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sábado, 18 de agosto de 2012

Postal de Lisboa XXII - O renovado Largo do Intendente

(Loja da Fábrica Viúva Lamego, no Largo do Intendente)

Podia chamar-se António, Manuel ou Raimundo. Mas tinha de ser assim, simples, popular e bem português, o nome daquele homem que encontrei na esplanada "Das Joanas", no renovado Largo do Intendente. Tinha aquela idade indefinida de quem já se esqueceu há quanto tempo está reformado. Um ar simples e limpo, uma pronúncia de alfacinha de gema, nascido e criado nos bairros populares da cidade. Um discurso fluido, pontuado pelos apelos: "Ó Anabela, traz aí mais uma!", referindo-se à imperial que não lhe saía da mão. E um grande orgulho no seu bairro renovado.
Estávamos a comentar a recente passagem do Gabinete do Presidente da Câmara para o Largo, como um sinal da renovação e requalificação do espaço, quando o sr. Manuel (vamos chamar-lhe assim...) nos interpelou:
- Ele trabalha ali, entra-se por aquele portão ali em frente. Às vezes, vem aqui tomar um café, em mangas de camisa, é muito descontraído! Desculpem interromper-vos, mas não pude deixar de ouvir a conversa!
Assegurámos-lhe que não havia problema, até agradecíamos a informação. E o sr. Manuel continuou, embalado:
- Foi uma obra extraordinária, a que aqui fizeram! Isto estava tudo ao abandono, os prédios degradados, cheios de grafitis... Agora está tudo limpo e arranjado, como vêem. Dá gosto vir aqui à esplanada. Dantes, tinha de ficar em casa, a ver a televisão. Até tinha medo de sair à rua! E os concertos? Durante o mês de julho houve concertos no Largo. Esteve cá o Camané, o Pedro Jóia, os Xutos e Pontapés. Haviam de ver, havia gente até à Almirante Reis! Fizeram uma ópera, a "Bohème" de Puccini, mas adaptada aqui à Mouraria. Foi feita com pessoas daqui, vestidas como nós, a falarem à moda da Mouraria... foi extraordinário!

(O Largo de cara lavada)

Nós íamos interrompendo o sr. Manuel, mas só o suficiente para o incentivar a continuar.
- Anabela, mais uma! chamava o sr. Manuel, agitando o copo de cerveja. Isto agora está sempre cheio de gente a passear, especialmente turistas. Há uma rota das tasquinhas e restaurantes, com comidas portuguesas, indianas, cabo-verdianas e eu sei lá mais o quê! Sabores do mundo inteiro! Nalgumas tascas, há fado vadio. E é gente daí que trabalha nos restaurantes, e faz as visitas guiadas. Gente que andava por aí aos caídos, desempregados...
- E a vizinhança? Não incomoda? Não resisti a perguntar, olhando de soslaio para a rua de cima, onde ainda pontuam as prostitutas, os chulos, os toxicodependentes e outros desqualificados da sociedade.
- Não! esclareceu o sr. Manuel. Nem vêm para este lado, parece que se envergonham. E, mesmo ali, a Polícia obriga-os a fechar os bares mais cedo, já não há tanta confusão! Agora, pode-se andar à vontade no Intendente e na Mouraria!
Deixámos o sr. Manuel, com as suas tardes na esplanada d'As Joanas, e o seu olhar cheio de orgulho pelo seu bairro da cara lavada.
E saímos dali com vontade de regressar. 
Parece que há jazz no Largo, em setembro!...

(O símbolo da Rota das Tascas da Mouraria)

Fotografias de Teresa Diniz

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Postal de Lisboa XXI - Com Fernando Pessoa na Brasileira

É interessante passar um bocado da tarde na esplanada d'"A Brasileira" do Chiado, a observar o que se passa à nossa volta. Há sempre muitos turistas. Uns passam, sem parar. Outros, mais avisados, puxam do livrinho que, numa qualquer língua, lhes dá informações sobre o local. Também há mendigos, músicos e malabaristas. Mas, aqui, a grande vedeta é Fernando Pessoa. Sentado numa mesa da esplanada, mantém-se impávido, indiferente à agitação à sua volta. Mas ninguém é indiferente à sua figura. Há sempre alguém a tirar uma fotografia ao lado da estátua. O que lhes diria Pessoa, o poeta das mil personalidades, se pudesse sair do seu mutismo de bronze? Gostaria deste protagonismo? Talvez sim, tudo vale a pena, se a alma não é pequena.



As fotografias sucedem-se. Um rapaz senta-se ao seu lado e passa-lhe o braço à volta dos ombros, como se fossem velhos amigos. Um miúdo senta-se com ar intimidado, a olhar de soslaio para aquela figura estranha. Os pais sorriem por ele, e tiram a fotografia, para mais tarde recordar! Muitos sentam-se e sorriem, contrastando com o ar sério e pensativo do poeta. Um grupo de jovens junta-se à sua volta, numa pose de estudantes universitários após uma noitada. Uma rapariga, muito jovem, senta-se e prepara a pose, enquanto o companheiro prepara a máquina fotográfica. Afasta o cabelo, de olhar indeciso, opta por lhe dar a mão. Uma miúda já espera, impaciente, para lhe pendurar um peluche no braço. As estátuas são assim, aguentam tudo, pessoas, chuva, sol, pombos...
Uma menina aproxima-se e sobe-lhe para o colo. Chama-me a atenção porque os pais parecem não ligar, continuam a andar, não se apressam a tirar uma fotografia. Ela faz-lhe uma festa no bigode e depois afasta-se com um aceno, como se se despedisse do avô. Come chocolates pequena, come chocolates!

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A arte feliz


(Éguas de Manada - Dordio Gomes)

Poucos acontecimentos houve, tão traumáticos para a civilização europeia, como a 1.ª Guerra Mundial. Pela primeira vez, as pessoas confrontavam-se com uma guerra total, em que os homens eram enviados para a carnificina com a impecável e fria organização logística da era industrial.
Já sabemos que a arte reflete e reage à vida. A Estética da Art Déco, que se desenvolve nessa época, é precisamente uma estética de harmonia e felicidade que se integra no movimento modernista e vai evoluindo até à estética classizante dos anos 30 e 40, que tendemos a associar aos regimes autoritários europeus. Em boa hora o Museu do Chiado decidiu organizar uma exposição sobre o Art Déco Português. Não apenas a pintura, mas também o desenho publicitário, a escultura, a cerâmica. Esta exposição mostra mais de cem trabalhos de autores que vão de Almada Negreiros a Abel Manta, de Dordio Gomes a Eduardo Viana, de Canto da Maya a Leopoldo de Almeida. Mais do que uma exposição, é um belo e fascinante percurso pela arte portuguesa da primeira metade do século XX.

(Adão e Eva - Canto da Maya)

Estranhamente, só por lá encontrei estrangeiros. Será que os portugueses não se interessam muito pela sua cultura ou andam distraídos? Eu acho que é a segunda hipótese!
Em qualquer caso, é uma boa sugestão para uma tarde de verão. Depois, pode-se descansar um pouco no Jardim das Estátuas, ainda dentro do próprio museu. É agradável tomar uma bebida na esplanada, na companhia do Desterrado, de Soares dos Reis. Mas, se for mais atraente mergulhar no bulício citadino, nada melhor do que ir ali à "Brasileira", bem pertinho, no Chiado. Não há melhor exemplo de Art Déco, em plena baixa lisboeta.

(O Desterrado - Soares dos Reis)

(Todas as fotografias foram tiradas por Teresa Diniz no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado)

terça-feira, 31 de julho de 2012

Música ao Largo

Este ano não há férias fora de casa. Estive uns dias fora em maio, talvez vá dar mais uma voltinha, lá para o fim do mês de Agosto... Sem subsídio de férias, no entanto, as férias conntrairam-se. Mas nem por isso fico encerrada em casa, a carpir. Não faz o meu estilo. E, felizmente, Lisboa tem muita coisa interessante para oferecer.

(O Largo de São Carlos espera pelos músicos)

Neste fim de semana terminou mais uma temporada de espectáculos musicais no Largo de São Carlos. Durante o mês de julho, as noites no Largo foram animadas por concertos, árias de ópera e bailados. Tudo gratuitamente, isto é, financiado pelos mecenas e parceiros do Teatro de São Carlos e da Companhia Nacional de Bailado. O público agradece e desmente aquele mito de não haver interesse por espectáculos mais exigentes em termos culturais. O que não há é outra coisa, aquela com que se compram os amendoins e os melões que refrescam a época. Pelo contrário, as pessoas afluem ao largo, às vezes com horas de antecedência, para garantirem os lugares. E enchem o largo, centenas e centenas de pessoas, de todas as idades, noite após noite, após noite. Esperam pacientemente e depois assistem, num silêncio religioso, aos belíssimos espectáculos que Jorge Rodrigues apresenta. Creio que a apresentação de Jorge Rodrigues é um dos pontos positivos destes eventos. Ele apresenta os compositores, as peças, os executantes, sempre de uma forma informal, descontraída, correta mas muito simpática.


(Carmen pela Compañia Antonio Gadès)

Só consegui assistir a três espectáculos. Mas valeram bem a pena! Saí com a alma leve e um sorriso nos lábios. Às vezes, a trautear uma ária mais conhecida ou a comentar uma música que desconhecia. Mas sempre a concluir que valeu a pena!

(Turandot, de Busoni, interpretado pela Orquestra Sinfónica e pelo Coro do Teatro de São Carlos)

Só eu sei... porque não gostaria de viver noutra cidade!

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Sem Reservas

Ultimamente, a minha vida tem andado complicada e nem tenho tido tempo para visitar os blogues dos amigos. E vou mesmo ter de fazer uma pausa. Prometo voltar, claro! Mas, entretanto, deixo os visitantes que por aqui passarem, na minha ausência, muito bem acompanhados: deixo-os com a música dos Dead Combo, um duo de guitarristas portugueses. Começaram com a música de Carlos Paredes, hoje produzem uma música muito interessante e atual, embora mantendo a portugalidade nas raízes. Hoje em dia, os Dead Combo conseguiram uma proeza notável: um lugar entre os dez mais vendidos no Top do iTunes dos Estados Unidos da América.
Como é que eles conseguiram isso? Fazendo a maior parte da banda sonora do programa "No Reservations" de Anthony Bourdain, filmado em Lisboa. É um programa extraordinário, em que o apresentador e gastrónomo deambula por Lisboa, pelos sabores e pela cultura lisboeta, guiado por "especialistas" como os chefs José Avilez e Henrique Sá Pessoa, António Lobo Antunes e a fadista Carminho, um pescador de polvo e o humorista Zé Diogo Quintela. Entre outros, anónimos ou não, que compõem a fauna da nossa capital. 
Para quem ama Lisboa, como eu, é um programa imperdível. Vale a pena perder aqui um pouco de tempo.
Assim, sem mais palavras, deixo-vos com Anthony Bourdain e os Dead Combo. Sem Reservas!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Postal de Lisboa XX - Os sabores de Lisboa

Uma cidade também se define, entre outras coisas, pelos seus cheiros e sabores. Por isso, é tão diferente ver um filme,  mesmo panorâmico, mesmo em 3D, ou passear vagarosamente pelos lugares, deixar-se contagiar pelo que têm para dar, saboreá-los com os cinco sentidos.
Quanto aos sabores, Lisboa é uma cidade de petiscos. Vejam-se os fins de tarde em qualquer esplanada, ou nessas tascas recuperadas e subitamente na moda mas que, apesar disso, não perdem o seu ar um pouco popular e fadista. Não temos o hábito das tapas, como os nossos amigos espanhóis, mas perdemo-nos por um prato de caracóis!
Mas, ao fim e ao cabo, quais são os petiscos lisboetas? Fui à procura deles. E cheguei à conclusão de que os mais famosos e originais são os que resultaram da mistura da necessidade com a criatividade!


Em primeiro lugar, os peixinhos da horta! Segundo parece, surgiram na Lisboa medieval, quando, em vez do peixe ou do camarão, se fritava o feijão verde plantado nas hortas saloias pelos mouriscos. Depois, as pataniscas:  a base é idêntica à dos peixinhos da horta, também leva farinha, ovo e vinho branco, mas agora o ingrediente que reina são as aparas do bacalhau. Temos ainda os pastéis de bacalhau, cuja criação é atribuída aos galegos residentes em Lisboa, ao juntarem ovos batidos às sobras de batatas e bacalhau.
Depois dos petiscos, a sobremesa, porque os lisboetas são gulosos, já se sabe. E aqui, não posso deixar de referir o pastel de nata. Teriam sido os frades jerónimos a criar esta delícia, em que se recheia um folhado estaladiço com um creme à base de ovos, açúcar e natas. No início do século XIX, foi criada em Belém a mais célebre fábrica de pastéis de nata, guardiã do segredo da receita conventual.


Não posso esquecer o Bolo Rei, criado pela Confeitaria Nacional ainda nos tempos da monarquia, e sobre o qual já escrevi antes.
Enfim, para acompanhar a sobremesa, nada como uma ginginha ou um Eduardinho, bebidos mesmo ao balcão, naquelas tasquinhas da Baixa que lhes contam a história!

Este post foi de deixar água na boca!

(imagens da net)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Postal de Lisboa XIX – Os Panteões Nacionais


(A Igreja de Santa Engrácia vista de São Vicente de Fora)

Diz o dicionário que o Panteão é o conjunto dos deuses, ou o local onde se presta culto aos deuses, mas, atualmente, é o nome dado ao edifício consagrado à memória dos homens ilustres e onde se depositam os seus restos mortais.

Há em Portugal dois mausoléus aos quais foi dada a designação de Panteão Nacional: o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, porque aí se encontram os túmulos dos dois primeiros reis de Portugal, D. Afonso Henriques e D. Sancho I; o outro é a Igreja de Santa Engrácia. Esta Igreja começou a ser edificada em 1682, mas as obras só terminaram em 1966, dando origem à expressão “obras de Santa Engrácia” para algo que nunca mais acaba. O edifício é recuperado para Panteão Nacional em 1916, em plena Primeira República, colocando aí os túmulos dos nossos presidentes da República e de escritores portugueses. Aí estão sepultadas personagens tão diferentes como os nossos primeiros presidentes, Teófilo Braga e Manuel Arriaga, mas também o efémero e contraditório Sidónio Pais; o presidente do Estado Novo Óscar Carmona, tal como o opositor ao regime, Humberto Delgado; os escritores Aquilino Ribeiro, João de Deus, Almeida Garrett, Guerra Junqueiro, e até a fadista Amália Rodrigues. São também aí evocados, através de cenotáfios, as personalidades de Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque, Nuno Álvares Pereira, Vasco da Gama e do Infante D. Henrique, ainda que os seus corpos não estejam presentes.

 (O túmulo de D. João IV)

A Igreja de Santa Engrácia, a que chamam então Panteão Nacional, fica situada na freguesia de São Vicente de Fora, a mesma onde se situa o Panteão dos Braganças. Sem nada que o identifique externamente, quase escondido no edifício do Patriarcado, ao lado da Igreja de São Vicente, sem espaços grandiosos nem mármores coloridos, mas com muita dignidade, encontramos o Panteão onde se encontram sepultados todos os nossos reis da dinastia de Bragança. Desde D. João IV, o rei que restaurou a independência de Portugal, até ao último, D. Manuel II, que morreu no exílio. Aí estava D. Pedro IV, primeiro Imperador do Brasil, líder dos liberais na guerra civil, que entretanto foi transladado para Ipiranga, no Brasil. Aí estão ainda D. Pedro II, o rei da nossa primeira fase de industrialização; D. João V, o nosso Rei-Sol; D. Pedro V, o criador do Curso Superior de Letras e modernizador do país; D. Maria II, a educadora; e todos os outros, até D. Carlos e o seu filho D. Luis Filipe, assassinados em 1908. Lá está também uma impressionante figura de mulher (representando a rainha D. Amélia, ou a nação?) chorando pelo marido e pelo filho mortos.

 (A Nação chorando junto aos túmulos de D. Carlos e de D. Luis Filipe)

Compreendo que a República tivesse medo da Monarquia. Mas hoje já não se justifica esta distinção tão injusta. O Panteão Nacional, tal como o espaço onde se integra, uma igreja que nunca o foi, é um panteão muito pouco nacional. Quanto muito, é o Panteão da República. Porque, quanto à notoriedade dos que lá estão sepultados, o Panteão dos Braganças é, claramente, um panteão mais nacional, representativo de três séculos da nossa história. Não é considerado Panteão Nacional porquê? Era interessante refletir sobre isso.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Postal de Lisboa XVIII – Árvores de Interesse Público


Quantas vezes caminhamos por Lisboa, tão apressados que nem nos damos tempo para apreciar o que está à nossa volta! Mal olhamos para os prédios, as pessoas, os nossos sentidos concentrados no trânsito, ou no trabalho que nos espera nesse dia. E, no entanto, quantas coisas interessantes esta cidade tem para mostrar! Por exemplo, as árvores. Como eu ando sempre de nariz no ar, dá-me para reparar nas árvores de Lisboa. Felizmente ainda não inundámos a cidade de palmeiras, na tentativa de a transformar numa espécie de cidade californiana ou caribenha. Mas o clima é propício e muitas árvores do mundo imenso que explorámos foram trazidas para Lisboa e aqui se desenvolveram bem. Às vezes, até nos acolhemos à sombra destas belas árvores, nas tardes soalheiras, sem nos apercebermos do valor do património que nos protege das inclemências do sol.
Algumas dessas árvores têm tanto valor que foram declaradas Árvores de Interesse Público. As razões podem variar. Podem ser árvores muito antigas (há algumas do tempo dos Descobrimentos, até da fundação de Portugal). Podem ser árvores de espécies raras, ou então de formas tão harmoniosas ou tão bizarras que merecem preservação.

(Cipreste do Buçaco, no Jardim França Borges, no Príncipe Real)
A maioria destas árvores está situada em parques e jardins da capital. No entanto, algumas encontram-se isoladas, no meio dos passeios, nas ruas, à mercê da poluição, e até do vandalismo de quem nada sabe e nada quer preservar. Uma das minhas preferidas é um belíssimo lodão-bastardo (nome científico Celtis australis L.), que se ergue indiferente aos automóveis no centro da Avenida de Berlim. 
(Lodão-bastardo, na Avenida de Berlim)
Outra, junto à Sé de Lisboa, no Largo do Limoeiro, é uma Bela-Sombra (nome científico Phytolacca dioica L); o próprio nome aponta a sua função predileta. Enorme, cheia de espaços no tronco onde apetece esconder e brincar, estende-se pelo passeio, obriga-nos a rodeá-la, mas se calhar não a cuidar dela como merecia.
(Bela-Sombra, no Largo do Limoeiro à Sé)
Das mais de 600.000 árvores que existem em Lisboa, foram classificadas como Árvores de Interesse Público 19 povoamentos (conjuntos arbóreos) e 65 árvores isoladas. A Câmara Municipal de Lisboa está a organizar circuitos para dar a conhecer esta parte do património da cidade, o que me parece uma excelente ideia.
Mas elas já aí estão, para nosso deleite. Altas e orgulhosas, de formas estranhas, frondosas e convidativas, ou antigas e decrépitas. De interesse público.
(Fotografias tiradas do site da Autoridade Florestal Nacional, Árvores Monumentais de Portugal)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Postal de Lisboa XVII – As hortas na cidade

Uma das coisas que tem graça em Lisboa é a mistura de urbanidade e ruralidade. Provavelmente, tem a sua razão de ser nas vagas de migrantes internos que, pressionados pela necessidade laboral e económica, vieram viver para Lisboa e engrossar a população da cidade ao longo do século XX. Vieram, mas trouxeram consigo a nostalgia do campo onde foram criados, o hábito da horta ao pé de casa. E criaram as suas próprias hortinhas, onde era possível, nos terrenos baldios, nas bermas das estradas, nas encostas que levam às grandes urbanizações onde vivem. Todos nós já vimos estas hortinhas, espalhadas pela cidade. Têm uma cerca mal amanhada, uma barraquinha para guardar as ferramentas e utensílios daquela pequena lavoura, umas filas de couves a separar as batatas dos tomateiros. Aos fins de semana, logo pela manhã, vêem-se por lá os saudosos dos campos, de enxada em punho. Por vezes, estas pequenas hortas compõem a pobre ementa semanal de quem faz muitas contas para chegar ao fim do mês. Confesso que até eu já pensei ter uns vasinhos com salsa, cebolinho, funcho e outras ervas aromáticas a enfeitar a minha varanda.
Esta situação não surge apenas em Lisboa, claro. Há até cidades que disponibilizam terrenos específicos para cultivo e usufruto de quem quiser. Mas aqui, em Lisboa, assume um cariz um pouco anárquico e transgressor, que tem muito a ver com o nosso próprio carácter.
Mas nada me preparava para o que encontrei, em plena rua da Baixa de Lisboa. Na Rua do Cais de Santarém a necessidade e a criatividade juntaram-se e a horticultura invadiu os próprios canteiros dos passeios. E, junto das árvores, as couves e os feijoeiros cresceram viçosos, regados pela mesma água que limpa regularmente as ruas e passeios.


As fotografias que ilustram esta pequena crónica são já do verão de 2011. Mas não posso deixar de me interrogar se, com o crescimento da crise, com o avanço da inflação, com o aumento do desemprego, não iremos assistir à conquista das ruas por essa empreendedora horticultura doméstica.
Suspeito que, neste ano de 2012 que todos insistem em nos recordar que vai ser difícil, ainda vamos ver os nossos jardins transformados em graciosas hortas e as rosas substituídas por repolhos e couves-flor.
(Fotografias de Teresa Diniz)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Paixão de Sinaleiro

Há pessoas e vidas que nos espantam, nos confrontam e nos fazem exclamar a velha frase: "Isto dava um filme!"
António Paixão é polícia sinaleiro na zona do Príncipe Real, em Lisboa. Isto é, já de si, uma raridade! Quando eu era miúda, havia polícias sinaleiros em muitos dos cruzamentos de Lisboa. Alguns eram sóbrios e contidos nos seus gestos, mas havia outros que executavam autênticas coreografias em cima das peanhas, a ponto de se juntarem pequenos grupos a observar e, às vezes, a aplaudir. Também havia alturas em que não davam conta do recado e acabavam ofendidos pelos automobilistas mais apressados. Quem não se lembra deles?
Pouco a pouco, foram substituídos pelos semáforos e por sistemas informatizados com nomes femininos, que às vezes também não funcionam, mas que já não podemos ofender directamente.
Este Paixão é dos poucos que ainda regula o trânsito. Mas tem outra paixão, além da do nome, que o torna ainda mais original: o serviço aos outros. Encara o seu trabalho como um serviço de proximidade e apoio aos habitantes da zona onde trabalha. De tal forma que se meteu a tirar um curso superior na área das Políticas Sociais. Terminou o Curso há pouco tempo e é o primeiro polícia sinaleiro com estudos universitários. Agora, tenta cruzar as suas duas paixões, a acção social e a regulação do trânsito, mostrando que ainda há espaço na cidade para a ajuda aos outros, sejam crianças que atravessam as ruas a caminho da escola, sejam idosos que precisam de auxílio para o transporte das compras do supermercado. Mostrando que em qualquer profissão, mesmo nas mais raras e improváveis, há espaço para a humanização.



terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Os inimigos públicos

Como toda a gente sabe, foram finalmente terminadas as obras de  restauro da belíssima Igreja de São Vicente de Fora. É uma igreja muito ligada à minha família, por diversas razões, e fiquei feliz com a sua reabertura ao público.
E, no entanto... houve uma notícia que, positivamente, me esmagou. Durante as obras de limpeza, foram removidas dos telhados da Igreja de São Vicente de Fora, nada mais nada menos do que quarenta toneladas de excrementos de pombo. 40 toneladas!
De repente, assaltou-me a imagem das nossas cidades cobertas de excrementos de pombo. Os nossos edifícios coroados de fezes, as nossas estátuas manchadas de descargas intestinais. Lembrei-me de uma entrevista que li, há tempos atrás, com um vereador brasileiro de Curitiba que enumerava as doenças eventualmente transmitidas pelos nossos amigos pombos, com os quais eu até simpatizo, e que iam da salmonelose à ornitose, passando pela transmissão dos piolhos de pombos, ácaros que vivem nos seus corpinhos penugentos. Afirmava ainda o dito vereador que as fezes dos pombos, contaminadas por fungos e bactérias, podem causar doenças respiratórias e afectar o nosso sistema nervoso central. 
Quantas toneladas de excrementos de pombo estarão espalhadas sobre os telhados das nossas cidades? Será que o nosso sistema nervoso central foi afectado? Poderá ser esta uma explicação para a apatia cívica que por aí encontramos?
Será por isso que a nossa Ministra do Ambiente se chama Pássaro?

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Postal de Lisboa XVI – A Igreja de São Domingos

Não é das Igrejas mais visitadas de Lisboa. Não corremos o risco de andar por ali a tropeçar em grupos de espanhóis ou japoneses, como acontece nos Jerónimos. E, no entanto, situa-se em pleno centro de Lisboa e poucas igrejas reflectem tanto da nossa história nas suas pedras.


Fica por trás do Rossio, no Largo de São Domingos. A fachada não chama a atenção. Pelo contrário, a chusma de gente que por ali se reúne diariamente até nos afasta do local. E, se não a gente que se acotovela, afastam-nos os pedintes que, mostrando as suas chagas, estendem a mão ao espírito sensível dos que entram e saem da igreja.
Mas vale a pena fazer um esforço e entrar neste espaço. Aqui se edificou uma igreja logo no século XIII. Mas é a Igreja do século XVIII, projectada por Ludovice, que é quase totalmente destruída pelo Terramoto de 1755. É ela que nos aparece numa gravura célebre da época, que evoca a destruição, a desorientação, o terror, da população lisboeta.
É reconstruída por Manuel Caetano de Sousa, após o Terramoto, aproveitando o portal e a sacada da Capela Real do Paço da Ribeira, totalmente destruído pela catástrofe.

(Fotografia do Largo de São Domingos em 1915)

É ali que vão ser guardadas algumas das relíquias do chamado “milagre de Fátima”: o lenço de Lúcia e o terço de Jacinta. No entanto, em 1959, um incêndio destrói novamente o templo. É reconstruído, mas deixando à vista de todos as marcas da destruição. É dos aspectos mais interessantes, e ao mesmo tempo mais impressionantes, deste monumento. As paredes, as colunas, os altares, mostram bem essas marcas: há zonas queimadas, há pedaços partidos ou em falta. Não foi feita uma reconstrução, mas tudo o que não é original é bem visível, pela utilização de um cimento vermelho, que o destaca propositadamente, dando-nos uma dimensão palpável das tragédias que se abateram sobre esta igreja.


É um espaço de memórias sobrepostas. É também um espaço que evoca a nossa capacidade de recuperação e superação. E, porque está frio, nada melhor do que sair da Igreja e entrar na “Ginginha de Lisboa”. É a verdadeira, a genuína, diz-se nos cartazes pitorescos que emolduram a entrada. Vale a pena provar. Eu garanto.

(Imagens retiradas da Internet)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ti Henriques

Chamam-lhe Ti Henriques. Na realidade, chama-se Adelino Henriques. Tem 81 anos e roda, desde os 18, no Poço da Morte.
Para os mais jovens, estas palavras poderão já não ter muito significado. Mesmo nas Festas e Arraiais que se realizam por esse país fora estas velhas atracções já não aparecem. Há novas atracções, que puxam pela adrenalina que quem nelas embarca. Os jovens (e também os menos jovens) são levantados, puxados, atirados em grande velocidade pelo espaço, provocando emoções cada vez mais intensas. Há os velhos carrinhos de choque, claro. Mas quem se lembra já do Poço da Morte?


Quando eu era miúda, a ida à Feira Popular, em família, era quase um ritual anual. Acontecia geralmente no Verão, e era uma alegria. Voávamos nos aviões, embarcávamos no Comboio Fantasma, chorávamos a rir com as nossas imagens deformadas nos espelhos que nos engordavam ou alongavam. Enchiamo-nos de sardinhas assadas e lambuzávamos as mãos com as farturas. E, claro, pasmávamos com a coragem dos homens que se lançavam no Poço da Morte, agarrados a uma mota que girava ao que nos parecia uma velocidade louca.
Depois, cresci. Durante algum tempo não fui à Feira Popular e, entretanto, as coisas já não pareciam tão engraçadas. E A Feira Popular fechou. Os terrenos ficaram ao abandono, à espera dos projectos imobiliários. E eu sentia uma tremenda nostalgia quando passava em Entrecampos.
Agora, o Circo Chen tomou conta daquele espaço e criou o Luna Park Chen. E ressuscitou o velho Poço da Morte. E quem melhor do que o velho Ti Henriques para guiar a mota que gira enlouquecida lá dentro? Com placa dentária e parafusos nos joelhos, com problemas de ácido úrico, ainda é ele quem toma conta do espaço e, seguramente, nos faz regressar, com a mesma velocidade, às tardes bem passadas da nossa infância. Afirma que enquanto houver Poço da Morte ele por lá andará. É um exemplo admirável de alguém que se recusa a parar.
Até dia 9 de Janeiro de 2011, o Ti Henriques estará no Luna Park Chen, nos terrenos da antiga Feira Popular. Eu não vou perder.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Longe de Lisboa

Lisboa é mesmo assim, ama-se com paixão, mesmo em língua castelhana.
Vale a pena ligar o som bem alto, e deixar-se conduzir com Pasión Vega pelas ruas e praças, subir ao castelo, olhar o rio... Sempre com a luz de Lisboa a inebriar-nos os sentidos.




(Peço desculpa, tinha-me enganado no video. Este é que vem com as imagens da cidade mais bonita do mundo)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Postal de Lisboa XV - Os Jardins da Gulbenkian




Corria o ano de 1942. A Segunda Guerra Mundial cobria toda a Europa de destruição e de morte. Toda? Não, num canto da Europa, esquecido do mundo, orgulhosamente só, um pequeno país mantinha-se fora do conflito – Portugal. Negociando com uns e com outros, acolhendo espiões e refugiados, racionando os bens essenciais, vendendo volfrâmio aos beligerantes, controlando a informação; mas em paz. 
Calouste Sarkis Gulbenkian era um arménio rico, industrial, possuidor de poços de petróleo e de uma imensa colecção de arte. Aqui, encontrou refúgio para si próprio e para a sua colecção. Quando a guerra acabou, criou uma fundação para gerir as peças de arte que considerava como suas filhas, com uma parte dos lucros dos seus poços de petróleo. E a Fundação criou, no centro de Lisboa, no antigo Parque de Santa Gertrudes, um oásis de cultura e tranquilidade. 


É um dos meus espaços preferidos, em Lisboa. O imenso jardim, de vegetação luxuriante, é fresco e acolhedor, mesmo nos dias mais quentes do ano. As peças de escultura espalham-se entre as veredas e os relvados. No grande lago central, os patos há muito que se habituaram à presença das pessoas. O edifício principal alberga a sede da Fundação e o corpo mais significativo da colecção de arte de Calouste Gulbenkian, que abrange vários períodos, da arte oriental ao Egipto antigo, da pintura europeia à joalharia. Passei muitos dias na biblioteca da Fundação, quando precisava de fazer trabalhos de História de Arte. 


Num edifício mais recente, o Centro de Arte Moderna, moram alguns dos quadros dos meus pintores predilectos, como Almada Negreiros e Amadeu Souza-Cardoso. Ali vi e me fascinei, pela primeira vez, com algumas das suas obras. 
Há sempre exposições interessantes, concertos, espectáculos variados que vão do jazz ao ballet clássico. A Fundação patrocina as artes e as ciências, concede Bolsas a jovens investigadores, promove a cultura. 


No entanto, eu continuo a achar que a alma de todo o espaço está nos jardins. Ali, nada foi feito ao acaso, e todo o conjunto, edifícios e jardins circundantes, foi concebido para se integrarem harmoniosamente. 
Há sempre muita gente nos jardins. Uns lêem, outros desenham, outros passeiam carrinhos de bebé. Há avós com netos. Mas, principalmente, há muitos jovens, nos banquinhos de pedra, nos relvados. Quando eu tinha a idade deles, vinha muitas vezes estudar para aqui. No caminho, comprava um saquinho com cerejas, ou um cartuxo de castanhas, conforme a época do ano, e deitava-me na relva, a comer e a estudar. Às vezes, a namorar. 
Pelo que vejo, continua a ser bom namorar nos jardins da Gulbenkian.



(Fotografias de Teresa Ferreira)

domingo, 23 de maio de 2010

Máscaras em Lisboa

Ontem, Lisboa encheu-se de máscaras. Encheu-se de caras risonhas, assustadoras, animalescas. Encheu-se de cores vivas e de brincadeiras. Encheu-se de bombos, gaitas de foles e chocalhos. Foi o desfile da Máscara Ibérica.


Depois de uma alegre concentração na Praça do Município, os grupos de mascarados desfilaram pela Rua Augusta até ao Rossio. Milhares de pessoas assistiram, fascinadas, a esta demonstração da cultura popular ibérica; fotografaram, riram, participaram nos sustos e nas brincadeiras.


Estes grupos, que se afastam totalmente da ideia de Carnaval que tem vindo a expandir-se nos últimos anos e que se associa exclusivamente ao samba e ao Carnaval brasileiro, vão buscar tradições muito antigas, por vezes anteriores ao Cristianismo. Estão associadas aos interesses e necessidades das comunidades agro-pastoris da região que é hoje o Norte de Portugal e de Espanha e espelham as suas raízes célticas.


Foi alegre, colorido, genuíno. E foi uma tarde bem passada.
Acabámos a tarde nas tendinhas montadas no Rossio, a comprar queijo e linguiça de Trás-os-Montes e a beber um toupeirinho de Óbidos. A propósito, alguém sabe o que é? É uma bebida de vinho com sumo de frutos, vertida sobre uma azeitona verde. E é uma delícia, bem geladinha, num dia de calor!


(Fotografias de FAires)

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Postal de Lisboa XIV - Os Cafés dos Poetas

Tal como noutras cidades europeias, há espaços em Lisboa que são indissociáveis dos poetas e escritores que os frequentaram.
O espaço que nos vem logo à memória é o café “Martinho da Arcada”, nas arcadas do Terreiro do Paço. As paredes estão cheias de invocações de Fernando Pessoa e dos seus amigos, com quem aí se encontrava. Ainda podemos ver qual era a mesa em que o poeta se costumava sentar. Mas encontramos também o mesmo poeta n’ “A Brasileira” do Chiado. Aí, a estátua de Fernando Pessoa senta-se comodamente na esplanada, parecendo olhar quem passa, como tantas vezes o terá feito em vida. No largo fronteiro ao Café, António Ribeiro Chiado, do alto do seu pedestal, aponta para o espaço com ar escarninho. É o poeta Chiado que, no século XVI, ao vir instalar-se nesta zona da cidade, acabará por lhe dar o nome.
Caminhando para o Rossio, encontramos a bela fachada do café “Nicola”, que o poeta Bocage frequentava e que chegou a nomear nos seus versos satíricos. Ao fundo do café, um quadro acompanhado da estátua do poeta de Setúbal não nos deixa esquecer que aqui se passou um episódio engraçado, que ficou para a História. Segundo se conta, Bocage teria sido interceptado por um polícia, em frente do café. Questionado sobre a sua presença ali, respondeu:
Eu sou Bocage
Venho do Nicola
Vou p’ró outro mundo
Se dispara a pistola!


É de salientar que, no século XVIII, o café Nicola era frequentado por um tal leque de intelectuais que tinha como alcunha “A Academia”.
Na zona alta da cidade, descendo do Príncipe Real para o Largo do Rato, encontramos a velha Pastelaria Cister, outrora frequentada por Eça de Queiroz. Numa das paredes está uma fotografia do escritor. Na pastelaria agora remodelada, a única parede que resta do Café original ostenta uma bela imagem em mármore de Eça de Queiroz, também presente num quadro do início do século XX. Aqui ele passou muitas tardes, nos tempos passados em Lisboa, talvez a caminho de Paris. Aqui escreveu ou cavaqueou com os seus amigos.
O Café é um hábito muito europeu. É, e continuou sendo por muito tempo, um dos locais de eleição para a reunião de amigos. No século XX, as mulheres apropriaram-se também desses espaços de convívio, ao mesmo tempo que se apropriavam também do seu lugar no espaço público e no mercado de trabalho.
Além destes cafés que referi, e que são bem conhecidos, em quantos outros se terão sentado, conversado, escrito, imaginado, os grandes e pequenos nomes da nossa literatura? Onde tomava o café Mário Cesariny? Onde escrevia Ary dos Santos? Onde se inspirava Al-Berto?
Na próxima vez que entrarmos num café, temos de abrir os olhos e apurar bem os sentidos. Talvez ainda se consiga ouvir algum eco poético a ressoar nas paredes.


 (Fotografia Sebenta do Nando)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O primeiro Postal de Lisboa

O Carlos, das Crónicas do Rochedo, fez um desafio interessante para ser cumprido este mês: o desafio é fazer um post sobre a cidade da nossa vida. No meu caso, é fácil: acima de todas, Lisboa, claro, não a Lisboa dos centros comerciais e das filas de trânsito, mas a outra, dos recantos e encantos que só os alfacinhas sabem apreciar. Quanto às cidades estrangeiras, e depois de muita hesitação, escolhi uma cidade que, além de ser muito bela, tem para mim um significado especial por lá ter estado em circunstâncias muito particulares da minha vida. Mas só amanhã a vou divulgar.
Este post é uma republicação do primeiro "Postal de Lisboa" editado neste blogue.


(No barco, a caminho de Lisboa)






Já visitei várias capitais, grandes cidades do mundo, mas, para mim, nenhuma se compara a Lisboa. Nasci na Maternidade Alfredo da Costa, já lá vão uns anitos, cresci entre a Penha de França e Benfica. Lisboa é a minha cidade. Consigo ver o que tem de belo e o que tem de podre. Mas eu não acredito em mundos ideais, homens novos, sítios perfeitos. Lisboa é como cada um de nós, com as suas grandezas e as suas misérias.
Gosto de entrar em Lisboa a partir da margem sul: chegar por uma das pontes que cruzam o rio Tejo, por exemplo. Mas como gosto mais de entrar em Lisboa é de barco. Atravessar o Tejo num dos barcos que saem do Barreiro ou do Seixalinho, no Montijo, é uma experiência muito mais rica. A cidade desfila vagarosamente defronte de nós. Primeiro a zona oriental, com o Parque das Nações e a sua afirmação de modernidade. Depois, a zona das docas, com os navios de carga e de cruzeiro lembrando outros caminhos e outras viagens. Mais acima, os prédios de Chelas e as Amoreiras. Encontramos a Graça, S. Vicente, o Panteão Nacional. Finalmente, a bela sala de visitas da cidade, o Terreiro do Paço. Subindo o olhar, encontramos a Sé e, lá mais em cima, como um guardião da cidade, o Castelo de S. Jorge. Está um dia de sol e a cidade resplandece à beira das águas. Faz-me lembrar Veneza vista do Gran Canal, ou Lausanne vista do rio Lago Leman. Mas aqui não há barcos de recreio, cheios de turistas de máquina fotográfica em punho. Estes são barcos de gente trabalhadora, que vai diariamente para Lisboa, que já viu estes prédios e estas pequenas ondas do rio centenas de vezes. Nem levantam a cabeça, mergulhados nos seus jornais, nos seus telemóveis, nos seus pensamentos. E Lisboa desdobra-se à minha frente, como um postal ilustrado, como um filme feito só para mim.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Postal de Lisboa XIII - As Vilas Operárias

Um dos aspectos mais interessantes de Lisboa são os antigos bairros operários, as chamadas Vilas. Os Pátios ou vilas têm origem na civilização árabe, que tanto nos marcou, e permitem uma convivialidade intimista entre vizinhos, muito típica das sociedades mediterrânicas e também da sociedade lisboeta.

(Arco de entrada da Villa Bertha)

Voltam a surgir na capital nos finais do século XIX, princípios do século XX, durante o surto de industrialização que caracterizou esse período. Na verdade, agrupavam os operários que vinham trabalhar nas novas indústrias da cidade e, por isso, encontramos estas vilas nas zonas humildes ou periféricas, como por exemplo a Graça ou Alfama.
Há várias que ainda existem, outras desapareceram. Recordo-me, quando era miúda, de brincar com amiguinhas que moravam na Vila Cândida, que se situava na mesma avenida onde eu morava. Ainda hoje existe a Vila Maia, a Vila Souza, o Bairro Grandella. 
O que têm de especial, de diferente, é o facto de serem espaços quase fechados, habitações de trabalhadores, às vezes apenas de uma empresa, com uma única entrada e saída para a rua. Podia ser um pequeno bairro, uma rua, um prédio que ocupava um quarteirão. É o caso da Villa Souza, um grande prédio de renda económica, organizado à volta de um pátio interior. Segundo parece, aqui teria sido filmado o célebre filme dos anos 30 "O Pátio das Cantigas" que também, de um certo ponto de vista, retrata a vida simples dos alfacinhas da classe operária dessa época.

(A Villa Souza, hoje prédio de habitação)

Um dos meus preferidos é a Villa Berta, com as suas casinhas caracterizadas pelas varandas e mezanines à moda italiana.

(As casinhas da Villa Bertha)

Mas, sem dúvida, o mais extraordinário é o Bairro Estrela d'Ouro. Foi construído por Agapito da Serra Fernandes, industrial de confeitaria oriundo da Galiza, para habitação dos seus trabalhadores mediante uma renda. Situado entre a Rua da Graça e a Rua da Senhora do Monte, está bem identificado pelos painéis de azulejos e pelas estrelas calcetadas nos passeios. As estrelas de cinco pontas, ou pentagramas, fazem suspeitar das simpatias maçónicas do industrial.

(O Painel de azulejos da entrada do Bairro Estrela d'Ouro)

O Bairro continha tudo o que ele achava ser necessário para uma vida simples mas com qualidade. As casinhas organizam-se em U, à volta de pequenos espaços de entrada. Havia uma escola, uma capela, e até um cinema, o Cine Royal, onde se passou o primeiro filme sonoro em Portugal. Hoje, é um supermercado!

(As casinhas do Bairro Estrela d'Ouro)

Actualmente, algumas destas antigas zonas operárias da capital estão revalorizadas e é agradável viver aqui. Muitos destes bairros e vilas continuam a ser habitados, muitas vezes pelos descendentes dos antigos trabalhadores, que compraram e remodelaram as casas. São vestígios de outro tempo, um tempo em que os grandes empresários entendiam o valor da proximidade e da responsabilidade social. Talvez, em alguns aspectos, devessemos aprender com eles.
(Fotografias de Teresa Ferreira)