quinta-feira, 27 de junho de 2013

Os Antónios de Lisboa

Estão quase a terminar as chamadas festas juninas, isto é, as festas em honra dos santos populares que decorrem, um pouco por todo o país, durante o mês de junho. Em Lisboa, como se sabe, a animação organiza-se à volta de Santo António, o nosso santo que viveu entre Lisboa e Pádua, deixando uma marca indelével nas duas cidades.
Outros Antónios marcaram e marcam ainda a cidade. De muitos, não reza a história. Viveram, labutaram e desapareceram, deixando um rasto mais ou menos profundo. No entanto, durante o século XX, outro António viveu em Lisboa, lá para São Bento, governando daí todo o país. Também marcou indelevelmente o sentir português, de tal maneira que inspirou quadras populares, como esta que corria em voz baixa entre os lisboetas de há cinquenta anos. Seguindo o modelo ingénuo e um pouco brejeiro das quadras dos mangericos, remetia para a situação política e o mal-estar social que, já nessa altura, se fazia sentir.


Dos dois Antónios
de que Lisboa desfruta
um é filho da Sé
e o outro... também é.


Ainda hoje temos um António à frente dos destinos da cidade de Lisboa, mas não me consta que já lhe tenham feito quadras populares...

(Painel de azulejo com milagres de Santo António)

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O que pensamos vs. o que dizemos!

Por muito que nos consideremos honestos, francos, sinceros, há sempre ocasiões em que aquilo que dizemos não reflete aquilo que estamos a pensar no momento.
Geralmente, nem é por maldade, antes pelo contrário, pode ser por comiseração, piedade, enfado... Imaginemos aquela situação confrangedora em que uma amiga nos diz, com ar triste: "Estou um pote! Engordei imenso este inverno!" Qualquer pessoa tende a consolá-la, com um "Não, que ideia! Ganhaste uns quilinhos, nada que uns dias de dieta não curem!" Isto apesar de acharmos que não deve ter, lá em casa, um bikini que lhe sirva! Também pode acontecer que vamos com a mesma amiga às compras e, depois de a vermos a provar quarenta e sete pares de calças, já damos por nós a afirmar com o nosso ar mais convicto, embora sem sinceridade nenhuma: "Leva essas, ficam-te lindamente!"
Há também aquelas pessoas que não suportam não saber seja o que for. Se alguém fala de um filme de Tarantino, ou do prémio atribuído a Mia Couto, balbuciam qualquer coisa genérica mas que pareça inteligente, enquanto pensam: "Não faço ideia do que estás a falar, mas estou a parecer que sim!" Claro que há uns mais difíceis. Se alguém falar de Aronofsky a uma destas pessoas, desencadeia um aceno de cabeça misterioso e sabedor, que esconde um "Mas quem será este gajo?" É que, com um nome destes, tanto pode ser um realizador de cinema como um romancista russo do século XIX ou a última contratação do Vitória de Guimarães!
Evidentemente que os mais perigosos são aqueles que dizem, não o que pensam, mas sim aquilo que sabem que nós queremos ouvir. São manipuladores e atrativos. Tendemos a identificá-los com os predadores sexuais que, a coberto de falsos perfis, utilizam a internet para pescar vítimas indefesas. Mas existem em muitas outras atividades, como a política. E nós vamos atrás das palavras atraentes, esquecendo que, por vezes, os que as usam não são sinceros nem querem realmente o nosso bem!...
Rir ainda é o melhor remédio. Por isso, este video é imperdível. Luis Filipe Borges mostra-nos em que pensa um par, no seu primeiro encontro, enquanto prossegue uma conversa aparentemente banal. A ver, com sinceridade!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O Zé dos Cornos

 (O Beco dos Surradores)

O Beco dos Surradores é uma rua estreita e típica de um dos bairros mais típicos de Lisboa: a Mouraria. Mesmo no início do beco, fica esta tasca - porque é disso mesmo que se trata, uma tasca daquelas à moda antiga! 
Tem duas salas, uma ao nível da rua, outra na cave, mas são pequenas e quase entramos diretamente para cima das mesas. Estas, as mesas, são corridas, e nós sentamo-nos onde houver lugar. As conversas correm pelas mesas, como o pão, e erguem-se com a mesma descontração para quem anda ali a apontar os pedidos e a servir: "Ó Chico! Então o meu entrecosto?" O Zé e o filho, mais a patroa, que está na cozinha, apressam-se de um lado para o outro, e vão respondendo naquela pronúncia gingada, característica dos alfacinhas de gema! E, no fim da refeição, a conta é feita num pedaço de papel arrancado da toalha, com prova dos nove e tudo.
Aqui não há nouvelle cuisine, nem menu do chef: os pratos são portuguesíssimos! Mas o entrecosto, a entremeada, os carapaus fritos, o arroz de feijão, são de comer e chorar por mais! E não se pense que só ali entra o pessoal do bairro. A inclusão desta tasca na Rota dos Restaurantes e Tascas da Mouraria, trouxe turistas que não compreendem as conversas, mas apreciam o espaço com olhos curiosos e não ficam indiferentes ao calor humano.
Creio que é por causa de sítios como este que Lisboa está cada vez mais na moda como destino turístico. Ainda se encontram espaços assim, genuínos, não plastificados, que não são iguais a milhentos outros por essa Europa fora. 
E o nome? De onde vem afinal o Zé dos Cornos? Claramente, de um grande e retorcido par dos mesmos que, pendurado na parede logo em frente à porta, constitui quase a única decoração da sala principal! Não tive coragem foi de perguntar a origem daqueles cornos, ou ainda me arriscava a ouvir uma graçola brejeira, bem à moda da Mouraria!

(Os ditos cujos!)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Santo António Casamenteiro

Hoje, mais uma vez, dezasseis casais de Lisboa deram o nó abençoados por Santo António. Uns casaram-se civilmente, outros optaram pelo ato religioso. Depois de uma voltinha por Lisboa em "tuk-tuk", seguiu-se a festa, na Estufa Fria. Os chamados Casamentos de Santo António tiveram início em 1958, por iniciativa do jornal "Diário Popular". Interrompidos em 1974, foram retomados em 1997 pela Câmara Municipal de Lisboa.
Tenho uma certa ternura por esta celebração e pela vontade da Câmara de ajudar jovens casais a concretizar os seus sonhos. Mas... porquê sob a égide de Santo António? Só porque é o Santo padroeiro de Lisboa?
Não, há boas razões para isto. Santo António tem um rol imenso de patrocínios. É considerado padroeiro dos amputados, dos animais, dos estéreis, dos barqueiros, dos velhos, das grávidas, dos pescadores, agricultores, viajantes e marinheiros; dos cavalos e burros; dos pobres e dos oprimidos; é padroeiro de Portugal, e é invocado para reencontrar coisas perdidas, para conceber filhos, para evitar naufrágios, para conseguir casamento.
E... como aparecem os casamentos no meio desta lista, entre amputados, grávidas, cavalos e burros, naufrágios? A origem está num milagre atribuído ao Santo. Conta-se que uma jovem muito linda, mas cansada de esperar por um noivo, já desesperada de encontrar marido, pediu ajuda a Santo António. Adquiriu uma imagem do santo, benzeu-a e todos os dias a enfeitava com flores que colhia no jardim. Além disso, orava com regularidade para que Santo António lhe arranjasse um noivo. Mas, passou-se muito tempo e o noivo não aparecia. 
 Certa vez, pôs-se a lamentar a ingratidão do santo; desapontada, pegou a imagem e, no auge do desespero, atirou-a pela janela fora. Passava na rua, naquele momento, um jovem cavaleiro e a imagem acertou-lhe na cabeça. Apanhou-a intacta e subiu a escada para devolvê-la. Quem o recebeu foi a formosa donzela. O cavaleiro apaixonou-se por ela e algum tempo depois casaram-se, naturalmente por milagre do santo.
Voltando aos noivos de Santo António, apetece-me dar-lhes os parabéns por este ato de esperança no futuro. Souberam aproveitar a ajuda da Câmara Municipal para fazerem uma festa que talvez não pudessem realizar de outra forma. Por vezes com dificuldades, alguns no desemprego, apostaram na vida, na família, na felicidade. Fizeram bem e desejo-lhes as maiores felicidades! Só espero que não comecem a voar imagens de Santo António das janelas e varandas da cidade!






terça-feira, 11 de junho de 2013

Mais um 10 de junho...

E pronto, lá passou mais um 10 de junho! Não gosto particularmente deste feriado, a não ser pelo facto, muito agradável, de ser feriado! Mas, para mim, não tem grande significado. 
Começou a ser festejado com grandiosidade durante o Estado Novo, pois antes era um simples feriado municipal, que lembrava o génio de Camões. Mas Salazar aproveitou para juntar ao nome de Camões, que morreu na miséria e tão maltratado pela sua Pátria, a comemoração de Portugal e da Raça. Era assim que se chamava na minha infância, Dia de Portugal e da Raça, que isto da Raça era levado com muita seriedade nos anos 30 do século passado, e com resultados bem tristes, como todos nos lembramos!
Recordo-me bem dos dias 10 de junho da minha meninice. Havia intermináveis paradas militares no Terreiro do Paço, pontuadas por discursos que eu não entendia e só me pareciam aborrecidos. Pelo meio, eram condecorados os militares que se tinham distinguido em combate na Guerra Colonial. Muitas eram condecorações póstumas, recebidas por mulheres ou mães em lágrimas. 
Também havia festas e desfiles promovidos pela Mocidade Portuguesa. Ainda me lembro de ter participado numa dessas festas: estava incluída numa coreografia de ginástica, com fitas, e o que recordo melhor é o calor que se abatia sobre nós nessa tarde no estádio que hoje se chama 1.º de maio.
Talvez por isto tudo, é um feriado que não me diz muito! Gostaria mais que o Dia de Portugal fosse o dia 1 de dezembro, que relembra o dia em que recuperámos a nossa independência. Mas, por qualquer razão, achou-se que essa data era descartável! Considerou-se que mais valia manter o dia da raça, manter os desfiles e as paradas, manter as condecorações...
Valha-nos a comemoração de Camões, pois claro!
E valham-nos as sardinhas assadas, os caracóis, os copos de três e os bailaricos, isto é, valham-nos os Santos Populares! Em sua honra, prometo que daqui ao fim do mês de junho só vou escrever sobre coisas agradáveis!


(Desfile das tropas portuguesas em Luanda, no 10 de junho de 1969 - Fotografia retirada daqui)



sábado, 8 de junho de 2013

Festa de divórcio


Uma amiga minha (muito mais nova do que eu, diga-se de passagem!) disse-me, aqui há dias, que tinha ido a uma festa de divórcio.
E eu, entre o surpreendido e o ingénuo:
- Festa de divórcio? O que é isso?
E ela, entre o divertido e o pedagógico:
- É uma festa que se faz quando as pessoas se divorciam, claro! Tal como reunem os amigos para dar conhecimento da sua união, também comunicam aos amigos a sua separação.
E eu, ciente de que a minha provecta idade me faz ver estas coisas com alguma reserva:
- Mas uma separação não é uma coisa muito divertida, pois não? Por melhores que sejam as razões, é sempre um passo difícil, doloroso...
E ela, convencida da superioridade das suas razões:
- Também não tem de ser um trauma!
Pois não, é certo. Especialmente se forem jovens e ainda não houver crianças pelo meio, como parece que era o caso. Fiquei a saber que, tal como na festa de noivado, também houve troca de anéis, mas desta vez tratou-se da devolução das alianças de casamento.
Enfim, modernices! Qualquer dia, apanhamo-los a fumar!

terça-feira, 4 de junho de 2013

O que fazer com os últimos dias?


O que fazer quando nos confrontamos com o diagnóstico de uma doença fatal, que só nos dá mais algum tempo de vida? É uma pergunta terrível, à qual não sei responder. Provavelmente, a reação depende da nossa força interior, mas também do apoio que temos, da família, dos amigos, de uma religião que nos ofereça um caminho. Mas também é verdade que esse caminho é sempre solitário e necessariamente doloroso.
E quando esse diagnóstico terrível nos apanha na juventude, naquela idade em que nos achamos invencíveis, temos todo o futuro para conquistar à nossa frente? Foi o que aconteceu com Zach Sobiech. Confrontado com um osteosarcoma fatal, que só lhe dava meses de vida, Zach decidiu dedicar os seus últimos tempos à música. Compôs esta canção, Clouds, que dedicou a todos os seus amigos e familiares. Achei-a tocante, com uma melodia simples mas que fica em nós, e uma letra que nos interpela. If only I had a little bit more time...
Zach Sobiech faleceu no passado dia 20 de maio. Tinha 17 anos. Fica aqui a canção que compôs, como uma homenagem a todas as crianças que sofrem e enfrentam com força e coragem os dias que lhes restam.


domingo, 2 de junho de 2013

Coração em Post-its

Hoje em dia, no amor como em todos os outros domínios da vida, é tudo rápido. Ama-se e desama-se com muita facilidade. As curtes duram o tempo de uma noite, ou nem tanto. Declara-se uma paixão no facebook, acaba-se uma relação da mesma forma.
Mas o amor é o amor, o sentimento mais forte e mais espantoso que move os seres humanos e os faz ter as atitudes mais inesperadas. Neste fim de semana, quando saí de casa, deparei com um carro todo enfeitado de post-its de várias cores. Claramente, havia ali vários bloquinhos e, reparei depois, o trabalho de várias horas. Cada folhinha tinha uma frase, uma só: "Amo-te!" Algumas folhas tinham o desenho de um coração. Mas o que ali dava nas vistas era o grito, repetido em todas as partes daquele velho Renault : Amo-te! Amo-te! Amo-te!
Achei muita piada àquele grito de amor! Nesta época de amores rápidos, é bonito encontrar alguém que se expõe e perde tempo para dizer que ama outro alguém. 
Não sei quem era o ou a destinatária daquela declaração (seria alguém do meu prédio?), mas espero que tenha, pelo menos, sorrido e acarinhado quem põe assim o seu coração em público, em post-its!



sábado, 1 de junho de 2013

No meu peito não cabem pássaros


Gosto muito de ler e ando sempre com um livro (ou dois, ou três) atrás de mim. Quando acabo de ler um livro, no entanto, não costumo ter esta urgência em escrever ou falar do que li. Mas este livro é diferente. Peguei nele porque o autor, Nuno Camarneiro, tinha ganho o Prémio Leya 2012. Tinha uma expectativa aberta, esperava que fosse bom sem saber bem o que me daria.
A sinopse do livro perguntava: "Que linhas unem um imigrante que lava livros num dos primeiros arranha-céus de Nova Iorque a um rapaz misantropo que chega a Lisboa num navio e a uma criança que inventa coisas que depois acontecem? Muitas. Entre elas, as linhas que atravessam os livros."
O rapaz que chega a Lisboa é Fernando Pessoa, a criança que inventa coisas e histórias é Jorge Luis Borges, o imigrante em Nova Iorque é alegadamente Franz Kafka. As histórias que ali nos surgem são imaginadas, mas consigo encontrar as palavras de Borges e os sonhos de Pessoa. De Kafka, perdoem-me a ignorância ou a falta de competências literárias, não encontro absolutamente nada no Karl que lava janelas ou limpa os copos do bordel onde também encontra o amor. Não encontrei Kafka, nem o percurso de vida nem os dilemas e os absurdos que povoam o seu  universo.
A marca temporal é dada por um cometa que passa nos céus da Terra, em 1910, causando espantos e histerias. Traz um fogo atrás de si, que talvez toque aqueles génios em construção. Mas a sua passagem no romance é tão ténue que, sem aviso na contracapa, talvez não dessemos por ele.
Poderá então concluir-se que não gostei do livro? Não, pelo contrário, gostei muito. Não precisava porém dos nomes sonantes dos pretensos protagonistas. São três histórias, de três meninos que se fazem homens. Histórias que caminham paralelas até ao final. Pequenos capítulos que se entrecruzam, cada um perfeito no seu todo e na parte que lhe cabe. A linguagem é tão perfeita que chega a ser brilhante e acutilante, como um diamante. As ideias e imagens são-nos reveladas em frases cheias de cores e de sentidos. Às vezes, tão plenas que nos chamam para nova leitura, e mais outra e mais outra. Sempre a convocar-nos para novas reflexões e emoções.
Porque hoje é Dia da Criança, deixo aqui um excerto do livro, um texto belíssimo sobre a perda de uma avó, que é como quem diz, de uma parte importante de nós próprios e da nossa infância:

"O que vai numa avó que vai: partes boas da infância chegada ao lume, uma certa forma de falar que já ninguém pratica, a memória ridícula e livre de ter sido ingénuo, insolente e parvo, cheiros de comida feita de ingredientes que nunca mais se voltarão a juntar, a face possível do passado, um calor de encher casas, nomes de pessoas que só ali permaneciam reais, as horas que não terminavam nunca.
Coisas que ficam de uma avó que vai: um epitáfio vago, a crença em deus por respeito e procuração, uma saudade inútil e imprescindível, o súbito envelhecimento de pai e mãe, um passo dado na fila do tempo.
A avó que morre é um livro deixado a meio, é todos os livros deixados a meio. Quem pode agora segurar tantos passados?"