quarta-feira, 29 de maio de 2013

A minha proposta para a reforma do Estado


Muito se tem falado ultimamente de reforma do Estado. No meio da retórica da reforma e das medidas que vão surgindo, apercebi-me de que essas medidas têm caído quase exclusivamente sobre os funcionários da Função Pública. Estou certa de que isso só acontece por falta de imaginação. Por isso, decidi dar o meu contributo. E, porque todos concordamos que o exemplos devem começar pelo topo, a minha proposta debruça-se sobre a Presidência da República.
Pensando em termos de poupança económica, proponho uma alteração na idade mínima para um cidadão se candidatar ao mais alto cargo da Nação. Os 75 anos parecem-me uma idade razoável, por várias razões.
Em primeiro lugar, vai ao encontro do aumento da esperança média de vida, que tem servido de argumento para o aumento da idade da reforma dos comuns mortais.
Em segundo lugar, diminuía claramente, e por razões óbvias, os gastos a que os nossos presidentes continuam a submeter os contribuintes após a sua saída do cargo. O espírito republicano, de que tanto falam, não os impede de continuarem com gabinetes e secretárias, seguranças e motoristas. Por vezes, durante muitos e bons anos. Neste momento, quantos ex-presidentes continua o Estado Português a manter? A minha proposta, adiando para uma idade um pouco mais tardia o acesso a esse cargo, diminuiria também esses encargos posteriores.
Dir-me-ão: ah e tal, nessa altura da vida, mais sujeito a doenças e outras diminuições de capacidades, não irá o Presidente da República enfraquecer a qualidade da sua intervenção democrática? Bem, com sinceridade, penso que ninguém iria notar a diferença!

domingo, 26 de maio de 2013

Bizantinices do futebol

Há mil e quinhentos anos atrás, a cidade de Bizâncio, a que chamavam a Roma do Oriente, dominava o Mediterrâneo. E, na capital do Império Bizantino, lado a lado com o Palácio dos Imperadores e a Igreja de Santa Sofia, impunha-se o Hipódromo. Era uma enorme construção, capaz de albergar até 40 000 pessoas sentadas, rodeada de outras pequenas construções, dedicadas ao alojamento dos funcionários e armazéns. Os espetáculos eram gratuitos, subsidiados pelo Estado; assistir aos jogos, aos combates, às corridas de carros eram as grandes distrações da população.
Havia uma grande competição entre as fações do Hipódromo, os Azuis e os Verdes, que chegava a provocar intrigas políticas e motins. Os corredores de carros, particularmente, eram idolatrados pela  cidade e os azuis e os verdes opunham-se apaixonadamente no apoio aos seus ídolos.
Hoje passa-se exatamente a mesma coisa. Os azuis, os verdes, os vermelhos, os laranjas, os brancos, competem e sofrem com a competição entre os seus ídolos, agora organizados em clubes. Os jogadores de futebol, em especial, são adorados e pagos principescamente. Estão a anos-luz das multidões que os seguem. Fazem parte de uma lógica de mercado que gera enormes lucros para os seus clubes-empresas. E, no entanto, as pessoas identificam-se com eles e com os clubes onde eles jogam, como se disso dependesse a sua vida. É um estranho sentimento de pertença, este. Os adeptos sofrem e regozijam-se com derrotas e vitórias que lhes são completamente alheias: não contribuem para elas e nada ganham ou perdem também com elas. E, no entanto, sentem-nas como suas, como se fizessem parte de alguma coisa que é maior do que eles próprios. 
No dia seguinte, a vida continua, os problemas não desapareceram, as dívidas continuam por pagar, a saúde não melhorou, mas, se a vitória sorriu aos seus ídolos, o mundo parece mais alegre. Houve risos, brindes e algumas bebedeiras. Só os jogadores ganharam prémios de jogo, mas cada adepto parece ter ganho qualquer coisa. 
Assim são as paixões, hoje como há mil e quinhentos anos em Bizâncio.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Palavras de amor de Nuno Júdice



  • "Estar contigo ao acordar, ver como
    se abrem as tuas pálpebras, cortinas
    corridas sobre o sonho, sacudir dos
    teus lábios o silêncio da noite para
    que um primeiro riso me traga o dia:

    assim, amor, reconheço a vida que
    entra contigo pela casa, escancara
    janelas e portas, deixa ouvir os pássaros
    e o vento fresco da manhã, até que voltas
    para junto de mim, e tudo recomeça."
    Hoje é um dia feliz para a Poesia portuguesa. Nuno Júdice ganhou o Prémio Rainha Sofia de poesia ibero-americana. É o segundo português a conquistar este galardão, depois de Sophia de Mello Breyner o ter ganho em 2003.
  • "Se eu definisse o tempo como um rio,
    a comparação levar-me-ia a tirar-te
    de dentro da sua água, e a inventar-te
    uma casa. Poria uma escada encostada
    à parede, e sentar-te-ias num dos seus
    degraus, lendo o livro da vida. Dir-te-ia:
    «Não te apresses: também a água deste
    rio é vagarosa, como o tempo que os
    teus dedos suspendem, antes de virar
    cada página.» Passam as nuvens no céu;
    nascem e morrem as flores do campo;
    partem e regressam as aves; e tu lês
    o livro, como se o tempo tivesse parado,
    e o rio não corresse pelos teus olhos."

    (Nuno Júdice, Tempo fluvial)


  • Amo a forma como os poetas brincam com as palavras e os seus sentidos!
    Fico muito feliz com este prémio, há muito tempo que me deleito com a poesia de Nuno Júdice. Dizem que Portugal é um país de poetas. E de românticos incuráveis! Mas poucos souberam, como Nuno Júdice, juntar o amor e a beleza das palavras com estes resultados!
    "É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
    mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
    e se outras voltas me fazem ver nos teus
    os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
    porque esse breve olhar nos fez imaginar que
    só nós é que o fazemos andar."


segunda-feira, 13 de maio de 2013

Pedaços do mundo na World Press Photo

Está novamente patente em Lisboa a exposição das fotografias premiadas no prestigiado concurso internacional da World Press Photo. Nos últimos anos, tenho tentado não perder, é sempre uma ronda pelo nosso mundo.
Fui hoje ver a exposição. Tem, como sempre, imagens impressionantes. Da faixa de Gaza à batalha por Alepo, da luta das mulheres por reconhecimento, seja no Irão, seja na Somália, das imagens do Japão depois do tsunami às lixeiras onde sobrevivem milhares de pessoas, o que sobra é a marca do sofrimento. Também as fotografias da vida quotidiana têm a mesma marca: é o sofrimento da doença de Alzheimer, a luta pela sobrevivência nas favelas do Rio de Janeiro, os rostos de pessoas marcadas por doenças estranhas e raras. Não consigo deixar de pensar que parece haver um estranho e mórbido fascínio pela morte e pela violência, pela destruição e pela dor. Claro que o fotojornalismo cumpre, entre outras, uma função de denúncia. Mas, neste nosso mundo, não há só dor e sofrimento. Também há momentos de alegria e de celebração da vida, mesmo entre as populações com mais carências. E isso é tão extraordinário e digno de nota como o resto!
Este ano, havia mais uma razão para ir ao espaço do Museu da Eletricidade. Uma das fotografias premiadas era de um jovem fotógrafo português, que representa bem a sua geração: está desempregado! Mas o seu olhar sobre um jogo de futebol entre miúdos, na Guiné, embora a preto e branco, é das imagens mais carinhosas da exposição.
Sai-se dali com um sentimento difuso de depressão. Apesar de tudo, ficaram-me na retina as imagens de um jovem professor que, na India, dá aulas a miúdos sem posses debaixo de uma ponte,com um quadro negro pintado numa parede. É a luta por um mundo melhor, a capacidade de resiliência, a coragem. 
Valham-nos as fotos, belas e poderosas, dos pinguins imperadores no Mar de Ross, na Antártida. Longe dos seres humanos, por isso em paz.

(Batalha por Alepo, fotografia de Fabio Bucciarelli)

sexta-feira, 10 de maio de 2013

As Provas do 4.º ano e as Borboletas

Decorreram esta semana, pela primeira vez desde há muitos anos, as provas finais do 4.º ano. Na 3.ª feira, foi a prova de Português. Hoje, foi a vez da Matemática. Calhou-me vigiar uma sala e a prova pareceu-me acessível. Aos alunos da minha sala, também. Estavam calmos e compenetrados, cientes da sua responsabilidade. Sentiam-se crescidos.
Os meninos chegaram, acompanhados pelos seus professores, que os ajudaram a encontrar as salas. Os professores também estiveram presentes no intervalo da prova, para os vigiarem e orientarem no recreio. Tudo decorreu com normalidade. Não houve choros nem desmaios, nem nenhum dos cenários negros traçados pelas confederações de pais.
Há algum tempo atrás, um amigo falava-me das crisálidas e das borboletas. Explicava-me ele que as jovens borboletas tinham de fazer um grande esforço para romper os casulos, mas que esse esforço era necessário para fortalecer as asas. Era o próprio esforço que lhes permitia, mais tarde, voar. Se alguém, cheio de boas intenções, lhes abrisse os casulos, as borboletas não teriam as asas prontas para voar e, a prazo, morreriam.
Os esforços, os desafios, preparam-nos para a vida. Temos de aprender a cair e a levantar-nos outra vez. A persistir nas tarefas e nos nossos objetivos, mesmo quando parece difícil. A enfrentar pequenos desafios, umas vezes com sucesso, outras não, mas continuando sempre a caminhar em frente. A isso, chama-se crescer. Quando os pais, cheios de amor, tentam aplainar os caminhos dos filhos, afastando todas as dificuldades, não os ajudam a crescer.
Hoje, os nossos meninos do 4.º ano foram às escolas dos grandes fazer as suas provas finais e portaram-se muito bem. As suas asas tornaram-se um bocadinho mais fortes.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Dos abraços


No passado fim-de-semana, tive de ir ao aeroporto buscar uma pessoa que não é da família, mas é como se fosse! No espaço das chegadas, com tempo disponível e sem nada para fazer, pude dedicar-me ao meu passatempo favorito: observar as pessoas. E dei comigo a pensar na importância dos abraços. É um bom local para refletir sobre isso, porque deve ser o local em Portugal onde se dão mais abraços por metro quadrado.
O abraço é uma invenção extraordinária da espécie humana. Através de um gesto, duas pessoas juntam-se numa só forma. Partilha-se carinho, amizade, conforto, cumplicidade. Sem palavras, dizem-se coisas muito importantes, como “Tinha saudades tuas!” ou “Estou aqui para o que tu precisares!” Ou simplesmente “Gosto de ti!”
O espaço das chegadas do aeroporto é um espaço cheio de emoções positivas. Há os burocratas que chegam e partem com a mesma cara, a pensar nos seus problemas e a falar ao telemóvel. Mas também há homens e mulheres que se reencontram. Netos que correm para os avós. Amigos que se revêem. Há sorrisos e uma ou outra lágrima furtiva. E há abraços, muitos abraços.
Devíamos dar mais abraços, faz bem à alma. Talvez devesse haver mais espaços de chegada, na nossa vida. 


domingo, 5 de maio de 2013

E depois... há a arte urbana!

No último post, escrevi sobre os atos de vandalismo que, disfarçados de grafitis, desfeiam e destroem o nosso património. Parece-me que ficou claro que não têm nada de comum com os desenhos, por vezes muito interessantes e imaginativos, que surgem em alguns locais da cidade. 


Não aparecem em qualquer lado. Os artistas, porque neste caso é disso que se trata, escolhem um local ou são convidados para preencher um espaço. Geralmente, são espaços degradados ou desvalorizados da cidade. Às vezes, são prédios à espera de recuperação. Outras vezes, são muros ou espaços vazios. Os desenhos são criativos, dinâmicos. Enfim, é arte urbana. Rápida, efémera, mas arte, mesmo assim!


Infelizmente, uma pesquisa rápida na internet traz-nos sites que baralham as coisas e metem na mesma gaveta grafitis artísticos e os rabiscos que conspurcam os nossos espaços. E essa confusão não é saudável para ninguém. Creio que se devem admirar uns enquanto se condenam duramente os outros. E acho até que se deviam procurar os delinquentes e fazê-los limpar ou pagar pela limpeza. Os últimos rabiscos que foram feitos na estátua do Marquês de Pombal vão custar-nos mil euros em limpeza. Se multiplicarmos isto por todos os rabiscos que sujam as paredes da cidade, temos uma ideia do nosso prejuízo!


Mas, porque o que é bonito é para se ver, antes que o tempo o degrade, trouxe aqui alguns exemplos de criação artística através da técnica do grafitti. São dos meus preferidos e forçam-nos um sorriso quando por ali passamos. Só por isso, já têm valor!