sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A violência do costume


Mais uma vez, o relatório anual sobre a violência doméstica apresenta os números terríveis desta realidade que continua tão presente e tão escondida. Só neste ano, já foram assassinadas trinta e três mulheres e este número, já de si chocante, não nos pode fazer esquecer todos os outros casos de violência que não chegaram a resultar na morte da vítima, ou que nem sequer foram reportados à polícia. É um problema transversal a todos os grupos sociais e nem é monopólio português, é um problema generalizado, observado e monitorizado em todos os países da União Europeia, como se pode ler aqui
Nada disto é novo, já se discutiu e alertou, eu própria já escrevi sobre esta negra realidade noutros posts. No entanto, todos os anos os resultados do relatório me atingem com o mesmo espanto, dor e incredulidade, como um murro no estômago. A violência doméstica só está presente para quem a sofre ou com ela contacta. De resto, desaparece nos subterrâneos da vida social, por vezes bem camuflada.
Há uns anos atrás, uma aluna minha, com doze anos acabados de fazer, veio ter comigo no final de uma aula. Estavamos a meio do ano letivo. Ela chegou-se a mim e abraçou-me, com força. Ri-me.
- Então, que é isto? Parece que vais fazer alguma viagem!
Ela aproximou a boca do meu ouvido e disse baixinho:
- Vou mesmo!
- Ah sim? E para onde vais?
- Não sei, a minha mãe diz que ninguém pode saber.
Depois de olhar à volta, como a certificar-se de que ninguém a poderia ouvir, continuou a susurrar:
- A minha mãe diz que temos de sair de repente, sem levar nada. Para o meu pai não desconfiar. Para ele não conseguir descobrir-nos, nunca mais.
Não precisei de ouvir mais nada. Abracei-a também. Depois, ela voltou-se e despedimo-nos, sem palavras, que elas às vezes não servem para nada. Só com um sorriso.
Nunca mais a vi.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Mulheres e marionetas

Fui assistir, quase por acaso, a um espectáculo interessante e diferente: "Marioneta meu amor" junta a música  de Amílcar Vasques-Dias a uma demonstração, feita pelo marionetista Manuel Dias, de como os bonecos podem ganhar expressão e quase mostrar sentimentos e emoções. O acompanhamento, ao piano, feito pelo próprio compositor, partiu do recente CD de Amílcar Vasques-Dias "Desnudo", baseado na poesia feminina hispano-árabe dos séculos XIII e XIV. Cada boneca ganha vida nas mãos do marionetista, criando momentos de grande intimidade onde temos um vislumbre de como eram essas mulheres. As poetisas que aqui são recordadas eram mulheres muçulmanas que viviam no Al-Andaluz. Eram cultas, interessantes, faziam poesia, falavam dos seus amigos e amantes. E não eram mortas por isso.

(O compositor, o marionetista, e uma das suas bonecas)

Aqui há dias, a Teté, no seu blogue Quiproquó, lembrava o drama da adolescente que foi atacada pelos talibãs por ter a coragem de reclamar para as raparigas o direito à educação. Lembrei-me dos poemas dessas mulheres que viviam no Al-Andaluz muçulmano, há tantos séculos atrás. Como é possível que a condição feminina tenha sido tão reprimida, tenha retrocedido tanto, como se a história tivesse andado para trás e não para a frente? A culpa não é com certeza da religião muçulmana, mas dos que a interpretam, com talas nos olhos e uma pedra no coração, como acontece com todos os fundamentalismos. 
Como mulher, sofro por todas as mulheres que são obrigadas a esconder o seu corpo e a sua personalidade, por medo, atrás de uma qualquer burka. E temo que, para as mulheres muçulmanas, a chamada Primavera Árabe, que tantas esperanças levantou há um ano atrás, não venha a ser mais do que um outono. Ou mesmo um ocaso.

sábado, 24 de novembro de 2012

Música pela manhã

Clara parou no semáforo e, como fazia todas as manhãs, aproveitou o tempo para ligar o rádio. Hum, Tina Turner, perfeito para injetar energia na manhã fria. Começou a cantarolar, enquanto tamborilava com os dedos no volante. Parou um carro ao lado e Clara olhou automaticamente para a direita. O condutor era um homem bem parecido, de têmporas grisalhas e ar desportivo a emergir de um blusão de cabedal, com um cachecol enrolado ao pescoço. Também parecia murmurar qualquer coisa. Olhou para Clara, no carro ao lado, no momento em que ambos cantavam "What's love got to do with it?" Ouviam a mesma estação de rádio, cantavam a mesma canção. Riram com gosto e Clara ainda sorria quando o semáforo ficou verde e seguiu para o trabalho.
No dia seguinte, à mesma hora, no mesmo semáforo, voltaram a ver-se. Reconheceram-se, acenaram, sorriram. Ao fim de uma semana, Clara já antecipava aquele momento. Havia sempre um sorriso, uma piada, umas palavras a propósito do tempo ou do trânsito. E uns olhares intensos, que deixavam antecipar outras coisas.
No sétimo dia, o carro parou no semáforo, como usualmente. Lá dentro, o mesmo condutor, o mesmo cachecol displicente, as mesmas têmporas grisalhas. Mas nem um olhar para o carro ao lado. Clara espreitou, havia uma companhia feminina, uma mulher de cabelo loiro e óculos escuros a protegerem da luz matinal. O homem olhava fixamente em frente, umas palavras ocasionais para a companheira. Nem um olhar para o carro do lado.
"Estupor!" Desabafou Clara, dirigindo-se a um ponto indeterminado, algures entre o limpa pára-brisas direito e o espelho retrovisor. E, nesse dia, foi mal disposta para o trabalho.
Na manhã seguinte, viu-o chegar, enquanto sintonizava o rádio. Cat Stevens, ótimo para começar o dia. Olhou para o lado, ele sorriu e piscou-lhe o olho. Clara endereçou-lhe o seu sorriso mais cativante, enquanto pestanejava com ar ingénuo. Depois, vagarosamente, ergueu a mão direita, estendendo o dedo do meio. Ainda vislumbrou o sorriso dele a desfazer-se na surpresa, enquanto ela arrancava com o carro, cantando a plenos pulmões: "Oh baby, baby, it's a wild world!"

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Os culpados de qualquer coisa

Andar de autocarro é sempre uma experiência pedagógica e edificante. Aqui há dias, meti-me num autocarro (por acaso, nem era o que eu queria, veja-se o que é o destino!) que foi dar uma grande volta até chegar à paragem onde eu precisava de sair. Percebi logo o engano, mas resignei-me e acomodei-me junto a uma janela.
Umas paragens à frente, entraram duas miudinhas da escolas. Cerca de dez anos, mochilas à costas. Caminhavam para a parte de trás quando, a um solavanco do autocarro, uma delas caiu sobre a perna de um homem idoso que vinha sentado, acompanhado de uma senhora também de bastante idade. O homem começou a barafustar, zurzindo a rapariguinha com todas as ofensas, desde desastrada a desrespeitadora dos mais velhos. A miúda só disse: "Desculpe, desequilibrei-me!" e não respondeu mais. Mas umas raparigas mais velhas tomaram a sua defesa, acusando o velhote de ser insensível. Uma acusou-o mesmo de ser racista e de atacar a miúda por ter aspeto de cigana. O homem ofendeu-se, a senhora que o acompanhava começou a contar a quem a queria ouvir as mazelas do marido e da sua operação à perna. As raparigas contestavam, que ninguém podia saber que aquela perna estava doente ou magoada. O homem continuava a protestar com a falta de educação das miúdas. Nesta altura, a discussão já se tinha generalizado no autocarro, entre os apoiantes do homem e os defensores da miúda. As vozes e as ofensas subiam de tom.
- Se fosse minha filha, você levava uma lambada nas trombas!
- Olha, você a falar de educação e veja lá como fala!
- Ninguém me diz como é que devo falar!
Temi que se envolvessem todos à pancada. Felizmente, alguém mudou a agulha à conversa:
- A culpa é da escola, os professores não lhes dão educação!
Ah pronto! Todos se puseram de acordo. A culpa, seja do que for, não é dos próprios, nem dos pais, tios, avós, nem dos vizinhos do bairro, nem da sociedade em geral. A culpa é dos professores, que não dão educação às crianças!
Estamos todos mais descansados! É tão reconfortante ter um bode expiatório!


Lisboa - O Rossio visto do Elevador de Santa Justa (Fotografia de Teresa Diniz) 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Coisas que eu detesto I - Telemóveis nos transportes públicos

Antigamente, podia-se andar sossegado nos transportes públicos. Podia-se sonhar, ler um livro, até dormitar um bocadinho. Eramos embalados pelo rolar do autocarro, as conversas em surdina dos vizinhos, as brincadeiras dos miúdos da escola, um ou outro incidente na rua, que todos espreitavam com interesse. 
Depois, apareceram os telemóveis!... E começamos a ser bombardeados com as telecomunicações a toda a hora. A qualquer momento, surge uma musiquinha irritante. É o sinal de chamada. Alguém atende e, geralmente falando alto, para sobrepôr a voz ao barulho surdo do autocarro (ou do comboio, ou do metropolitano...), responde à primeira pergunta sacramental: "Onde estás?"  
Depois, seguem-se as conversas que todos seguimos voluntaria ou involuntariamente. Ficamos a saber do almoço dos filhos e dos pormenores da consulta médica. Ouvimos discussões conjugais e coscuvilhices. Percebemos intimidades e desculpas esfarrapadas. Não há como fugir, as confidências entram-nos pelos ouvidos dentro.
Há pouco tempo, ainda consegui subir a um novo patamar de involuntária bisbilhotice, quando um indivíduo surdo encetou uma longa conversa colocando  o telemóvel em alta voz, embora junto ao ouvido! Lamento as dificuldades auditivas, mas dispensava a conversa!
Para os metediços e apreciadores da vida alheia, abriu-se um novo mundo de delícias. Mas eu não gosto de me meter no mundo dos outros, gosto de andar embrenhada no meu! 


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Coisas de que eu gosto I - Sopa

Quando o outono avança, de mansinho, e começam a chegar os dias de frio e de chuvinha miúda, poucas coisas me sabem tão bem como uma sopa! Uma daquelas sopas a sério, que são cozinhadas devagar, e ainda guardam o sabor dos legumes e do azeite. Deve haver poucas comidas tão simples, mas tão nutritivas, saudáveis e reconfortantes como uma sopa! 
Confesso que, nas minhas andanças lá por fora, não encontrei sopas tão boas como as portuguesas. Pelo menos lá para o norte da Europa as sopas são uns caldinhos deslavados, que não se atrevem a competir com um belo caldo verde! Por cá, temos uma variedade fantástica, dos mais delicados consomés a uma sopa de pedra, daquelas que se comem de faca e garfo. Eu gosto particularmente das sopas de legumes, e quanto mais legumes tiverem, mais saborosas são e melhor me sabem. 
Nunca percebi bem a aversão da Mafaldinha dos cartoons pela sopa. De certeza que não gostava por não ser portuguesa!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Da vida e da morte de Saramago

Faria hoje noventa anos. Uma bela idade, uma vida longa que se extinguiu algum tempo antes desta meta. 
O que dizer de José Saramago, que não tenha sido já dito centenas de vezes, por muitos outros, muito melhor do que eu diria? Podia lembrar o meu deslumbramento quando descobri o "Memorial do Convento", há quase trinta anos. Podia escrever sobre a avidez com que, durante anos, agarrei os livros que iam saindo, para me entregar a uma escrita original, densa, sempre surpreendente, embora nem sempre fácil. Podia recordar algumas desilusões com obras que não me pareciam dignas do autor de "O ano da morte de Ricardo Reis" ou da "História do Cerco de Lisboa"; mas também o fascínio do meu filho, quando começou a ler comigo, numa longa viagem de metropolitano, "As intermitências da Morte". Podia discutir as polémicas, as entrevistas, as decisões. Mas não vale a pena. Dele, já se disse tudo e não adianta nada.
O que interessa são as palavras que ficaram. E, porque o Saramago poeta é menos conhecido do que o Saramago prosador, aqui deixo um poema que ele escreveu, talvez - quem sabe? - a pensar em mim.

Palma com palma

Palma com palma,
Coração e coração, e gosto de alma
No mais fundo do corpo revelado.
Já a pele não separa, que as palavras
São todas espelhos rigorosos da verdade 
E todas se articulam deste lado.
Linhas mestras da mão abram caminho
Onde possam caber os passos firmes
Da rainha e do rei desta cidade.

(Provavelmente Alegria, 1985)


José Saramago escreveu um dia:
Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste.

A ele não lhe bastou. Porque quem escreve palavras como estas viverá sempre na nossa memória.


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Dificuldade com as comunicações

Não, creio que não tenho nem nunca tive dificuldades de comunicação. No entanto, no que diz respeito às telecomunicações, devo ter um problema de incompatibilidade qualquer. Talvez tenha a ver com a fibra ótica!
A causa deste desabafo é simples. Mudei de casa e, por estranho que pareça, mais difícil do que mudar os tarecos, trapinhos e caixotes, foi o processo de migração do meu contrato MEO, para a nova morada. Durante mais de quinze dias lutei com a PT para que me fosse instalado o serviço. De início, tudo parecia fácil! Devia ter desconfiado! Por duas vezes me marcaram a instalação, alterei a minha vida profissional para poder estar em casa à hora prevista, e por duas vezes falharam, com as desculpas mais esfarrapadas. Falei com mais de dez técnicos (ou atendedores de call-center, não consegui distinguir), e a única coisa que descobri foi que a PT tem tantos departamentos quanto técnicos (ou atendedores de call-center) e nenhum sabe rigorosamente nada sobre o que disse o outro técnico, que pertence invariavelmente a outro departamento. 
Por fim, lá consegui que o serviço da Meo fosse instalado. Os técnicos não se deram ao trabalho de levar os equipamentos anteriores consigo, ainda tenho de ser eu a levá-los para uma loja da PT. Aparentemente, pertencem a outro departamento!
Fiquei com a sensação que a PT despreza os seus clientes. Nos novos contratos sim, tudo se passa com rapidez e eficácia. Mas, quanto aos contratos mais antigos, o desinteresse parece total. Francamente, senhor Zeinal Bava, com tantos lucros, podiam ter menos departamentos e mais consideração pelos que pagam os vossos serviços!
Enfim, cá estou de novo, cheia de fibra. Pelo menos, ótica!


Para festejar o meu regresso a casa.