sábado, 28 de abril de 2012

Manhã de chuva

Chove. Troveja. Uma manhã de sábado triste e cinzenta. A rua está deserta de gente, coberta por cortinas de água. Depois de um inverno seco, chegou uma primavera invernosa. Sinto-me cinzenta como o tempo. 
Sim, eu sei que a chuva faz muita falta, nos campos, nas barragens. Os criadores de gado e agricultores têm razões para estarem satisfeitos. Os animais precisam de pastagens. E, se não chover, haverá mais um pretexto para nos aumentarem o preço da eletricidade. Mas, o que hei-de fazer? Eu trabalho a baterias solares e não gosto de dias de chuva.
Aqui fica "This One's from the Heart", uma belíssima interpretação de Tom Waits e Crystal Gayle, que condiz com a minha disposição e o tempo lá fora. Faz parte da banda sonora do filme com o mesmo nome, realizado por Francis Ford Coppola em 1982. Um filme intimista, que pode ser uma boa sugestão para uma tarde de chuva.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Sapos e outras superstições


Eu sei que sou distraída, mas admito que só este ano me comecei a interrogar sobre a quantidade de sapos que se encontram à entrada dos mais variados estabelecimentos comerciais, desde pastelarias a supermercados, passando por lojas de moda. Já alguém reparou nisto? São sapos grandes ou pequenos, realistas ou caricaturados, de loiça, de papel, de metal, a variedade é tão grande como a imaginação humana. Confesso que de início só me interroguei sobre o bom gosto (ou a falta dele!) que presidia a certas escolhas decorativas. Mas achei que, para ser uma solução decorativa, se repetia vezes demais! Também podia ser uma mensagem relacionada com a crise, do estilo: “Agora vamos ter de engolir uns sapos!” Podia ter a ver com príncipes encantados, beijos e casamentos felizes para sempre!... Bem, acabei por perguntar a amigos e, afinal, a resposta era simples: era para afastar os ciganos!
Uma simples pesquisa na internet permitiu-me perceber que os ciganos associam os sapos ao mal, ao infortúnio, trazendo o azar às famílias. Por isso, procuram evitá-los ou passar por eles, mesmo que sejam simplesmente sapos de barro ou de porcelana. E assim, os comerciantes aproveitam a superstição para afugentar os ciganos, colocando os sapos à porta das lojas, bem visíveis. É uma espécie de mensagem subliminar, mas muito clara para o público-alvo: “Aqui não são bem vindos!”
Esta questão dos sapos e dos ciganos intriga-me e incomoda-me, como todas as formas de xenofobia. No entanto, acredito que a única forma de ser vencida é com a evolução do próprio povo cigano, mostrando que é capaz de ultrapassar superstições e preconceitos irracionais. Nós também já não acreditamos que partir um espelho ou passar por um gato preto nos traz sete anos de azar, pois não?


terça-feira, 24 de abril de 2012

O menino que gostava de ler


Era um menino que gostava de ler. Tinha aprendido, juntamente com os outros meninos da fazenda, na pequena escola que ficava no topo da colina. Mas, enquanto os outros se encantavam com os pássaros e os toiros, ele fascinava-se com as letras. Lia tudo o que encontrava, os cartazes da beira da estrada, os farrapos de notícias que chegavam a esvoaçar em pedaços perdidos de jornais, os rótulos das latas que se deitavam fora, as bulas dos remédios para os cavalos. Punha a cozinheira maluca, sempre a ler os escritos das embalagens. Só lhe faltavam os livros...
Até que um dia tudo mudou. Houve um grande incêndio na fazenda. Foi o pânico, todos corriam de um lado para o outro, acartando água, batendo no chão com pequenos ramos para evitar reacendimentos, ou apenas gritando e atrapalhando todos os que tentavam salvar a aldeia e os campos de cultivo à volta. Ninguém ligava importância ao garoto, que fugiu pelos campos para o sítio que lhe pareceu mais seguro: a Casa Grande.
Em situações normais, aparecia logo alguém a enxotá-lo, “Sai daí, miúdo!”. Mas esta não era uma situação normal, toda a gente andava entretida com o fogo. O menino subiu as escadas a correr, sabe-se lá porquê, talvez porque lhe parecesse que mais perto do céu estava mais protegido! Deu com uma grande porta de madeira pesada, empurrou-a e sentiu-se mesmo no céu: era uma sala enorme, cheia de prateleiras até ao tecto e em cada prateleira acotovelavam-se livros de todos os tamanhos e feitios.
O garoto esqueceu-se de tudo, do fogo, do medo… Puxou um livro para si, depois outro.
Quando o dono da Casa Grande entrou na biblioteca, encontrou o menino sentado no chão, com um atlas aberto no chão à sua frente. Com o dedito, apontava sítios, seguia rios, soletrava nomes estranhos e aprendia que o mundo era muito maior do que ele pensava.
Em circunstâncias normais, o dono da Casa Grande ter-se-ia zangado com o garoto. Mas já expliquei aqui que, naquele dia, não havia normalidade em nenhumas circunstâncias.
Talvez fosse o dedito no grande atlas. Talvez fosse o olhar de descobertas e assombros do miúdo. A verdade é que o dono da Casa Grande se sentou ali no chão a falar com ele, perguntou-lhe o nome e os sonhos e convidou-o a vir à biblioteca sempre que ele quisesse. E ele foi.
Quando cresceu, tornou-se professor, das primeiras letras, pois claro!... Mas voltava sempre que podia àquela grande biblioteca, onde os livros cheiravam à sua infância.



(Este texto foi publicado quando o blogue era apenas recém-nascido. Republico-o agora, com algumas pequenas alterações, a propósito do Dia Mundial do Livro e dos assombros da leitura)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dia dos Livros

 A educação é a arma mais poderosa que se pode usar para mudar o mundo.
(Nelson Mandela)

No dia 23 de abril de 1564,  nasceu William Shakespeare. A 23 de Abril de 1616, faleceram Shakespeare e Cervantes. E, sabe-se lá porquê, outros escritores escolheram esta data para nascer ou para morrer, como Garcilaso de Vega, Maurice Druon ou Vladimir Nabokov. Por isso, a UNESCO escolheu esta data para Dia Mundial do Livro. É um bom pretexto para homenagear os que escrevem e motivar os que lêem.
Toda a minha vida vivi rodeada de livros, amigos ou refúgios de todas as horas. Moldaram muito do que penso e sou. Aproveitando a data, deixo uma sugestão: oferecer um livro! Há-os para todos os gostos e de todos os preços. E depois, aproveitar aquela hora sossegada, do deitar, ou do descanso após o almoço, e ler com as crianças. É na infância que se cria o gosto pelas letras. É a época dos sonhos, e os livros ajudam-nos a sonhar. Mas também nos ajudam a compreender o mundo e a estruturar o pensamento e a expressão. Ler é sempre enriquecer um pouco. Partilhar a leitura é enriquecer ainda mais.


(Cartaz elaborado no Egipto para comemorar o Dia Mundial do Livro Infantil, em 2009)

domingo, 22 de abril de 2012

O ano em cartoons

Para quem tiver vontade de rever o ano de 2011 com um sorriso (o que nem sempre é fácil!), aconselho uma visita à Exposição do World Press Cartoon, que está aberta ao público, desde ontem, no Museu de Arte Moderna de Sintra.
Este ano, a organização do World Press Cartoon recebeu 861 cartoons e 402 candidaturas de 56 países. Dessas, foram seleccionados 343 desenhos de 260 autores, incluindo todos os premiados, para a exposição anual agora inaugurada em Sintra, e que ficará patente até 30 de Julho.
Nas várias salas do rés-do-chão e do primeiro andar, podemos apreciar desenhos nas categorias de cartoon editorial, desenho de humor e caricatura. O humor sarcástico, por vezes negro, acompanha os temas que marcaram o ano de 2011: o desastre japonês, a crise europeia, a luta contra a pobreza, as eternas guerras, a primavera árabe. 
O artista norueguês Egil Nyhus ganhou um dos prémios máximos da caricatura com o desenho que reproduzo abaixo. 


(Caricatura do antigo diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, que andou nas bocas do mundo, pelas piores razões, durante o ano de 2011. E que surge nos desenhos humorísticos desta exposição, às vezes de forma bem brejeira!)

sábado, 21 de abril de 2012

Burros ricos e burros pobres

Parece que decorreu já no mês passado, mas foi só há poucos dias que tive oportunidade de ler algumas partes da comunicação que Michael Marmot, professor catedrático em Epidemiologia e Saúde Pública e director do Instituto Internacional para a Sociedade e Saúde na University College de Londres, trouxe a Lisboa, onde falou para profissionais da área da saúde no Instituto Ricardo Jorge. Confesso que, não sendo a minha área, nem sempre me despertam atenção as questões de saúde pública. Mas o que este professor nos veio dizer,  vai muito para lá da saúde, acaba por ser um estudo sociológico muito interessante. 
Não é novidade para ninguém que uma mulher queniana tenha quase metade da esperança média de vida de uma mulher sueca ou japonesa. O que já é surpreendente é que se possam constatar diferenças significativas nos mesmos bairros ou nos mesmos grupos socio-profissionais, dependendo de alterações  no grau de escolaridade ou no grau de satisfação profissional. Hoje, ao fim de anos de recolhas de dados quantificáveis, é possível tirar conclusões inesperadas.
Por exemplo, em Washington D.C. entre o mais rico dos seus habitantes e o mais pobre distam 18 anos de diferença em esperança média de vida. Marmot estudou também o grupo dos funcionários públicos ingleses e encontrou maiores taxas de mortalidade entre os funcionários públicos do final da escala comparados com os do topo. Até na Suécia há um estudo que mostra que há diferenças entre um detentor de um doutoramento e o de um mestrado, o doutorado tem maior esperança de vida. 
Um dos casos que achei mais interessante foi um estudo britânico de 2003 que avaliou o desenvolvimento cognitivo de quatro tipos de crianças. A criança com baixo desenvolvimento cognitivo de uma família rica recupera esse atraso, já aquela que tinha tido o mesmo baixo ponto de partida  numa família pobre mantém-se ao mesmo nível. Nos meninos a quem foi identificado alto nível cognitivo, o da família pobre desce de desempenho intelectual à medida que avança na idade, o que cresceu num lar rico mantém o seu desempenho alto. O professor resume da seguinte forma este estudo: "Se se for pobre e burro fica-se burro, se se for burro e rico recupera-se. É a prova de que os genes não definem o destino e que a envolvência social é determinante e que o social potencia o biológico".
Se é suposto o sistema escolar ter como base a igualdade de oportunidades, este estudo deve fazer-nos refletir sobre os paradigmas educativos que têm sido seguidos e que, pelos vistos, não têm conseguido garantir esse objetivo básico.


Pode ler-se mais sobre esta conferência Michael Marmot aqui.
Os simpáticos burros da imagem vivem em Sintra e ajudam crianças com deficiências.

domingo, 15 de abril de 2012

Desencantos felizes


Ah, o amor que move as nossas ações e dá sentido aos nossos dias!
(O texto seguinte integra-se no desafio "Amor aos Pedaços" lançado pelo blogue Luz de Luma, com o tema "Desencanto".)


O primeiro sintoma manifestou-se no segundo ano do casamento. Era sábado e Júlia tinha perdido mais tempo do que o costume a preparar o jantar. Tinha-se esmerado. Não sabia bem porquê, não era para agradar ao marido, que estava na sala, a ver televisão, filmes atrás de séries, atrás de documentários… Estava amuado com qualquer coisa, mas Júlia já não se lembrava bem porquê, tinha-se tornado demasiado frequente. Lembrava-se, por isso, que não se tinha esmerado para agradar ao marido, também não havia visitas, nem nenhum acontecimento especial. Tinha-se esmerado porque lhe tinha dado prazer misturar ingredientes, inventar, mexer o tacho vagarosamente, perder-se nos aromas e nos sabores.
Finalmente, a mesa estava posta e a travessa na mesa. Chamou o marido. Recebeu uma resposta resmungada, vinda da sala: “Não me apetece jantar! Depois como qualquer coisa!” Em circunstâncias normais, Júlia ter-se-ia sentado a chorar, olhando para a travessa entre soluços e sentimentos de auto piedade. Mas a visão da travessa era demasiado tentadora: as massas misturavam-se com os cogumelos e os nacos de carne, os pedacinhos de cenoura e o tomate, num autêntico arco-íris culinário. Então, Júlia sentou-se e degustou cada garfada com um autêntico deleite.
O encanto dos tempos de namoro tinha-se desmoronado no meio da rotina do casamento. E Júlia ia-se apercebendo disso, sem saber como recuperar o romance. Sentia-se perdida, infeliz, desiludida.
O segundo sinal surgiu algum tempo depois desse jantar de sábado. O serão arrastava-se e Júlia revolvia-se sozinha na cama. Começou por se sentir triste, mas acabou por se levantar e fazer umas deliciosas bolachas de chocolate, que comeu com gelado.
Quando os filhos nasceram, os sintomas agravaram-se. Cada cena de gritaria era sublimada em bolachinhas de limão, ou biscoitos de canela. Uma desatenção podia gerar uma bôla de queijo e fiambre. Uma embirração, ou um amuo, podia dar origem a uma tarte de alho francês. Cada frustração transformava-se em queques de framboesa ou tarteletes de morangos.
E assim o desencantamento de Júlia se transformou na felicidade da família inteira.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O valor das coisas

Estamos numa época em que os valores económicos dominam o mundo e as relações entre as pessoas. É a economia que define o nosso modo de vida, os nossos projetos e expectativas. No entanto (ou talvez por isso mesmo!) é urgente parar para pensar no que é verdadeiramente importante. É urgente valorizar as relações humanas, entre pais e filhos, entre amigos, até entre colegas de trabalho. Nós não somos máquinas, somos pessoas e, apesar de tudo, não há nada que substitua um sorriso. Num momento em que a economia parece esmagar-nos, é urgente parar para decidir que valores queremos transmitir aos nossos filhos. Para eles apreciarem as coisas pelo seu valor e não pelo seu preço.
As frases seguintes foram criadas para uma campanha publicitária de um Banco, em S. Paulo. Não podiam ser mais oportunas.


"Crie filhos em vez de herdeiros."
"Dinheiro só chama dinheiro, não chama para um cineminha, nem para tomar um sorvete."
"Não deixe que o trabalho sobre sua mesa tampe a vista da janela."
"Não é justo fazer declarações anuais ao Fisco e nenhuma para quem você ama."
"Para cada almoço de negócios, faça um jantar à luz de velas."
"Por que as semanas demoram tanto e os anos passam tão rapidinho?"
"Quantas reuniões foram mesmo esta semana? Reúna os amigos."
"Trabalhe, trabalhe, trabalhe. Mas não se esqueça, vírgulas significam pausas..."
"Você pode dar uma festa sem dinheiro. Mas não sem amigos."
"Não eduque seu filho para ser rico, eduque-o para ser feliz. Assim, ele saberá o valor das coisas e não o seu preço."
"...e quem sabe assim você seja promovido a melhor ( amigo / pai / mãe / filho / filha / namorada / namorado / marido / esposa / irmão / irmã.. etc.) do mundo!" 



Para acompanhar, um video já bem velhinho, mas que também pode ser oportuno. 

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Um ano depois...

Faz hoje um ano que a Troika entrou em Portugal. 
E, no entanto, as árvores da minha rua voltaram a florir.


Tirei esta fotografia há um ano atrás. Entretanto, a nossa vida coletiva sofreu um verdadeiro tsunami, e o nosso estilo de vida mudou, provavelmente de forma irreversível. Mas as árvores continuam a florir e hoje reparei que estão como há um ano atrás. A vida continua sempre o seu caminho.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Wilt



Haverá melhor maneira de fintar a crise do que rindo? Talvez por essa razão apeteceu-me ler um livro leve e bem disposto e, em boa hora, um amigo recomendou-me este “Wilt”, de Tom Sharpe, um homem multifacetado que, entre outras coisas, foi professor de História. Hoje, Sharpe vive alternadamente entre Cambridge e a Catalunha. É autor de vários livros, a maioria num registo cómico.
Quem é então Wilt? Henry Wilt é professor no Instituto de Letras e Tecnologias de Fenland. Há anos que tenta enfiar Literatura na cabeça de aprendizes de estucadores, canalizadores, talhantes, instaladores de gás. Em casa, a coisas também não vão bem com Eva, a sua maciça e dominadora mulher. As fantasias de Wilt em relação a Eva tornam-se cada vez mais assassinas e, após uma experiência dolorosa e humilhante numa festa, Wilt lança-se na preparação da vingança. Eva desaparece e as suspeitas da polícia recaem sobre Wilt, que é preso e interrogado durante dias. É nessa altura que a experiência de Wilt no ensino dos aprendizes se torna preciosa. Anos a fio a responder continuamente a perguntas, geralmente repetitivas e imbecis, a ignorar ofensas e atitudes provocatórias, a iludir insinuações, a orientar conversas vazias de sentido, deram-lhe um treino imbatível para suportar os interrogatórios da polícia. Na verdade, é Wilt quem põe a polícia quase louca com a sua conversa fiada e a sua resistência. Quando, finalmente, a sua inocência é provada, Wilt sai da polícia com a sua auto-estima mais alta do que no final de um dia de aulas.
Há cenas verdadeiramente hilariantes, como a da exumação da boneca insuflável no campus da escola.
Confesso que, além de me rir, senti alguma empatia com Mr. Wilt. Quem já deu aulas a turmas CEF e nunca sentiu ataques de desespero que me atire a primeira pedra!

sábado, 7 de abril de 2012

Jesus Christ Superstar

Na época da Páscoa, era tradicional a televisão passar filmes que revisitavam a vida de Jesus. Geralmente, centravam-se nos seus últimos anos, na pregação, na prisão e calvário, até ao momento final da crucificação. Nada de chocante, afinal éramos um país maioritariamente católico, onde a tradição pascal tinha raízes fortíssimas. Em muitas cidades e aldeias, ainda hoje essas tradições são seguidas e cumpridas. Continuamos a encontrar as procissões, o Enterro do Senhor, a Via Sacra. Outras actividades religiosas ocupam toda a Quaresma, até à explosão festiva do Domingo de Páscoa.
As televisões, no entanto, espelham hoje a diversidade cultural e religiosa que caracteriza Portugal. A programação pouco tem a ver com a época litúrgica. E dei por mim a recordar o filme sobre a vida de Jesus que mais me marcou: o Jesus Christ Superstar. Este filme de 1973, baseado na obra de Tim Rice e   Andrew Lloyd Webber, foi uma explosão de criatividade musical, mas também de liberdade no modo de representação da realidade religiosa, que foi importante na minha geração. Vi este filme três vezes, a seguir ao 25 de Abril. Ainda sei as músicas de cor. Ainda me emociono com algumas cenas e sorrio com outras. Quem não se lembra?

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Slowdown!

Às vezes, há comentários que merecem transformar-se num post! É o que acontece com este comentário à questão do Slow Blog, que acaba por transformar-se numa verdadeira apologia do Vagar! 
Então, boa Páscoa! Com muita calma!
(A Música é para acompanhar a leitura do texto!)


"A ideia é porreira mas pouco original... ainda que não aplicada à cena de “blogar” ou “postar” (termos aliás pouco simpáticos para com a nossa lusa linguagem)...

Refiro-me por exemplo aos slows do tempo dos liceus... o que eu gostava mesmo era dos slows, era capaz de dançar os 7 min e 45 seg do “Us and Them” sem tirar os pés do chão, nem sair de um círculo de 50 cm... qual shake qual quê! slows era que era bom...
Mas há mais, sobretudo o conceito slowdown (não, não me refiro ao bar em Omaha no coração dos States)... mas ao conceito bastante importante nos dias de hoje... tipo...
- Esta blogueira (passo a expressão) está a irritar-me, vou-me aos comentários que a deixo toda negra...
Slowdown, pá... tem calma onde é que vais com essa pressa toda?... cuidado qu’ainda te metes em trabalhos... não vês que te pode atiçar os cães?
... ‘tás a ver?...
Quem explica bem a cena é o “International Institute of Not Doing Much”... cuja filosofia venho perseguindo desde há anos sem ter grande consciência do facto, e nem sei se me hei-de orgulhar disso ou não... “...We shall defend our state of calm, whatever the cost may be...”
Para perceber o conceito basta pensar na performance da lusa Economia... um verdadeiro slowdown a fazer as invejas da Luz de Luma...
Mas nada de confundir com greves de braços de caídos ou de zelo... o verdadeiro “slowdownista” não se dá ao trabalho de activamente reduzir a actividade, isso é na essência uma traição ao próprio conceito... há que adoptar a postura de forma realmente lasciva e tranquila, senão não vale...
A questão central pode residir no facto de, com tanta oferta não cheguemos a atingir nada... afinal ”Do Less. Get More Done”... atenção que não estou a implicar com ninguém que consiga fazer 300 coisas ao mesmo tempo... mas apenas a enaltecer o “The power of Less”...
Estou aliás a pensar lançar o conceito de slow sex, que tenho a certeza vai ter muitos adeptos... prática que não deve ser confundida com as propostas de Nicole Daedone...
Agora a sério... para escrever este comentário demorei três dias... enfim fiz outras coisas... pelo menos umas 9 refeições...
Beijinhos e abraços... devagarinho! "

                                                                                   ( Miguel Fernandes )

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A Felicidade Interna Bruta

Há algum tempo, o jovem rei do Butão (um pequeno reino situado nos Himalaias, que metade das pessoas não saberia localizar no mapa) teve uma ideia revolucionária: substituiu o Produto Interno Bruto, conhecido por PIB, pela Felicidade Interna Bruta, a FIB, como medida do desenvolvimento do país. Em inglês, para quem queira pesquisar, chama-se Gross National Happiness (GNH). A FIB resultava de um conjunto de indicadores, que iam da educação à saúde, passando pelo respeito pelo ambiente, pela promoção dos valores culturais, pelo equilíbrio no uso do tempo. 
Parecia uma ideia desfasada, quase folclórica, neste mundo dominado pelos conceitos económicos. Mas a ideia do rei do Butão lá fez o seu caminho. Hoje, ela é discutida na ONU, no âmbito de um debate sobre a Felicidade e o Desenvolvimento. As conclusões do debate levado a cabo pelos mais de 600 delegados presentes, serão levadas ao próximo Fórum sobre Desenvolvimento Sustentável. 
Desde o século XVII que nos ensinaram que a riqueza de um país estava no metal precioso que conseguia acumular. Depois, nos bens e na riqueza que conseguia produzir. Será que, finalmente, é desta que as pessoas entram na equação? Será que é agora que se descobre que o maior indicador de riqueza e desenvolvimento de um país está no bem-estar da sua população?
Houve uma época, não muito longínqua, em que nos convidavam a seguir os exemplos da Finlândia. Pois eu prefiro seguir o exemplo do Butão!

O video seguinte apresenta, de uma forma muito simples, o conceito da FIB. Vale a pena ver.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Colecionador


Lá no bairro, todos o conheciam por Januário das Caras. Desde miúdo que lhe sabiam do gosto por colecionar caras de pessoas. Começou pelos retratos da família, que pedinchava a todos, e pelas sobras dos retratos da máquina de Photomaton, que estava instalada na Papelaria do Sr. Luis. Achavam-lhe graça, comentavam as imagens que ele juntava num pequeno álbum, de folhas negras: “Olha, é a tia Micas, ainda antes de casar!” ou “Esta não é aquela senhora que vive ali na rua de baixo?” E piscavam-lhe o olho, cúmplices.
Com a idade, o gosto foi-se acentuando. Fotografava toda a gente, família e amigos, vizinhos e gente que passava na rua. Considerava-se um colecionador de rostos e nada lhe dava mais prazer do que sentar-se na mesa da sala, a folhear os seus inúmeros álbuns, a observar as caras, as mudanças na expressão, a imaginar as histórias por trás de cada ruga, de cada olhar angustiado, de cada sorriso malicioso. Às vezes, punha-se a mudar a forma de catalogação dos seus rostos, só para ter o prazer de lhes mexer. Podia catalogá-los por género ou por idade, pêlos na cara ou caras rapadas, data da fotografia, ou qualquer outra forma.
O seu gosto começou a tornar-se uma obsessão. Quando lhe negavam o prazer de uma foto, ficava a pensar na forma de a obter, imaginando pequenas transgressões que lhe permitissem aceder ao objeto dos seus desejos. Foi assim que Januário decidiu subir a uma árvore situada junto ao gradeamento da escola, para obter fotos dos rostos dos alunos no recreio. O guarda da escola viu-o, obrigou-o a descer da árvore e levou-o ao gabinete do Diretor, que lhe deu um raspanete como se ele tivesse sete anos.
Mas a obsessão agudizava-se. Uma noite, resolveu trepar pelas varandas de um prédio, para captar as expressões dos rostos nas situações familiares. Fotografou mães a darem a última papa aos filhos; homens a tomarem banho, no regresso do trabalho; casais a fazerem amor; gente concentrada a escrever, outros a verem televisão, outros a dormirem de boca aberta. Correu bem, Januário veio para casa satisfeito. Mas na sua segunda incursão noturna, foi apanhado. E foi parar à prisão.
A juíza ouviu dezenas de testemunhas, desde a professora da instrução primária até aos vizinhos do prédio. Ouviu também o Januário, numa audiência privada. E libertou-o, com uma advertência. Houve quem dissesse que tinham chegado a um acordo, porque a juíza era um dos rostos apanhados por Januário numa casa que não era a sua, com um marido que também não era o seu. Mas a maioria das pessoas defendia que a juíza tinha libertado o homem porque acreditava na inocência dele.
Quando o Januário descia, feliz, as escadas do tribunal, ainda conseguiu fotografar os dois guardas que o escoltavam. Ambos lhe sorriam. E essas fotos foram arquivadas no álbum das raridades.


(Texto criado para o desafio de Abril da Fábrica de Letras
com o tema Rostos)