segunda-feira, 29 de abril de 2013

Coisas que eu detesto IV - Tags


Chamam-se tags ou, em português, grafitos. Eu chamo-lhes borradelas nas paredes. Nascem nas paredes e nos muros, a coberto da noite, poluem os bairros e a cidade. Em qualquer lado por onde se ande, estes rabiscos agridem os edifícios e o nosso sentido estético. Não respeitam nada, tanto aparecem num tapume abandonado como numa porta de garagem, como num edifício histórico. 
Se há uma coisa que me revolta é ver edifícios recém recuperados, lindos, pintadinhos de fresco, borrados por escritos de grande profundidade filosófica como orc, mau, ou simplesmente coisas como amo-te André. Às vezes, são letras e rabiscos indecifráveis. Surgem em paredes pintadas, mas também nas pedras dos monumentos, onde são muito mais difíceis de remover. Não consigo entender o que pensam ou sentem as pessoas que assim degradam o nosso património. O que lhes passa pela cabeça? Que as suas borradelas são mais importantes do que as paredes de um edifício histórico? 
Senti ontem essa revolta, mais uma vez, ao passar no belo relógio do Cais do Sodré, acabadinho de recuperar, uma autêntica jóia. Mas alguém já borrou a parede, com rabiscos negros, incompreensíveis, provavelmente uma marca de um gang. A mesma coisa no fim de semana, ao subir a Calçada da Glória: desde o elevador, monumento nacional e património insubstituível da cidade de Lisboa, até às paredes circundantes, tudo está sujo, rabiscado, pintalgado. São as paredes das escolas. São os comboios urbanos e suburbanos. Alguém me explica porque temos obrigação de aturar isto? Penso nas belas cidades do centro da Europa e interrogo-me: o que acharão disto os turistas que, felizmente, continuam a eleger Lisboa com um destino de férias predileto? E, acima de tudo, porque têm os lisboetas de aguentar estas manifestações de mau gosto e falta de civismo? Não há nada a fazer? Não há uma lei qualquer que penalize os crimes contra o património?
Algumas pessoas, falam em liberdade de expressão artística e em arte urbana. Não vamos confundir as coisas. Há arte urbana, que se pode exprimir em locais vagos do espaço urbano, criando até, por vezes, uma mais valia no ambiente, com as suas explosões de cor e criatividade. Há esses exemplos, claro. E há o vandalismo, puro e simples. 

(Grafiti no Bairro Alto)


Este ano, o vereador da Câmara Municipal de Lisboa prometeu começar a limpar os grafitos das paredes, começando por alguns dos bairros mais vandalizados, Bairro Alto, Penha de França, Benfica. Acho muito bem! Estamos todos à espera, Sr. Vereador Sá Fernandes!

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O Chico

                                       


Chama-se Chico. A dona não sabe bem que idade lhe atribuir. Foi o marido que lhe trouxe o papagaio, quando andava embarcado, no rio que agora vem lamber o fundo da calçada. E foi uma paixão que já dura há muitos anos. O Chico é a sua companhia, agora que o marido se foi. E é um papagaio conversador, fala muito, especialmente quando percebe que a dona não lhe está a dar a atenção toda.
- Quem és tu? O que estás a fazer? E logo a seguir desinteressa-se, não espera pela resposta, rodando a cabecita para outro lado.
A dona dá-lhe todos os mimos, como se fosse um netinho. Conta-nos com ar enternecido que o Chico gosta de chocolate e de pastéis de nata. Ela compra-lhe um pastel de nata por semana e ele come, guloso, mas só o creme! E ela, preocupada com os diabetes do papagaio, leva-o à médica de família, que lhe diz para não abusar dos doces. Também gosta de nêsperas.
- Já lhe comprei duas nêsperas, este ano. Para mim, ainda não comprei, estão muito caras!
Pois estão, tal como os chocolates e as outras guloseimas! E eu fico a pensar quem irá comprar nêsperas para o Chico, no dia em que a dona desaparecer...

sábado, 20 de abril de 2013

O vagabundo na avenida

Encontro-o de vez em quando, logo de manhãzinha, a deambular na avenida. Vagueia, com um ar meio perdido, por entre os carros que se desviam, felizmente poucos naquela quase madrugada em que o encontro. Também sigo devagar, desviando o carro, se necessário. Nem sei o que lhe diria, se o atingisse, inadvertidamente.
- Onde é que mora?
- Não sei, minha senhora.
É alto mas não é forte, é mais balofo, com umas bochechas que lhe caem dos lados da cara escura. Não lhe adivinho a cor, só consigo vislumbrar um bocado da cara, escura de suja. E os olhos, uns olhos avermelhados e mortiços. Tem um gorro enfiado na cabeça, do qual se escapam umas ripas de cabelo de tom igualmente escuro e indefinido. Usa um blusão e umas calças, manchadas e com ar de não verem água há muito tempo. Tem aquele ar de não ter ninguém que se ocupe dele, uma mãe, uma mulher, uma irmã...
- Olha, não vais para a rua nessa figura, pois não?
Não, ninguém se interessa, a não ser os voluntários que, de vez em quando, talvez lhe dêem comida ou o levem a um balneário público.
Imagino o que o terá levado até àquele ponto. Pelo meio de qualquer história de carência e desespero, encontraria com certeza o álcool ou outra droga, a desolação.
Ele pára no meio da avenida, o olhar perdido em qualquer ponto dentro de si. Eu sigo, e o meu dia vai ser um pouco mais triste. Não tanto como o dele, no entanto...
O nobre vagabundo - Charlie Chaplin

terça-feira, 16 de abril de 2013

Uma imagem luminosa

Ontem, como acontece todas as segundas feiras, lecionei seis aulas, seguidas. Terminei, como sempre, exausta. Sentia-me cansada de andar de bloco para bloco, cansada de falar, de explicar, mas também cansada de lutar contra a indiferença, os olhos vazios de curiosidade, a resistência passiva. Cansada de mandar guardar telemóveis escondidos debaixo das carteiras e "head-phones" disfarçados debaixo dos capuzes. Cansada de tentar fascinar e captar para o saber, mentes totalmente absorvidas por questões como roupas, facebook, futebol ou namoricos (que agora se chamam "curtes"). E não pude deixar de me lembrar de uma imagem que andou aí pela internet.


Olhei para esta imagem e, de repente, não a entendi. O que faziam aqueles rapazes, ali sentados, de noite, com um livro nas mãos? Depois, vinha a explicação. Aquele local era o estacionamento do Aeroporto Internacional de G'Bessi, na Guiné-Conacri. Quando começa a anoitecer, o passeio enche-se de estudantes, que se agrupam ali por ser dos únicos locais com luz artificial e, por isso, onde podem estudar depois de escurecer. Os rapazes mais velhos sentam-se nos pilares de cimento, os mais novos nos separadores da estrada. As raparigas também chegam, acompanhadas por um irmão, ou outro adulto. Às vezes, caminham durante uma hora, para poderem estudar junto a uma luz. Os que aqui estão consideram-se sortudos. Outros têm de procurar a luz de uma bomba de gasolina, ou de uma casa mais abastada. Eles percebem bem o valor da educação, do estudo!
Somente 5% da população de Guiné-Conacri, na África, conta com Eletricidade, e mesmo esse pouco sofre com cortes de eletricidade freqüentes. Segundo dados das Nações Unidas em média um Guineense consome 89 kilowatts por hora ao ano. Isto é o equivalente a ter um ar condicionado ligado durante 4 minutos por dia.
Volto a pensar na maioria dos meus alunos. Têm a mesma idade destes rapazes que estudam junto aos postes de eletricidade do aeroporto de G'Bessi. E, no entanto, há um mundo a separá-los. Falta a uns o que aos outros sobeja. Seja a luz elétrica, seja a luz do espírito.
 

domingo, 14 de abril de 2013

Três em um

Há muito boas razões para ir, num sábado ou domingo próximo, até à Fundação Calouste Gulbenkian. Desde logo, as duas exposições que aí podemos visitar.
A exposição 360º Ciência Descoberta leva-nos numa viagem fascinante pela ciência ibérica no século XVI. Um mergulho numa época em que explorámos novos mundos, descobrindo e dando a conhecer novas terras e novos mares, novas plantas, animais, produtos e culturas, novas estrelas e constelações. Nada por acaso, "indo a acertar", mas fruto de um cuidado planeamento e aturados estudos de astronomia e matemática. Com o cuidado de, mesmo afrontando os ensinamentos universalmente aceites dos antigos, perseguir a verdade, através da observação e da experiência.
Saímos da exposição com a noção da importância do contributo português para o desenvolvimento económico e científico. E com a certeza de que a falta de jeito dos portugueses para a matemática é um mito recente! Mais ligado à preguiça de pensar, provavelmente!
A outra exposição é sobre a vida e a obra da escritora brasileira Clarice Lispector. De origem russa, viveu no Brasil desde criança e produziu uma obra densa, pouco conhecida em Portugal. A exposição está concebida de forma muito interessante, já que cada sala se apresenta com um formato visual diferente. Imperdível, especialmente para quem não conhece Clarice Lispector, e pode percorrer as diversas salas com o deslumbramento da descoberta.
Mas, não eram três as razões para ir até à Gulbenkian? perguntarão os mais atentos. Sim, é que é sempre um prazer passear pelos jardins da Gulbenkian num dia de primavera!
 
 

sábado, 13 de abril de 2013

O Corredor Verde

Chega o sol e começam a ver-se ciclistas a enxamear as ciclovias de Lisboa, os parques, os espaços ribeirinhos. Vêem-se famílias, pais e filhos, mas também muitos ciclistas com todo o ar de fazerem a sua vida diária de bicicleta. É uma realidade nova, em Lisboa. Durante muito tempo, argumentou-se que Lisboa era uma cidade cheia de colinas, altos e baixos, subidas e descidas, portanto, pouco amigável para os ciclistas. Mas isso é um mito, já que se refere apenas ao centro da cidade. Há muito por onde pedalar...
Há cerca de 30 anos, o arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles apresentou um projeto inovador para a cidade, falando, pela primeira vez, num corredor verde, arborizado, ciclável, que ligasse o centro da cidade ao seu pulmão verde, o parque de Monsanto. Na altura, todos acharam o projeto inviável e o seu autor, um sonhador. Mas o mundo avança com os sonhos. E o tempo veio a dar forma a esse corredor verde, que hoje liga o Parque Eduardo VII a Monsanto, integrado numa rede de ciclovias que já conta com 47 quilómetros!
O arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles foi esta semana galardoado com o prémio Jellicoe, considerado o prémio Nobel da Arquitetura Paisagista, que homenageia toda a sua carreira, sempre ligada à defesa da terra e do ambiente e à integração sustentada do Homem no meio que o rodeia. Quase não vi referências a esta distinção nos meios de comunicação, particularmente na televisão. Infelizmente, os nossos jornalistas estão sempre mais preocupados com os espirros dos políticos ou as constipações dos futebolistas. Não faz mal. Cada ciclista que passeia no corredor verde de Lisboa é uma homenagem a Ribeiro Telles. Mesmo que não o saiba!
 
 
Mais informações sobre a rede de ciclovias de Lisboa disponíveis aqui:
 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O regresso ao sestércio

 
Como sempre, a literatura antecipa e lidera a realidade. Quatro escritores do sul da Europa decidiram reunir-se num debate no Parlamento Europeu, organizando-se enquanto grupo regional. Parece-me uma ideia interessante, precursora... Acho até que devíamos fazer o mesmo em termos políticos, talvez avançar para uma União dos Povos do Sul da Europa, os países do arco mediterrânico.
Admito que fiquei boquiaberta quando um alto dirigente alemão declarou que os habitantes do sul europeu tinham inveja da Alemanha! Não compreendo como se pode ter inveja de um povo que se alimenta de sauerkraut! Que, de quando em vez, tem assomos de superioridade patriótica com maus resultados em toda a Europa! Ou que, simplesmente, não tem sentido de humor!
Acho, portanto, que devíamos puxar do nosso orgulho e proclamar uma Confederação dos Países do Sul. Uma espécie de Grito do Ipiranga, mas gritado das margens de um dos rios que corre para o Mediterrâneo.
Temos alguns pergaminhos, cá no sul! O Império Romano construiu um espaço de paz e prosperidade que durou alguns séculos, até ser destruído pela invasão dos bárbaros do norte. Aí tivemos a nossa primeira moeda única, o sestércio. Podíamos, portanto, criar uma grande "zona sestércio", com liberdade de circulação de pessoas e mercadorias. Os órgãos financeiros, como o Banco Central do Sul, poderiam ficar sediados em Palermo, já que a Sicília tem instituições com vasta experiência na extorsão financeira. O próprio hino dessa grande união do sul deveria ser uma ária de ópera italiana, em vez do "Hino da Alegria" de Beethoven. Ou um cante alentejano, que é candidato a património imaterial da Humanidade, quem sabe? Ou até uma dança de flamenco, que sempre tornava as reuniões das comissões mais animadas.
E quando os nossos vizinhos do norte quisessem cá vir passar férias, seriam bem vindos. Só teriam de pagar uma sobretaxa, que se poderia chamar "taxa de sol"! Ou "taxa da sardinha assada"!
Já imagino por aí muita gente a acusar esta minha proposta de ser irrealista ou mesmo uma piada de mau gosto. Mas olhemos para a realidade atual nesta velha Europa: haverá visão mais surrealista?

domingo, 7 de abril de 2013

Confissões e confessionários

Hoje, fui à Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, assistir a um recital de uma amiga. Confesso que, no entanto, metade do tempo do concerto passei-o absorta, mergulhada em recordações que saltavam de cada parede e de cada imagem.
Vivi na Penha de França até aos dez anos, e foi naquela igreja que fiz a Primeira Comunhão. Assisti a missas e aulas de catequese. Depois, mudei de casa. E já ali não entrava há quarenta anos! Mas lembro-me tão bem das escadarias, das imagens, dos candelabros que oscilam sobre os altares laterais, das colunas verdes e douradas que ladeiam o altar-mor! E dos mármores, brancos, verdes, rosados, que tornavam a igreja fria e a missa mais comprida! Ficava sempre com os pés frios e apetecia-me bater com eles no chão, para os aquecer. Mas lá estava o olhar do meu pai, para me manter em sentido e bem comportada! Eu achava as missas um bocado aborrecidas, com muitas palavras e orações que eu repetia sem compreender. Porém, gostava das histórias da Bíblia e distraía-me a imaginar os santos das imagens como protagonistas.
Naquela época, a igreja parecia-me enorme. E os confessionários, aninhados por baixo dos púlpitos laterais, eram os mais assustadores. Grandes, sisudos, pesados, à espera da confissão de pecados que eu tentava recordar... Confesso que, às vezes, inventava pecadilhos para não passar a vergonha de dizer que não me lembrava de ter feito nada de reprovável, o que, no mínimo, já podia cair no domínio do pecado do orgulho!
Hoje, a igreja e os seus confessionários retomaram as suas proporções normais. Nada me pareceu tão grande, nem tão brilhante, nem tão misterioso como quando eu tinha sete ou oito anos. Apeteceu-me rir de mim própria, dessa outra mais novinha e inocente. Em vez disso, enterneci-me.
 
                                    (foto do interior da igreja, "roubada" do blog O Jumento)
 

Comboio nocturno para Lisboa

 
Um professor suíço, com uma vida monótona e rotineira. Um episódio repentino, que o obriga a repensar a rotina e tomar uma decisão inesperada. E, de repente, Lisboa! Linda, luminosa, melancólica. Não é, talvez, a cidade em que nos movimentamos todos os dias, nem é, tão pouco, a cidade da minha infância, dos anos 60 e 70, quando se passa uma parte importante do enredo do filme. É que Lisboa, aqui, também representa um papel, tem uma personalidade, ela própria é uma personagem da história, como dizia uma amiga minha. E, no entanto, é a nossa Lisboa,  a nossa história, são as nossas referências. 
O filme resulta da adaptação ao cinema do livro de Pascal Mercier, publicado em alemão em 2004, com o título Nachtzug nach Lissabon, que se tornou também um best-seller na Europa. Não é, com certeza, uma obra-prima da sétima arte, mas é um filme que nos prende a atenção do princípio ao fim. É muito interessante vermo-nos através do olhar de outros!