sábado, 23 de março de 2013

Ainda a propósito do Dia Internacional da Felicidade...

... encontrei esta parede, num pequeno restaurante junto da estação de Santa Apolónia.

quinta-feira, 21 de março de 2013

As notícias e a felicidade

Ontem foi o Dia Internacional da Felicidade. Não dei muito por isso, tive a felicidade de estar a trabalhar durante o dia inteiro. No entanto, vi as notícias que passavam em rodapé na televisão, à noite, e lá estava a passagem para o regime de mobilidade dos milhares de professores com horário zero. Nos transportes públicos, que são uma espécie de veículo da vox populi, ouvem-se as pessoas a fazerem comentários sobre os professores que estão a receber sem trabalharem. Compreendo essas opiniões, são o resultado da pressão demagógica do sistema político, mas são injustas. A maioria desses professores perdeu o seu horário de trabalho devido à reorganização dos currículos escolares, à formação dos mega agrupamentos, ou, pura e simplesmente, à extinção das disciplinas que lecionavam.
I have a dream, disse Martin Luther King. Eu também tive um sonho, pelo qual me bati durante muitos anos: uma escola em que as matérias estruturantes (que não são apenas a matemática e a língua mãe) fossem lecionadas com rigor e exigência; uma escola que abrisse horizontes a todos os alunos, através da disponibilidade de clubes e opções nas áreas artísticas, científicas, de cidadania. Não passou de um sonho.
Sim, no Dia que festeja a Felicidade, foi melhor não ter tido tempo para ouvir notícias!

segunda-feira, 18 de março de 2013

Receita-me um livro?


Há algum tempo atrás, José Eduardo Agualusa apresentou-nos a Dona Aurora, uma velha conhecedora de mezinhas e magias, que receitava poesias. Digamos que ela conhecia a magia da poesia! E, para os males do corpo, mas principalmente do espírito, a Dona Aurora receitava poemas, de Camões a Drummond de Andrade, com a respetiva posologia: este era para ser murmurado ao ar livre, outro para ser sussurrado ao ouvido, e por aí fora...
Francisco José Viegas relembra-nos Sinouhe, o médico e espião do faraó, (criado por Mika Waltari), cujo pai acreditava nas virtudes terapêuticas das palavras. 
Podia continuar a dar exemplos. A verdade é que esta ideia fez o seu caminho e o insuspeito Serviço de Saúde de Inglaterra parece ser o exemplo mais recente. Acaba de criar o programa "Books on Prescription", em parceria com a Reading Agency e a Associação Britânica de Bibliotecários e, a partir do próximo mês de maio, os médicos podem passar uma receita original: a leitura de um livro! A lista inclui títulos de autoajuda, mas também os diários de Bridget Jones, ou o belíssimo "Mataram a Cotovia", de Harper Lee.
Afirma a associação de médicos de família do Reino Unido: "Existe evidência clínica que demonstra que os livros podem ser tão eficazes como outras formas de terapia - com a vantagem de não terem efeitos secundários". 
Acho a ideia fantástica. E com enormes potencialidades. Já nos imagino a ter em casa uma pequena farmácia em jeito de biblioteca, à qual recorremos para o alívio de maleitas variadas, que podem ir muito para lá das questões ligadas à saúde mental. Quais poderão ser os livros mais adequados para a cura da dor de cabeça, dos distúrbios do sono, da disfunção erétil, da depressão? Surgem-me várias hipóteses, quem quer dar sugestões?
Já nos imagino a interromper reuniões, porque está na hora de ler algumas páginas. Já nos imagino a entrar no consultório e a pedir: "Doutor, receita-me um livro?" E ocorre-me uma questão: será que é desta vez que os livros podem ser deduzidos nos impostos?

quarta-feira, 13 de março de 2013

Fumos e neve

Hoje saiu fumo branco da chaminé da Capela Sistina.
Creio que também saiu fumo (não sei de que cores!) da minha cabeça, quando acabei de corrigir os últimos testes deste segundo período letivo. Os meus neurónios ficaram entupidos de erros avulsos sobre a cultura grega ou as ditaduras dos anos 30. Tão entupidos que tenho a certeza que também soltaram algum fumo! Não houve milhões de pessoas a assistir ou a aplaudir, mas foi a minha pequena vitória.
A partir de amanhã, a guerra é outra: avaliações, grelhas, planos, registos diversos (e todos mais ou menos igualmente inúteis!). Mas, para já, preciso de poesia, palavras que me lavem o espírito. Hoje, é dia de Alberto Caeiro...

A NeveA NEVE PÔS uma toalha calada sobre tudo. 
Não se sente senão o que se passa dentro de casa. 
Embrulho-me num cobertor e não penso sequer em pensar. 
Sinto um gozo de animal e vagamente penso, 
E adormeço sem menos utilidade que todas as ações do mundo. 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


segunda-feira, 11 de março de 2013

Histórias da divisão azul


Tenho sempre pouco tempo disponível e milhentas coisas para fazer. E, por isso, os livros e as revistas acumulam-se à espera da minha atenção. Foi assim que só há dias li um artigo, publicado na revista "Visão", sobre os soldados portugueses que combateram ao lado dos exércitos nazis na 2.ª Guerra Mundial, integrados na chamada Divisão Azul. O artigo surgiu a propósito da apresentação de um livro do historiador Ricardo Silva, que desde há anos investiga este tema nos arquivos espanhóis.
A Divisão Azul foi criada quando da invasão da União Soviética pela Alemanha nazi, em 1941. Segundo parece, o embaixador alemão teria sondado Salazar no sentido da formação de uma força militar que ajudasse ao esforço anti-comunista, ao que Salazar teria respondido evasivamente. Já Franco, na nossa vizinha Espanha, viu-se compelido a pagar a ajuda nazi durante a Guerra Civil, mesmo mantendo-se neutral.
E é assim que surge a Divisão Azul, que irá integrar cerca de 150 combatentes portugueses, que vão alistar-se a Espanha. Quem são esses homens? São essas história que Ricardo Silva agora traz à luz. Alguns já tinham sido voluntários na guerra civil espanhola, combatendo ao lado dos nacionalistas e da Falange. Outros são jovens idealistas, arrebatados pelas ideias dominantes de luta contra a ameaça comunista. Não são bem vistos pelos alemães, são irreverentes, cantam durante as marchas, namoram com as raparigas das regiões que percorrem. Cada um é uma história, mas acabam todos na Frente Leste, nas batalhas por Leninegrado. A maioria morre aí, em combate, ou nos campos de prisioneiros soviéticos. Alguns conseguiram sobreviver. Quantos? Poucos, são figuras incómodas, que lutaram do lado errado. Ficaram esquecidos, vivendo entre nós sem, no entanto, os assumirmos como parte da nossa memória. Até hoje!
Fico contente que tenham sido resgatados das sombras. O pós-guerra facilitou a divisão entre os "bons" e os "maus", nós e os outros. A percepção de que, afinal, alguns de nós faziam parte dos outros, pode ser difícil de encarar. Mas é a verdade. É a tremenda diversidade das motivações humanas.