sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Um continente de lixo

Não sei porque é que, esta semana, me deu para escrever sobre lixo. Mas, lá que há coincidências, há! Tinha eu colocado aqui o poema do post anterior, quando li uma notícia arrepiante. E parece que já não é novidade, eu é que andava distraída! 
Vamos aos factos. Todos sabemos que se produzem diariamente toneladas de lixo, muito dele dificilmente degradável. Uma grande quantidade desse lixo vai parar ao mar e, devido às correntes marítimas, junta-se numa espécie de continente feito de lixo, principalmente plásticos, algures entre a Califórnia e o Japão. Esta ilha gigantesca vai alterando a sua localização e as suas dimensões, mas calcula-se que ocupe entre 1,7 e 3,4 milhões de quilómetros quadrados, o que significa uma área 18 a 37 vezes maior do que Portugal. 
Que continente intrigante! Será que é habitado? Será que as gaivotas e as tainhas o adotaram como lar? Qual será a sua cor dominante? Com sorte, pode vir a ser considerado uma instalação artística? Agora a sério, enquanto a nossa Curiosity nos vai mostrando outros planetas, é bom que nos lembremos que, para já, só temos um mundo. Convém que cuidemos dele!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Lixo (sem dívidas, nem dúvidas)

Há muito tempo já que não colocava aqui um poema. E hoje, não sei se por causa das negociações da Troika, ou se por influência deste solinho envergonhado de fim de verão, lembrei-me destas palavras de Rui Pedro Gonçalves.


Eu não sabia
Mas o sol acaba de nascer
Com as cotações da bolsa de Lisboa.
.
Abriu em queda.
É menos luminoso este dia do meu Verão.
.
Este sol de gravata
E jantar no Gambrinus
Faz-me arrepios
Causa-me depressões cársicas
E faz com que fuja
E encontre noite
Depois das bolsas fechadas
(pelo menos da minha).
.
Acho que qualquer lugar de engate é mais decente
Que este sol fingido
De juros
Onde os raios chegam a prestações.
.
Onde quer que esteja a vida.
Quem diz gostar de poesia.
Quem finge viver e cruza os dentes na gravata do seu cinismo.
.
Que viva este sol
E que possa brilhar
Nos dias que restam
Até que sejamos considerados,
Simplesmente,
.
Lixo (sem dívidas, nem dúvidas).


segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Os músicos de rua

Não tenho por hábito dar dinheiro aos cidadãos de qualquer nacionalidade que me solicitam, pela rua, sejam deficientes ou vendedores do Borda d'Água. Mas abro uma gostosa exceção para os músicos de rua.
No verão proliferam pelas nossas ruas e praças, aproveitando o afluxo de turistas. São muitos, alguns de qualidade duvidosa. Gosto de os observar. Alguns ficam tão absorvidos pela música que tocam, que nem reparam nas pessoas que passam. Outros são verdadeiros "entertainers", que intercalam a música com piadas e interagem com o público.
No inverno são menos, talvez a qualidade geral seja mais uniforme. Mas todos, desde o virtuoso do violino até ao batedor de congas, passando por todos os géneros de guitarristas, dão algo de indefinível e inigualável à cidade. Dão-lhe ambiente.
Alguém já se deparou com um solo plangente de saxofone, ao dobrar uma esquina, num fim de tarde húmido de inverno? Então, sabe do que eu falo.
Por isso, dou-lhes sempre uma moeda. Não é um pagamento, e ainda menos uma esmola. É antes um agradecimento.


(Fotografia de Teresa Diniz)

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Broadway Baby


Os musicais americanos povoaram desde sempre o nosso imaginário coletivo, tanto ou mais do que as valsas de Strauss. Todos nos habituámos a ouvir canções e melodias, em relação às quais já não identificamos a origem, ou o compositor, mas que reconhecemos imediatamente. Integram aquilo que se chama o American Popular Songbook, e pertence-nos um pouco a todos.
Por tudo isso, foi uma excelente ideia aproveitar a celebração dos 30 anos de carreira de dois homens muito ligados aos musicais portugueses, os irmãos Henrique e Nuno Feist, para trazer ao palco lisboeta do Cine-Teatro Mário Viegas a História do Musical Americano. Num ritmo quase alucinante, Henrique Feist percorre essa história, sempre acompanhado pelo piano do seu irmão,  falando-nos do espaço da Broadway, dos seus primeiros grandes compositores, da forma como o musical americano evoluiu até às grandes produções da atualidade. Ao mesmo tempo, vai desfiando canções e pedaços de melodias de Irving Berlin, Cole Porter, Jerome Kern, George Gershwin, entre outros. 
Um excelente espectáculo, de que gostei muito. Uma boa sugestão para o fim de semana, agora que as noites começam a ficar mais frescas.
Para abrir o apetite, deixo aqui a extraordinária interpretação de Ella Fitzgerald de "Summertime", do musical "Porgy and Bess". Bom fim de semana.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A família do lado

Sentei-me na esplanada, estiquei as pernas e, como sempre, olhei em volta. Quase simultaneamente, uma família sentava-se na mesa do lado. Alguma coisa me chamou a atenção e continuei a observá-los, pelo canto do olho. O pai era alto e forte, mas tinha um ar mortiço. Sentava-se muito direito, o olher perdido no infinito, as mãos abandonadas no colo. A mãe, pelo contrário, tinha energia para dar e vender. Agiatava-se permanentemente, falava alto, ajeitava a cadeira do marido, punha-lhe o braço por cima do ombro enquanto lhe beijava a bochecha. E ele, de olhar mortiço preso ao horizonte...
Traziam um miúdo de uns nove ou dez anos, que os tratava por pai e mãe. De óculos e franzino, parecia não pertencer ao conjunto.
Encomendaram umas "tapas" e, quando chegou a comida, a mãe atacou os pratinhos com uma voracidade que condizia com o seu corpo volumoso. Tomou posse do garfo, comendo apressadamente. De vez em qaundo, metia uma garfada na boca do marido, que não esboçava um gesto. O rapazinho comia uma sanduiche, com ar distraído.
Dei por mim a embirrar com o grupo embora, ao mesmo tempo, me fascinassem. Por qualquer razão, não conseguia desviar os olhos da família da mesa do lado. Irritava-me particularmente o facto de a mulher dar a comida na boca ao homem. Será que ele não tinha mãos? Uma caneca de cerveja veio tirar-me as dúvidas. O homem colocou a mão na asa da caneca e não mais a retirou, levando-a de vez em quando à boca. Bem, claramente o homem tinha mãozinhas e funcionavam! Comecei a ruminar comentários sobre a subserviência com que algumas mulheres se comportavam face aos homens. Daí às observações sexistas foi um passo!
Entretanto, todos acabaram de comer. O miúdo desafiou o pai para jogar à sardinha. Ele riu-se e virou-se na direção do filho, que era também a minha, tateando desajeitadamente o braço do miúdo.
Foi então que a verdade me atingiu, com a força da evidência: o homem era cego! Daí a passividade, alguma dependência da mulher, os gestos titubeantes...
Paguei a conta e levantei-me, envergonhada comigo própria. É tão fácil julgar pelas aparências!...


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A Caixa de Dormir

Dizia-me uma amiga, a propósito do post sobre o programa "Portugueses pelo Mundo", que gostava tanto de viajar que lhe apetecia saltar de aeroporto em aeroporto. Ora bem, eu não gosto muito de aeroportos, como já expliquei aqui. Acho que a principal razão é o imenso tédio que se apodera de mim durante as escalas de voo, aqueles tempos intermináveis em que esperamos por um qualquer voo de ligação para qualquer lado e, seja qual for o local do mundo em que calhemos estar, olhamos à volta e vemos as mesmas lojas, das mesmas cadeias internacionais, que já vimos noutro lado qualquer que não recordamos! Tempos de espera, em que só nos apetecia estar em casa, a ler, a ver televisão, a consultar a internet, enfim, a fazer as coisas que fazemos todos os dias.
Pois bem, para tornar mais confortável esse tempo de espera, apareceram as "sleepbox", que eu traduzi livremente por "caixas de dormir". Não são mais do que isso, caixas com o tamanho suficiente para uma cama, uma pequena secretária, um espaço de arrumação, uma casa de banho, um chuveiro. Alugam-se por uma ou várias horas, e garantem o descanso, a privacidade, o isolamento. São limpas, quase diria asséticas! Fazem-me lembrar os casulos em que as abelhas depositam o mel ou os japoneses dormem. Têm vantagens, sim senhor! E, no entanto...

Porque é que olho para isto e só me lembro, com saudade, do tempo em que pousava a cabeça na mochila e dormia em qualquer estação de caminhos de ferro?

sábado, 18 de agosto de 2012

Postal de Lisboa XXII - O renovado Largo do Intendente

(Loja da Fábrica Viúva Lamego, no Largo do Intendente)

Podia chamar-se António, Manuel ou Raimundo. Mas tinha de ser assim, simples, popular e bem português, o nome daquele homem que encontrei na esplanada "Das Joanas", no renovado Largo do Intendente. Tinha aquela idade indefinida de quem já se esqueceu há quanto tempo está reformado. Um ar simples e limpo, uma pronúncia de alfacinha de gema, nascido e criado nos bairros populares da cidade. Um discurso fluido, pontuado pelos apelos: "Ó Anabela, traz aí mais uma!", referindo-se à imperial que não lhe saía da mão. E um grande orgulho no seu bairro renovado.
Estávamos a comentar a recente passagem do Gabinete do Presidente da Câmara para o Largo, como um sinal da renovação e requalificação do espaço, quando o sr. Manuel (vamos chamar-lhe assim...) nos interpelou:
- Ele trabalha ali, entra-se por aquele portão ali em frente. Às vezes, vem aqui tomar um café, em mangas de camisa, é muito descontraído! Desculpem interromper-vos, mas não pude deixar de ouvir a conversa!
Assegurámos-lhe que não havia problema, até agradecíamos a informação. E o sr. Manuel continuou, embalado:
- Foi uma obra extraordinária, a que aqui fizeram! Isto estava tudo ao abandono, os prédios degradados, cheios de grafitis... Agora está tudo limpo e arranjado, como vêem. Dá gosto vir aqui à esplanada. Dantes, tinha de ficar em casa, a ver a televisão. Até tinha medo de sair à rua! E os concertos? Durante o mês de julho houve concertos no Largo. Esteve cá o Camané, o Pedro Jóia, os Xutos e Pontapés. Haviam de ver, havia gente até à Almirante Reis! Fizeram uma ópera, a "Bohème" de Puccini, mas adaptada aqui à Mouraria. Foi feita com pessoas daqui, vestidas como nós, a falarem à moda da Mouraria... foi extraordinário!

(O Largo de cara lavada)

Nós íamos interrompendo o sr. Manuel, mas só o suficiente para o incentivar a continuar.
- Anabela, mais uma! chamava o sr. Manuel, agitando o copo de cerveja. Isto agora está sempre cheio de gente a passear, especialmente turistas. Há uma rota das tasquinhas e restaurantes, com comidas portuguesas, indianas, cabo-verdianas e eu sei lá mais o quê! Sabores do mundo inteiro! Nalgumas tascas, há fado vadio. E é gente daí que trabalha nos restaurantes, e faz as visitas guiadas. Gente que andava por aí aos caídos, desempregados...
- E a vizinhança? Não incomoda? Não resisti a perguntar, olhando de soslaio para a rua de cima, onde ainda pontuam as prostitutas, os chulos, os toxicodependentes e outros desqualificados da sociedade.
- Não! esclareceu o sr. Manuel. Nem vêm para este lado, parece que se envergonham. E, mesmo ali, a Polícia obriga-os a fechar os bares mais cedo, já não há tanta confusão! Agora, pode-se andar à vontade no Intendente e na Mouraria!
Deixámos o sr. Manuel, com as suas tardes na esplanada d'As Joanas, e o seu olhar cheio de orgulho pelo seu bairro da cara lavada.
E saímos dali com vontade de regressar. 
Parece que há jazz no Largo, em setembro!...

(O símbolo da Rota das Tascas da Mouraria)

Fotografias de Teresa Diniz

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Há Portugueses pelo Mundo

Não sou muito ligada à televisão. Gosto de saber as notícias do dia, embora geralmente sejam pouco agradáveis. Vejo uma ou outra série dos canais de cabo, apesar de começarem a parecer-me todas idênticas. Não tenho paciência para as telenovelas, acho a maioria dos concursos imbecis (ou talvez seja apenas a ignorância das pessoas que me confrange) e abomino os programas das manhãs.
De vez em quando, felizmente, há uma exceção. É o caso do programa "Portugueses pelo Mundo" que vejo sempre que posso. Como se sabe, há portugueses espalhados pelos quatro cantos do mundo, e a RTP foi à procura deles. São estudantes e professores, biólogos e engenheiros, jornalistas e artistas plásticos, treinadores de futebol e empresários turísticos, e tantas outras coisas. Através deles, temos uma visão dos países onde habitam e dos meios em que se movem. Cada programa passa-se num país diferente e vamos do Perú a Israel, da Dinamarca ao Japão... Não são programas exaustivos, com longas entrevistas. São leves e informais, com um ritmo agradável, onde se fornecem muitas informações interessantes sobre o dia a dia da vida nesses países, mas sempre de uma forma descontraída e atrativa.
Parabéns  à Direção de Programas da RTP1. Às vezes, ainda nos brinda com coisas originais.
Deixo aqui um exemplo: Portugueses em Pequim!


sábado, 11 de agosto de 2012

Uma viagem de autocarro


Começo por declarar que não gosto nada de viajar de camioneta. Não tem a comodidade do automóvel, nem a rapidez do avião, nem a beleza cénica do navio, nem o romantismo do comboio... Mas, às vezes, tem de ser!
Um dia destes, tive de fazer a viagem de Viseu para Lisboa de camioneta. Sem problemas, os autocarros da Rede Expressos são cómodos e modernos. Mas nós somos portugueses, os problemas arranjamo-los nós! E começaram logo em Viseu. Havia pessoas sentadas nos lugares que estavam destinados aos que entravam em Viseu.  No meu, estava um homem com umas canadianas que me disse, de má catadura, que dali não saía. Encolhi os ombros e perguntei ao motorista se podia sentar-me noutro lado. Ele respondeu que sim, até Coimbra não havia problemas. O que me fez temer o pior na paragem de Coimbra!
Em Coimbra, tivemos todos de descer e mudar de camioneta. As pessoas precipitaram-se para a porta, procurando ocupar os mesmos lugares no novo autocarro. Algumas pessoas iniciavam a viagem em Coimbra e não participavam da precipitação. Eu também não, gosto mais de observar!
Duas senhoras, de meia-idade muito cuidada, transportavam três malas, encantadas com a ajuda de um rapazinho, surgido sabe-se lá de onde. O rapazinho era um exemplo de educação e disponibilidade: "Eu puxo a mala! Quer que lhe ponha a mala lá em baixo?" E elas tão contentes! "Ainda há meninos bem educados!"
Lá dentro, a confusão estava instalada. Aparentemente, no Satão tinham vendido os bilhetes sem marcação de lugar e agora achavam que não tinham de ceder os lugares que tinham ocupado. Mas os viajantes entravam de bilhetes na mão, a exigirem os lugares que eram seus por direito. Uma senhora dizia que tinha as pernas pequeninas e não podia ir nos lugares vagos, lá atrás, com as pernas penduradas! Os do Satão lideravam a rebelião! Recusavam-se a levantar e a mudar de lugar. Nem que viesse a polícia!
Os de Coimbra exigiam os seus lugares. A senhora das pernas pequeninas reclamou a intervenção do motorista que veio impor a ordem. Os lugares marcados eram para cumprir e ponto final! Mas os do Satão eram aguerridos e não arredavam pé! O motorista bradava que, se não estavam satisfeitos, fizessem uma queixa para a empresa. E, se não chegassem a um acordo, punha toda a gente fora do autocarro, para entrarem por ordem!
Finalmente, todos se acomodaram. A senhora das pernas pequeninas conseguiu o seu lugar, outros ocuparam os assentos livres sem mais confusão. O meu vizinho do lado ainda tentou filosofar comigo, acerca da necessidade ou não de marcar lugares nos transportes públicos. Mas eram 11 horas da manhã, ele cheirava a vinho, e não lhe dei conversa.
Lá fora, as duas senhoras de aspeto requintado conseguiram por fim ver-se livres do rapazinho educado e da mãe, uma cigana que, também educadamente, lhes exigia dinheiro pela ajuda do filho.
Lá seguimos viagem, com as pessoas ainda a comentarem as peripécias de Coimbra. Os farnéis começavam a aparecer e a disposição a melhorar.
Entretanto, o motorista ligou o ar condicionado, para arrefecer os ânimos e baixar o metabolismo da malta, e a maioria dos viajantes dormitou até Lisboa. Eu não precisava de baixar o metabolismo, pelo contrário, tiritava de frio enquanto tentava ler o meu livrinho. Felizmente, por alturas de Torres Novas, uma das senhoras de Coimbra lá conseguiu sensibilizar o motorista que, por birra, desligou o ar condicionado.
Cheguei a Lisboa constipada, aliviada, e divertida. Em Portugal, uma viagem nunca é monótona. Mesmo uma simples viagem de autocarro!...

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A Carris e os idosos

A Carris publicou os números do seu desempenho, no primeiro semestre deste ano. Não sou economista, não sei avaliar a maioria dos dados, embora tenha ou possa ter um olhar crítico sobre eles. Mas há um número que me chama a atenção: segundo os dados fornecidos, houve uma diminuição de cerca de 40 000 passes sociais da 3.ª Idade vendidos no mesmo período. Que se passou?
Não nos estamos a referir a pessoas que ficaram desempregadas, ou que emigraram. Nesta faixa etária, as pessoas utilizam o passe social para ir ao médico ou ao Centro de Saúde, para ir ver os netos ou dar uma mãozinha a um filho, para ir ao jardim apanhar um pouco de sol, para ir visitar uma amiga que está doente, ou que apenas precisa de um pouco de companhia. Para ir ao supermercado, porque já custa a subir a rua com as compras. Para ir buscar as radiografias, ou os sapatos que ficaram a mudar as capas no sapateiro, ou as fotos do último Natal, que mandaram imprimir porque não as sabiam guardar no computador. Para viver, enfim. Porque ter qualidade de vida, nos idosos, inclui ter a possibilidade de se deslocarem com alguma autonomia e gosto pela vida.
Volto a perguntar: o que se passou, então? Houve assim tanta gente a decidir que não valia a pena ter liberdade de circulação na cidade de Lisboa? Não me parece! O que se passou foi que o Passe Navegante da Terceira Idade, da Carris, perdeu a redução de preço e muitos houve, com certeza, que deixaram de o poder adquirir, confinando-se ao isolamento de que os programas televisivos fazem um eco descontinuado.
Não é fácil ser idoso. Cada vez o é menos. Tem de haver um olhar diferente e sensível sobre estas situações.
Dá-me vontade de perguntar se entre estes cidadãos e o Estado não se poderia estabelecer uma espécie de parceria público-privada de um novo tipo. Todos ficaríamos a ganhar. Seriam certamente mais proveitosas do que as outras!



Fotografia © Paulo Spranger/Global Imagens

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Postal de Lisboa XXI - Com Fernando Pessoa na Brasileira

É interessante passar um bocado da tarde na esplanada d'"A Brasileira" do Chiado, a observar o que se passa à nossa volta. Há sempre muitos turistas. Uns passam, sem parar. Outros, mais avisados, puxam do livrinho que, numa qualquer língua, lhes dá informações sobre o local. Também há mendigos, músicos e malabaristas. Mas, aqui, a grande vedeta é Fernando Pessoa. Sentado numa mesa da esplanada, mantém-se impávido, indiferente à agitação à sua volta. Mas ninguém é indiferente à sua figura. Há sempre alguém a tirar uma fotografia ao lado da estátua. O que lhes diria Pessoa, o poeta das mil personalidades, se pudesse sair do seu mutismo de bronze? Gostaria deste protagonismo? Talvez sim, tudo vale a pena, se a alma não é pequena.



As fotografias sucedem-se. Um rapaz senta-se ao seu lado e passa-lhe o braço à volta dos ombros, como se fossem velhos amigos. Um miúdo senta-se com ar intimidado, a olhar de soslaio para aquela figura estranha. Os pais sorriem por ele, e tiram a fotografia, para mais tarde recordar! Muitos sentam-se e sorriem, contrastando com o ar sério e pensativo do poeta. Um grupo de jovens junta-se à sua volta, numa pose de estudantes universitários após uma noitada. Uma rapariga, muito jovem, senta-se e prepara a pose, enquanto o companheiro prepara a máquina fotográfica. Afasta o cabelo, de olhar indeciso, opta por lhe dar a mão. Uma miúda já espera, impaciente, para lhe pendurar um peluche no braço. As estátuas são assim, aguentam tudo, pessoas, chuva, sol, pombos...
Uma menina aproxima-se e sobe-lhe para o colo. Chama-me a atenção porque os pais parecem não ligar, continuam a andar, não se apressam a tirar uma fotografia. Ela faz-lhe uma festa no bigode e depois afasta-se com um aceno, como se se despedisse do avô. Come chocolates pequena, come chocolates!

domingo, 5 de agosto de 2012

Uma praia a oeste


E porque verão rima com praia, lá fui este fim de semana até uma das belas praias da região do Oeste. Não vou desvendar aqui o nome da praia. Será que alguém a reconhece, pelas imagens?


As praias do Oeste não têm a água quente do Algarve, mas têm outros atrativos. Vou dar algumas dicas sobre esta, em particular. Fica perto de Peniche, e é um extenso areal, bem servido de todas as comodidades de apoio turístico. O enquadramento paisagístico é belíssimo, mas as arribas que lhe dão beleza também constituem um perigo. 


Há dois anos, uma parte da arriba caiu; por sorte, foi de noite, e ninguém foi apanhado pelas enormes pedras que rolaram pela encosta abaixo. Hoje, lá estão os sinais, muito claros mesmo para alguém que não saiba ler. E, no entanto, continua a haver banhistas que colocam as toalhas e demais tralhas bem juntinho das pedras, como se pode ver nas fotografias! Ignorância ou inconsciência?


(Fotografias de Teresa Diniz - Praia da Areia Branca)

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A arte feliz


(Éguas de Manada - Dordio Gomes)

Poucos acontecimentos houve, tão traumáticos para a civilização europeia, como a 1.ª Guerra Mundial. Pela primeira vez, as pessoas confrontavam-se com uma guerra total, em que os homens eram enviados para a carnificina com a impecável e fria organização logística da era industrial.
Já sabemos que a arte reflete e reage à vida. A Estética da Art Déco, que se desenvolve nessa época, é precisamente uma estética de harmonia e felicidade que se integra no movimento modernista e vai evoluindo até à estética classizante dos anos 30 e 40, que tendemos a associar aos regimes autoritários europeus. Em boa hora o Museu do Chiado decidiu organizar uma exposição sobre o Art Déco Português. Não apenas a pintura, mas também o desenho publicitário, a escultura, a cerâmica. Esta exposição mostra mais de cem trabalhos de autores que vão de Almada Negreiros a Abel Manta, de Dordio Gomes a Eduardo Viana, de Canto da Maya a Leopoldo de Almeida. Mais do que uma exposição, é um belo e fascinante percurso pela arte portuguesa da primeira metade do século XX.

(Adão e Eva - Canto da Maya)

Estranhamente, só por lá encontrei estrangeiros. Será que os portugueses não se interessam muito pela sua cultura ou andam distraídos? Eu acho que é a segunda hipótese!
Em qualquer caso, é uma boa sugestão para uma tarde de verão. Depois, pode-se descansar um pouco no Jardim das Estátuas, ainda dentro do próprio museu. É agradável tomar uma bebida na esplanada, na companhia do Desterrado, de Soares dos Reis. Mas, se for mais atraente mergulhar no bulício citadino, nada melhor do que ir ali à "Brasileira", bem pertinho, no Chiado. Não há melhor exemplo de Art Déco, em plena baixa lisboeta.

(O Desterrado - Soares dos Reis)

(Todas as fotografias foram tiradas por Teresa Diniz no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado)