quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Uma cadeira mealheiro


Já aqui tenho escrito, muitas vezes, que os portugueses podem ter dificuldades ou falta de competências em muitos domínios, mas nenhum deles é, com certeza, a criatividade e o humor.
Prova disso é esta cadeira. Uma cadeira que é também um mealheiro. Uma cadeira que incorpora um serrote: "Serrar em caso de emergência." Uma cadeira anti-crise.
Foi concebida por um jovem designer português, Pedro Gomes, que defende que "a criatividade é uma das soluções para a crise." Ele próprio é um exemplo do que é caminhar contra a corrente: numa época em que tantos jovens se vêem obrigados a emigrar, Pedro Gomes voltou a Portugal, depois de trabalhar na Alemanha e nos Estados Unidos da América. Voltou para dinamizar o design nas indústrias portuguesas, para nos fazer repensar os conceitos de crise e de poupança e, acima de tudo, para nos fazer sorrir. O que já é valioso em tempos de crise.
Só tenho uma dúvida. Quem precisa de amealhar umas moeditas, terá dinheiro para comprar esta cadeira?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Hora do chá

Uma vaga de frio polar em Lisboa é sempre uma coisa muito relativa. As temperaturas descem aos cinco ou seis graus durante a noite e atingem uns míseros catorze ou quinze graus a meio do dia. Nada que atrapalhe o resto do país. Mas para os lisboetas, habituados ao seu clima ameno, isto é o suficiente para os fazer enregelar e tremer de frio.
E, quando o frio aperta, poucas coisas confortam o corpo e o espírito como um chá. Tomado à lareira ou com uma mantinha pelos joelhos, ou, se nos apetecer ser mais sociáveis, numa das boas casas de chá que Lisboa tem.
Há algumas mais tradicionais, como a Bénard, ou a Versailles. Mas há propostas mais modernas e inovadoras. Na Tartine, perto do S. Carlos, os chás gelados casam bem com as tartes e tartines de frutas. No Chá do Carmo, são os chás franceses que acompanham os bolos caseiros. A última casa de chá que visitei foi a Castella do Paulo, junto à Igreja da Conceição Velha. Aí, o ambiente e os chás são japoneses. E, a não perder, os bolos tradicionais, as castellas, descendentes diretos do nosso pão de ló. Absolutamente deliciosas, as castellas de chocolate, ou de chá verde.
Não se sabe ao certo qual a origem do chá, mas a lenda mais simpática conta que um imperador chinês, lá pelo ano 2750 a. C., decretou que todos os seus súbditos deveriam beber a água apenas depois de fervida. Tendo caído umas folhinhas dentro da água fervida ainda quente, o imperador constatou que aquela infusão era deliciosa.
Da China, o chá transitou para o Japão, onde os portugueses o encontraram e trouxeram para a Europa, no século XVI. Quando a princesa Catarina de Bragança casou com o rei Carlos II de Inglaterra, levou consigo o consumo do chá, no entanto, o hábito do five o'clock tea parece dever-se, não à princesa, mas à duquesa de Bedford, no século XIX. As únicas plantações de chá existentes na Europa localizam-se em Portugal, nos Açores.
Para saber tudo sobre o chá, pode-se visitar a exposição "O Chá - de Oriente para Ocidente", que está disponível no Museu do Oriente até ao mês de Março. E depois, ir beber um cházinho, porque não?

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Peste grisalha?


Li este artigo aqui há dias e não me consigo esquecer dele. Pelas piores razões! 
A minha primeira reação foi de incredulidade! Alguém escrevia um artigo sobre o nosso problema demográfico mais complicado e ameaçador, o envelhecimento da população. Sim, já todos sabemos que ele existe, há que tomar consciência e tomar medidas. Há algumas conhecidas, chamam-se políticas natalistas! Mas todos concordamos que é um problema de difícil resolução, comum a todos os países ditos desenvolvidos.
O que, no entanto, não me parece nada adequada é a forma da abordagem. A começar pela linguagem, que é um veículo delicado. A escolha das palavras não é inocente, pressupõe uma determinada atitude. E, quando se utilizam palavras como "peste", "contaminada", "tragédia", parece que se considera o aumento da esperança média de vida como uma gripe, ou um problema de saúde pública. Nas culturas ditas pouco desenvolvidas, os anciãos são respeitados e venerados, como uma reserva de experiência da tribo. Já não pedia tanto, mas também não esperava que o envelhecimento fosse visto exclusivamente como um encargo insuportável para os contribuintes ativos. Depois de ler este texto, quase ficamos à espera de um programa de eutanásia, assim à moda nazi, para resolver o problema da população.
Pensavamos que o autor ficava por ali? Não, continua a destilar pérolas. Considera a imigração assustadora porque "desafia a nacionalidade portuguesa". E diz que se engana " quem pensa que a nossa sobrevivência enquanto país soberano depende prioritária e exclusivamente do crescimento económico". Acaba a afirmar que "todos os responsáveis políticos têm o dever patriótico e geracional de pensar responsavelmente em medidas de choque para o país", o que me deixa a mim em estado de choque! 
Isto é, em vez de se fazer um esforço para garantir a coesão social e o bem-estar de quem já muito viveu, soltam-se chavões demagógicos que só apelam ao confronto geracional e social. Isso é que me parece muito pouco patriótico!
Quem poderia ser tão insensível e desrespeitoso para com os mais idosos? Seria alguém com pouca cultura, algum desempregado desesperado? Não, uma rápida pesquisa na net informou-me que o autor deste texto é advogado, deputado e participante na Comissão de Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República. São coisas destas que me obrigam a ser adepta da redução do número de deputados. Todos ficavamos melhor se alguns não estivessem lá!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Um cacilheiro em Veneza

Quem mais poderia ter esta ideia, de colocar um cacilheiro no coração da mais aristocrática sede de um império marítimo, senão a nossa Joana Vasconcelos? O cacilheiro é o Trafaria Praia e vai funcionar como "pavilhão flutuante" de Portugal na 55.ª Bienal de Artes Plásticas de Veneza. Neste momento está desativado e a sofrer obras de adaptação no Seixal. Uma das obras que se poderá apreciar, no seu interior, será um painel de azulejos que mostra Lisboa a partir do rio. Haverá também um palco, onde se poderão realizar debates, concertos, exposições.
O nosso cacilheiro será rebocado por um cargueiro até Veneza, onde estacionará na zona mais nobre da cidade. Daí, efetuará pequenos percursos, um deles até ao Lido, onde se realiza o Festival de Cinema de Veneza.
Poderão dizer o que quiserem de Joana Vasconcelos, gostar ou não dos seus trabalhos, mas numa coisa temos de lhe render homenagem: é uma artista original, com ideias diferentes, arrojadas. Tive o meu primeiro contacto com os seus trabalhos através dessa espantosa escultura que é O Sapato. Numa mesma instalação, o conjunto contraditório dos diversos universos femininos: o sapato é de baile, elegante, festivo, de salto alto; mas é composto de tachos e panelas, que remetem inexoravelmente para o espaço doméstico, para a cozinha, para as funções tradicionais da mulher ao longo dos séculos. É uma obra esmagadora, tanto no tamanho como no simbolismo. Sempre apreciei os artistas que, desde meados do século XX, pegam em objetos do quotidiano e os colocam em contextos inesperados, originais. Fazem-nos olhar para as coisas com uns olhos diferentes. Assim é Joana Vasconcelos. 
Espero que o seu, e nosso, cacilheiro, espante e conquiste Veneza, da mesma forma que os navios portugueses o fizeram no nosso XVI, quando roubaram o comércio das especiarias orientais à altiva e Sereníssima República.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Uma questão de imagem


Aqui há dias, conversava com uma amiga acerca de uma nossa conhecida, "rapariga" do nosso tempo, que viu o marido sair de casa, trocando-a por outra com metade da idade, de formas mais firmes e generosas. 
Palavra puxa palavra, lembrámo-nos de uma colega da Faculdade. Namorava com um rapaz que sofreu um desastre de automóvel, ficando com uma perna esmagada e uma prótese para o resto da vida. A nossa colega aguentou o choque, os anos de fisioterapia, e ainda os comentários malévolos de muitas colegas, que se referiam depreciativamente ao facto de ela namorar com um deficiente.
Hoje, ela tem um casamento feliz, já com muitos anos de vida. E as outras colegas, que valorizavam a imagem em detrimento do ser e dos sentimentos? Não sei, talvez tenham casado com rapazes iguais a elas. Chegadas aos cinquenta, quando as rugas e as gordurinhas teimam em se instalar, talvez tenham sido trocadas por outras mais jovens, de imagem mais atraente.
E depois queixam-se!

sábado, 16 de fevereiro de 2013

As mulheres no cinema

Entra o mês de Fevereiro e começamos a falar ainda mais de cinema. Os Óscares estão aí à porta e ouvem-se apostas e defesas ou ataques a este ou àquele filme, a esta interpretação ou àquela banda sonora. Gosto muito de cinema, mas não me vou meter em dissertações destas.
O que eu li, e realmente achei interessante, foram as conclusões de um estudo levado a cabo pelo Centro para os Estudos de Mulheres na Televisão e no Cinema (que eu nem sabia que existia!). Segundo esta pesquisa, as mulheres representam apenas 18% num universo de realizadores, produtores executivos, argumentistas, cineastas e editores. Em Hollywood, dos 250 filmes mais lucrativos em 2012, só 9% foram realizados por mulheres. Segundo a mesma pesquisa, surge um maior número de mulheres na produção de documentários, animações, ou então no cinema independente.
Puxei pela cabeça e, realmente, só me lembrei dos nomes de Kathryn Bigelow e de Sofia Copolla, a assinarem filmes de sucesso. Sou capaz de enumerar imensos realizadores, mas só me consigo lembrar destas duas mulheres no mundo da realização. Também sou capaz de me recordar de muitas atrizes, grandes senhoras do cinema, divas misteriosas, sex-symbols, ou "namoradinhas da América". Mas nos cargos de poder são raras.
Será que as mulheres têm menos imaginação ou capacidade do que os homens? Ou será que, mesmo nas regiões do mundo mais democráticas e igualitárias, há esferas de poder e decisão em que as mulheres têm dificuldade em afirmar-se?


Kathryn Bigelow, a única realizadora a receber um Óscar.