(Loja da Fábrica Viúva Lamego, no Largo do Intendente)
Podia chamar-se António, Manuel ou Raimundo. Mas tinha de ser assim, simples, popular e bem português, o nome daquele homem que encontrei na esplanada "Das Joanas", no renovado Largo do Intendente. Tinha aquela idade indefinida de quem já se esqueceu há quanto tempo está reformado. Um ar simples e limpo, uma pronúncia de alfacinha de gema, nascido e criado nos bairros populares da cidade. Um discurso fluido, pontuado pelos apelos: "Ó Anabela, traz aí mais uma!", referindo-se à imperial que não lhe saía da mão. E um grande orgulho no seu bairro renovado.
Estávamos a comentar a recente passagem do Gabinete do Presidente da Câmara para o Largo, como um sinal da renovação e requalificação do espaço, quando o sr. Manuel (vamos chamar-lhe assim...) nos interpelou:
- Ele trabalha ali, entra-se por aquele portão ali em frente. Às vezes, vem aqui tomar um café, em mangas de camisa, é muito descontraído! Desculpem interromper-vos, mas não pude deixar de ouvir a conversa!
Assegurámos-lhe que não havia problema, até agradecíamos a informação. E o sr. Manuel continuou, embalado:
- Foi uma obra extraordinária, a que aqui fizeram! Isto estava tudo ao abandono, os prédios degradados, cheios de grafitis... Agora está tudo limpo e arranjado, como vêem. Dá gosto vir aqui à esplanada. Dantes, tinha de ficar em casa, a ver a televisão. Até tinha medo de sair à rua! E os concertos? Durante o mês de julho houve concertos no Largo. Esteve cá o Camané, o Pedro Jóia, os Xutos e Pontapés. Haviam de ver, havia gente até à Almirante Reis! Fizeram uma ópera, a "Bohème" de Puccini, mas adaptada aqui à Mouraria. Foi feita com pessoas daqui, vestidas como nós, a falarem à moda da Mouraria... foi extraordinário!
(O Largo de cara lavada)
Nós íamos interrompendo o sr. Manuel, mas só o suficiente para o incentivar a continuar.
- Anabela, mais uma! chamava o sr. Manuel, agitando o copo de cerveja. Isto agora está sempre cheio de gente a passear, especialmente turistas. Há uma rota das tasquinhas e restaurantes, com comidas portuguesas, indianas, cabo-verdianas e eu sei lá mais o quê! Sabores do mundo inteiro! Nalgumas tascas, há fado vadio. E é gente daí que trabalha nos restaurantes, e faz as visitas guiadas. Gente que andava por aí aos caídos, desempregados...
- E a vizinhança? Não incomoda? Não resisti a perguntar, olhando de soslaio para a rua de cima, onde ainda pontuam as prostitutas, os chulos, os toxicodependentes e outros desqualificados da sociedade.
- Não! esclareceu o sr. Manuel. Nem vêm para este lado, parece que se envergonham. E, mesmo ali, a Polícia obriga-os a fechar os bares mais cedo, já não há tanta confusão! Agora, pode-se andar à vontade no Intendente e na Mouraria!
Deixámos o sr. Manuel, com as suas tardes na esplanada d'As Joanas, e o seu olhar cheio de orgulho pelo seu bairro da cara lavada.
E saímos dali com vontade de regressar.
Parece que há jazz no Largo, em setembro!...
Fotografias de Teresa Diniz










