a mortalidade tem atingido picos pouco habituais, especialmente entre os mais idosos. Timidamente, os responsáveis admitem que a gripe tem sido uma das responsáveis, particularmente a Gripe A. Alto! Houve aqui qualquer coisa que me escapou! Este ano houve mais mortes devido à Gripe A, e só agora se fala disso? Não houve planos de vacinação, quarentenas, linhas de aconselhamento especiais? Esteve tudo tão silencioso. Será que as indústrias produtoras de vacinas e de gel para esterilização já não precisam de escoar produtos? Se calhar, eu não entendo isto porque sou loira. Ou então, é por estar com gripe.



quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Ter ou não ter feriados


Continuam as negociações sobre a redução de feriados, civis e religiosos, a implementar a partir deste ano civil. Ou talvez do próximo, já que a Igreja Católica avisou o Governo de que poderá já não haver tempo útil para alterar o calendário de festividades litúrgicas definido para este ano de 2012.
Gosto tanto de um feriado como outra pessoa qualquer. E nem me passa pela cabeça tomar posição nessa controvérsia do aumento (ou não) da produtividade através da extinção dos feriados. O que realmente me deixa perplexa é o critério utilizado para escolher os feriados a extinguir.
Os feriados religiosos são da responsabilidade da Igreja. Os feriados civis são da responsabilidade do governo e resultam da necessidade de festejar alguma coisa que é importante para a comunidade. E o governo optou pelo 5 de Outubro, que assinala a implantação da República, e o 1.º de Dezembro, que celebra a Restauração da Independência de Portugal. Terá tirado à sorte? O 5 de Outubro, tal como o 25 de Abril, festejam mudanças de regime, do regime monárquico para o republicano, da ditadura para a democracia. Datas significativas, sem dúvida. O 10 de Junho foi um feriado criado no Estado Novo, para exaltar a Pátria, a Raça e o Império. Associaram-lhe Camões e tornou-se o dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas. Mas nenhum destes feriados existiria sem a independência do país. Sem o movimento dos Conjurados que, em 1 de Dezembro de 1640, toma o poder e luta, durante vinte e oito anos, pela independência de Portugal e pela recuperação dos territórios sem os quais o país não seria economicamente viável, não haveria Portugal. Sem esse acontecimento refundador da nação, não haveria ocasião para festejar nenhum dos outros feriados. Talvez muitos não se importem. A mim, parece-me absurdo acabar com o feriado do 1.º de Dezembro. Espero que o país não se apague, juntamente com a data!


(Obelisco comemorativo da Restauração da Independência, no Largo dos Restauradores, em Lisboa - imagem da net)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A burocracia da morte

Acabámos de saber que, neste mês de Fevereiro, morreram mais pessoas em Portugal do que o costume nesta época do ano, especialmente acima dos sessenta e cinco anos. O relatório aponta para o frio e a gripe como os grandes responsáveis. Não duvido, claro. Mas penso também que os aumentos dos preços, da energia elétrica às taxas moderadoras, podem ter tido um efeito na qualidade de vida de muitas dessas pessoas, que vivem com pensões e rendimentos diminutos.
Esta situação fez-me lembrar um texto terrível (pela realidade de que levanta o véu) de Maria José Morgado, que encontrei aqui. Mostra-nos um panorama triste, de uma sociedade em falência mais do que económica, de valores familiares e solidários. E faz-me pensar se os gastos com a tal burocracia da morte, de que Maria José Morgado fala, não deveriam ser direcionados para o apoio aos vivos. Enquanto é tempo!
Vale a pena ler.

Morrer em Lisboa

Num destes dias consultava atormentada uma estatística de óbitos na cidade de Lisboa. É a das comunicações da PSP ao MP, sobre cadáveres encontrados abandonados no interior de habitações, na rua ou entrados nos hospitais. Defuntos desamparados, na solidão e na miséria. Entranhas negras da cidade da luz branca onde os mecanismos do apoio social ou familiar se desfazem com a crise, com a desagregação familiar, na indiferença das grandes cidades.
Muitos destes idosos, com pensões inferiores a 500 euros, não tiveram acesso aos lares sociais nem a qualquer assistência. O apoio domiciliário está exaurido. Nas miseráveis habitações de toda uma vida humilde, chegam a descobrir os corpos caídos, putrefactos, cobertos de larvas, em avançado estado de decomposição, ausência de globos oculares, no meio de lixo acumulado e de comida seca e podre. Morte sem assistência médica. Vem descrito em certo processos. morte silenciosa dos desvalidos.
No mês de janeiro foram comunicadas 101 destas mortes, corridas na cidade de Lisboa.
Só nos dias 30 e 31 de Janeiro foram comunicadas 21 mortes solitárias. Foram ordenadas 74 autópsias e dispensadas 27. No mês e dezembro foram comunicadas 76 mortes nas mesmas circunstâncias. Ordenadas 53 autópsias e dispensadas 23.
Este serviço do DIAP de Lisboa regista uma média mensal de 70 óbitos. Cada autópsia oscila entre cerca de 700 e 3000 mil euros, consoante os casos. São ordenadas em caso de dúvida sobre a causa da morte.
O maior número de mortes situa-se entre os setenta, oitenta e nove anos. Há mais homens do que mulheres a morrer nestas circunstâncias trágicas. Segue-se a absurda burocracia da morte. A PSP comunica ao MP a existência do cadáver que só pode ser removido com autorização do MP. O delegado de saúde verifica o óbito. Um perito do Instituto Nacional de Medicina Legal faz o exame do hábito externo do cadáver.
O MP providencia o funeral digno e humilde com o apoio da Santa Casa da Misericórdia ou de outra instituição social. Quando se regista a existência de bens, ainda que sejam vasos de plástico com flores de plástico, ainda que sem valor comercial, é obrigatório participar ao tribunal cível num processo de herança jacente. Estes bens sem herdeiros e sem valor revertem para o estado que não os quer e que gastou mais nesta diligência do que se lhes tivesse dado um destino expedito.
É o zelo absurdo da burocracia da morte depois do desamparo em vida. Um esmagador silêncio rodeia tudo. As famílias, os filhos desapareceram. O estado social também.
Há uma procuradora-adjunta de turno, com um telemóvel disponível 24 horas sobre 24 horas, para que ao menos não haja atrasos na autorização da remoção dos cadáveres encontrados em casa ou na via pública. Há o trabalho da PSP e do Instituto de Medicina Legal. Fazemo-lo com o desejo de respeitar a dignidade do ser humano até ao fim. Fazemo-lo no departamento que, tendo por missão principal o combate ao crime também este estranho serviço de óbitos.
Estranho mundo, este. 




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Se isto não é o céu, são os arrabaldes!

Aproxima-se mais um fim de semana de sol, com tudo o que tem de positivo e de negativo. Negativo, pelos problemas que a seca já está a criar no setor agro-pecuário nacional, positivo para quem vive na cidade e espera pelo fim de semana para dar uma voltinha e carregar as baterias. Por isso, deixo aqui a minha sugestão para um belo passeio, entre a serra e o mar. 

(O Portinho da Arrábida)

Não é longe. A uma hora de Lisboa, à saída de Setúbal, situa-se a serra da Arrábida. É difícil inventariar tudo o que se pode descobrir na serra, os passeios que aí se podem dar, os petiscos que se podem comer nas redondezas, do choco frito de Setúbal às tortas de Azeitão. Para passeios pedestres, aconselho uma vista de olhos às propostas da SAL (Sistemas de Ar Livre), sempre interessantes e bem organizadas. Mas, para os preguiçosos que gostam de andar de carro ou de mota, há uma rota totalmente irresistível.
A melhor hipótese é sair de Setúbal na direção das praias da Figueirinha e Portinho. O passeio é todo à beira-mar. A estrada serpenteia à beira das falésias da serra, deixando entrever o mar sereno e brilhante por entre as árvores. Se o trânsito não for muito intenso, talvez seja boa ideia parar para retemperar as forças no Portinho da Arrábida. Porque a partir daí a o caminho é sempre a subir, até ao cume da serra, por onde a estrada segue de volta, novamente, a Setúbal. Se a estrada de ida era belíssima, por entre as árvores e junto ao mar, agora, do alto da serra, a paisagem é esplendorosa. Da península de Tróia a toda a foz do Sado, até às falésias da serra que caiem sobre o mar, a vista é de cortar a respiração.

(Vista da foz do Sado a partir do alto da serra)

Conta-se que, no século XVI, um frade franciscano que por ali passeava ficou tão impressionado com a paisagem e o ambiente envolvente, que terá exclamado: "Se isto não é o céu, são os arrabaldes!" E assim se teriam ali instalado os frades franciscanos arrábidos, no convento que ainda se pode ver, meio escondido por entre o verde da serra. O próprio convento é uma pérola, com as suas instalações muito brancas no meio do arvoredo e as ermidas que se espalham para o alto da serra. 
Após a expulsão das ordens religiosas, em 1834, o convento ficou abandonado e sofreu roubos e vandalismos variados. Hoje, pertence à Fundação Oriente, foi reabilitado e aí se realizam diversos eventos e reuniões. Pode ser visitado, com marcação prévia. Mais informações aqui.


(O Convento da Arrábida)

(Fotografias de Teresa Diniz)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Alguém viu a princesa da Tailândia?

É que eu não consegui ver. Fiz zapping por todos os telejornais e, talvez por pouca sorte minha, só apanhei as notícias do costume, que se repartem, de modo idêntico, entre a crise e o futebol. Poderá ter havido alguma reportagem,  mas pequenina, envergonhada, despercebida. Parece-me que a nossa comunicação social não percebeu bem a importância da oferta tailandesa a Portugal, a prova de respeito e amizade que, cruzando o tempo, pode constituir-se numa relação privilegiada. Mas não foi só a comunicação social. O nosso Presidente da República também não se dignou aparecer, sendo representado pela primeira-dama e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas. Quem só entende a linguagem dos números não percebe como a linguagem dos afetos pode ser importante na própria economia.
Felizmente, há quem perceba. D. Duarte de Bragança esteve presente, numa representação suprapartidária e intemporal do povo que há cinco séculos se ligou ao povo tailandês. Transcrevo as palavras seguintes, surripiadas do blogue Combustões.
 SAR o Senhor Dom Duarte, Duque de Bragança, descendente dos Reis que construíram e animaram as relações entre a Coroa portuguesa e o velho reino do Sião, foi recebido pelo Chefe do Protocolo de Estado, Embaixador Bouza Serrano e pelo Embaixador Carlos Pais, responsável no MNE pela "Comissão Celebrações Ásia". Em conversa com SAR, agora regressado de Macau e Timor, falou-se na possibilidade de, em ocasião a agendar, a família real portuguesa visitar a Tailândia e ali testemunhar a perdurabilidade e profundidade da estima de que goza o nome de Portugal.



(Video da Câmara Municipal de Lisboa )
Vale a pena ver e ouvir.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Sião em Belém

Hoje, a princesa Maha Chakri Sirindhorn, herdeira do trono tailandês, está em Lisboa para inaugurar a Sala Thai, um pavilhão tailandês oferecido pelo seu país a Portugal no âmbito das comemorações dos 500 anos de relações diplomáticas entre os dois países.
Foi em 1511 que o navegador português Duarte Fernandes aportou a Ayuthaya, capital do Reino do Sião (atual Tailândia). Foi bem recebido pelo rei, firmando com ele uma aliança que ainda hoje se mantém. Para comemorar tão antiga aliança, o governo tailandês encomendou e construiu em Banguecoque o pavilhão que foi depois transportado de barco até ao Jardim Vasco da Gama, em Belém, onde está montado desde o final do ano passado.



Esta obra lindíssima foi concebida pelo arquitecto  Athit Limmu e acabou por representar o «símbolo da amizade» entre os dois países, por se inspirar nas linhas arquiteturais da cidade de Banguecoque e no Mosteiro dos Jerónimos. O telhado foi coberto com placas que se assemelham à pele de um dragão ou às escamas de um peixe, enquanto os pináculos são anjos estilizados. Na parte de baixo existe um quase varandim inspirado nas ogivas dos Jerónimos em tons verdes. Porém, é o dourado a cor dominante, conseguida com mil finas folhas de ouro.
Esta é a minha sugestão para um passeio de fim de semana ou, quem sabe, ainda hoje ou amanhã para quem tem a sorte de ter tolerância de ponto. É um passeio pobrezinho, até Belém, mas é bem compensado pela sumptuosidade do Pavilhão Thai. A não perder.

Mais informações aqui.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Cantar a crise

Depois das boas notícias da área da cultura, voltam as más notícias: o desemprego continua a aumentar e as previsões para este ano são tudo menos animadoras. 
Como é costume, os portugueses reagem com o humor, uma espécie de sarcasmo resignado, ou uma resignação sarcástica. No seu último trabalho Boss para os amigos, Boss AC canta a crise, a falta de emprego, a falta de dinheiro, a desesperança de uma juventude que se sente defraudada. Sempre com humor: "Ó mãe, fazias-me era rico em vez de bonito!" Com muito sentido de oportunidade, a SIC Notícias fez um spot  intercalar com esta canção e imagens da atualidade. Vale mesmo a pena ver e ouvir. E refletir.


domingo, 19 de fevereiro de 2012

Um Urso de Ouro português

Faz hoje 28 anos. Mas João Salavisa tem uma dupla razão para festejar. Ontem, na prestigiada Berlinale 2012, o Festival de cinema de Berlim, ganhou o Urso de Ouro para a melhor curta-metragem, com o seu filme "Rafa", que conta a história de um miúdo de 13 anos que deixa a sua casa nos súburbios para procurar a mãe, detida numa esquadra de polícia de Lisboa por conduzir sem carta. No seu agradecimento, perante 1600 espetadores, disse ainda que dedicaria o prémio ao governo português. "Mas só na condição de nos ajudarem nos próximos anos, porque não sabemos o que vai acontecer com o nosso cinema", acrescentou. 
João Salavisa estudou Realização na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e desde 2005 que vem a acumular prémios, entre os quais se distingue, já em 2009, a Palma de Ouro do Festival de Cannes com a sua curta-metragem "Arena". Foi o primeiro português a obter tal prémio.
Também o filme “Tabu”, de Miguel Gomes, foi distinguido com o prémio Alfred Bauer para a inovação, um dia depois de ter lhe ter sido atribuído o prémio especial da crítica, no mesmo Festival de Cinema de Berlim. 
Decididamente, o cinema português está de parabéns e João Salavisa pelo seu sucesso no dia em que festeja os seus 28 anos.

(João Salavisa mostrando o galardão, em Berlim)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Coisas de tirar o sono

Por acaso, juntaram-se ontem à noite, no mesmo serviço noticioso, duas notícias, digamos, complementares. Enquanto o nosso Presidente da República justificava as suas declarações sobre dificuldades em pagar as despesas com as reformas que recebe, uma idosa de Alfândega da Fé, com um problema oncológico, declarava que não podia ir às consultas ao Porto, porque não podia pagar o transporte dos bombeiros, a partir de agora feito às suas custas.
Não vou fazer comentários aos rendimentos do Presidente da República. Na verdade, não me choca que ganhe dez mil euros; chocam-me muito mais os salários principescos de alguns gestores públicos ou futebolistas da nossa praça. Mas, será que falamos do mesmo país? Que abismo colossal em termos de "dificuldades em pagar despesas"! Os olhos daquela velhinha ficaram-me nos olhos. Refletiam incompreensões e interrogações. Aquela idosa não percebia porque é que, de repente, era ela que tinha de pagar pelos desgovernos da dívida soberana da República Portuguesa. Eu também não percebo. Não há outras hipóteses? Parcerias público-privadas? Diminuição das freguesias, dos deputados? Fundações, associações? Não há outras pessoas menos vulneráveis do que ela?
Será que os olhos dela não vão tirar o sono a ninguém?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A igreja mais antiga de Portugal

A lápide lá está a atestar a data da edificação: 912. O que significa que esta igreja perfaz este ano 1100 anos e,  ao olharmos as pedras e os arcos que a compõem, vemos mais do que pedras e arcos. Vemos testemunhas de correrias de cristãos e mouros que, à época, ainda antes da formação de Portugal, disputavam estes territórios. Vemos uma demonstração de religiosidade sentida e que necessita de se afirmar, numa zona recém-conquistada aos infiéis. Vislumbramos uma época de recursos escassos e soluções tecnológicas ingénuas. Mas conseguimos adivinhar também uma época de trocas económicas e culturais, visível nas influências diversas e bem heterogéneas desta pequena igreja.
Falo da Igreja de São Pedro de Lourosa, situada no concelho de Oliveira do Hospital. Podia acrescentar aqui imensos pormenores arquitetónicos e artísticos, mas o propósito deste blogue não é científico, por isso não me vou alargar em considerações que podem ser encontradas aqui ou aqui. Deixo este desafio para um passeio, neste ano de crise em que, provavelmente, todos temos limites mais apertados para as nossas opções de férias ou fins de semana. Neste domingo, celebra-se a missa que dá início às comemorações jubilares da igreja. Mas, se não pudermos lá ir no domingo, parece-me um excelente destino para um passeio na primavera que já se avizinha. Eu vou de certeza!


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Não sou Maçon!

Numa altura em que só se fala da Maçonaria e os seus membros parecem sair de baixo de cada pedra como cogumelos em tempo de chuva, tenho de fazer uma declaração: não sou Maçon! É que parece que já vamos sendo poucos! E confesso que me faz alguma impressão esta pujança de uma sociedade secreta numa sociedade que se diz livre e pautada pelos mesmos valores que a Maçonaria defende e ajudou a implantar, desde os tempos das Revoluções Liberais e republicanas. A não ser que as elites que declara recrutar tenham vergonha de ir aos Centros de Emprego da sua zona de residência e exibam este avental, em vez de um curriculum-vitae. Não sei, que eu não sou de intrigas, ao contrário de certas sociedades secretas!...
De qualquer forma, não resisto a partilhar este texto de António Marques, publicado hoje no Inimigo Público:

Portugueses percebem que Maçonaria serve para subir na vida e 700 mil desempregados deixam de fazer fila no Centro de Emprego e fazem fila na Loja Mozart

Bem dizia o grande Eça de Queiroz que Portugal é uma choldra. E não é que a secretíssima Maçonaria virou tema de conversa nos cafés, entre minis e tremoços, como se fosse o Benfica, sendo os membros da Maçonaria já tão conhecidos como Aimar, Saviola e Cardozo!
Todos os dias, surgem na TV e nos jornais, políticos e empresários com ar embaraçado, negando serem maçons e jurando a pés juntos nunca terem estado numa reunião maçónica. Porra, que exagero, até parece que são acusados de violar putos da Casa Pia na casa de Elvas! E os que se assumem maçons dizem que as reuniões se limitam ao convívio entre membros, como se a Loja Mozart fosse uma espécie de Alunos de Apolo.
É que há coisas sobre as coisas mais vale dar uma boa gargalhada!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Cigarros, chocolates e cigarros de chocolate

Hoje fui a uma loja especializada na venda de produtos feitos de chocolate, para comprar moedas de chocolate. À saída, vi numa caixa uns pacotinhos que se pareciam mesmo com maços de tabaco. E perguntei à vendedora: "São cigarros de chocolate?" A rapariga, muito simpática, explicou-me que não, que já não havia esse produto há cerca de dois anos, que inclusivamente podiam pagar multa se fizessem e comercializassem produtos com o feitio de cigarros, charutos ou qualquer coisas que fosse fumável. Para evitar o quê? O vício? Trocámos ali umas opiniões, saltaram logo as recordações, juntaram-se mais duas pessoas. Todos tinhamos consumido furiosamente cigarros de chocolate na infância. "Lembro-me de os comprar na taberna lá da terra, o meu pai dava-me umas moeditas..." . "Eu até coleccionava os pacotinhos com as marcas!" Afinal, nenhum de nós fumava, pelo que o efeito pernicioso dos cigarrinhos de chocolate não tinha tido efeito em nenhum de nós! A vendedora até mostrou o artigo da Lei do Tabaco (Artigo 17.º) que proíbe estes produtos. Mas então, esperem lá, é proíbido vender cigarros de chocolate, mas os cigarros a sério são vendidos à vontade, não são? Sim, aqueles que têm nicotina, e alcatrão, e mais uns 400 produtos químicos, muitos deles altamente viciantes e cancerígenos. Tem muita lógica, não há dúvida, os cigarritos de chocolate são incomparavelmente mais perigosos. 
Temo pelos outros produtos de chocolate. Quem sabe se o consumo de moedas de chocolate não nos torna gastadores compulsivos? Ou as sombrinhas de chocolate, será que nos vão tirar o prazer de andar à chuva? E os carrinhos, meu Deus, os carrinhos de chocolate parecem-me tão perigosos! Podem tornar-nos condutores irresponsáveis, não é?
Enfim, o melhor é comer uma tablete de chocolate ou um bombom. Desde que não seja um Bacci ou um Mon Cheri, que me pode tornar irremediavelmente ninfomaníaca!



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O Facho da Bonança

Sabem os que me conhecem do meu fascínio por faróis. Gosto da parte estética dos faróis, a torre, os espelhos e luzes, mas acima de tudo gosto do simbolismo, da luz que guia na escuridão. Enfim, aproxima-se um fim de semana de sol, apetece sair de casa e passear, e não resisto a propor um passeio de descoberta. Não a um farol (já me estaria a repetir, já fiz uma vez um post sobre isso), mas a um seu antepassado, um facho.
Neste caso, é o Facho de Nossa Senhora da Bonança, erguido no alto de uma duna de areia junto à praia de Ofir.


Segundo alguns autores, teria sido mandado construir por D. João III para ajudar os navegantes a ultrapassar os perigos do litoral pedregoso junto a Fão, os famosos "cavalos de Fão". Hoje, é um pequeno edifício quase desmoronado, com uma porta estreita, em arco, encimada pelo brasão de armas de Portugal. Na parede que dá para sul ainda existe um pequeno postigo que permitia observar uma largo pedaço de mar, mas essa função de vigia deixou de ser possível quando foi construída a pequena capela que se encontra ao lado. Lá dentro, erguia-se um poste de madeira onde se içava uma lanterna ou uma caldeira acesa para aviso dos mareantes.
Nesta época de crise, trepar até ao facho é uma caminhada agradável e que substitui uma ida ao ginásio, agora mais caros com o IVA a 23%. Faz-se um pouco de exercício, respira-se ar puro, apreciam-se as vistas, e vai-se tentando manter a linha. Para os que não estão preocupados com a linha, aconselho que desçam até à praia de Ofir e comam uma clarinha. Vale a pena!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Morrer sozinho

Para mim, foi o caso da semana. Chocou-me mais do que as manifestações no Egipto ou os patamares insustentáveis a que chegaram os juros da venda da nossa dívida pública. Refiro-me, claro está, à descoberta do cadáver de uma idosa em Rio de Mouro, nove anos depois da sua morte. Um cadáver rodeado de outros cadáveres, do seu cão e dos pássaros que com certeza partilhavam a solidão desta idosa e que com ela partilharam também a morte.
Não vou entrar no jogo de acusações. Realmente, se uma vizinha e um primo apresentaram uma participação de desaparecimento já em 2002, não se compreende que o Ministério Público, ou seja lá quem for, não se tenha lembrado de ir espreitar à casa onde a senhora vivia, sozinha e numa idade já avançada. No entanto, como sabemos que a Justiça funciona muito mal neste país, eu ficaria surpreendida era se tivesse havido eficácia e celeridade nesta situação.
Mas o caso faz-nos reflectir. Esta senhora ainda teve pessoas que deram pela sua falta. Mas cada vez vamos sabendo de mais situações idênticas, de pessoas que morrem sós, sem ninguém lhes estender uma mão ou sentirem o seu desaparecimentto. Parece que não existem dados estatísticos sobre este fenómeno, mas todas as entidades afirmam que está a aumentar. Compreende-se. As cidades têm populações cada vez mais envelhecidas e cada vez mais isoladas. As famílias, quando existem, vivem longe, numa vida difícil que não permite um acompanhamento dos seus idosos. Na verdade, o que me choca neste caso, como nos outros idênticos, é a imagem de solidão que nos coloca à frente dos olhos. Não podemos continuar a fechá-los. Não podemos fingir que não vemos, que não sabemos o que se passa, que não é bem assim...
Neste Ano Internacional do Voluntariado, saúdo as associações que se aperceberam do problema e tentam dar algum apoio a quem vive só. Lembro aqui a Associação Limiar ou a Coração Amarelo. Mas penso que tem de haver um plano de apoio mais estruturado, uma política de proximidade, talvez organizada pelas Juntas de Freguesia. Era, provavelmente, uma maneira de dar um rosto humano e uma utilidade mais visível a essas instituições autárquicas.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Turismo em Portugal

E pronto, lá acabaram as mini mini-férias, com um acréscimo de trabalho que ficou acumulado à espera do meu regresso.


Não foi para obedecer às directrizes do nosso Presidente da República, mas estes dias de descanso foram passados em Portugal. Temos um país fantástico, com um clima privilegiado e paisagens de sonho e sempre gostei de vaguear por aí. 


Passei estes dias num sítio muito bonito e ainda preservado da massificação turística. Não vou já dizer onde estive, vou colocar aqui algumas fotografias e deixar o desafio: quem consegue identificar o local? Não é difícil, quem por lá andou por certo não esqueceu. 


Dou um doce a quem adivinhar onde foram tiradas estas fotografias.

(Fotografias de FAires)

quarta-feira, 31 de março de 2010

Portugueses: Heróis Adiados

O texto que se segue foi escrito por Fernando Pessoa, há quase um século, ainda nos tempos da Primeira República, que agora comemoramos. Será que é um retrato correcto dos Portugueses? Será que continuamos assim? Será que mudámos alguma coisa?

O Português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. Cada um de nós tem um Quinto Império no bairro, e um auto-D. Sebastião em série fotográfica do Grandela. No meio disto (tudo), a República não acaba.
Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia. É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado.




sábado, 14 de novembro de 2009

Uma aldeia como tantas outras

No fim de semana passado, quase por acaso, fomos descobrir uma aldeia interessante e pitoresca, do interior de Portugal. Chama-se Póvoa Dão e localiza-se perto de Carregal do Sal, próximo da antiga Estrada da Beira.





O drama da maioria das aldeias portuguesas, longe dos grandes centros, fora dos circuitos turísticos habituais, é o isolamento, o abandono, a desertificação. Parte o coração passar por muitas dessas aldeias e não ver ninguém, ou ver apenas meia-dúzia de velhos, porque os mais jovens já foram embora, em busca de uma vida mais fácil. Não é simples alterar o destino dessas aldeias. Mas foi o que aconteceu em Póvoa Dão. Parecia destinada ao abandono e ao esquecimento mas, em vez disso, está cheia de movimento, de conversas e de risos. 





Segundo apurámos, a aldeia ficou abandonada, como tantas outras. Foi então que um empresário do Centro do País decidiu comprá-la. Assim, comprou uma aldeia inteira. E começou a recuperar as casas. Iniciou um negócio de turismo de habitação e, paralelamente, de venda de casas de campo, para segunda habitação. O negócio deve ter corrido bem. Hoje, ao passear pela aldeia, vemos um número razoável de casas com um pequeno letreiro que refere "Vendida". Há outras para alugar, para férias ou fim de semana. Mas estão todas lindas, bem recuperadas, com os pequenos confortos a que estamos habituados e de que já não estamos habituados a prescindir. 





Podemos calcorrear a antiga estrada romana, que passava no meio do povoado. Podemos seguir as indicações e fazer diversos percursos pedestres, que nos levam pelas margens do rio Dão ou a outros locais pitorescos das redondezas. Podemos simplesmente sentar-nos a apreciar os verdes e amarelos e vermelhos e castanhos da bela paisagem do outono. Ou podemos também entrar no excelente restaurante e apreciar um dos bons pratos tradicionais que aí se servem.





O restaurante, só por si, merece uma visita. Todo o ambiente, as ementas, a decoração, nos remetem para outros tempos, para sabores mais ricos e antigos, para um modo de viver em que o tempo passava mais devagar. Estava cheio de clientela.
Gostei de descobrir Póvoa Dão. Aponta um caminho para sair do círculo vicioso do isolamento e do abandono. Pode e deve haver outros caminhos. Mas este é seguramente um bom caminho. 





domingo, 19 de julho de 2009

A beleza das placas toponímicas



Confesso: tenho uma paixão secreta por placas toponímicas!

Há quem considere que uma placa toponímica é uma coisa sem importância, que apenas dá um nome a uma coisa, neste caso uma rua, ou um beco, ou um largo, um sítio na cidade. Dá jeito para os carteiros e pouco mais. Até podiam ser apenas números, como em Nova York.
Nada mais errado. As placas toponímicas dizem muito sobre a evolução do local e sobre quem lá vive. Vou dar alguns exemplos.

Há placas que valem apenas pela sua beleza e contam coisas sobre o gosto de quem as fez.

(Alcochete)
Algumas fazem referência a serviços que já ali não existem.

(Alcochete)
Outras recordam pessoas que já ninguém consegue identificar.

(Alcochete)
Há algumas que, na sua evolução, reflectem a evolução política do próprio país.

(Tomar)
Outras reflectem uma ideia de progresso, que deve ser expressa na seriedade dos nomes.

(Tomar)
Há placas que de sérias não têm nada, e ninguém sabe de onde vêm aqueles nomes!

(Lisboa - Alfama)
E há aquelas que, no próprio material de que é feita a placa, prestam homenagem a quem é ali nomeado.

(Lisboa - Baixa)
Restam algumas dúvidas? Temos de prestar mais atenção às nossas placas toponímicas!

(Fotografias de Teresa e Fernando Ferreira)



segunda-feira, 13 de julho de 2009

Postal de Lisboa VII - O Cais das Colunas



Cais das Colunas (Fotografia de Teresa Diniz)

Já há tempos que andava com vontade de ir ao recém-recuperado Cais das Colunas, na Ribeira das Naus (que bem que me sabe escrever estes nomes, nomes com espessura histórica, que trazem consigo o cheiro de fardos de pimenta e canela!).
Durante anos, o Cais das Colunas desapareceu, ou, mais precisamente, as colunas do cais desapareceram. As obras do metropolitano habituaram-nos a não olhar para o rio: só se viam tapumes, entulho e máquinas. As águas estavam sujas e viam-se as coisas mais estranhas a boiar! O próprio Terreiro do Paço perdeu a sua nobreza, constantemente pejado de carros e eléctricos e autocarros e peões a acotovelarem-se para atravessar nas passadeiras. Durante anos, foi simplesmente um grande parque de estacionamento.
Lembro-me que, durante anos, eu e os meus filhos cumprimos um ritual de Natal que consistia em ir à Baixa ao fim da tarde, num qualquer dia de Dezembro, para pasmarmos com as iluminações das ruas (o deslumbramento era parte integrante desse ritual). Depois, comprávamos waffles de chocolate na Rua Augusta e terminavamos o tour, invariavelmente, no Terreiro do Paço, com as mãos e as bocas todas lambuzadas de chocolate, cheios de protestos porque não havia nem um banquinho para nos sentarmos.
Agora continua a não haver banquinhos (com excepção daqueles coloridos, horrorosos, com uma árvore portátil, que povoam o passeio em frente do terminal fluvial), porque o Terreiro do Paço está novamente em obras. Só que, desta vez, parece que a ideia é devolver a Praça aos lisboetas e transeuntes em geral. Agradeço e espero pelo fim de mais estas obras com uma esperança sorridente.
O Cais das Colunas, finalmente, voltou para o seu lugar. Se o Terreiro do Paço é a sala de visitas de Lisboa, o Cais das Colunas é a porta de entrada, é a cidade que nos abre os braços.
O espaço é grande e agradável, com bancos de pedra que seguem a linha ondulada do cais. Há pessoas a passear, a ver o rio, pombos e gaivotas esvoaçam por ali. Há muitos turistas, a fotografar tudo. Uma senhora persegue um pombo com uma máquina fotográfica, mas o pássaro está mal-humorado, não há meio de ficar quieto e fazer uma bonita pose para a fotografia. E eu posso, finalmente, sentar-me num banco, encher o olhar de rio e sentir, na minha imaginação, o cheiro da pimenta e da canela que deram o nome ao Paço que o rei D. Manuel aqui construiu um dia.

Cais das Colunas (Fotografia de Teresa Diniz)