domingo, 30 de dezembro de 2012

Justiça divina para o século XXI

Aqui há dias, falou-se de Deus no autocarro. Não daquela forma douta e piedosa dos círculos de estudos bíblicos, onde se desfolham evangelhos e versículos, mas da maneira simples como as pessoas também simples se agarram a uma tábua de salvação. Passo a explicar.
O autocarro passava junto à porta de um ministério, na zona do Terreiro do Paço. Uma mulher, com olhos de bolsos vazios, lançou o primeiro lamento: "Cambada de ladrões! Deus há-de os castigar!"
Não foi preciso mais. Ergueu-se imediatamente um coro concordante.
- Só vão para o governo para se encherem, à nossa custa!
- Eu trabalhei a vida toda, desde os onze anos. Eles sabem lá o que isso é!
- Dizem que gastamos demais. Nós? E eles?
- Estudam e depois usam os estudos para vigarizarem toda a gente!
- Mas Deus vai castigá-los! Hão-de arder no fogo do inferno!
Um senhor bem posto, de fato e gravata e pasta na mão, interrompeu o coro.
- Então, vamos ter de esperar pela justiça divina? E se começassemos nós a fazer justiça?
Foi acolhido com um silêncio e olhares de desânimo e incredulidade.
- Ó amigo, em que mundo é que você vive?
- Não sabe que eles se safam sempre? A justiça é só para nós, não é para eles. 
- Eles safam-se e entalam-nos a nós!
- Mas hão-de ser castigados por Deus!
Não sei quem eram "eles", esse pronome às vezes tão indefinido. Mas, sabe-se lá porquê, lembrei-me de todos os nomes, largamente divulgados, dos que utilizaram créditos bancários do BPN que agora todos temos de pagar! 
Quando saí do autocarro, a conversa ainda não terminara. Mas fiquei com a ideia de que aquelas pessoas se voltavam para a justiça de Deus por estarem completamente descrentes da justiça terrena. 

Desejo a todos um bom ano de 2013! E, se Deus nos estiver a ouvir e não estiver muito ocupado, que nos mande um bocadinho de justiça e de esperança. Nós merecemos!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Coisas que eu detesto III - A Popota


Já toda a gente percebeu que eu gosto do Natal. E até considero que tenho algum sentido solidário. Mas a Popota consegue exterminar o meu espírito natalício!
Aceito qualquer boneco - desde o Pai Natal à Leopoldina - que nos venha lembrar que é Natal, tempo de pensar mais nos outros, especialmente nos que têm menos do que nós. Mas será preciso arranjar uma boneca que parece saída de um bar de alterne de terceira categoria? Dos fatinhos que enverga até aos meneios com que dança, tudo me faz lembrar uma estrela decadente (atenção, eu escrevi decadente e não cadente, estrelas cadentes seriam bem mais belas e natalícias!) de algum Ritz Club de centro comercial!
Como diria aquela personagem tenebrosa da telenovela: "Jesus, Maria, José! Será que o PornoChic já chegou ao Natal?"


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Internamento informático

E pronto, o meu computador teve de ser novamente internado!
Parecia de boa saúde, foi uma doença súbita que, inesperadamente, o fez ficar paralisado. Levei-o à Clínica, onde ficou internado, para fazer exames. Devo declarar que não paguei taxa moderadora, mas calculo que a conta final deve ser simpática!
Não sei quando terá alta, ainda espero por notícias do seu estado de saúde. 
Até lá, só intermitentemente tenho acesso à blogosfera, quando me apodero momentaneamente de algum computador amigo que me passa por perto!

Desejo as suas melhoras rápidas. E que não me veja obrigada a dar uma prenda de Natal inesperada a mim própria: um irmão gémeo do doentinho!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Cloud Atlas

Há muitas razões que nos podem levar a uma sala de cinema, para ver um filme. No meu caso, fui ontem ver o filme Cloud Atlas levada pela disparidade das críticas que li a respeito. De Fabuloso! a Insuportável! encontrei de tudo. Um crítico de cinema dá-lhe uma estrela, outro dá-lhe quatro! Em que ficamos então? Nada como ir ver e formar a minha própria opinião. Um filme que desperta emoções tão extremadas tem, pelo menos, de ser interessante.
E foi! O enredo do filme, baseado num best-seller do escritor inglês David Mitchell, transporta-nos para vários momentos no tempo, que vão do século XIX à atualidade, continuando para um futuro imaginado no século XXII e indo mesmo até um futuro pós-apocalíptico. Mas todos esses momentos se interligam, de alguma forma, embora os espectadores só comecem a perceber as ligações lá para o meio do filme. Não dei pela passagem das três horas do filme, a intensidade dramática prende-nos da primeira à última cena. E gostei muito. Tem alguns momentos um bocadinho lamechas, talvez, mas o que somos nós sem um pouco de sentimentalismo? Fica a mensagem, belíssima: do útero ao túmulo, todos estamos ligados e as nossas ações, sejam boas sejam criminosas, repercutem-se sempre no futuro. Devemos olhar para nós com os olhos do outro!
Já agora, um conselho: não saiam do cinema a correr, mal aparecerem no ecrã as palavras "The End". Todos os atores principais, Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugh Grant, encarnam vários personagens de ambos os sexos, nos diferentes momentos da história. É divertido descobri-los, no final do filme. Estou certa de que nem o mais experiente cinéfilo os conseguiria reconhecer a todos! 



sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Coisas que eu detesto II - Papás hiper-babados



Todos os pais normais amam os seus filhos e tentam protegê-los. Eu não sou exceção, até sou um bocadinho mãe-galinha (mas só um bocadinho!). No entanto, creio que nunca perdi o sentido das proporções.
Mas há uma subespécie dos pais normais que é verdadeiramente insuportável, os hiper-babados! Encontramo-los por todo o lado: olham benevolentes, enquanto os filhos fazem birras, gritam, atiram com os brinquedos, enfim, incomodam toda a gente; entopem as ruas junto às escolas, para levar os filhos à porta da escola, não vão os meninos partir-se se caminharem cem metros; não os deixam brincar no parque, mas saturam-nos de atividades extra-escolares, encontrando capacidades artísticas ou desportivas extraordinárias na energia normal das crianças; aborrecem toda a gente nas reuniões de amigos, com as histórias ininterruptas dos seus fantásticos rebentos; não os contrariam, nem corrigem as respostas mal-educadas, para não coartar a espontaneidade das criaturinhas; e, quando começam a ser chamados à escola para serem informados do mau comportamento dos descendentes, disparam em todas as direções, considerando que a culpa é dos amigos, que são más companhias, dos professores, que não os compreendem ou tomam de ponta, da escola, que não os corrige. Dão-lhes tudo, passando por vezes necessidades para proporcionarem aos filhos bens completamente supérfluos. Acham-nos encantadores. 
Quando percebem que criaram uns seres egoístas, exigentes e egocêntricos, geralmente, já é tarde de mais.


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

A histeria do fim do mundo


Com o início do mês de dezembro, entrou em velocidade de cruzeiro a histeria do fim do mundo. Eu costumo dizer que o mundo acaba todos os dias, para quem morre. No entanto, para as pessoas com angústias apocalípticas, este anúncio do fim do mundo está a gerar situações de histeria. 
Quando os Maias organizaram o seu calendário, previram o fim do mundo, como seria natural numa civilização que encarava o devir histórico como circular. Seria o fecho lógico de um ciclo. Mas fizeram essa previsão para um ponto no tempo que lhes era incomensuravelmente distante. Os produtores cinematográficos trouxeram essa previsão para a atualidade, com o filme "2012" (trailer acima, para quem estiver interessado). E agora há quem viva angustiado com a perspetiva.
Segundo parece, é na Rússia que estão a surgir os fenómenos mais extremos de histeria coletiva, com pessoas a fazerem aprovisionamentos de bens essenciais, desde açúcar a fósforos e velas. Os responsáveis do governo russo viram-se mesmo obrigados a fazer um comunicado oficial, explicando que não há qualquer fundamento científico para esta previsão. 
Já os empresários hoteleiros do México esfregam as mãos de contentamento: pelos vistos, há quem queira acabar o mundo em grande, nas praias mexicanas por onde os Maias também passearam. Os hotéis estão quase esgotados.
Entretanto, a data prevista para o fim do mundo foi atualizada, de 21 para 23 de dezembro. Achei ótimo, sempre nos deixa passar o fim de semana descansados!
Por cá, segundo parece, o único açambarcamento de bens essenciais de que tive conhecimento, foi nos armazéns do Banco Alimentar, durante o último fim de semana. Antes assim!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Coisas de que eu gosto II - As iluminações de Natal

Eu sei que o país está em crise, que o dinheiro não abunda. Sei isso muito bem, sou professora, funcionária pública! Mas fiquei muito feliz por ver acenderem-se as luzes das iluminações de Natal em Lisboa. 
Nunca fui uma entusiasta do Natal consumista. Na verdade, sempre embirrei um bocadinho com as grandes ostentações de prendas, como quem diz: "Deixa ver quem dá a prenda maior!" ou, pior ainda: "A minha prenda é mais cara do que a tua!" A crise veio deitar abaixo este castelo de cartas, deixando apenas o Natal simples, do amor e da partilha. Tudo tem um lado bom, até a crise!
Também tenho de confessar que me irritava entrar o mês de outubro e começar a encontrar bolas coloridas, anjinhos e árvores de Natal em cada canto. Quando chegava dezembro, já estava saturada de espírito natalício!
Mas havia sempre uma coisa que me encantava, um momento pelo qual esperava o ano inteiro: um passeio com os meus filhos pequenos na Baixa de Lisboa, toda enfeitada e colorida, cheia de luzes que afastavam o frio e, às vezes, a chuva daqueles fins de tarde. Passeavamos, brincavamos, comiamos gaufres de chocolate,  com os olhos cheios de luz. Benditas tardes de dezembro, que ficaram para sempre como memórias doces!
Ainda hoje gosto de passear na Baixa de Lisboa, e deixar-me fascinar pelas cores e pelas luzes. A crise não nos pode tirar tudo, não podemos entrar numa depressão coletiva, temos de preservar algum encanto nas nossas vidas.
Segundo ouvi, o dinheiro gasto nas iluminações de Natal é inferior ao dinheiro gasto na última frota de automóveis de um grupo parlamentar. E dá muito mais prazer aos lisboetas!


Para recordar, outros Natais!

sábado, 1 de dezembro de 2012

A Maria e o Pai Natal

Entrou dezembro e começa a sentir-se a aproximação do Natal. Fazem-se contas para que, pelo menos as crianças, continuem a ter algumas prendas debaixo da árvore de Natal. As iluminações lá vão aparecendo, bolas, luzes, presépios, Pais Natais, que trazem alegria e esperança a este inverno.
A filha de uma amiga minha, a Maria (vamos chamar-lhe assim), era uma fã incondicional do Pai Natal. Não ligava muito aos Pais Natais de pacotilha que pululavam pelos centros comerciais. Ela tinha o dela, o único, o verdadeiro, que ía pessoalmente lá a casa levar as prendas, na véspera de Natal.  Às vezes, parecia-lhe reconhecer os olhos bondosos do tio, por trás de umas longas barbas brancas, mas não se deixava influenciar. Chegou a bater-se na escola primária, em defesa do seu ídolo.
- Tu és parva, são os pais que compram as prendas!
- Não, eu sei que é o Pai Natal que as traz!
- Mas como é que ele entra? Tu nem tens lareira!
- O meu Pai Natal é moderno, sobe as escadas e toca a campainha!
Não havia como demovê-la. A Maria tinha respostas prontas e triunfantes a todos os argumentos dos colegas da escola.
A dada altura, os pais começaram a prepará-la para o desaparecimento do "seu" Pai Natal. 
- Olha, Maria, o Pai Natal não consegue ir a todas as casas. No próximo ano, se calhar, vai a outra casa em vez de vir à tua.
A Maria não disse nada, mas manteve-se atenta. Quando chegou a véspera de Natal, as prendas lá apareceram debaixo da árvore. Quem as tinha trazido? A mãe respondeu-lhe:
- Desta vez, o Pai Natal mandou um ajudante.
A Maria correu para a janela, a varrer o céu com os olhos.
- Vai ali! Vai ali!
- Estás a ver o Pai Natal?
- Não, já não vi o Pai Natal, mas ainda vi o trenó das renas!
A nossa imaginação não tem limites. E vemos o que queremos ver!