quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O vestido do sim

Sempre me aborreceram os excessos consumistas. E, se há ocasião em que todos os sininhos emocionais são tocados para estimular o consumismo, é o dia do casamento. Acenam-nos com a tal história do "dia mais bonito da tua vida!" e vai de acumular gastos com milhentas coisas, a maior parte das quais perfeitamente dispensável para garantir a felicidade e a beleza do dia. Já soube de casos em que o divórcio chegou mais depressa do que o final do plano de pagamento da dívida contraída para pagar as despesas do casório!
Sempre fui adepta do "quanto mais simples melhor"! E tenho a certeza que a felicidade não se contabiliza por aí!
Mas todos acabamos por ceder às pequenas vaidadezinhas do dia. No nosso casamento, somos as vedetas principais e queremos estar à altura. Para simplificar as nossas contas, surgiu agora uma pequena empresa que aluga vestidos de casamento. Mas não são uns vestidos quaisquer, são vestidos de assinatura, daqueles que custam uns milhares de euros. Quem os tem e os pagou, disponibiliza-os para aluguer. Rentabiliza um bocadinho o gasto que fez. E quem quer casar com um vestido de 4000 euros e não tem dinheiro para o adquirir, já o pode fazer, por uns modestos dez por cento do valor. O anonimato é garantido para as duas partes. Acho uma ideia fantástica. E viva o pragmatismo!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

E agora o lado pouco estético das praxes!

Tinha decidido que não escrevia mais nada sobre as praxes, mas não é possível, é um assunto incontornável! E isso leva-me a uma reflexão num patamar um pouco diferente.
Refiro-me ao lado pouco estético das praxes. Não, não estou aqui a referir-me a esses pobres coitados obrigados a rastejar na lama, a fazer flexões em roupa interior, lambuzados de excrementos... Esses são as vítimas do sistema. O tempo dirá se irão ultrapassar estas humilhações de forma saudável ou se irão fazer catarse das mesmas nas praxes que irão aplicar (aplicadamente...) no ano seguinte...
Não, não vou falar desses, mas sim daqueles que andam por ali vestidos de corvos antiquados e rabugentos, a ralhar como sargentos de filmes de série B. Já viram bem a falta de gosto daquele traje? Um fatinho preto de corte antiquado, com uma capa tipo Batman. Sinceramente, nem é bonito, nem é vintage, nem é nada! É só feio! Mas é caro, muito caro, e não posso deixar de pensar condoidamente nos pais que fizeram sacrifícios para comprar os tais fatinhos, para eles andarem por aí, salpicados de lama, cerveja ou vomitado!
Eu sei que posso ser um bocadinho suspeita. No meu tempo, só havia praxes e tradição académica em Coimbra, e os alunos universitários de Lisboa olhavam para aquilo como uma coisa um bocadinho provinciana, que não tinha lugar numa capital europeia, moderna, de ideias arejadas. Depois, como uma infeção muito contagiosa, esta coisa das praxes foi alastrando pelo país, ao ritmo a que cresciam as universidades privadas e os politécnicos. E alastrou a todo o país. Infelizmente, perdendo o que tinha de interessante em Coimbra, aprendendo apenas as partes mais fáceis e estúpidas.
Não gosto da ideia, nem dos fatinhos! E ocorre-me uma questão: o que diriam estes meninos universitários se as escolas os obrigassem a usar uniformes? E aposto que os uniformes seriam mais bonitinhos. O que não era difícil!


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Pobres mulheres indianas

Sucedeu esta semana na India, na região de Bengala. Uma jovem de 20 anos namorava com um rapaz de uma comunidade vizinha, o que não é bem visto nesta região do globo. Detidos pelo tribunal popular da aldeia, foram multados em 300 euros. O rapaz pagou, mas a família da rapariga alegou que era pobre e não podia pagar. O tribunal da aldeia condenou-a então a uma violação coletiva. Na passada 2.ª feira, uma jovem indiana de 20 anos foi violada por treze homens da sua aldeia, como castigo por namorar com um jovem de outra comunidade. Violada por um tribunal que não é reconhecido legalmente, mas que é respeitado pelos aldeãos. Violada por homens da sua aldeia, que ela conhecia desde sempre, a quem tratava por tio ou irmão mais velho.
A violação, qualquer que seja o contexto ou a vítima, é um dos crimes mais repugnantes que existe. Há alguém que é mais forte, ou que está numa situação de poder, e a violação é a violentação física e emocional daquele que é mais fraco. É o desprezo pelo que todos temos de mais íntimo e resguardado.
Na India, a violação individual ou coletiva ainda é um castigo aplicado por esse tipo de justiça tradicional. Mas a tradição não é para manter a qualquer preço, nem é um critério de bondade em si própria.
Na India, já não se queimam mulheres nas piras onde ardem os cadáveres dos seus maridos. Mas ainda se violam mulheres por namorarem fora do que está estabelecido. 
A India pode afirmar-se como a maior democracia do mundo. Ou merecer aplausos pelo seu crescimento económico. Mas ainda precisa de percorrer um longo caminho até ao respeito pelos direitos básicos de cada pessoa, homem ou mulher. Um caminho muito longo!


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

As humilhações consentidas das praxes


Começo por afirmar desde já que não sou contra as praxes. Até posso entender e achar engraçados e, de certa forma, úteis, os rituais e as práticas que se destinam a integrar numa comunidade os novos membros. Mas isso não tem de incluir práticas humilhantes, coercivas, degradantes, como se tem visto nestes últimos anos.
Todos já nos confrontámos com esses grupos de jovens que, no início de cada ano letivo, são arrebanhados e levados pela cidade como animais de circo. Algumas destas manifestações são apenas idiotas. Mas outras são verdadeiramente degradantes. Não pode haver nada que obrigue uma criatura a ajoelhar-se perante outras, a ser enxovalhado com produtos mais ou menos nojentos, ou com músicas ou danças de gosto muito duvidoso. Há universidades em que estas práticas se mantêm dentro de limites razoáveis. Mas há outras em que esses limites são claramente ultrapassados.
Qual de nós nunca ouviu relatos de situações abusivas, em que os jovens são obrigados a beber em excesso ou a participar em atos ou atitudes que visam apenas a sua humilhação? O que nos faz tolerar isto? O que nos faz desviar a cara, desculpabilizar, ou mesmo sorrir e encolher os ombros?
Que espécie de tolerância social é esta?
Os cinco jovens mortos na Praia do Meco talvez agitem as nossas consciências. Provavelmente envolvidos em práticas de praxe a que não souberam dizer não por receio de não serem aceites na comunidade, os jovens foram levados a tomar atitudes imprudentes que, em última análise, os levou à morte. Agora, uma suposta ética da praxe tenta impor o silêncio aos que sobreviveram ou assisitiram, ou simplesmente tiveram conhecimento da tragédia.
É tempo de educarmos os nossos jovens para serem suficientemente autónomos e confiantes para não precisarem de se submeter a práticas que não desejam. Explicar-lhes que é o seu valor e a sua capacidade que os fará ter sucesso. E que podem e devem dizer Não! se forem confrontados com atos que os ponham em situações desconfortáveis. A educação e o crescimento também passam por aqui.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

A mãe do líder

Agora que já passaram as festas e a azáfama acalmou, há finalmente tempo para ler ou reler coisas que ficaram empilhadas à espera do seu momento. Os jornais e revistas fizeram as suas revisões do ano que passou e, incontornável, realçaram a morte de Nelson Mandela.
Reli algumas coisas sobre a sua vida e a sua obra. Todos conhecemos Nelson Mandela, o seu sorriso bondoso, os seus olhos risonhos. Sabemos que passou muitos anos preso, que conseguiu ser libertado e levar o seu país a rejeitar o odioso regime do apartheid. Foi o primeiro presidente negro da África do Sul e, apesar de tudo o que passou, não alimentou atitudes de ódio ou de vingança; pelo contrário, lutou pela reconciliação nacional e pela integração. Nada disto é novo, felizmente faz parte do nosso conhecimento do que se vai passando pelo mundo.
No entanto, estamos sempre a aprender. No relato sobre a sua infância, um dos textos relatava que, embora oriundo de uma família de alguma importância no contexto tribal da África do Sul, Mandela foi o primeiro membro da sua família a ir à escola. Teria sido a sua mãe, uma das quatro esposas do seu pai, quem insistiu em que o rapazinho frequentasse a escola e foi ela mesma a levá-lo à Igreja Metodista da zona, para que ele aprendesse a ler e a escrever. 
Imaginei esta mulher, que vivia numa cabana e cozinhava numa fogueira e, no entanto, percebia o valor da instrução. Não sei se chegou a ter essa perceção mas, com o seu ato, ajudou a mudar o mundo.
Até que ponto pode ser importante a influência das mães? Mais do que o último modelo de play-station ou a camisola de marca, o melhor investimento é no crescimento dos filhos. Ajudá-los a ir sempre mais além nos estudos, mas também incentivá-los a serem sempre melhores pessoas, mais solidários e atentos aos outros. É o melhor que podemos fazer pelos nossos filhos. Quem sabe? Talvez um dia o mundo agradeça!