quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Divertimento de coveiro

A espécie humana não pára de me surpreender. Umas vezes pelas melhores razões, outras vezes, demasiadas, pelas piores razões. 
Imaginem-se quatro rapazes, uns mais velhos outros mais jovens. Provavelmente, todos com um baixo nível de escolaridade, oriundos de meios desfavorecidos, talvez provenientes de famílias disfuncionais. Talvez até consumam drogas, quase de certeza que bebem uns copos a mais quando calha! Arranjaram um emprego, não é seguramente o emprego dos seus sonhos, mas foi o que apareceu: tornaram-se coveiros num cemitério dos subúrbios. E o que fazem para se distrairem, nas horas vagas, enquanto não há ninguém para enterrar? Praticam tiro ao alvo com as ossadas da vala comum! Parece um filme negro, dos irmãos Cohen, ou semelhante? Filme de terror, série B? Não, aconteceu mesmo, no cemitério de Belas, concelho de Sintra. Foi revelado hoje pelo presidente da Junta de Freguesia de Belas, como se pode ler aqui.


Não faço ideia do que pode levar quatro pessoas a tal atitude. Inventei-lhes um percurso de vida plausível, mas que não pode ser desculpabilizante. Mas podem ter uma história e umas razões completamente diversas. Uma coisa é certa: há valores básicos, relacionados com a decência e o respeito pelo nosso semelhante, que lhes passaram completamente ao lado! E isso é assustador!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Gigões e anantes


Não tenho a intenção de transformar este blogue num espaço de efemérides. Mas Manuel António Pina dizia que a melhor maneira de recordar um poeta era lendo-o. Parece-me bem...
Gigões e anantes. Todos somos, uns dias mais, outros dias menos. Hoje, sente-se um gigão ou um anante?

Gigões são anantes muito grandes.
Anantes são gigões muito pequenos.
Os gigões diferem dos anantes:
uns são um bocado mais, outros um bocado menos.

Era uma vez um gigão tão grande, tão grande,
que não cabia. - Em quê? - O gigão era tão grande
que nem se sabia em que é que ele não cabia!
Mas havia um anante ainda maior que o gigão
e esse então nem se sabia se cabia ou não!
Só havia uma maneira de os distinguir:
era chegar ao pé deles e perguntar.
Mas eram tão grandes que não se podia lá chegar!
E nunca se sabia se estavam a mentir!
Então a Ana, como não podia
resolver o problema, inventou uma solução:
xixanava com eles e o que ficava
xubiante ou ximbipante era o gigão,
e o anante o que fingia que não.

A teoria nunca falhava porque era toda
com palavras que só a Ana sabia.
E como eram palavras de toda a confiança
só queriam dizer o que a Ana queria.
Manuel António Pina in "Gigões & Anantes" (1974)


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Erasmus falido?

Quando eu andava na faculdade, ainda não existia. Para quem ansiava por outros horizontes, as viagens eram caras e difíceis. Depois, há vinte e cinco anos atrás, surgiu o Programa Erasmus, um programa de intercâmbio de estudantes universitários . Para milhares e milhares de jovens, foi a oportunidade de conhecer e estudar noutro país, contactar com uma realidade diferente, tomar o pulso à Europa. Por vezes, foi a oportunidade para encontrar um mercado de trabalho pouco acessível de outro modo. Em qualquer caso, para esses milhares de jovens, foi a maneira de sairem dos seus pequenos mundos, fazerem outros amigos e tornarem-se um pouco mais europeus. O Programa Erasmus parecia uma prova palpável do sonho europeu.

Será que o sonho acabou? Alain Lamassoure, eurodeputado, garante que o Fundo Social Europeu está "falido". Segundo parece, nem os países estão em condições de cumprir a sua parte do acordo (cerca de 30% do valor das bolsas), nem a própria União Europeia tem verbas disponíveis para cobrir esses gastos. 


A crise chega a todo o lado. Talvez seja mais um sonho bonito que se esgotou. Tenho muita pena!...

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

As mulheres, a justiça e o resto...


Foi nomeada uma nova Procuradora Geral para a República, Joana Marques Vidal. Depois de anos de pachorrenta inércia, espero que esta senhora consiga voltar a dar aos portugueses razões para acreditarem na justiça para todos, independentemente da sua riqueza, posição social ou influência política. A Procuradora Joana Marques Vidal tem um currículo promissor. Especializada na área de Direitos da Família e Menores, a procuradora é desde 2010 presidente da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.
Mas, perdoem-me, fico feliz por ser uma mulher a obter, pela primeira vez, esse cargo cimeiro. As mulheres fizeram um largo caminho em Portugal, nos últimos cinquenta anos. Numa geração, as mulheres passaram de quase analfabetas ao maior grupo de licenciados no país. No entanto, as desigualdades de género persistem. As mulheres, em geral, ganham menos do que os homens, e não ocupam cargos de chefia em consonância com o seu peso nas diversas profissões. Da área da investigação aos orgãos de soberania, as mulheres podem estar bem preparadas, mas são secundarizadas quando toca a escolher quem manda. E, no entanto, elas são sensatas, organizadas e eficientes, pelos menos tanto como os homens. E ninguém as considera incompetentes. O que se passa então?
Os estudos apontam para uma explicação mais prosaica. Anália Torres, por exemplo, que desde há muito tempo estuda a sociologia de género em Portugal, declara: "As mulheres foram capazes de ocupar o espaço masculino, mas os homens não fizeram o movimento em sentido contrário. A mulher aparece como menos disponível, por ser a principal cuidadora da família, não por ser menos competente."
Será que o trabalho na esfera pública é inconciliável com o cuidado da família? Parece-me que não. O segredo está na partilha, claro. E na aceitação de que uma reunião não tem de ser marcada para as 20 horas, pode ser realizada a uma hora razoável sem deixar por isso de ser eficaz.
Joana Marques Vidal tem uma tarefa espinhosa à sua frente, especialmente porque os portugueses estão sedentos de justiça. Desejo-lhe o maior sucesso. Até por solidariedade feminina.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A moda da bifana


Aqui há uns tempos, o gastrónomo e viajante americano Anthony Bourdain fez um programa em Lisboa. Até escrevi sobre isso aqui. Durante a sua estadia na capital, provou bifanas. Achou "awesome"! Repetiu e lembeu-se com as nossas bifaninhas. Teria sido por isso? A verdade é que a bifana virou moda, virou mania, virou franschising. 
De repente, começaram a aparecer nos centros comerciais, revestidas de condimentos, mostarda, molho de alho, chutney de manga. Uma casa alentejana lançou a moda, quando lançou o franschising. A McDonald's foi a última a render-se à bifana, mas aí está a McBifana anunciada em todos os cartazes!
Segundo li, em dia de jogo do Benfica, a Casa Original do Centro Comercial Colombo vendeu mais de mil unidades. Podia ser mazinha e dizer que é uma iguaria barata, o que dá sempre jeito. Podia ser cínica e lembrar que, antes de virar moda, a velha bifana vendia provavelmente o mesmo número de unidades nas roulotes que rodeiam os estádios em dias de jogo, acompanhadas de umas sandes de couratos.
Mas não vou escrever nada disso, porque eu própria sou fã incondicional das bifanas. Daquelas vendidas nas tascas à moda antiga, fritas numas grandes frigideiras junto à montra, a fazer crescer a água na boca a quem passa. Sim, daquelas que escorrem o molho para o pão, acompanhadas de uma imperial bem fresca!


É melhor parar por aqui, este post está a dar-me uma vontade enorme de trincar um lombinho de porco grelhado, bem macio! Ou, como quem diz, uma bifana!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

E daqui a 50 anos?

Decorreu em Portugal um encontro de reflexão e um ciclo de debates com um tema fundamental: como será Portugal em 2030? A questão que estava em cima da mesa era a demografia. Qual será previsivelmente a composição da população portuguesa daqui a 20 anos ou a 50 anos? 
Podemos ver aqui as principais conclusões dos estudos agora apresentados. As projeções apresentadas são aterradoras. O nosso índice de fecundidade é baixíssimo. Será apenas uma questão de cultura? Não me parece. Como mãe, sei bem que a nossa sociedade não protege nem ajuda a maternidade. Embora a licença de maternidade tenha sido alargada no tempo, a mãe trabalhadora não tem direito a apoios que lhe permitam conciliar o trabalho e a maternidade de uma forma razoável. E todos sabemos que ter um filho na creche é tão dispendioso (ou mais!) do que ter um filho na Universidade.
Também sabemos que a esperança média de vida aumentou significativamente. E, se isso é uma boa notícia para todos nós, também temos de ter consciência de que representa um aumento exponencial de encargos, isto se quisermos que os nossos idosos mantenham uma qualidade de vida aceitável.
Estes dois fatores juntos configuram um país inviável, a prazo. Pode não ser o défice a ditar o apagamento do nosso país, nem tãopouco a austeridade, mas sim a evolução demográfica. Nenhum país tem viabilidade económica e social com um racio de cerca de 250 idosos por cada 100 jovens. 
O que fazer então? Esperar pelo fim, chorando os privilégios perdidos? Parece-me que isso não é solução. Talvez seja altura de rever profundamente as nossas prioridades políticas. Há duas áreas onde me parece que é possível atuar. Uma poderá ser o desenvolvimento de políticas natalistas e um apoio muito mais abrangente à maternidade, que altere desde a legislação laboral, até à rede de creches. A segunda terá de passar por políticas ativas de imigração, que protejam os imigrantes e os façam sentir desejados e necessários. Porque são mesmo!
Poder-me-ão dizer que não há dinheiro para nada, quanto mais para isso! Mas, tal como afirmei acima, é uma questão de escolha de prioridades, na hora de tomar as decisões. E, em última análise, de sobrevivência!



(e, no entanto, a Europa continua a fechar portas aos imigrantes, em especial os da África subsaariana e do Magrebe...)

domingo, 7 de outubro de 2012

Música e mais música!


(Percussões da Metropolitana - ontem, no Largo de São Carlos)

Com a comemoração do Dia Mundial da Música, Lisboa fechou com chave de ouro um verão cheio de cultura e especialmente de música, muita música. Para quem andou atento e com alguma disponibilidade, não faltaram programas para preencher os fins de tarde e os fins de semana. A música encheu as praças e as esplanadas. Houve concertos de cordas, sopros e percussões. Houve apresentações de coros e de orquestras. Houve ópera, tango, fado. Houve jazz e música africana. Houve clássicos e música alternativa. 
Ouviu-se música no Largo do São Carlos como no Largo do Intendente. Nas ruínas do Carmo como na Tapada das Necessidades. E cobriu as esplanadas e as ruas de sons e de sorrisos.
A Mouraria renasceu, orgulhosa da sua multiculturalidade como das suas raízes identitárias. O fado encheu a rua do Capelão e o Largo da Severa, mas os sons inundaram também o Martim Moniz, pondo toda a gente a dançar.
Lisboa agradece esta explosão de alegria. Dizem que sorrir e dançar são as maneiras mais eficazes de combater a crise e prevenir a depressão...

(Coro Lisboa Cantat - ontem, nas Ruínas do Carmo)

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

50 anos depois

Foi há cinquenta anos. No dia 5 de outubro de 1962, os Beatles lançaram o seu primeiro single, mudando para sempre a história da música e da cultura popular. Lembro-me bem da primeira vez em que ouvi falar deles. Tinha cinco anos e, aqui em Portugal, não se ouvia muita música moderna estrangeira. Vivia-se na época do "nacional-cançonetismo". Mas o meu pai foi a Londres, por razões de saúde, e regressou carregado de objetos, pins, cartazes, daquele grupo inovador. Dizia que em Londres estava tudo maluco com os Beatles, só se falava deles, só se ouviam as suas canções. E trouxe um pequeno disco, daqueles de 45 rotações, com este tema, Love Me Do.
Cresci com as músicas deles, entrelaçadas na minha vida. Cantei muitas vezes Yesterday, ou Hey Jude, ou o Yellow Submarine, sentada em rodas no chão do liceu, à volta de um qualquer colega que trazia uma guitarra. Tive muita pena quando se separaram, lamentei profundamente quando um louco assassinou John Lennon. E ainda hoje acho Let it be (ou outras que aqui poderia invocar!) das mais belas canções do século XX.

Há claramente uma época antes e outra depois dos Beatles. Por isso, devia-lhes esta singela homenagem.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Error - Democracy not found!


"Assim como os monárquicos haviam aberto o caminho à República, os republicanos abriram-no à ditadura. (...) Tudo se conjugava para criar no País um ambiente propício à ideia generalizada de que era preciso qualquer coisa para substituir aquilo."
                           (Maurício de Oliveira Diário de um Jornalista 1926-1930)



Sim, a manifestação do passado sábado, dia 29 de setembro, foi grande. Não vou entrar aqui na polémica dos números e do cálculo de quantas pessoas cabem no Terreiro do Paço, por metro quadrado. Estava lá muita gente. Mas nada que se comparasse com a grande manifestação que varreu o País no dia 15. Creio que a razão para a diferença reside no facto de a manifestação de dia 15 ter nascido da sociedade civil, através da internet e das redes sociais. Foi um grito de alma, uma afirmação dos cidadãos, que sentiram necessidade de dizer que existiam, que não se limitavam a entrar em estatísticas, a pagar impostos, e a adquirir importância de vez em quando, nas campanhas eleitorais. Na época da caça ao voto todos são importantes. Durante o resto do tempo, os partidos esquecem-se de quem os elege. Afundam-se no compadrio, nos esquemas mais ou menos escuros. Nenhum partido da nossa cena política sai bem na fotografia dos últimos trinta anos, em que os interesses do país são atirados para trás das costas sempre que convém, em favor de agendazinhas partidárias ou mesmo passoais.
Eu disse que a manifestação de dia 15 foi um grito de alma, por isso foi supra-partidária, ou mesmo anti-partidária, já que os partidos têm mostrado vezes de mais que não têm alma! 
Aprendemos na ciência política que não há democracia sem partidos. O que sobra quando são os próprios partidos a pôr em causa a democracia? Neste contexto de crise política e social, os nossos partidos políticos, com as suas propostas estafadas, estarão a abrir o caminho a quê?


(Fotografias retiradas do site da TVI)