domingo, 29 de maio de 2016

Pessoas que não se calam

Há um certo tipo de seres humanos que, numa viagem, são totalmente insuportáveis: as pessoas que não se calam...
Geralmente, no meio da lufa-lufa do dia a dia, não damos muito por elas. Mas, quando nos sentamos num autocarro ou num comboio para uma viagem mais ou menos longa e temos a pouca sorte de ter uma pessoa assim como companheiro de viagem, não temos escapatória. Começam por esboçar um sorriso ou tecer qualquer comentário amável e, quando damos por isso, já estão lançadas em monólogos imparáveis. Como somos, em geral, pessoas bem educadas, não temos a coragem de as mandar logo às urtigas e aguentamos estoicamente, fingindo algum interesse por todos os pormenores com que esses faladores nos vão bombardeando...
Podemos tentar, de quando em vez, transformar o monólogo em diálogo e dizer algumas palavras. Mas é um esforço inglório. Essas pessoas estão tão centradas em si mesmas que rapidamente interrompem para voltar ao seu discurso. Contam tudo, falam de uma vida que pode ser real, ou imaginada, ou ligeiramente pintada com cores mais alegres... Quem sabe? Se falarem muito, até podem acreditar no que dizem...
Regularmente, esboçamos algumas tímidas tentativas de fuga: abrimos o livro que trazíamos na mala, ou fechamos os olhos por momentos... mas a verborreia do falador regressa na primeira oportunidade.
A geração mais nova já descobriu aquela que me parece ser a defesa mais eficaz contra esses faladores: é pôr os phones e deixá-los a falar sozinhos! Bendita tecnologia!


domingo, 15 de maio de 2016

Postal de Lisboa XXIV - A Mesquita de Lisboa


A entrada principal da mesquita
A mesquita de Lisboa foi inaugurada em 1985. Construída na colina que sobe de S. Sebastião, a sua arquitetura destaca-se no meio do casario lisboeta, mas não são muitos os não-muçulmanos que lá entram.
Ontem, a mesquita abriu mais uma vez as suas portas, para uma visita aberta a todos, crentes e não crentes, organizada pela Um Outro Olhar, Divulgação Cultural. Guiados pelo Sheik Munir, há muitos anos à fente da Comunidade Islâmica de Lisboa, os visitantes puderam percorrer todos os espaços da mesquita.

A Sala de Orações
Uma mesquita é, acima de tudo, um espaço de oração. Por isso, o espaço mais importante é a grande sala de orações, de uma beleza contida, com o seu nicho apontando a direção de Meca, o seu enorme candelabro, os painéis de azulejo com versículos do Corão ou simplesmente motivos florais. Todo o chão está coberto de tapetes, já que os crentes devem rezar descalços, sobre um local limpo. Os azulejos estão muito presentes, lembrando que a nossa tradição de azulejaria é, na realidade, uma herança árabe.

Os azulejos com versículos do Corão
Mas o espaço da mesquita inclui muito mais do que a sala de orações. Há salas para conferências e palestras e espaços para as aulas corânicas. No piso inferior, situa-se a sala mortuária, com o espaço para as lavagens rituais do morto, mas também a grande sala para celebração de casamentos, já que, em qualquer dos casos, se come e se bebe. 

Na sala mortuária

No último piso, encontra-se ainda uma grande sala de conferências e um recinto desportivo, com bancadas e tudo, que pode ser utilizado pela comunidade, seja ou não muçulmana.
O centro de todo o complexo é, como em qualquer mesquita tradicional, o pátio, rodeado de colunas e ladeado pelo alto minarete.

O Pátio com o seu minarete

O Sheik Munir foi dando todas as explicações, respondendo a todas as perguntas, com paciência e sentido de humor. Agradeceu a presença de todos, frisando que é através do conhecimento mútuo que se fazem desaparecer os medos. A ignorância é a mãe de todos os radicalismos. E o Sheik Munir mostrou-nos um Islão moderno, tolerante e esclarecido, bem integrado na cidade. 

As pequenas cúpulas que ladeiam o pátio

Lisboa nem sempre foi uma cidade tolerante, mas foi sempre uma cidade feita de diversidades e é essa a sua riqueza. Espero que possamos continuar a conhecer-nos e a aceitar-nos mutuamente. E que Deus, seja qual for o seu nome, nos abençoe a todos.


Azulejos com alguns dos nomes de Deus

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Turismo vs. Vandalismo



Ontem à tarde, tive de ir à Baixa fazer umas compras. Caminhava sem pressas, a apreciar o sol, que não nos tem brindado muito com a sua presença nestes últimos tempos! Vinha do Rossio para os Restauradores e o meu olhar foi irresistivelmente atraído para o espaço vazio onde, até à semana passada, estava a estátua de D. Sebastião, antes de ser destruída pela vã glória de uma foto. Uma figura relativamente pequena, num nicho entalado entre dois arcos em ferradura, na frontaria da Estação do Rossio. Dois arcos em ferradura, talvez a lembrar-nos do cavalo branco que deveria trazer-nos de volta, numa manhã de nevoeiro, aquele pequeno rei. 
Não sou grande admiradora de D. Sebastião. Foi um rei pequeno, na estátua e na História, um rei sonhador e aventureiro, que levou Portugal para uma aventura sem lógica e sem glória, cujo final é de todos conhecido. O jovem Sebastião e os seus sonhos foram o resultado de um determinado contexto político, social, religioso e ideológico, dir-me-ão, mas... não é isso que acontece com todos nós? 
Eu caminhava, perdida nestes pensamentos, enquanto passava ao lado das colunas do Teatro D. Maria II. Aí, no meio das desvairadas gentes que por ali costumam poisar, um grupo de três homens chamou-me a atenção. Eram altos, fortes, de traços nórdicos. Um deles tinha a cabeça rapada, apenas com umas madeixas no topo, de um loiro sujo. Bebiam cerveja, em tronco nú, aproveitando também o sol. De repente, o das madeixas levanta-se e, sem qualquer problema, chega-se a uma coluna e alivia o excesso de cerveja. Mesmo ali, como um cão, e com o mesmo grau de consciência do dito animal. 
Não tenho absolutamente nada contra os turistas. Pelo contrário, trouxeram animação, euros e variedade. Mas há que ter cuidados redobrados na preservação do que é o nosso património! Penso que deveria haver mais polícias, especialmente nas zonas históricas, a vigiar discretamente e a multar exemplarmente estas atitudes idiotas. Não importa que o idiota em causa seja lusitano ou estrangeiro! Não, não se pode pendurar nas estátuas! Não, não pode urinar nos monumentos! E por aí fora...
Pelo que vejo, era uma forma eficaz de encher os cofres do Estado, que bem precisados estão...