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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Ser professor, hoje



(Este post responde a um desafio do Valdeir, do blogue Ponderantes)


Ser professor, hoje, é muito mais difícil do que quando eu comecei a dar aulas, há 28 anos atrás. O professor era só professor: dava as suas aulas, aprofundava as suas matérias, fossem elas Literatura Portuguesa ou Ciências Físico-Químicas, ou História como no meu caso, e avaliava os seus alunos pelo que eles sabiam ou não. Se era Director de Turma, nem as faltas dos alunos tirava, isso era para os Serviços Administrativos. E, no entanto, a figura do professor era respeitada pelos alunos e pelos pais, era uma figura de autoridade e saber reconhecida por toda a comunidade.
Depois, pouco a pouco, o ensino foi mudando. Numa sociedade cada vez mais complexa e multifacetada, foi-se exigindo ao professor que alargasse as suas funções. Não chegava saber ensinar História, isso foi-se tornando cada vez menos importante. O professor passou a ter de ser também psicólogo, animador social, enfermeiro, técnico de informática, de prevenção rodoviária, polícia, jardineiro, dançarino, enfim, tudo o que conviesse ser para animar as aulas e tomar conta dos meninos, que a sociedade cada vez abandonava mais. Se os professores podiam fazer qualquer coisa, então qualquer um podia ser professor. E assim, à medida que as nossas funções se foram alargando e tornando mais difusas, o respeito da comunidade foi desaparecendo. Porque não nos reconheciam uma utilidade concreta.
A sociedade passa por um processo de mudança, complexo e angustiante. E, incapaz de resolver os problemas por outros meios, coloca na escola e nos professores a responsabilidade da resposta a esses problemas. Mas a escola é um reflexo da sociedade, é um agente de mudança, não é o único agente de mudança.
Creio que o segredo pode estar na dignificação do professor, da sua função social e pedagógica. Porque o que o professor faz, a relação que estabelece com os seus alunos, não pode ser imitada por nenhuma máquina. Ele é o organizador das aprendizagens dos alunos, mas também é um modelo e um sedutor, enquanto fonte de conhecimento. Como diz a minha colega Anabela Magalhães (do blogue com o mesmo nome):
Porque ser professor é ser um sedutor capaz de seduzir este e aquele e mais o outro, hora após hora, dia após dia, ano após ano, numa actividade sempre renovada. Porque ser professor é ser todo ouvidos e olhos e escutar e olhar e, acima de tudo, Ver. Porque ser professor é ser capaz de deixar olhitos a brilhar de atenção perante matérias diversas, simples ou complexas. Porque ser Professor é ser estimulador do risco de voo, até na escuridão.
Em vez de diminuírem os professores, os governantes deviam ser capazes de lhes dizer: “Obrigado, sem vocês não seria possível!”

Ensinarás a voar…
Mas não voarão o teu voo.
Ensinarás a sonhar…
Mas não sonharão o teu sonho.
Ensinarás a viver…
Mas não sonharão a tua vida.
Ensinarás a cantar…
Mas não cantarão a tua canção.
Ensinarás a pensar…
Mas não pensarão como tu.
Porém, saberás
Que cada vez que voem,
Sonhem, vivam, cantem,
E pensem…
Estará a semente do caminho
Ensinado e aprendido.
(Madre Teresa de Calcutá)
E termino com um sorriso, porque temos de manter a esperança e o bom humor!



domingo, 27 de setembro de 2009

Sobre os Professores



Nem de propósito. Neste dia de eleições, em que se faz o balanço de quatro anos de governação e se elege um novo governo, para mais quatro anos, recebi um convite de um professor brasileiro para participar numa blogagem colectiva, tendo como tema Os professores - a sua vida, os seus problemas e as suas experiências. Isto fez-me reflectir sobre o que foi a vida dos professores portugueses durante os últimos quatro anos. Vimos as nossas carreiras e as nossas possibilidades de progressão, congeladas. O nosso horário de trabalho foi aumentado. A carga burocrática associada às nossas funções foi imensamente aumentada. A nossa carreira foi arbitrariamente dividida em duas. A idade da reforma foi adiada. Perdemos a gestão das nossas escolas. E, para coroar este percurso, o nosso sistema de avaliação foi alterado, havendo a intenção de colocar os resultados escolares dos alunos e avaliação dos nossos colegas no centro dessa avaliação. O ambiente nas escolas degradou-se. Os professores desgastaram-se. Mas não baixaram os braços e as grandes manifestações, que levaram às ruas de Lisboa a grande maioria dos professores, fizeram oscilar o Ministério da Educação. Dir-me-ão que houve algumas reformas importantes, no campo da Educação. Até admito que sim. Mas, para as fazer, não era necessário tratar tão mal uma classe profissional inteira.
Sei que os professores brasileiros se batem também pela dignificação da sua classe profissional. Por isso, tenho muito prazer em participar nesta manifestação colectiva na blogosfera.


O discurso político no campo da educação tem-se baseado no facilitismo, na necessidade económica de fazer progredir os alunos e de garantir as estatísticas de sucesso. Como eu gostaria se, em vez disso, ouvisse um discurso de início do ano escolar, por parte de algum dos nossos dirigentes, como o que Obama fez aos alunos americanos.
Transcrevo aqui alguns excertos de um discurso que deve ser lido, atentamente, na sua totalidade:

Todos vocês são bons em alguma coisa. Não há nenhum que não tenha alguma coisa a dar. E é a vocês que cabe descobrir do que se trata. É essa oportunidade que a educação vos proporciona.

Talvez tenham a capacidade de ser bons escritores - suficientemente bons para escreverem livros ou artigos para jornais -, mas se não fizerem o trabalho de Inglês podem nunca vir a sabê-lo. Talvez sejam pessoas inovadoras ou inventores - quem sabe capazes de criar o próximo iPhone ou um novo medicamento ou vacina -, mas se não fizerem o projecto de Ciências podem não vir a percebê-lo. Talvez possam vir a ser mayors ou senadores, ou juízes do Supremo Tribunal, mas se não participarem nos debates dos clubes da vossa escola podem nunca vir a sabê-lo.

No entanto, escolham o que escolherem fazer com a vossa vida, garanto-vos que não será possível a não ser que estudem. Querem ser médicos, professores ou polícias? Querem ser enfermeiros, arquitectos, advogados ou militares? Para qualquer dessas carreiras é preciso ter estudos. Não podem deixar a escola e esperar arranjar um bom emprego. Têm de trabalhar, estudar, aprender para isso.

E não é só para as vossas vidas e para o vosso futuro que isto é importante.. O que vocês fizerem com os vossos estudos vai decidir nada mais nada menos que o futuro do nosso país. Aquilo que aprenderem na escola agora vai decidir se enquanto país estaremos à altura dos desafios do futuro.

Vão precisar dos conhecimentos e das competências que se aprendem e desenvolvem nas ciências e na matemática para curar doenças como o cancro e a sida e para desenvolver novas tecnologias energéticas que protejam o ambiente. Vão precisar da penetração e do sentido crítico que se desenvolvem na história e nas ciências sociais para que deixe de haver pobres e sem-abrigo, para combater o crime e a discriminação e para tornar o nosso país mais justo e mais livre. Vão precisar da criatividade e do engenho que se desenvolvem em todas as disciplinas para criar novas empresas que criem novos empregos e desenvolvam a economia.

As vossas famílias, os vossos professores e eu estamos a fazer tudo o que podemos para assegurar que vocês têm a educação de que precisam para responder a estas perguntas. Estou a trabalhar duramente para equipar as vossas salas de aulas e pagar os vossos livros, o vosso equipamento e os computadores de que vocês precisam para estudar.. E por isso espero que trabalhem a sério este ano, que se esforcem o mais possível em tudo o que fizerem. Espero grandes coisas de todos vocês. Não nos desapontem. Não desapontem as vossas famílias e o vosso país. Façam-nos sentir orgulho em vocês. Tenho a certeza que são capazes.


sexta-feira, 19 de junho de 2009

Ainda o Magalhains!



Oh! Que pena!
Acabou o ano lectivo e o governo não conseguiu cumprir a sua promessa de entregar um computador Magalhães a cada criança do 1.º ciclo. Foi mais uma promessa por cumprir, não é?
Havia a esperança de que o Magalhães revolucionasse tudo, até as nossas estruturas familiares!




domingo, 7 de junho de 2009

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Uma Viagem ao Mundo dos Poemas

De vez em quando, tenho de ir ao sótão seleccionar e arrumar todas as coisas que lá vamos acumulando, brinquedos, livros escolares, papéis diversos, e outras milhentas coisas que por lá ficam, à espera que alguém vá algum dia olhar para elas e descobrir-lhes novamente uma utilidade. Estava a arrumar uma pequena estante que lá tenho, atafulhada de revistas e jogos dos miúdos, quando encontrei um pequeno livro chamado “Uma Viagem ao Mundo dos Poemas”. Foi organizado e editado, com o apoio da Câmara Municipal, por uma professora de História e Língua Portuguesa da minha escola; nesse pequeno livro juntam-se os poemas feitos por uma turma de 6.º ano, num ano lectivo já bem passado!

Alguns poemas são deliciosos e não resisto a transcrevê-los. A Fabiana que, segundo conta o livrinho, tinha 11 anos e gostava de acabar com a pobreza, a caça e, se pudesse, não deixava que queimassem e cortassem árvores, escrevia:

Raio de sol

 Ilumina o mundo

Raio de sol

 Ilumina a terra

Raio de sol

 Ilumina o meu coração

Assim, poderei ver o dia

 Até na escuridão.

 

O Tiago também tinha 11 anos e afirmava que, se governasse, a primeira coisa que fazia era proteger as crianças e acabar com a guerra. No seu poema, falava da paz:

 

Havia paz em todo o mundo

Se houvesse paz

No teu coração

No meu coração

E no coração de cada homem

Que governa o mundo.

Paz é união

É ter um coração universal

A palpitar em cada homem.

 

Deliciei-me a ler os poemas e fiquei a pensar que hoje em dia, com tantas grelhas, planificações e relatórios, talvez não haja já disponibilidade para editar livros de poemas dos alunos. A minha colega Maria do Carmo Lavrado cansou-se e já está reformada. Mas aquilo que ela escreveu na introdução a este livro, em Fevereiro de 2000, continua actual e a fazer-nos reflectir:

“(Este livro) aí está a atestar o tesouro escondido que existe no coração de cada criança. É este tesouro que cada educador, cada adulto responsável, tem o dever sagrado de não deixar perder-se no turbilhão e na desilusão da vida concreta, feita de egoísmo, de ambição desmedida, de falta de amor e de solidariedade, que se tornou apanágio da nossa sociedade. Deixar perder este tesouro, é cavar o fosso onde se podem sepultar as gerações vindouras, porque um mundo onde falta a paz, a solidariedade, a liberdade, o amor… é um mundo desumano e onde não há humanidade, o homem não tem lugar.”

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A Turma

O Festival de Cannes é a grande montra do que de melhor se faz no mundo do cinema e, este ano, um jovem português, João Salavisa, ganhou aí o prémio para melhor curta-metragem. Parabéns ao realizador, à sua equipa e ao cinema português.
Serve isto como pretexto para escrever um pouco sobre o filme que ganhou a Palma d'Ouro no ano passado, 2008. "A Turma", no original "Entre les Murs" de Laurent Cantet, é um filme rodado numa escola dos arredores de Paris. Retrata essencialmente a relação entre um professor e um grupo de alunos, uma turma, durante um ano lectivo. A turma, a escola, é uma amostra do tecido social e dos conflitos que aí se tecem e nós, espectadores, assistimos aos esforços do bem intencionado professor de Francês no sentido de levar aquele grupo a aprender a expressar-se melhor, mas também a respeitar-se e a compreender-se. Nem sempre ele é feliz nas suas atitudes, e por vezes, as situações são levadas a extremos. No final do ano lectivo, todos cresceram um pouco.
Penso que todos os professores, especialmente os que leccionam essa terrível faixa etária do 3.º ciclo, se revêem em algumas das situações que ocorrem naquela turma. Mas, principalmente, é um filme importante para quem acha que ensinar é simples e ser professor é fácil. Acima de tudo, é um filme sobre o enorme desgaste emocional de ser professor hoje.
Para quem nunca viu, aqui vai o trailer, só para abrir o apetite. E quem não perceber francês, não precisa de se preocupar, porque existe o filme legendado em português.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Escolas matam a fome

Serve este post para completar o de ontem, sobre viagens fantásticas ao alcance de quem as puder pagar. Li no Correio da Manhã que há cada vez mais crianças a chegar à escola com fome, particularmente à 2.ª feira, depois de dois dias em casa. A Câmara Municipal de Sintra começou um programa de apoio há uma semana, abrindo as cantinas escolares também ao fim-de-semana e o número de inscrições quase duplicou numa semana. Noutros pontos do país, a situação é idêntica. Não posso deixar de me interrogar: que mundo é este em que vivemos? Que país é este que construímos? 35 anos depois de uma Revolução que prometia trazer-nos o desenvolvimento, além da democracia, é este o estado em que estamos? Em que andaram os nossos políticos entretidos, além do seu próprio bolso? Também não posso deixar de fazer outra pergunta: depois de terem sido tão maltratados, ainda é com as escolas e os professores que a sociedade conta, quando se vê em situações de carência? Estranho país este!