domingo, 30 de setembro de 2012

A arte e a dona Cecilia

Este ano letivo, tenho uma turma gira, de miúdos interessados e questionadores. No início das aulas, damos sempre uma vista de olhos aos conteúdos curriculares previstos e, ao depararmos com os percursos da arte no século XX - e depois dos comentários habituais, do estilo "Fazem um risco num quadro e dizem que é arte! - um aluno interroga-se: "Mas, afinal, o que é que transforma uma obra numa obra de arte?"  Resolvi pegar na questão, para os pôr a debater e a refletir.
Falámos do autor, do nome, do percurso. Da inovação, da intencionalidade, da harmonia, do questionamento. Até que um aluno se lembra do quadro da catedral de Borja, em Espanha, recuperado pela senhora dona Cecilia Jimenez. Foi gargalhada geral! Quem não se lembra do "Ecce Homo", transformado pelas mãos da dona Cecilia num fenómeno de popularidade, que correu pela internet e pelas redes sociais como um virus?


Uma aluna lembrou-se:
- Eu já vi um quadro de Picasso em que ele alterava um quadro mais antigo. (Devia referir-se às Meninas de Velasquez) Mas, como era de Picasso, ninguém achou mal.
- Ele fez um quadro a gozar, mas não estragou o antigo. (Boa resposta, pensei eu!)
- Alguém se lembra do nome do autor do quadro original?
Silêncio na sala.
- Aposto que, numa galeria de arte, o quadro da dona Cecilia é vendido por mais dinheiro do que um quadro do autor original. (Miúdo esperto!)
- Afinal. o que é que dá valor a uma obra de arte?
Deixei a pergunta a pairar no ar.
Senti vontade de telefonar à dona Cecilia a sossegá-la. Não valia a pena entrar em depressão. Ao fim e ao cabo, a sua restauração tinha atraído milhares de turistas a Borja, o que não é desprezível, nesta época de crise.
Ainda tinha tido o efeito colateral de pôr os meus alunos a pensar sobre o objeto artístico e o mercado da arte. E sobre a valorização que este nosso mundo faz do que é efémero e insignificante.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Casas em Movimento

Podem faltar muitas coisas aos lusitanos, mas aí não se incluem seguramente a criatividade, a imaginação, a capacidade de adaptação. Damos constantemente provas disso, nem que seja a iludir a crise, embora nem sempre a comunicação social dê o eco devido.
Vem isto a propósito de uma casa em movimento projetada por um jovem estudante de arquitetura português, Manuel Vieira Lopes, que está a ter um enorme sucesso, estando agora em exibição num Salão Internacional em Madrid. De resto, é a primeira vez que uma candidatura portuguesa é aceite na prestigiada feira tecnológica solar Decathlon, em Madrid. É uma casa que se pauta pela inovação, o arrojo e a adaptabilidade. Completamente coberta de placas de aproveitamento da energia solar, que a recobrem como uma segunda pele, é uma casa auto suficiente em termos energéticos, com a vantagem de que todos os seus componentes se podem levantar, baixar ou rodar de modo a melhor aproveitar a luz solar. A própria casa, como um todo, pode ser movida para outro local, o que constitui uma enorme vantagem: se precisarmos de emigrar, pelo menos podemos levar a casa connosco!


Esta casa pode ser visitada em Guimarães, no âmbito da Capital Europeia da Cultura, durante o mês de outubro. A não perder, por quem andar pelo norte do país!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Ontem, num semáforo...

Ontem, parei num semáforo numa avenida muito concorrida de Lisboa. Pelo canto do olho, reparei num homem que, no separador central, empunhava um cartão com frases escritas. Confesso que não liguei muito, estamos habituados a ver gente a pedir, com as mais variadas estratégias. Por vezes, até já encolhemos os ombros, percebemos que o dinheiro que se pede é para alimentar o vício. 
Mas houve qualquer coisa que me fez olhar duas vezes. Aquele cartão era diferente, era um murro no estômago. Consegui ler: "Aceito qualquer trabalho. Tenho dois filhos para alimentar". Lembrei-me de cartazes idênticos da época da Grande Depressão, dos anos 30. As imagens de pobreza, desolação, desespero, que associamos a essa crise, vieram-me à memória. Aprendemos que as crises são cíclicas. Mas as pessoas existem aqui e agora. 
O sinal verde acendeu-se e eu afastei-me do homem e do seu cartaz. Na minha memória apareceu outro cartaz da época da Grande Depressão, que reclamava: "Somos cidadãos, não somos apenas transeuntes!" Apeteceu-me voltar atrás, e ficar ao lado do homem com outro cartaz onde poderia ler-se: "Somos cidadãos, não somos apenas contribuintes!" 
Mas continuei o meu caminho.


quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A Greve ao Sexo

Lisistrata é a personagem principal de uma famosa comédia de Aristófanes. Para quem tem a cultura clássica mais esquecida, relembro que Aristófanes foi um autor grego de peças cómicas, que viveu há mais de dois mil e quatrocentos anos. Pois conta ele que Lisistrata, uma mulher ateniense, concebeu um plano para obrigar Atenienses e Lacedemónios a fazerem a paz, num momento em que os exércitos já se encontravam acampados nos campos de batalha. Qual era a arma de Lisistrata? O sexo! As mulheres de Atenas iriam vestir-se de túnicas transparentes e convidativas, provocar os seus maridos mas, no momento final, recusar o sexo até que eles decidissem fazer a paz. 
Lembrei-me de Lisistrata nestes últimos tempos. Na telenovela "Gabriela", Maria Machadão e as suas meninas do Bataclã decidem fazer uma greve de sexo até que os coronéis lhes permitam participar na procissão e oferecer um manto à santa da sua devoção, Santa Maria Madalena. Também no Togo, imagine-se, há um apelo idêntico. Lideradas por Isabelle Ameganvi, as mulheres dos partidos da oposição e de alguns movimentos cívicos, lançaram uma campanha contra o regime que domina o Togo há mais de quarenta anos, apelando a que as suas compatriotas não façam amor com os seus maridos até que haja reformas políticas. 
Se bem me lembro, a iniciativa das meninas do Bataclã teve sucesso. Já quanto à das mulheres do Togo, fico ansiosa por saber o resultado. Não sei quantas delas terão lido Aristófanes. Mas o que eu acho extraordinário é que os anos e os séculos passaram, mas as armas femininas permanecem as mesmas...



segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Postal de Lisboa XXIII - Nas pegadas da Severa

(Fado frente à Igreja de Nossa Senhora da Saúde)

É uma associação nascida e desenvolvida dentro do bairro. Chama-se "Renovar a Mouraria" e tem feito um trabalho muito positivo e meritório em várias áreas, desde o enquadramento dos jovens até à revalorização da multiculturalidade, que é um traço distintivo do bairro. 
Com o apoio do Museu do Fado, decidiram organizar passeios guiados pela Mouraria. Não podia perder e lá fui, num fim de tarde de sábado. E que fim de tarde bem passado! Guiados pelos próprios habitantes do bairro, percorremos as ruelas estreitas, vimos a casa onde viveu a Severa, mas também a da Maria Albertina ou do Fernando Maurício. O fado parece estar entrelaçado nas próprias pedras das ruas que pisamos, com nomes evocados nos fados mais conhecidos, como a Rua do Capelão. Por isso, o fado acompanha-nos. Ouvimos fado frente à Igreja da Saúde, depois mais à frente, no Largo da Severa. Os habitantes acenam das janelas, marcam lugar nos bancos para ouvirem os fados, espreitam de tascas e barbearias que parecem saídas de um filme dos anos 40. Contam pequenas histórias que só eles conhecem, mostram o consultório de medicina chinesa, apresentam-nos a gata Severa (o gato chama-se Marialva, mas não quis aparecer!), guiam-nos o olhar para a fachada manuelina com duas colunas postas, por engano, de capitel para baixo e base para cima! Mas mostram-nos também, com orgulho, as marcas da modernidade que começa a passar por ali, visível, por exemplo, nos pequenos restaurantes que entraram na moda.


(A observar quem passa...)

É uma iniciativa da sociedade civil que é digna de apreço e apoio. 
Acabamos a tarde no Largo do Martim Moniz, a explorar as tasquinhas de sabores do mundo. Há música e animação e uma "flashmob" põe mais de cem pessoas a dançar. 
É um verdadeiro programa anti-crise. Em primeiro lugar, porque nada se paga, a não ser o que quisermos consumir. Depois, porque é impossível não sorrir e sair dali bem disposto. E esse é o melhor remédio para conseguirmos ultrapassar a tempestade que se abateu sobre todos nós.
A não perder, até ao fim do mês de setembro.


(A gata Severa)

(Fotografias de Rita Fernandes)

domingo, 16 de setembro de 2012

A Cidade da Tolerância

No Largo de São Domingos, uma parede inteira afirma que Lisboa é a Cidade da Tolerância.


Há coisas que não deviamos tolerar.


(Fotografias de Teresa Diniz)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O Elefante na sala de estar

Ultimamente, houve duas notícias, quase seguidas, de ataques mortais de cães. Num caso, a vítima foi uma criança, no outro foi uma mulher. Porque gosto muito de cães, tenho-me interrogado sobre estas situações: quem serão os verdadeiros responsáveis? Não serão os donos os potencialmente perigosos?
Encontrei este texto, escrito por um médico veterinário preocupado com o bem-estar animal, que reflete muitas das minhas interrogações. Vale a pena ler e refletir.


O ELEFANTE NA SALA DE ESTAR
É um “perigo” falar do que não se sabe ou pouco se sabe, mas que muito se sente.

Vem isto a propósito de um tema que, pelas piores razões, se tornou assunto do dia-a-dia: o dos cães perigosos e potencialmente perigosos.
Por definição técnica e jurídica cão perigoso é todo o cão que ataca e agride… mesmo que inadvertidamente lhe pise a cauda e ele(a) lhe devolva uma dentada. Não importa se é um pinscher anão ou um rottweiller (aliás cães do mesmo grupo, dos 10 grupos de classificação da Federação Cinológica Internacional).
De acordo com a mesma base técnica e jurídica, cão potencialmente perigoso é todo aquele que tenha corpulência, capacidade muscular para morder e agressividade… mesmo que lhe pise a cauda e ele(a) NÃO lhe devolva uma dentada. Não importa se é de raça ou rafeiro basta que tenha tamanho, potência de mandíbula e comportamento agressivo.
Dos potencialmente perigosos resolveu o legislador “estigmatizar” umas quantas raças; em Portugal são sete.

Seria conveniente que os órgãos de comunicação social usassem esta metodologia evitando confusões e desinformação, como por exemplo a referência a raças perigosas, pois tal não existe.
Esta falta de clareza, além de eticamente deixar a desejar, conduz a distorções graves de que me preocupam, sobretudo, três:

Primeiro a “criminalização” de certas raças, cujos animais não têm qualquer culpa… mesmo! É que não está provado que esta ou aquela raça, por simples desígnio genético, morda ou ataque mais do que outra qualquer, nem mesmo as ditas potencialmente perigosas… embora pareça, porque cada vez que uma “raça maldita” ataca e morde é sempre notícia. Os jornais ainda andam à volta do tema.
As estatísticas em Portugal deixam a desejar, mas nos países em que o tratamento de dados merece mais recursos, a realidade fala por si: na Europa assiste-se a um retrocesso e consequente revogação da legislação incidindo em raças potencialmente perigosas.

Em segundo lugar porque se retira o enfoque de todo o debate daquilo que é verdadeiramente essencial: não existe um programa global de educação, com base em princípios orientadores, dirigido a donos e detentores, criadores, familiares e crianças.
Entre o desejo (legítimo) de ter um cão de companhia, geralmente ditado por factores puramente emocionais, e a capacidade para cuidar, educar e treinar esse cão, existe um enorme fosso que só desaparecerá depois de uma grande mudança na mentalidade dos lusitanos.

Por último, a distorção causada pela comunicação social está na origem do fenómeno d’”o elefante na sala de estar”.
Sendo uma generalização, certas raças de cães, geralmente do tipo pit bull são detidas irresponsavelmente, como símbolos de masculinidade e de virilidade, em certos casos por cadastrados por agressão, consumo de álcool, posse de estupefacientes e violência doméstica.
É esse o “elefante na sala de estar” que não se quer ver! Ao invés criminalizamos, na lei e nos jornais, raças de cães, escamoteando duas coisas muito importantes: apesar de tudo a relação entre os “piores” donos e cães “malditos”, favorece o companheirismo, previne o stress e é geradora de alguma empatia; e que, donos “potencialmente perigosos” que não possam deter esses cães, sempre poderão usar um outro qualquer, mesmo que não seja de raça, mas igualmente agressivo e susceptível de alimentar o mesmo ego macho e viril (mesmo que o detentor seja uma mulher!).

(Cachorro Rottweiler - imagem da net)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Uma praça...



Quando o Carlos, do blogue Crónicas on the Rocks, desafiou os seus leitores para apresentarem uma praça de que gostassem, para os outros leitores tentarem identificar, vieram-me tantas à cabeça que não consegui escolher. Gosto de praças, são as salas de visita dos lugares. Umas são magestosas, ou mesmo majestáticas, outras são pequenas e acolhedoras, mas dizem sempre coisas sobre a alma do lugar.
Pensei numas quantas, em primeiro plano as praças de Lisboa. A principal, o Terreiro do Paço, já o Carlos tinha destacado no anúncio do desafio. Há outras, claro, lindíssimas: o Rossio, o Largo do Carmo, o Largo do Chafariz de Dentro, o Largo de Camões, e tantas outras. Como escolher?
E, assim de repente, lembrei-me desta praça, em Roma. A Piazza della Rotonda, também chamada Praça do Panteão. Há outras maiores, mais conhecidas, mais carismáticas, tanto em Roma como em milhentos outros locais do mundo. Mas esta concentra tudo o que me agrada. 


Desde logo, as camadas de História e de histórias. Num espaço tão pequeno, o velho templo do Panteão romano convive harmoniosamente com as casas medievais que circundam o largo e com o obelisco barroco que marca o seu centro. Depois, o ambiente. Seja verão, seja inverno, há sempre gente nas esplanadas, há sempre música, e os tons ocres das paredes convidam-nos a sentar e ficar... É assim que deve ser uma sala de visitas...

sábado, 8 de setembro de 2012

Caldeirada

Chama-se "efeito day after". Ontem, os anúncios de que, a uma hora conveniente, isto é, imediatamente antes do futebol, iriam ser anunciadas mais medidas de austeridade, ainda foram mais stressantes do que as próprias medidas! Ainda bem que andei distraída durante o dia inteiro, (a trabalhar, pois claro!) senão, tinha andado com os nervos em franja, à espera... Como diria o outro, "Que mais irá me acontecer?" Já me tiraram uma fatia do ordenado, já me retiraram os subsídios, diminuiram os dia de férias, anularam uns feriados... O que faltava? Tudo aumentou, desde a gasolina aos passes dos miúdos. Bem, dizem-me que ainda tenho sorte porque tenho um trabalho!...
Ok! Recuso-me a ver só o lado mau das coisas. Por isso, vou comer uma bela caldeirada! Feita em casa, claro, para ser mais económico!


quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Anorexias e obesidades



Nos últimos anos, dá-se cada vez mais importância às questões ligadas à nutrição e, provavelmente por causa disso, as palavras e expressões desse domínio extravasaram para outras áreas. Agora que se aproxima o início das aulas, lembrei-me de duas: a anorexia intelectual e a obesidade mental. Em que consistem?
A anorexia intelectual é um processo de que todos somos espectadores, passivos, pacientes, às vezes impacientes mas impotentes... Encontramo-la em alguns alunos. Tal como uma jovem anorética tem a comida à sua disposição, mas recusa-se a ingeri-la, chegando a um ponto em que já não é capaz de o fazer, assim o jovem anorético intelectual tem a informação e a cultura ao seu dispôr, mas não a absorve. Não quer, não se interessa, não se concentra o tempo suficiente, as razões são múltiplas. Ao fim de algum tempo, desabitua-se de ler, de pensar, de consumir qualquer produto cultural um pouco mais complexo. Tornou-se um anorético intelectual. 
Outros há que consomem muita informação, mas não a sabem selecionar. Então, consomem tudo o que aparece, dos "Morangos com Açúcar" à "Casa dos Segredos". Conhecem o nome dos "famosos" (abomino esta coisa dos famosos!), mas não conhecem os clássicos da literatura portuguesa. A não ser pelos resumos escolares. Se precisam de uma informação, vão à net, mas não distinguem um artigo credível de uma entrada no facebook. Isto é, consomem muita informação, mas é principalmente a fast-food da cultura, com muita gordura, um sabor apetecível, mas poucos nutrientes de qualidade. Sofrem de obesidade mental!
Perguntam-me: qual é a validade científica destas classificações? Nenhuma, claro! 
Podem perguntar-me também: e qual é o remédio? Alimentação forçada? Dieta rigorosa? Não faço ideia! Creio que ainda não há uma posologia genericamente aceite para estes distúrbios intelectuais!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Uma questão de espinhos


Foi o mocho Julião quem o encontrou, na berma da estrada que conduzia ao portão da quinta. Era uma bolinha de pelos duros e acastanhados. Deu-lhe um empurrão com a cabeça e viu-lhe os olhinhos assustados e as pequenas orelhas. A bolinha de pelos era afinal um jovem ouriço cacheiro, de patas chamuscadas pelo incêndio que devastara, durante dois dias inteiros, as serranias vizinhas.
Julião não descansou enquanto não o levou até à quinta. Lá dentro, com a solidariedade de alguns amigos, foi alimentando o pequeno ouriço, trazendo-lhe aranhas e escaravelhos, lesmas e minhocas. Afeiçoou-se-lhe de tal modo que até pensou em dar-lhe o seu nome. Mas Julião assentava tão bem ao pequeno ouriço como um casaco três números acima, e acabou por lhe dar o nome de Júlio.
As patas de Júlio foram cicatrizando e começou a ser mais autónomo. Afastava-se durante a noite, à procura dos seus pitéus preferidos, mas pela manhã voltava para junto de Julião, que se considerava o seu guardião ou uma espécie de irmão mais velho, com penas em vez de espinhos.
Sim, porque os pelos de Júlio tornavam-se cada vez mais duros e aguçados e isso não lhe grangeava muitos amigos. Quando os cachorros e outros jovens da quinta se juntavam para os seus jogos de fim da tarde, Júlio tentava participar mas havia sempre uma altura em que um dos seus espinhos se espetava num nariz mais sensível e lá vinham as acusações: “Estúpido! Não sabes recolher os espinhos?” Não sabia, não! E enrolava-se a um canto, feito numa bola de espinhos, para não ter de aturar recriminações.
Fez-se taciturno. Tinha pena de não ter amigos, e reagia com amargura, afastando-se cada vez mais. Assim se passou um ano inteiro.
Na primavera seguinte, Júlio acordou da hibernação com uma sensação de tristeza e falta de esperança. Mais um ano de solidão! Mais valia voltar a hibernar outra vez! Julião, que lhe velava o sono de inverno, sacudiu-o: “Júlio, acorda de vez! Cada ano é um recomeço, cada dia é uma nova oportunidade! Não sabes o que o dia de hoje te pode trazer!”
Júlio saiu a passear pela quinta, devagar, pouco convencido. Perto da ribeira, no entanto, teve uma visão maravilhosa: um ser igual a ele, de uma bela cor amarelada e olhos doces. Parou, sem conseguir respirar. Seria real? Não teve coragem para descobrir. Deu meia volta e correu o mais depressa que as suas pequenas patas lhe permitiram. Julião viu-lhe o ar espavorido. O que se teria passado? Então Júlio desabafou. Tinha visto uma ouriça meiga e atraente, mas não tinha coragem de tentar a aproximação. Ele magoava todos os que se aproximavam dele com os seus espinhos. E também não queria magoar-se com os espinhos alheios. Não havia solução para o seu problema. Ia viver e acabar sozinho!
Julião cobriu-o com a sua grande asa. “Às vezes, pico-me nos teus espinhos, sabes? Mas tu não me queres magoar, eu sei, e por isso eu perdoo-te. Nem te digo nada!” Júlio olhava-o com os seus olhinhos pequenos e assustados, muito atento. Nunca tinha dado por magoar o seu amigo Julião. “Todos temos espinhos, ou garras, ou dentes. Todos nos podemos magoar uns aos outros. Devemos evitá-lo, mas devemos estar preparados para, de vez em quando, levar uma picadela inadvertida.”
Durante um dia e uma noite, Júlio andou de um lado para o outro, sem conseguir comer nem descansar, a matutar na conversa do Julião. Depois, tomou uma decisão. Encaminhou-se para a ribeira e espreitou. Lá estava ela. Avançou, ainda um pouco amedrontado mas decidido. Ambos tinham espinhos, tinham de aprender a viver com os espinhos um do outro.


(Este post integra-se na proposta da Fábrica de Letras para o mês de Setembro, com o tema Recomeços)